quarta-feira, julho 07, 2004

Contos de Fadas: uma síntese


Todos conhecem a história da Branca de Neve. Mas o que terá acontecido com o Caçador depois que foi reencontrar a Rainha Má? Descubra clicando aqui!



Hoje quero falar sobre um tipo de história que me fascina desde pequena: os contos de fadas.

O termo nos remete quase invariavelmente a paisagens da Europa medieval, com florestas brumosas e castelos onde dormem princesas encantadas... não é verdade?

Pois saibam que os contos de fadas surgiram bem antes da Idade Média, e eram passados dos avós para os netos, através da tradição oral, desde os tempos mais remotos. É impossível datar a matriz primordial desses contos, mas as origens de alguns deles foram rastreadas até os primeiros séculos de nossa era. Com isso, chegou-se à conclusão de que histórias como "Branca de Neve" e "Cinderela" derivam de contos orientais, cujas versões mais antigas, provenientes da Índia e da China, foram trazidas pelos árabes para a Europa, aí se mesclando ao folclore local. Assim, os cruéis efrits e os djinns que satisfaziam desejos se transformaram nas bruxas e fadas-madrinhas que conhecemos na infância... e que até hoje nos servem de referência e inspiração.

As raízes européias desses seres mágicos podem ser encontradas em várias mitologias. Na tradição clássica, o primeiro autor a aludir às fadas foi o geógrafo Pomponius Mela (séc. I), enquanto entre os celtas sua origem seria ainda mais antiga, remontando ao século II a. C. Foi das reminiscências desse mundo mítico que, séculos depois, surgiram os romances de cavalaria, nos quais as fadas apareciam como personagens. Além da Dama do Lago, presença constante nos romances do ciclo arturiano, são famosas a Fada Morgana (o mesmo nome da criada de Ali Babá... a Fata Morgana é uma figura central dos contos árabes) e Melusina, a dama-serpente ligada à estirpe dos Lusignan.

Essas fadas, e muitas outras, se fixariam no imaginário da Idade Média e da Renascença, perpetuando-se nos contos narrados nos serões familiares, bem como nas canções e nos poemas que circulavam entre a gente do povo. Sua forma sofreu modificações relativas ao tempo e ao espaço, e vários deles adquiriram preceitos da moral vigente na época. Assim, "Os Três Desejos", uma das histórias reunidas por Perrault - os famosos "Contos da Mamãe Gansa", publicados em 1697 , encontramos um sermão sobre os perigos da cobiça desmedida, sem falar da conhecida advertência feita às mocinhas em "Chapeuzinho Vermelho".

Mais, hélas qui ne sçait que ces loups doucereux
De tous les loups sont les plus dangereux!


A racionalidade do Século das Luzes condenou os contos de fadas a um ostracismo temporário, mas eles seriam reabilitados no século XIX, através da iniciativa de pesquisadores como os irmãos Jakob e Wilhelm Grimm - cuja recolha de contos populares alemães foi publicada em 1812 - e de autores como Hans Christian Andersen, que pautaram seus próprios contos na tradição maravilhosa. Muitos outros viriam a seguir a mesma trilha, desde Collodi, Barrie e Lewis Carroll até escritores contemporâneos. Alguns destes utilizam elementos presentes nos contos de fadas na criação de seus próprios mundos - é o que fazem muitos autores do gênero conhecido como fantasy - enquanto outros propõem novas versões para as antigas histórias. Angela Carter nos brindou com uma bela coleção delas em "O Quarto do Barba Azul", e ouvi falar de alguém que decidiu contar a história da "Branca de Neve" pelo ponto de vista do caçador. Deve ser interessante... Bom, pelo menos diferente! :)

Além dos próprios autores e dos teóricos da área da Literatura, os contos de fadas vêm sendo analisados por psicólogos, como Jung e seus discípulos - que vêem nos personagens os arquétipos do inconsciente coletivo - por psicanalistas, que lhes atribuem significados ligados aos conflitos existenciais, e também por antropólogos e historiadores, que os analisam segundo o contexto em que foram produzidos e veiculados. Dessa forma, o abandono de João e Maria na floresta seria um costume dos camponeses em períodos de fome prolongada; o Ogro devorador de crianças estaria associado à figura (real) de Gilles de Rais, e assim por diante. Até as roupas da "Chapeuzinho Vermelho", cujo simbolismo é ligado ao do sangue - o da puberdade e o da virgindade - ganham outra interpretação no contexto histórico, pois o vermelho era a cor escolhida por muitas jovens para os vestidos de casamento... mas era também, em algumas regiões, a cor usada para distinguir as prostitutas.

Todas essas análises, contudo, são unânimes quando se trata de reconhecer, por trás das bruxas e das fadas, a figura universal das mulheres sábias: as curandeiras, parteiras e sacerdotisas, as anciãs temidas e veneradas, guardiãs da sabedoria da comunidade e responsáveis pela transmissão das histórias às novas gerações. Pois não importa a roupagem de que se revestiram os contos de fadas: foi a voz dessas mulheres que chegou até nossos ouvidos. E, quer estejamos ou não conscientes disso, são elas que, bem lá no fundo, vivem dentro de nós, zelando pelo pequeno e precioso tesouro que nos legaram nossos antepassados.

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Leituras associadas a este artigo:

- As referências a datas e nomes saíram de

COELHO, Nelly Novaes. Literatura infantil. Moderna, 2000.

CARVALHO, Bárbara Vasconcelos. A Literatura infantil: visão histórica e crítica. Edart, 1982.

- Psicólogos e psicanalistas podem ser consultados lendo

BETTELHEIM, Bruno. Psicanálise dos contos de fadas. Bertrand, 1991.

VON FRANZ, Marie-Louise. A Interpretação dos contos de fadas. Paulus, 1990.

- A repercussão dos contos de fadas no Brasil é tema das obras de

CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Ediouro, 1998 (particularmente interessante por mostrar a origem dos contos, até onde se pôde chegar).

BRANDÃO, Adelino. A Presença dos irmãos Grimm na literatura infantil e no folclore brasileiro. Ibrasa, 1995.

- A visão antropológica dos contos de fadas é abordada em trabalhos de Mircea ELIADE, tais como Mito e Realidade. TOLKIEN é um dos autores que analisa o tema literariamente Não tenho as referências de suas obras à mão, assim como não me ocorre o nome de nenhum historiador. Um trabalho que mescla História, Psicanálise e Sociologia é o de WERNER, Marina: Da Fera à Loira (Companhia das Letras, 1999).

- Os contos de GRIMM, PERRAULT e ANDERSEN estão disponíveis em várias edições. Para quem for comprar uma tradução ou adaptação, sugiro escolher não apenas pelas ilustrações, mas pela linguagem utilizada. Levem em conta que o livro será lido por uma criança, mesmo que isso só venha a acontecer num futuro longínquo. :)

- O Quarto do Barba Azul, de Angela CARTER, foi publicado no Brasil pela Rocco, não me lembro do ano. Já O Caçador saiu pela Fábrica de Livros do SENAI em 2004 e vem sendo bem recebido nos meios literários...

E você? Já ouviu falar dessa obra-prima? ;)

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