domingo, abril 02, 2017

Sobre Andersen



Três nomes (que na verdade são quatro) nos vêm imediatamente à cabeça quando o assunto é conto de fadas. O de Charles Perrault, cujas Histórias da Mamãe Gansa foram um grande divisor de águas na literatura do gênero; o dos Irmãos Grimm, Jakob e Wilhelm, compiladores e divulgadores do folclore germânico; por fim, o de Hans Christian Andersen, cujas narrativas, impregnadas de emoção e lirismo, se distinguem por seu caráter autoral e muitas vezes autobiográfico.

A humildade e a tragicidade dos personagens de Andersen encontram ecos na trajetória do autor. Nascido em 1805 nos subúrbios de Odense, Dinamarca, filho de um sapateiro e de uma lavadeira, Andersen foi uma criança frágil, dotada de imaginação vívida e de uma sensibilidade que o acompanharia durante toda a sua vida. Nas autobiografias que escreveu em 1832 e 1846, ele relata sua infância pobre, falando sobre o prazer que encontrava confeccionando bonecas e fantoches e o sonho de se tornar um cantor, o qual o levaria, aos 14 anos, a embarcar rumo a Copenhagen para tentar iniciar uma carreira. Foi lá, três anos depois, que ele começou a escrever peças teatrais (todas rejeitadas por críticos e produtores) e teve a chance de receber alguma educação formal, quando Jonas Collin, um dos diretores do Teatro Real, fez dele seu protegido e o enviou a um colégio e depois à universidade. Seu padrão de vida melhorou bastante depois disso, mas Andersen jamais deixou de se queixar dos sofrimentos de sua vida pessoal, desde as constantes dores de dentes (que parecem tê-lo perseguido ao longo de toda a adolescência e idade adulta) até a incompreensão de que julgava ser vítima por parte de seus pares.

As primeiras publicações de Andersen foram um relato de viagem e alguns poemas esparsos, além da autobiografia romanceada A História de Minha Vida. Depois disso, ele se voltou para os contos, publicando, em 1935, um opúsculo que intitulou Contos Contados para Crianças e que continha, entre histórias menos conhecidas, a deliciosa A Princesa e a Ervilha. Tal como os Grimm, Andersen foi censurado pelo seu estilo, julgado demasiadamente coloquial para a época, e pela moral de alguns contos, que seriam inadequados para crianças; no entanto, o público infantil parecia adorar tanto as histórias como seu autor, e, ao ser aplaudido em locais como Londres e Weimar, Andersen se assegurou de que estava no caminho certo. Embora continuasse a escrever para adultos - uma das novelas mais conhecidas é O Improvisador, cuja ação decorre na Itália - ele publicou uma série de livros infantis, que eram lançados a cada ano perto do Natal e que incluíam tanto contos populares, ouvidos por Andersen quando criança, quanto obras autorais. A Sereiazinha, Os Sapatos Vermelhos, A Nova Roupa do Imperador, O Patinho Feio e O Rouxinol do Imperador da China são apenas alguns dos títulos que saíram de sua pena e que angariaram fama e reconhecimento para o autor.

Várias características separam os contos de Andersen da obra de Perrault ou dos Irmãos Grimm. Em primeiro lugar, ao contrário do francês e dos alemães, o dinamarquês não apenas deu uma forma ao material já existente na tradição oral e literária, mas criou suas próprias histórias; só uma minoria delas tem raízes na tradição folclórica, como parece ser o caso de O Isqueiro Mágico. Além disso, os personagens de contos de fadas costumam ser arquetípicos, dotados de uma personalidade que pouco varia de acordo com a história, ao passo que os de Andersen são complexos, refletindo as ansiedades, as contradições e as fantasias do autor, de quem, muitas vezes, funcionam como alter ego. O Patinho Feio, por exemplo, traduz a inadequação social e o desejo de reconhecimento de Andersen (um tema também presente em O Improvisador e recorrente em sua obra), enquanto o sofrimento da Karen de Os Sapatos Vermelhos, da Pequena Vendedora de Fósforos e da Sereiazinha seria, para alguns críticos, a expressão do princípio cristão de transcender a dor e renunciar às recompensas terrenas para buscar as de um outro mundo. De qualquer forma, seja naqueles contos cujo final se pode dizer infeliz, seja naqueles onde a jornada do herói ou heroína conduz à superação do obstáculo e ao sucesso, o Bem sempre acaba por triunfar contra o Mal e a adversidade, reforçando os valores éticos e morais que o próprio Andersen afirmava ser seu desejo sublinhar nas histórias.

Assim como eu, que me recuso a narrar, seja para que platéia for, A Pequena Vendedora de Fósforos (seguramente a história que, até hoje, mais me fez chorar), a consagrada escritora de fantasia e ficção científica, Úrsula K. Le Guin, declarou que "detestava as histórias de Andersen com final infeliz", mas que não conseguia deixar de retornar a elas ou pelo menos de lembrá-las. Talvez a possibilidade de redenção oferecida por esses finais seja o que atrai os leitores; ou talvez esse fascínio se deva ao estilo de Andersen, essencialmente romântico, mas ao mesmo tempo dotado de uma cor e de uma vivacidade especiais. Seja como for, ao falecer, em sua casa, em 1875, o menino pobre de Odense havia percorrido um caminho tão espetacular quanto o de seus personagens, e deixado um valioso legado: as suas histórias, sonhos tornados em palavras, que vêm povoando a mente e o coração de crianças e adultos ao longo de gerações.

domingo, março 12, 2017

quarta-feira, março 08, 2017

Por Que Conto Histórias?


Eu sempre gostei de contar histórias. Vem lá de dentro. Minha família se lembra de quando eu, pequenininha  -- uns quatro anos talvez – inventava longas histórias com personagens próprios que contracenavam com outros tão inusitados quanto Mogli, Emília e os deuses da mitologia grega.
(Sim, eu tive a sorte de também ter quem me contasse e lesse histórias).

Da palavra falada para a escrita foi uma transição natural, e eu venho escrevendo desde que aprendi a fazê-lo. Mais de quarenta anos. Continuei contando também. No início acho que era apenas uma forma de extravasar pensamentos e inquietude, depois foi um jeito de afugentar demônios, hoje é tudo isso e também uma forma de eu me expressar e deixar minha mensagem para o mundo – alguma coisa que fique e se perpetue depois que eu voltar a ser poeira de estrelas.

Você, mulher que conta e escreve histórias, saiba que é herdeira de uma longa linhagem, que vem desde as avós da Pré-História, passou pelas mães e avós, camponesas, parteiras e fiandeiras. Uma linhagem que sobreviveu às fogueiras e aos espartilhos.  Uma linhagem que se fez ouvir, ainda que em boa parte do tempo permanecesse invisível.

Eu conto histórias pelo prazer da partilha.

Eu escrevo pelo anseio de eternidade.

quarta-feira, fevereiro 15, 2017


Pessoas Queridas,

Saiu mais uma entrevista minha para o jornal O Estado do Rio de Janeiro, desta vez tratando do meu trabalho como bibliotecária e da representação da nossa profissão em séries e filmes.

Para quem quiser, o link está aqui.

domingo, fevereiro 12, 2017

O Ouro de Tartessos : Nova Aventura de Balthazar e Lísias


Pessoas Queridas,

O Balthazar e o Lísias não param!

Além do conto A Caverna de Zakynthos e da coletânea Piratas, eles estão numa nova história solo, O Ouro de Tartessos.

Eis a sinopse:

Acompanhado por Lísias, seu fiel escravo heleno, o Capitão Balthazar vai parar na mítica Tartessos, onde sempre ouviu dizer que existiam montanhas de ouro. Mas será que ele é o único a querer se apossar dessa incrível fortuna?

Que tal, curtiram? Espero que sim! E aguardo seus comentários sobre a história e os personagens!