quarta-feira, janeiro 01, 2020

De Palavras e Rotinas

      Acordo tarde no primeiro dia do ano, e a primeira pergunta que me faço é: continuo contando as palavras?

      Não entendam mal. Não estou praticando a austeridade ou coisa do tipo. As palavras a que me refiro são as escritas; contá-las é uma prática de vários autores, que adotei desde 2017. Naquele ano eu escrevia furiosamente as histórias das gêmeas de Cartago, então foram quase 100.000 palavras a mais que no ano seguinte, e o que acabou ontem foi muito próximo do anterior. Deve ser essa a média mesmo, em torno de 180.000 por ano, se tudo continuar como está: um pouco de escrita espremida nos dias de semana, entre o transporte e o trabalho diário, duas ou três horas produtivas no sábado, outras tantas no domingo, se não houver nenhum evento e se eu seguir uma rotina cuidadosamente planejada. Seus passos: acordar antes de todos na casa, não ligar a TV durante o café da manhã, sentar logo em seguida para escrever e, se for no laptop, não olhar a Internet em hipótese nenhuma. Às vezes ainda dá para reverter a situação se abrir só o e-mail, mas se for rede social a escrita já era. Fim da história.

     Chamei isso de rotina, mas me parece mais ser um truque, um artifício que eu uso para me concentrar. De qualquer jeito, funcionou, inclusive nesta manhã do primeiro dia do ano: acordei tarde, como disse (passava de oito e meia), fiz café e uma torrada, olhei pela janela, pensei em sair para dar uma volta, decidi que mais tarde iria com meu marido (mas fez calor demais e não fomos), tomei café com torrada, pensei em ver um filme antes que ele ou minha filha acordassem e fossem jogar videogame, pensei em me rebelar – hoje vou descansar e não escrever! --, dei risada dessa simples ideia, me levantei para ligar o laptop, mas antes de chegar ao escritório lembrei que tinha um caderno em branco e tinha decidido estreá-lo nesse primeiro de janeiro.

      E como eu sou uma autora que está tentando se disciplinar, sentei à mesa e comecei a escrever as primeiras páginas do caderno, as primeiras do dia, as primeiras do novo ano.

      E como eu sou uma pessoa de hábitos, decidi que vou continuar a contar as palavras.

      Só aqui, neste primeiro post  de 2020, foram 394.

      Feliz Ano Novo! 

sexta-feira, dezembro 27, 2019

Melhores Leituras de 2019 - Estrangeiros

Pessoas Queridas,

Como combinado, aqui estão os títulos dos livros estrangeiros que mais curti ler em 2019. Decidi usar a mesma porcentagem: pouco mais de 70 lidos, 7 destaques, e olha que legal: à exceção do primeiro, que tem coautoria de um homem (cabendo controvérsias), todos foram escritos por mulheres.

É provável que isso reflita a totalidade de leituras, mas não tenho certeza. Fui pinçando do diário -- e gostei do que resultou. Espero que vocês também curtam as minhas impressões.




O Labirinto do Fauno, de Cornelia Funke e Benicio Del Toro

Possivelmente o melhor livro que li este ano, e em edição lindíssima, o que tornou a experiência ainda mais legal. A controvérsia que citei acima se deve ao fato de que, pelo que entendi (se alguém tiver notícia do contrário, diga-me), Cornelia foi a única autora do livro, escrito com base no roteiro de Benicio e no filme feito a partir dele. De qualquer forma, ainda que consideremos ambos como autores, as histórias curtas, ao estilo de contos de fadas, inseridas em meio aos capítulos que narram a aventura de Ofelia foram ideia (e criação) de Cornelia, e as imagens, metáforas e construções literárias são obra sua -- e ela consegue, com mestria, transpor para o livro a atmosfera de medo, sombras e fantasia que encantou nossos olhos e imaginação no cinema. Obra maravilhosa, do início ao fim.



A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata, de Mary Ann Schaffer e Annie Barrows

Mais um do qual foi feito um filme, que também achei legal - só que o livro tem espaço para falar bem mais das pessoas de Guernsey e de suas histórias, além de uma trama paralela (e deliciosa) de espionagem literária. Ou seja, temos o mundo dos escritores e editores mais bem representado e a cidadezinha como um cenário mais vívido e interessante. A narrativa é leve e ágil sem ser superficial, e tudo é bem amarrado. Gostei de fato.





As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta

Como no ano passado, li muitos autores africanos em 2019, principalmente mulheres. Desta, nigeriana, li três livros, e este foi o favorito. É a história de uma mulher do interior, enviada para se casar com um desconhecido que vive em Lagos, e os vários percalços que tem de enfrentar, desde o estranhamento causado pela cidade e o desapontamento com o marido até os perrengues para criar os filhos em meio a uma sociedade cada vez mais influenciada pelos colonizadores, na qual os valores tradicionais não podem mais servir de referência. À parte a temática, de que gosto, a narrativa é agradável e objetiva, e a protagonista muito bem construída.




Você Nasceu Para Isso, de Michelle Sacks

Inverti a ordem de leituras entre este e o próximo, porque o livro faz contraponto com o anterior. Aqui não temos uma mãe de vários filhos passando perrengue e sim a mãe de um bebê lindo e saudável, morando num lugar lindo e com um marido protetor e amoroso. No entanto, as coisas não são o que parecem -- e isso não se refere apenas a circunstâncias externas, mas ao que se passa na cabeça dessa mulher. Filho, marido, tarefas domésticas, será que isso basta para ela? Será que basta para alguém? E quando você sente, sem saber como, que é preciso dar um... basta? Leiam e depois me digam.



No Jardim do Ogro, de Leila Slimani

Da mesma autora do ótimo Canção de Ninar, este livro também tem a ver com o que está acima, na lista. Trata-se de uma mulher cuja vida e casamento, aparentemente, são perfeitos, mas que anseia por mais, e não mede consequências no sentido de buscar o que deseja. Quem ler este livro se lembrará provavelmente de A Bela da Tarde, de Joseph Kessel (e que virou filme com Catherine Deneuve): Adèle tem uma compulsão parecida com a de Séverine, embora a forma como as histórias se desenrolam sejam diferentes. E Slimani conta a sua de um jeito perturbador, levando o leitor pela mão até a beira do abismo. Gostei de ter ido até lá com ela.




As Horas Vermelhas, de Leni Zumas

Passado num futuro próximo e alternativo, o livro conta a história de cinco mulheres, entrelaçadas umas às outras e unidas por questões ligadas ao universo feminino, agora e sempre (ou há muito tempo) motivo de disputa, acusações e proibições: questões sobre o corpo, o sexo, a reprodução, mas também sobre a depressão, a solidão e o direito de viver do jeito que bem se entende. Enquanto lia, mais uma vez me ocorreu: as personagens deste livro são as tais descendentes das bruxas que nossos avós queimaram. E eu gostei de lê-lo. Cabe, porém, um aviso: não se parece tanto assim com A História da Aia: não tem o mesmo alcance, nem o mesmo peso, embora seja uma boa história com uma narrativa que prende do início ao fim.




A Filha do Rei do Pântano, de Karen Dionne

Fechamos esta lista como a abrimos: com a história de uma menina (neste caso não fica menina até o fim do livro) às voltas com o único tipo de lobo realmente mau, o que caminha sobre duas patas. Na verdade, são duas meninas: a narradora e sua mãe, que foi sequestrada na adolescência e obrigada a viver por vários anos em companhia do raptor, criando a filha de ambos. A narrativa é hábil, os cenários bem detalhados; para mim, a história no presente não fez muita diferença, e sim a parte que focava na infância da protagonista. E ela até é legal... mas para mim a grande heroína da história, uma heroína relutante e trágica, é sua mãe, tão anulada em favor da filha (e pela própria filha) que nem chegamos a saber seu nome.

... 

Bom, pessoal, estas são minhas impressões sobre os estrangeiros lidos em 2019. O que acharam? Meio diferentes dos nacionais, não é?

Deixem aqui seus comentários e sugestões. Ainda tem tempo antes do fim do ano!

Abraços e até a próxima!

segunda-feira, dezembro 23, 2019

Melhores Leituras de 2019 - Nacionais


Pessoas Queridas,

Como já é praxe, vou deixar algumas linhas sobre os livros que mais gostei de ler ao longo de 2019. Não são necessariamente lançamentos, estão em ordem de leitura e não de preferência, e o fato de estarem aqui significa antes de mais nada: eu tive prazer lendo esse livro. Porque achei bem escrito, porque me inspirou a escrever, porque me fez rir e/ou refletir, porque me fez lembrar minha infância... Enfim, gostei e quero partilhar a experiência.

Este ano não fiz distinção entre juvenis e adultos, fantasia ou ficção realista, apenas farei um post para nacionais e para estrangeiros. Começo pelos primeiros: cinco dentre os mais de cinquenta títulos, não computados contos avulsos e em revistas, que li este ano, escritos por autores e autoras brasileiros. Vamos lá?




Extemporâneo, de Alexey Dodsworth

Até o presente momento, não houve um só trabalho do Alexey, livro ou conto, de que eu não tenha gostado. Este não fugiu à regra, pelo contrário: é um dos meus favoritos. Seu protagonista (que guarda alguns traços em comum com o autor; eu pelo menos achei...) acorda todos os dias para uma realidade diferente, em universos diferentes e – mais complexo ainda – nos quais habita um corpo diferente do anterior. Só que a história não se limita ao personagem: ele se movimenta em meio a uma trama que mistura aventura, política e crítica social numa narrativa ágil e super bem amarrada. O desfecho? Um sopro de alento, uma declaração de amor à vida. O livro me fez tão bem que eu até vou reler, para entrar 2020 com o pé direito, e o mesmo recomendo a todos vocês.




De Ferro e de Sal, de Simone Saueressig

Sou suspeita para recomendar este livro, já que além de amiga da autora sou uma grande fã, mas vamos lá: aqui Simone Saueressig dá (mais) um show de construção de universo.  As regiões com seus costumes diferenciados, a vida na cidade, a guilda dos ferreiros, o povo mágico que vive no entorno -- tudo é habilmente forjado neste livro de fantasia dark com sabor de crônica medieval. Um aviso deve ser dado: como outras obras de Simone, esta começa parecendo meio juvenil, com personagens adolescentes, mas depois a trama e a narrativa se adensam, de modo que o leitor deve estar preparado para cenas fortes e grandes emoções.




Matando Gigantes, de Claudia Dugim

Claudia Dugim é uma das vozes mais originais da fantasia e da FC brasileiras, e este livro não fugiu à regra. A história se passa dentro de um veículo espacial, habitado por seres humanos de diversas etnias e por uma colônia de minúsculos humanoides, que lembram muito vaga-lumes, também com muita diversidade entre si. Estranhos e sangrentos assassinatos entre os primeiros marcam o início dos contatos entre os grupos e uma série de conflitos internos pelo poder, que irão causar uma verdadeira sacudida no status quo. Tive o prazer de ler esse livro em primeira mão – na verdade fui a revisora – e tenho certeza de que irá agradar em cheio a quem busca uma ficção científica mais focada em questões sociais, com narrativa e personagens bem distantes do lugar comum.



A Imensidão Íntima dos Carneiros, de Marcelo Maluf

Esta é uma sensível história familiar, passada entre as montanhas do Líbano, décadas atrás, e o Brasil contemporâneo, onde um jovem busca renconstruir a história do avô que não chegou a conhecer. O carneiro, aqui, aparece como símbolo da solidão e do sacrifício, bem como da ancestralidade; foi ela que me atraiu para o livro, do qual acabei por gostar mais pela delicadeza e a poesia da prosa do que, propriamente, pela história. Ainda assim, um dos nacionais que mais gostei de ler em 2019, e o primeiro que leio do autor. Certamente procurarei por outros.




Assim na Terra como Embaixo da Terra, de Ana Paula Maia

Outra autora de que sou fã (porém não a conheço pessoalmente). Este é um livro que traz as marcas da escrita de Ana Paula – é duro, cru, visceral --, mas não se passa num local de trabalho e sim numa colônia penal onde, mais que o encarceramento, o que a todos assombra e oprime é a crescente loucura do diretor. A tensão cresce página a página, e a gente se vê torcendo para que determinados personagens fiquem bem, embora muito pouco seja dito sobre eles. No fim, um gancho inesperado para outras obras da autora – pelas quais, se lerem qualquer uma delas, vocês se sentirão imediatamente atraídos.

***

Então, pessoal... Esses foram os meus favoritos, de autores brasileiros. Antes do fim do ano ainda posto os estrangeiros. Por ora, queria saber se já leram algum destes, se têm vontade de ler, se conhecem os autores... Também quero saber o que recomendam em termos de livros nacionais. 

Deixem seus comentários!

Abraços a todos, e até breve!



sexta-feira, novembro 01, 2019

Em breve: FLINIT

Pessoas Queridas,

Entre os dias 7 e 10 de novembro vai rolar a FLINIT, uma grande feira literária aqui deste lado da poça. Mais de 150 autores vão estar lá, e a programação vai ser bem diversificada, com atividades para todos os gostos e faixas etárias.


Claro que eu não poderia ficar de fora, e lá estarei, participando de mesa na quinta-feira e, todos os dias, recebendo quem chegar com meus livros e coletâneas e um bom papo sobre Literatura Fantástica. Comigo vão estar a Cristina Pezel e outros amigos e artistas talentosos.

Apareçam! Quero abraçar vocês.

domingo, outubro 20, 2019

Será?

Meus personagens sabem caçar e pescar. Eu daria uma flechada no meu pé e me enrolaria na linha de pesca.

Meus personagens tocam instrumentos, eu já nem sei como segurar um violão.

Meus personagens navegam, rastreiam, se orientam pelas estrelas. Eu já me perdi dentro da casa onde morava.

Meus personagens têm coragem, presença de espírito, respostas ágeis. Eu não estou à altura.

Meus personagens sabem contar histórias.

E eu, será que também sei?