quarta-feira, julho 07, 2004

A Origem do Arlequim



(...) Sem fama e sem vintém,
Amando os vinhos e os baralhos,
Eu, nesta veste de retalhos
Sou tudo quanto te convém.

(Manuel Bandeira. O Descante de Arlequim)


Já que estes dias - ao menos tradicionalmente - são dias de folia, vou aproveitar para falar de um trickster que tem tudo a ver com isso : Arlecchino. Ou, como há tantos Carnavais ouvimos dizer... o Arlequim.

Imortalizado em sua roupa de losangos, famoso pela agilidade e pela desfaçatez, o Arlequim parece ter origens mais antigas que a "Commedia dell'Arte" surgida na Itália do século XVI. Alguns autores encontram referências nos espetáculos cômicos da Grécia e da Roma antigas, conhecidos como "mimos" (daí vêm os termos "mímica" e "pantomima"), nos quais os atores usavam máscaras e provocavam o riso da platéia por meio de ditos e contorções grotescas. Também é digno de nota o parentesco entre o Arlequim e os saltimbancos medievais, igualmente vestidos de retalhos - ou de trapos - e muitas vezes, por força das circunstâncias, agindo com a esperteza e o senso de oportunidade típicos de um trickster.

Uma origem bem diferente - e sombria - para o nosso (anti-)herói é proposta por Affonso Romano de Sant'Anna, segundo o qual "Arlequim" é uma corruptela de "Harila-King", o rei de um exército bárbaro anglo-normando, que invadia, queimava, estuprava e dizimava aldeias inteiras por volta do ano 1100. A formidável maça usada pelo guerreiro viria, com o tempo, a se transformar no porrete do Arlecchino italiano, e suas vestes ensangüentadas e esfarrapadas no traje de losangos. Vale lembrar, a esse respeito, que o romance "O Arqueiro", de Bernard Cornwell (aquele da trilogia arturiana iniciada com "O Rei do Inverno"), também cita um misterioso "Arlequim", associando-o ao mesmo cenário de morte e destruição na Inglaterra do século XIV. Naturalmente, o autor atribuiu contornos ficcionais ao personagem; mas é possível que tenha se baseado nos mesmos registros citados por Sant'Anna, o qual, aliás, aponta outras semelhanças entre o chefe bárbaro e as primeiras representações teatrais do Arlequim .

Sejam quais forem suas origens mais remotas, não há dúvidas de que o Arlequim, tal como chegou até nós, foi popularizado a partir da Commedia dell'Arte, a forma de representação mais livre e burlesca que surgiu na Itália, a partir da segunda metade do século XVI, em contraponto às peças clássicas, sérias e estudadas que eram encenadas no período. Várias companhias de artistas aderiram ao novo estilo, no qual as histórias tinham temas populares, mesclando a sátira e o romance, os duelos e a comédia, as proezas acrobáticas e as frases de duplo sentido. Os tipos representados eram sempre os mesmos, figuras universais e quase caricatas: o amante, a donzela, o doutor, os serviçais. Nesse último grupo se achava o Arlecchino, ou Arlequim, o mais esperto dos criados, às vezes servidor de dois patrões. Trabalhando em proveito próprio e tirando vantagem da fraqueza dos senhores, ele aparece muitas vezes como o amado de Colombina - a criada da mocinha -, a qual, diga-se em seu favor, era sempre mais correta e leal do que seu volúvel e versátil namorado.

Foram inúmeros os atores que representaram Arlequim. Segundo Roberto Delpiano, o primeiro de que se tem notícia foi Alberto Naselli, de Bérgamo, em 1572. Seus trajes eram uma calça larga e uma jaqueta coberta de retalhos e sua máscara era feita de madeira. Com o tempo, a indumentária se tornou mais sofisticada, assim como o caráter do personagem, que passou a dar voz a críticas sociais cada vez mais incisivas.

A Commedia dell'Arte declinou a partir do século XVIII, mas a figura do Arlequim - assim como as de seus companheiros Colombina e Pedrolino, mais tarde transformado no romântico Pierrot - já havia se incorporado ao imaginário popular, surgindo principalmente nas manifestações festivas como o Carnaval. Na virada do século XIX para o XX eles foram constantemente representados por artistas como Léon Cavallo, Degas, Cézanne e Picasso; no Brasil, seriam tema constante entre os escritores modernistas, como Bandeira, Menotti del Picchia e Mário de Andrade, criador do grande trickster que é Macunaíma. As fantasias e alegorias de Carnaval também se baseavam nos personagens, sem falar nas marchinhas, que foram o tipo de música mais constante nos bailes até a década de 1960.

Mais ou menos a partir daí, uma conjunção de fatores, tais como o investimento da indústria fonográfica e da mídia em geral no espetáculo proporcionado pelas escolas de samba, acabou por mudar completamente a "cara" do nosso Carnaval. No entanto, mesmo que não o vejamos mais tomando sorvete com a Colombina, tenho a impressão de que o Arlequim continua a fazer parte da memória e da alma brasileiras. Seu espírito está presente em nós - naquela parte de nós que é brincalhona e irreverente, que vive o dia de hoje, que é criativa e contestadora e sobrevive conforme é possível. E, talvez, ele viva também em nosso lado mais romântico e arrebatado... aquele que inspirou Geraldo Carneiro e John Neschling a escrever esta canção.

Olha a Lua

Olha a Lua,
Minha doida, minha triste Colombina.
Conta por que sofres tanto assim.
Será que é pouca
a minha alma louca de Arlequim?
Dentro de mim um sonho danado
de viver embriagado
pelo lado avesso...

Olha a Lua
Antes que ela vá pra trás do edifício.
Não, não tenha medo
de falar do teu segredo,
de contar na escuridão
as penas do teu coração.

(...)

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