segunda-feira, julho 05, 2004

Os Direitos do Leitor

Comentários à proposta de Daniel Pennac

Autor de um dos mais belos livros infanto-juvenis contemporâneos, "O Olho do Lobo", o francês Daniel Pennac é também professor, e no exercício dessa profissão enfrenta uma tarefa bem difícil: a de despertar nos jovens a curiosidade e o prazer da leitura. Seu livro "Como um Romance" fala dessa experiência sob vários aspectos, de forma pouco ortodoxa para os estudiosos da área, mas deliciosa para quem gosta de ler e o faz apaixonadamente.

O livro é uma delícia do início ao fim, mas, de todo o seu conteúdo, o que acaba ficando na memória é, principalmente, a lista com os dez "Direitos Inalienáveis" que Pennac reivindica para o leitor. Muitos de vocês devem conhecê-los, pois são citados com freqüência, e às vezes veiculados em material de propaganda de editoras ou eventos ligados ao livro. No entanto, nunca é demais voltar a falar neles, principalmente quando se tem algo a dizer sobre cada um... algo que, sem dúvida, irá refletir a minha própria experiência, tanto profissional quanto pessoal.

Então, vamos aos direitos:



1. O DIREITO DE NÃO LER

Sim! E por que não? À parte a constatação de que a educação é necessária - e dela faz parte a alfabetização funcional, o saber decifrar a leitura e compreender o que se leu, aplicando-o quando e onde for preciso - o gosto pela leitura é algo pessoal, que pode ser estimulado, mas jamais deve ser forçado. Quantos de nós não conhecemos pessoas que preferem caminhar, ir ao cinema, praticar esportes, etc. etc., a ler o que quer que seja? E quantas dessas pessoas não são interessantes mesmo assim? É claro que os casos extremos de "aversão a livros" - eu conheço alguns - podem esconder qualidades pouco desejáveis, que vão da preguiça mental à intolerância quanto a novas idéias. Mas uma pessoa que simplesmente não inclui a leitura entre suas formas de lazer preferido... qual o problema disso?

Na verdade, o tipo do qual realmente se deve fugir é o sectário, aquele que insiste em um único livro, um único tipo de leitura, como se essa não fosse uma experiência múltipla e multiplicável. Ou então o brutamontes completo, o que despreza os livros e os leitores, quase sempre por temer o que pode advir deles. O melhor exemplo que me ocorre é o Gaston, da versão da Disney para "A Bela e a Fera". Para este, as mulheres não devem ler, porque "começam a ter idéias". Parece um exagero, eu sei, mas não duvido que haja muitos Gastons por aí, advogando esses princípios. Não para as mulheres, talvez, mas para os jovens, os pobres, o povo... Enfim, todos aqueles para quem o acesso ao livro poderia representar uma forma de transformação.

Isso porque - vale a pena ressaltar - nem Pennac nem eu estamos nos referindo a pessoas que não deixam de ler por opção, mas sim por não ter a oportunidade de um contato mais íntimo com o livro e a leitura. Aqui no Brasil - e suponho que também na França, mas principalmente em países com menores taxas de escolaridade - existem milhões de pessoas inteligentes e capazes que jamais tiveram um livro nas mãos. Tenho certeza de que a maior parte desses adoraria ler, se esse prazer algum dia estivesse ao seu alcance.

Enfim, devemos reconhecer o direito de não ler, mas só depois que o direito de ler houver sido assegurado a todos. Acho que já perceberam onde quero chegar.



2. O DIREITO DE SALTAR PÁGINAS

Esse é um direito que todo mundo exerce ou exerceu, principalmente os que, como eu, não são muito favoráveis a obras adaptadas ou recontadas. Como bem diz o próprio Pennac, que saltou três quartos de "Guerra e Paz" e toda a parte da pesca da baleia de "Moby Dick": é preferível que nós mesmos decidamos que partes do livro queremos excluir, caso contrário outros se darão o direito de fazê-lo por nós. Assim, podemos obter do livro aquilo que nos interessa no momento, e o resto ficará guardado para, quem sabe, uma releitura depois de alguns anos. Se isso não acontecer... bem, de qualquer forma, não teremos perdido tempo com aqueles trechos aborrecidíssimos, quase sempre descritivos, que não fazem a menor falta para o desenvolvimento da trama.

Quanto a mim, costumo pular páginas que contêm, basicamente, uma destas três coisas:

a) Longuíssimas ponderações filosóficas sobre o que quer que seja: o amor, a morte, o remorso de alguém, as conjecturas que Fulano faz sobre Sicrana, e por aí vai. Quando dispersas no meio da narrativa, essas reflexões podem ser muito interessantes, mas algumas se arrastam durante páginas... e aí, minha tendência é correr os olhos ao longo delas, procurando alguma coisa que seja relevante para a trama, e só parando quando encontro. Foi assim que consegui chegar ao final de vários livros, como "José e Seus Irmãos", sem desistir por causa dos trechos mais cansativos.

b) Longuíssimas descrições de batalha. Estas costumam aparecer em fantasy e em romances históricos, e a maior parte do público de ambos os gêneros gosta muito. Já eu só tento perceber quem ganhou, quem escapou e quem morreu, e retomo a narrativa no momento em que os sobreviventes estão fugindo espavoridos pela floresta (foi como li os três livros de Bernard Cornwell sobre o Rei Artur). Se precisar, mais tarde volto atrás, para buscar alguma informação perdida. Sempre dá certo.

c) Longuíssimas demonstrações dos autores de romances históricos de que fizeram uma criteriosa pesquisa sobre a época, a civilização ou o personagem de que estão tratando. Em "O Último Deus do Nilo", por exemplo, eles ficam páginas e mais páginas explicando como fazer uma múmia...! Ora, se eu quisesse saber isso, leria "O Mundo das Múmias", que por sinal está na fila de espera aqui na minha estante, ou procuraria na Internet, ou veria o Discovery Channel. Talvez até gostasse de ler um artigo do autor (ou do seu auxiliar de pesquisa) no final da edição, como Linda Sue Park fez sobre a cerâmica coreana em "A Single Shard"... mas não, não e não no meio da narrativa! Esse pessoal da ficção histórica e pré-histórica tem que saber contextualizar sua trama, situando o leitor naquele espaço e tempo através de informações rápidas! Senão, a história perde o ritmo!

Pronto... Já dei os meus recados...E também espero ter deixado claro que, por mais pesquisa que eu faça, não vai haver nenhuma dessas coisas nos meus livros!



3. O DIREITO DE NÃO ACABAR UM LIVRO

Para isso existem várias razões, mas a principal é certamente o desinteresse, ou pelo assunto do livro - o que talvez aconteça mais quando se trata de obra de não-ficção - ou pelo estilo da narrativa, ou ainda o que é causado pela falta de fôlego, quando o simples saltar de páginas não resolve. Pennac relata não ter terminado "A Montanha Mágica", enquanto eu pus de lado o "Ulisses", de James Joyce. Não foi por falta de boa vontade - eu até me dispus a ler tudo, sem pular, pensando que assim talvez conseguisse entender - mas, pelo menos com as referências que possuo, isso se revelou impossível. Desconfio que esse será para sempre o meu parâmetro de "livro ilegível"...

Outro que eu parei, mas um dia pretendo retomar, é "Grande Sertão: Veredas". Confesso que o deixei para mais tarde porque o achei difícil - um daqueles nos quais é preciso a gente se concentrar, ou não entende nada - mas acho que, num momento em que estiver mais tranqüila, terei prazer em lê-lo do início ao fim. Ao contrário de "Ulisses", ele parece ter as duas coisas. Isso já é um bom sinal.



4. O DIREITO DE RELER

Esse é exercido sem alarde, devagarinho, não como quem devora, mas sim como quem saboreia. Com raras exceções, a releitura é feita por prazer, jamais por obrigação, como acontece, quer a gente queira ou não, com a primeira leitura que fazemos de muitas obras. Seja qual for a lembrança dessa primeira vez - às vezes não ficou nenhuma - a segunda envolve sempre um mergulho mais profundo no universo de que trata aquele livro... ou pelo menos a antecipação de bons momentos, como aqueles que sabemos que iremos ter quando visitamos um velho amigo.

Pessoalmente, estou sempre retornando a algumas obras, às vezes para uma consulta rápida, mas muitas vezes também para me deleitar ou me divertir com um trecho que sei ser de boa prosa. Um grande prazer, também, é reler histórias que li pela primeira vez na infância e na adolescência, e descobrir nelas significados que eu não havia percebido. No momento, por exemplo, estou a ponto de reler "A Espiã", de Louise Fitzhugh, e já sei de antemão que vou me emocionar com uma história que, aos dez anos de idade, achei apenas interessante e divertida. Isso porque, naquele tempo, eu não sabia o quanto me parecia com Harriet... e como sua vida, passada no mundo real, provavelmente se pareceria com a minha, trilhando aos trancos e barrancos o caminho que a levaria a se tornar uma escritora.

Os maiores candidatos à releitura, no entanto, são os clássicos: aqueles livros que, segundo as palavras de Ítalo Calvino, "nunca terminam de dizer o que têm a dizer". Em outras palavras, aqueles que ficam para sempre, às vezes no imaginário coletivo, às vezes numa lembrança muito pessoal. Isso porque a idéia de clássico pode ir muito além dos "monstros sagrados", dos livros que foram apontados como cânones pelos acadêmicos, para assumir um significado que é único para cada leitor. É claro que os heróis de Homero viverão para sempre, assim como Dom Quixote, Emma Bovary e Tom Sawyer - sem esquecer os brasileiros, como Brás Cubas - mas qualquer obra pode ser um clássico, bastando que haja um leitor a quem o seu conteúdo atinja com profundidade. E nesses casos, reler pode nos levar a reencontrar em nós mesmos alguma coisa que estava esquecida.



5. O DIREITO DE LER NÃO IMPORTA O QUÊ

Seguindo a linha que utilizamos até agora, seria muita arrogância nos arvorarmos em censores das leituras alheias. É claro que um livro pode ser comentado, comparado, analisado dentro de critérios estabelecidos, ao fim do que fatalmente ele será considerado um "bom" ou um "mau" livro. Mas, se aquele que recebe uma má avaliação, por qualquer motivo - pobreza de linguagem, inconsistência da trama, inadequação aos padrões de "bom gosto" em voga no momento - enfim, se o livro desprezado pela crítica agrada ao leitor, por que se deveria tentar fazê-lo mudar de idéia?

Leitor, na adolescência, do que chama de "maus romances", Daniel Pennac é da opinião de que, deixados à vontade com suas experiências literárias, os jovens um dia passarão naturalmente à "boa" literatura, por necessitar de algo mais substancial com que alimentar seus sonhos. Nesse ponto, sou levada a discordar, ao menos em parte: por mais que isso pareça desejável, não é como funciona, não para todo mundo. Assim como algumas pessoas jamais gostarão de ler, por mais opções de leitura que lhes sejam apresentadas, outras existem que sempre vão preferir a leitura mais fácil à mais elaborada, ou que se interessam por assuntos tratados de forma quase sempre superficial. Além desses, existem ainda os leitores ecléticos, em geral do tipo "traça", que gostam de vários assuntos e estilos e lêem o que lhe cair nas mãos. Eu mesma sou um desses casos, podendo ser vista com um Morris West numa semana, na outra com um tratado de Mitologia Comparada e na terceira com um livro surrado da Coleção Vaga-Lume. É claro que existem alguns tipos de livro que não me atraem - histórias de herdeiras glamurosas, por exemplo, ou auto-ajuda do tipo óbvio, como a que aconselha a sorrir quando você estiver zangado. Mas, de um modo geral, leio de tudo, inclusive alguns livros que se poderiam chamar de maus. E não tenho o menor preconceito contra aqueles que não apenas os lêem, mas os consideram bons. Afinal, a escrita não é múltipla? As pessoas não são múltiplas? Então, nada mais natural que algumas delas tenham gostos diferentes dos nossos!



6. O DIREITO DE AMAR OS "HERÓIS" DOS ROMANCES

A essa condição, Pennac denomina "Bovarismo", referindo-se a Madame (Emma) Bovary, personagem de Gustave Flaubert que, descontente com sua vida provinciana, se envolve em casos de amor com dois homens a quem atribui qualidades só existentes em sua imaginação. Esta teria sido influenciada sobretudo pela leitura de romances, nos quais os heróis eram homens fortes e nobres, capazes de um amor arrebatador, que Emma tenta a todo custo encontrar em homens de carne e osso. Naturalmente, trata-se de um caso extremo, cuja análise, além de tudo, deve levar em conta a crítica de Flaubert ao romantismo exacerbado da época. Foi dentro desse mesmo espírito que vários adolescentes alemães se suicidaram após a leitura de "Os Sofrimentos do Jovem Werther", de Goethe. No entanto, se dissermos a verdade, quais de nós, leitores - principalmente os jovens, ou os que se lembram das leituras da juventude - nunca estivemos apaixonados por um personagem de ficção?

Eu mesma já me enamorei de vários, boa parte dos quais não pertencia à categoria dos heróis. Vilão, que me lembre, foi só um, Ricardo III - que as pesquisas posteriores acabaram por revelar como um rei tão bom como qualquer outro, naquela época - mas houve tipos sombrios, como Heathcliff, fatalistas, como Pedro Missionero, e atormentados, como Kevin (de "As Brumas de Avalon"). Alguns eram bem-falantes, como Cyrano, que considero meu favorito de todos os tempos, mas o caladão Strongbow (da HQ "Elfquest") foi uma das minhas grandes paixões. Até na Pré-História eu achei um amor: o caçador-xamã Andorinha, de "A Lua da Rena", que inspirou a primeira versão de alguns de meus próprios personagens. Todos esses, e muitos outros, fizeram voar minha imaginação, embora, para minha sorte, ela não seja tão exaltada quanto a de Emma Bovary. Por isso, o fato de ter-me entusiasmado com suas histórias, de ter rido e chorado e às vezes sonhado com eles, não teve conseqüências para minha vida real... a não ser, é claro, por terem servido de estímulo para que eu exercitasse minha própria criatividade.

Isso é fundamental para os escritores, mas se estende a todos aqueles que, com maior ou menor intensidade, se identificaram com um herói, simpatizaram com um coadjuvante atrapalhado ou sábio, ou, ainda, partiram das idéias expressas por um personagem para refletir sobre seus próprios pontos de vista. Mais do que a "paixão" descrita por Pennac - e vivida por mim e por outros leitores mais impressionáveis ou empolgados - a emoção que se encontra na leitura está antes de tudo na descoberta de um novo mundo e de novas possibilidades para si mesmo. É claro que isso pode se dar de forma exclusivamente racional, como acontece quando lemos certos filósofos; mas, se em nossa bagagem como leitores for possível incluir, ainda que só por um momento, um suspiro pelos olhos de Capitu ou pelo charme de D' Artagnan, a experiência se torna bem mais divertida. Vocês não concordam?



7. O DIREITO DE LER NÃO IMPORTA ONDE

É uma oportunidade que nenhum de nós hesita em agarrar. No transporte público ou na fila do banco, na ante-sala dos consultórios e aeroportos, escondidos atrás de ouvintes atentos durante uma palestra - onde quer que haja um momento livre, principalmente se for um momento de espera, ali estaremos, nós, os leitores incansáveis, exercendo o que consideramos nosso sagrado direito.

Os lugares são múltiplos, mas alguns atraem a maior parte das preferências. Dentre todos, é o banheiro que concentra o maior número de leitores, desde os ocasionais - que aproveitam o momento a sós para dar uma olhada nos jornais do dia - até os que mantêm um suprimento sempre renovado de revistas no ambiente em questão. Em casos extremos, essa pode ser a única oportunidade para que o leitor tenha acesso ao livro, o que às vezes exige sacrifícios, como o de Gavino Ledda (autor de "Pai Patrão"), que trocava suas horas de sono pelo estudo no banheiro da caserna. Pode também ser uma prerrogativa dos espertos, como o soldado citado por Pennac, o qual, eterno voluntário para a limpeza das latrinas, conquistava, após "quinze minutos de esfregão", o direito a se deliciar pelo resto da manhã com um volume de Gogol.

Até agora, os lugares citados nada têm de insólito, mas há quem nos surpreenda com a escolha do seu canto de leitura. Porteiros noturnos e ascensoristas que lêem romances, ou, muito freqüentemente, a Bíblia durante suas horas de trabalho são comuns, mas não um operário que vi há alguns anos, com meio corpo dentro de um buraco, apoiando os cotovelos na calçada para ler uma revista. E as leituras que faço em trânsito, no ônibus, na barca ou na condição de pedestre - meia dúzia de linhas enquanto o sinal não abre - não se comparam à de uma senhora que vi uma vez, que lia sentada no banco... de uma roda-gigante em pleno movimento.

Mas, dentre todos esses casos, o que mais provocou minha atenção foi o da funcionária de um restaurante chinês, aqui no centro do Rio, que leu várias obras de Paulo Coelho entre as pesagens dos pratos dos clientes. Além de ser a peso, o restaurante era barato, e as pessoas não paravam de chegar, e de alguma forma ela conseguia atendê-las e ler, tudo ao mesmo tempo. E conversar, também, já que eu ficava um pouco por ali antes de ir para a mesa, e nós trocávamos impressões e sugestões de leitura. Eu faria isso até hoje, se ela não tivesse desaparecido, substituída por uma chinesa risonha e simpática, mas que não lê (e mal fala) Português. Mais tarde, me contaram que ela foi despedida. Espero, sinceramente, que não tenha sido por causa dos livros.



8. O DIREITO DE SALTAR DE LIVRO EM LIVRO

Este é para quem já exerce com desenvoltura alguns dos direitos anteriores: o de saltar trechos, o de não ler um livro até o fim e o de reler, propositalmente ou ao acaso, palavras que nos ficaram na memória.

Para esse tipo de leitura, Pennac aponta como ideais os livros de poemas ou pensamentos, mas qualquer obra pode ter o que nos dizer num rápido abrir de páginas. O leque é tanto maior quanto menos se tem uma finalidade: sabemos onde ir para reler um trecho escolhido, e quase sempre temos idéia de onde procurar uma informação ou um pensamento inspirador, mas as possibilidades são infinitas quando simplesmente seguimos ao sabor dos ventos.

Minha experiência tem sido compensadora em ambos os sentidos. Não tenho o que se possa chamar um "livro de cabeceira", mas há algumas obras às quais costumo voltar com freqüência, algumas quando estou melancólica - nisso se incluem quase todos os meus (poucos) livros de poesia - , algumas para entrar no "clima" da minha ficção, como livros de história medieval, e algumas, ainda, pelo simples prazer de reler um texto agradável.

Quanto à outra experiência, a de abrir um ou mais livros sem ter um propósito, é talvez ainda mais deliciosa, seja ela vivida numa livraria, numa biblioteca ou entre as prateleiras de nossas próprias estantes. Nem vou comentar o caso das releituras, pois é sempre um prazer reencontrar velhos amigos, ainda que por um breve momento. Quando, no entanto, os livros ainda não foram lidos... Aí, a sensação é diferente, e deve ser saboreada sem pressa. Afinal, esse pode ser o momento em que iremos decidir se vamos ou não conhecer novas pessoas, e um mundo novo, e adicionar esse universo a nossas lembranças. E ainda que isso não venha a acontecer... Quem resiste a uma olhadela entre as páginas, como se olha numa bola de cristal?



9. O DIREITO DE LER EM VOZ ALTA

Este deve ser o predileto de muitos contadores de histórias. Transcendendo as páginas do livro, transformando-se através da emoção e da experiência do leitor, a obra chega ao ouvinte imbuída de um novo significado, que se somará àquele atribuído pelo autor e, finalmente, às reflexões obtidas através da sua própria leitura.

Essa forma de mediação era comum na Antigüidade - reis e nobres tinham seus leitores, e os escritores liam suas obras em reuniões privadas ou públicas - mas a leitura silenciosa passou a predominar a partir dos últimos séculos da Idade Média. Ainda assim, a leitura em voz alta continuou a ser praticada nas épocas posteriores. Cervantes teve suas novelas lidas em círculos de populares, e Dickens apresentou as suas diante de grandes platéias. O hábito foi sendo passado adiante ao longo do século XX, entre escritores, poetas e dramaturgos, bem como entre os amantes da literatura que se fizeram seus intérpretes e seus ouvintes. Nos últimos anos foi resgatada a tradição dos contadores de histórias, e a leitura em voz alta para crianças e adultos vem sendo valorizada e praticada em diversos lugares... destacando, ironicamente, aqueles nos quais os clichês fazem muita gente pensar que o silêncio é a regra de ouro.

É claro que estou falando das bibliotecas. E, como bibliotecária e contadora de histórias, surpreende-me a queixa de Pennac sobre "a imposição da leitura silenciosa" nas escolas. Talvez seja uma característica das escolas francesas, provavelmente as do seu tempo de estudante; ou talvez a de todas as escolas tradicionais daquele tempo. Na minha, embora já se tenham passado mais de vinte anos, isso não acontecia, pois, além de ter professores como Pennac - que liam, e tinham prazer em ler para os alunos - nós mesmos éramos chamados a verbalizar, tanto os textos com que trabalhávamos quanto nossas próprias redações. Havia os que não gostassem, é claro, e havia os que se sentiam embaraçados; mas eu, como vocês devem imaginar, sempre era voluntária. E, ainda que reconheça o prazer e a necessidade, em algumas ocasiões, de uma leitura a sós, continuo sempre disposta a entrar no círculo e a partilhar de uma boa história.



10. O DIREITO DE NÃO FALAR DO QUE SE LEU

Para os que me acompanharam até aqui, pode parecer incrível, mas já lutei para que me deixassem exercer esse direito. A par do prazer - que sempre tive - em falar das leituras que me agradam, sinto uma grande antipatia por todo tipo de interpretação forçada, como aquela que nos impingem na escola. "O que o poeta quis dizer com..." é uma pergunta retórica, à medida em que, no fundo, o que se deseja é que o aluno concorde com a resposta dada pelo professor. Seminários e fichamentos funcionam um pouco melhor, mas ainda assim caem num problema fundamental: raramente o livro que se é obrigado a ler (e comentar) é aquele que se escolheria... e, sendo assim, é grande a tentação de apontar apenas as suas falhas, ou de liquidar a conversa com meia dúzia de frases copiadas de uma enciclopédia.

Assim como de ler, gosto muito de falar, e adoro discutir minhas leituras, ainda que muitas vezes só possa fazê-lo através de resenhas. Como escritora, ansiosa por conhecer a reação do público a meu trabalho, agradam-me muito os comentários - e é provável que eu insista mais do que devo, pedindo aos leitores que dêem a sua opinião, que digam se uma história é verossímil, se gostaram de um desfecho ou da atitude de um personagem. Se todos fossem como eu, essa seria uma boa medida para saber se um texto cairia ou não no gosto do público, pois quem o apreciasse faria longos comentários... e o silêncio, ai de mim, indicaria com certeza o contrário.

No entanto - como são diferentes as pessoas - sempre existe a possibilidade de alguém gostar, talvez até gostar muito, e preferir guardar suas impressões para si mesmo. Para mim, isso é frustrante, confesso; mas é um direito do leitor, e eu o respeito como a todos os outros. E, assim, como prefiro acreditar na sinceridade de quem elogia, também escolho supor que alguém pode amar minhas histórias em silêncio... e levá-las consigo, quem sabe, até o tempo e o lugar em que elas finalmente sejam contadas outra vez.

Um comentário:

Ana Paula Scolari disse...

Concordo plenamente com todos os direitos elencados. Inclusive, eu faço uso de todos eles, hehe. Adorei o post!