quarta-feira, julho 07, 2004

Mamãe Gansa



Hoje eu quero falar a respeito de uma velha senhora que todos nós conhecemos, pelo menos de nome. Ou talvez seja melhor dizer que conhecemos seu apelido... Pois mesmo entre os maiores narradores e ouvintes de histórias, mesmo entre os maiores pesquisadores de folclore e literatura, ninguém ainda soube dizer quem foi na realidade aquela que conhecemos como a Mamãe Gansa.

Na verdade, é bem possível que esse nome se aplique não a uma pessoa, mas a uma figura quase arquetípica: a da velha contadora de histórias, também identificada com as avós, com as feiticeiras e com as “fofoqueiras” da aldeia. Nós a encontramos pela primeira vez em 1650, na obra La Muse Historique , de Loret, da qual constava a expressão: “Comme un conte de la Mère Oye”, ou seja, “Como um Conto da Mamãe Gansa”. A frase foi usada na coletânea de oito contos de fadas publicada em 1697 por Charles Perrault - que incluía, entre outras, “A Bela Adormecida” e “Chapeuzinho Vermelho” - e associada à imagem do frontispício, na qual uma velha senhora fiava e contava histórias.

O termo “Mamãe Gansa” passou a ser mais amplamente utilizado a partir da coleção de poemas infantis de John Newbery, que apareceu por volta de 1765 e foi amplamente reeditada e ampliada (e, segundo dizem, plagiada) na Inglaterra e nos Estados Unidos. Desde então, já se fiseram muitas investigações e reivindicações com o fim de atribuir a identidade da Mamãe Gansa a narradoras que realmente existiram, tais como a Sra. Elizabeth Goose, bisavó da esposa do editor Isaiah Thomas.

A verdade, no entanto, é que os poemas da “Mamãe Gansa” foram compilados e perpetuados a partir de fontes as mais diversas, algumas de raízes populares e anônimas, outras possivelmente autorais, mas todas, indiscutivelmente, já assimiladas à cultura e ao imaginário coletivos. Alguns dos versos têm um significado um pouco obscuro para a maior parte das pessoas - boa parte deles se refere, por exemplo, a episódios da história da Inglaterra - mas muitos foram capazes de transcender as barreiras geográficas e culturais para se fixar no que poderíamos chamar de “cancioneiro universal”. Afinal, quem não sabe que “Maria tinha um lindo carneirinho”, e que houve um dia uma velha que morava num sapato? E quem não conhece Humpty Dumpty, o ovo que se sentava em cima do muro, que Lewis Carroll fez contracenar com Alice?

A título de complemento - e sem perder de vista a conotação simbólica - vale lembrar que os gansos, na tradição xamânica, estão associados à comunicação, à habilidade de expressão - especialmente através das narrativas - e à escrita criativa. Assim, examinando essa figura que emerge da tradição popular no século XVII, é razoável supor que por trás dela exista uma tradição ainda mais antiga, que remonta aos primeiros homens, aos primeiros clãs, às primeiras famílias.

Pois desde esse tempo, saibam vocês, a Mamãe Gansa já fazia suas rimas; e os seus ecos ainda se podem ouvir, na risada da velha bruxa, nas cantigas de nossas avós, na voz da tia ou da mãe carinhosa, cujas histórias povoaram de maravilhas a nossa infância.

Bases para este texto:

- Informações históricas retiradas de diversos sites dedicados à Mamãe Gansa - basta digitar “Mother Goose”...

- O ganso na tradição xamânica: apreendido em ANDREWS, Ted. Animal-speak . Llewellyn, 1998. (Ei, me avisem se vocês estão gostando de falar sobre xamanismo...)

Sugestões de leitura :

-COOK, Scott. Mamãe Gansa . Companhia das Letrinhas, 1997. Rimas selecionadas e ilustradas por Cook. A tradução é do saudoso José Paulo Paes.

-WERNER, Marina. Da fera à loira. Companhia das Letras, 1999. Fornece uma análise da face mais sombria, grotesca e falsamente moralizadora da Mamãe Gansa.

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