terça-feira, maio 17, 2022

Os Pilares de Melkart: resultado da campanha e metas extras


 

Pessoas Queridas, 

Campanha concluída, últimos apoios computados, venho deixar algumas palavras sobre o que foi essa recente experiência no Catarse. As primeiras, claro, são de agradecimento! Não apenas 145 pessoas (além de mim) apoiaram o livro como dezenas de amigos ajudaram de outras maneiras, com divulgação, boca a boca, cessão de espaço em seus canais de comunicação e até a doação de seu próprio tempo e talento. Fico muito grata a Carol Mancini, que narrou um trecho do livro com sua bela voz, a Nilo Nobre, que fez a arte comemorativa dos 100%, e a Mara Sop, que criou várias artes e vídeos para incrementar a campanha. Também agradeço a meus editores, Erick Sama e Raphael Fernandes, por tudo que envolveu e ainda envolverá a empreitada. Sim, porque este foi apenas o fim de uma fase: ainda é preciso concluir a edição dos livros, produzir as metas extras, imprimir, embalar, enviar tudo para os apoiadores... ufa! Mas podem ter certeza, o Tesouro do Dragão vai chegar direitinho às suas mãos!

Talvez por seu tema não ser tão universal como os duendes e, principalmente, os contos de fadas que ofereci nas campanhas anteriores -- ao que se soma o fato de eu não estar acompanhada por autores incríveis, como das outras vezes --, "Os Pilares de Melkart" demorou um pouco mais para decolar. No fim, porém, a campanha ganhou fôlego e conseguiu atingir quatro de suas metas extras. Os apoiadores não apenas irão receber o livro, acompanhados de marcador e postal exclusivos, mas também dois e-books com novelas inéditas, no mesmo universo dos "Pilares", totalizando cerca de 33.000 palavras extras (equivalentes a um livro de pelo menos 100 páginas). Claro que eu adoraria ter chegado às metas seguintes, mas ter as novelas em e-book também é legal, porque depois elas ficarão disponíveis na Amazon e no site da Draco. Serão um produto de valor mais acessível que, se apreciado, pode conquistar mais leitores para o universo de Balthazar e Lísias.

Por falar em universo... Esse era o ponto em que eu queria chegar. "Os Pilares de Melkart" traz histórias originais de fantasia, com ênfase na aventura; mas para criá-las eu pesquisei muito, li muito e recordei mitos e lendas que me fascinaram desde a infância. Aprofundei isso ainda mais durante a campanha, fazendo posts, escrevendo conteúdos, participando de lives. E como isso é bem mais espontâneo do que escrever ficção -- nesta, por mais que se use o coração, também entra a técnica, a gente revisa e reescreve antes de mostrar --, a campanha mexeu bastante comigo. Me fez revisitar histórias, refletir sobre episódios da minha vida e ressignificá-los, me conduziu numa odisseia em que, felizmente, nunca estive sozinha. Amigos e leitores me acompanharam -- e agora, repassando os posts da campanha e suas interações, mais uma vez confirmo o quanto eles foram constantes e generosos. 

Se eu queria ter atingido um público ainda maior? Claro que sim. Se estou feliz com o que conquistei?  Sem dúvida alguma. Desde o início eu soube que os trabalhos de um escritor não são nada fáceis e que a maioria de nós avança passo a passo, grão a grão, gota a gota. O importante é a gente não se sentir como Atlas ou Sísifo, e sim como Héracles, que luta, rala, passa perrengue, mas sai vitorioso no fim. 

É essa a vibe do Balthazar, foi isso que a campanha me fez sentir, graças ao apoio de vocês.

Obrigada por estar comigo nessa jornada!

quarta-feira, abril 27, 2022

Os Pilares de Melkart : Rumo às Metas Extras!

Evoé! Tenho o prazer de anunciar que nossos navegadores chegaram ao porto!!!

Muito obrigada, de coração, a todos que apoiaram, divulgaram e torceram pra que a gente conseguisse.

Ilustra de Nilo Nobre

Mas, embora tenhamos chegado ao primeiro porto, a viagem não terminou! 

Até o dia 6 de maio, lutaremos pelas metas estendidas de "Os Pilares de Melkart", que serão enviadas a todos os apoiadores. Começaremos com marcador e postal, depois virão e-books de duas Novelas de Cartago (histórias de Balthazar que se passam antes das viagens narradas no livro), ilustras exclusivas do Erick Sama e, se atingirmos 200%, um LIVRO IMPRESSO EXTRA contendo as duas novelas!! 



Se você não apoiou, este é o momento. Se apoiou, continue a dar uma força na divulgação, para chegarmos o mais longe possível. Quanto mais metas alcançarmos, mais recompensas para todos!

Acesse a página do projeto e nos ajude a ir mais além!

domingo, abril 03, 2022

Os Pilares de Melkart: nova campanha no Catarse

         Gente amiga, chegou a hora de compartilhar algo que venho preparando há muito tempo.

          Vocês devem saber como sou fascinada por Mitologia e pelos épicos antigos. Alguns já devem conhecer os personagens que criei em cenários da Antiguidade e trouxe para os meus contos: Balthazar, o pirata e capitão mercante fenício, e o sonhador heleno Lísias. Agora, estou pronta para publicar um primeiro volume contendo as histórias da dupla, que vai levá-los a diferentes épocas e cenários do Mundo Antigo, desde a Creta de Minos à Jerusalém do Ano Um, passando por Tartessos e pelos bastidores do teatro grego.


        Junto com a Editora Draco, preparei uma campanha onde explico tudo sobre o projeto. Vocês poderão perceber que é um trabalho bem elaborado, que requereu muita pesquisa, mas também contou com a minha imaginação e o meu desejo de, antes de tudo, contar boas histórias repletas de fantasia, aventura e um pouco de humor.

        Convido vocês a visitar nossa página no Catarse e, se curtirem, a apoiar, não apenas com a aquisição do livro ou dos combos (o que, claro, seria fantástico!), mas também com divulgação, compartilhamentos, boca a boca...  Tudo para levar nossos navegadores o mais longe possível.

        Que as Musas nos sorriam, pois aqui vamos nós!

quinta-feira, março 24, 2022

A Feiticeira do Mar (Final)

             Pessoas Queridas,

Por fim, chegamos à última parte do conto.  Espero que gostem da resolução!


A Feiticeira do Mar

(Final)

Ilano pisca os olhos cheios de lágrimas enquanto ela volta as costas, sua expressão de dor e amargura confiadas tão somente ao espelho. A superfície de prata mostra também o rosto do jovem. Tem as feições contraídas, mas o brio que lhe resta é suficiente para que deixe a câmara em silêncio. Vai em direção ao túnel, ela adivinha. Vai chegar à cova antes que seja inundada na primeira maré da lua cheia, a mesma cova e o mesmo túnel por onde entrou o pastor, há um século, há dois séculos, tanto faz, são gotas num mar de solidão. Em contrapartida, os dias são enumerados, ano após ano, lua após lua, um calendário que se reinicia a cada vez que ela desperta na sala dos tesouros. A cada vez que seu pesadelo de escamas e sangue se assegura real.

Esta noite, o ciclo irá recomeçar. E Ilano não estará aqui para ver.

Quando a dor houver passado, talvez ainda reste algo de bom em suas lembranças sobre Cunala.

Ela se deita, olhos abertos fitando as espirais das conchas no teto. Pensa em Ilano, tão parecido com o pastor, mas cheio de uma doçura que nunca existiu no outro; pensa nele e fecha os olhos, as pálpebras de repente pesadas, tremores percorrendo sua pele enquanto a consciência afunda na espessa dimensão dos sonhos.

Seus membros já não lhe pertencem, ou talvez tenham deixado de existir. O corpo que coleia para fora do leito não obedece à sua vontade, e sim à voz do vingativo deus do rio, à maldição lançada sobre a jovem que rejeitou suas carícias. Ela se arrasta pelos cômodos do palácio, e o ruído de sua aproximação põe os servos em fuga enquanto a imagem do ouro acumulado invade seus pensamentos. É parte do seu fado, essa obsessão que cresce junto com a lua e a faz querer guardar seus tesouros, envolvê-los com as curvas de seu corpo e vigiá-lo para que ninguém o leve. Pois houve alguns, ela não sabe há quanto tempo, houve homens fortes e duas ou três mulheres que tentaram fazê-lo, e todos gritaram, cheios de horror e repugnância, quando a enorme serpente se ergueu diante deles. Seus rostos passam diante dela aos estilhaços, detalhes capturados em cacos de espelho: um par de olhos muito grandes, a barba escura de um heleno, os longos cachos da moça que era levada para ser escrava. Todos esses viveram com a feiticeira, todos ficaram no palácio durante a lua cheia -- todos tentaram roubar seus tesouros e por isso foram punidos. Seus traços se fundem num único rosto aterrorizado que ela revê enquanto sua pele sangra rasgada pelas arestas do metal.

Então, em meio ao pesadelo, outro rosto surge diante de Cunala. É o do amante que ela teve por anos, o único de quem se lembra com certa clareza quando está sob o efeito da maldição. Ele devia ter ido para a superfície, ela pensa, mas logo uma desconfiança vem encher seu coração de sombras: talvez, no fim, o belo pastor seja como os demais, talvez ele também tenha vindo por seu ouro e ela precise detê-lo, livrar-se da ameaça dessas mãos gananciosas antes que se fechem como garras sobre o seu tesouro. Neste momento estão vazias, ele as estende com as palmas para cima enquanto a boca se move proferindo palavras humanas. Cunala não as entende, mas algo nessa voz consegue apaziguar sua urgência de atacá-lo. Ela desliza para o lado e estende o pescoço, querendo ver e ouvir melhor o pastor de ovelhas --

-- e de repente o homem à sua frente não é ele, e sim um outro com traços parecidos e uma estranha doçura na voz. A feiticeira já o viu, não há muito tempo, mas é difícil situá-lo entre suas lembranças. Tudo que tem é o aqui e agora, um homem na câmara do tesouro, alguém que a maldição a impele a destruir. Ainda assim, o som que sai de seus lábios a faz hesitar; e quando, finalmente, o colhe em seus anéis, não é para esmagá-lo, e sim para trazê-lo até ela numa espécie de abraço.

Sua cabeça paira sobre a do rapaz como a ponta de uma lança. Os olhos encontram os dele e percebem medo, mas também algo mais forte, que o faz desafiar o próprio destino. As mãos se erguem para tocar a pele e o sangue de Cunala, os braços ao redor de seu corpo, que aos poucos vai relaxando o aperto. O jovem poderia se libertar, mas em vez disso continua a abraçá-la, retendo-a para que não volte a se arrastar sobre as pilhas de ouro. Assim ficam os dois por muito tempo, imagens se sucedendo na mente da feiticeira até que, pouco a pouco, as tintas comecem a esmaecer e a se apagar.

Quando, enfim, Cunala reabre os olhos, sua impressão é de ter tido novamente aquele pesadelo. Está deitada em seu leito, na câmara de nácar onde se movem os servos que trouxeram o desjejum; a câmara está aquecida, mas sua pele arde, e, ao olhar para o ventre e as coxas, percebe que estão cobertos de bálsamo. Ela se volta para os servos, que nunca antes haviam ousado tirá-la de perto do tesouro, e vê sorrisos nas bocas de lábios carnudos e dentes serrilhados. Eles se inclinam numa reverência e a deixam ali, tentando compreender o porquê de não haver despertado sobre a pilha de ouro e cambaleado sozinha até o leito, mas suas dúvidas não se prolongam por mais do que um instante. Só o tempo de descobrir Ilano entre as sombras do aposento.

-- Perdoe-me. Não pude ir – ele murmura. Cunala tenta dizer que está perdoado, mas antes que consiga falar o rapaz avança e se ajoelha junto ao leito, os braços em torno dela, a boca afundada na escuridão do seu cabelo. Ele repete que não conseguiu partir, voltou em segredo pelo túnel e descobriu a verdade sobre a maldição, mas, em vez de medo ou repulsa, sentiu ainda mais amor e orgulho por ela suportar a horrível metamorfose ao longo de séculos. Cunala diz que tornará a acontecer, e Ilano responde que sabe, mas escolheu não deixá-la sozinha; na próxima lua cheia, e em quantas mais vierem, ele estará a seu lado e a abraçará antes que ela possa se infligir o mínimo corte. Ele faz essa e outras afirmações, jura que irá amá-la para sempre e faz promessas que talvez não possa cumprir, mas a feiticeira não contesta, porque neste momento palavras não têm importância. Tudo que importa é ouvir a voz que suplantou a do deus do rio, estar nos braços que a impediram de se ferir e de feri-lo, sentir a força e a pureza desse amor que venceu a morte.

E, se não for assim para sempre, ela terá a doce lembrança de agora.

-- Você parece contente – diz Ilano, da cama, algum tempo depois.

Cunala assente, fitando o espelho de prata. Seus olhos estão límpidos, verdes, cristalinos. Não haverá tempestade, hoje, no Grande Mar.


***

E aí, o que acharam? Deixem nos comentários! Também adoraria saber se curtem histórias nesse estilo, ou escritas num estilo um pouco mais solto e ambientadas na Antiguidade. 

Não deixem de visitar o perfil Um Mês, um Conto no Instagram -- e, se gostaram desta história,  fiquem ligados no da Editora Draco. Muito em breve, nós levaremos nossos leitores a navegar nas águas do Mediterrâneo na companhia de um heleno e de um astuto capitão fenício!

Até lá!

quinta-feira, março 17, 2022

A Feiticeira do Mar (Segunda Parte)

Pessoas Queridas,

Aqui vai a segunda parte de "A Feiticeira do Mar". Espero que gostem do desenrolar da história, do romance e do mistério!



A Feiticeira do Mar

(Parte 2)

Ele começa em tom formal, agradecendo pela ajuda, depois se solta um pouco e diz que sua avó sempre falou sobre Cunala, sobre o palácio no mar e a cova na superfície. Fica junto a uma aldeia chamada Pedra do Abutre, não longe da grande cidade onde ele vive, e onde também há quem faça oferendas com vistas a ganhar as boas graças da feiticeira. Ela pergunta qual a cidade, e ele esclarece tratar-se de Gadir, fundada pelos fenícios sobre um arquipélago e agora sob os auspícios de seus deuses exigentes e caprichosos. Baal, Astarte...

-- E Melkart – diz Cunala, sem disfarçar o travo de rancor. É esse deus dos fenícios que vem angariando cada vez mais devotos, e com isso se fortalece, amplia seu poder sobre as águas e os ventos e as marés. Isso, porém, ela guarda para si, preferindo ouvir mais a respeito do náufrago, que diz se chamar Ilano e pertencer a uma família muito antiga de Gadir. Possuem uma salga de peixe, e ele tentava ampliar os negócios vendendo seu produto na Sicília. Muita esperança e boa parte do dinheiro da família viajavam naquele barco que nunca chegará a seu destino.

Cunala não tem como ajudá-lo a enfrentar essa perda. A tempestade não foi trazida por ela; o mar tem seus caprichos. Também não pode resgatar os tripulantes, pois seu poder a faz saber que estão todos mortos. Ela diz isso a Ilano, e o rapaz chora lágrimas amargas que ela recolhe no seio. Do abraço à primeira carícia, ao primeiro beijo com gosto de sal e mel – não é muito, na verdade, o tempo que transcorre.

Ilano tem pouca experiência, mas o que a maioria dos jovens compensa apenas com ardor ele oferece em carinho e cuidado. Suas mãos são ternas, a voz é doce; o ato em si é desajeitado, mas nunca brutal. Quando terminam, ele continua a fitar Cunala com os olhos muito abertos, cheios de um brilho diferente do que havia até então.

-- Quero ficar com você – ele murmura. A feiticeira hesita – já viu esse brilho noutros olhos, e lembra o que aconteceu --, mas no fim decide seguir com seus planos. Não será isso que irá perder Ilano para sempre, e ela merece esse presente, sete dias e sete noites em que terá um amante, quem sabe um amigo, alguém que a ajude a não esquecer as palavras humanas. É isso, e nada mais, que ela promete ao náufrago.

Ilano não entende o porquê de um prazo tão curto, mas aceita e jura devotar a Cunala cada instante que passar no palácio. Nessa noite, os dois se dedicam ao conhecimento do outro, bocas, mãos e cada desvão do corpo do outro, um aprendizado que dispensa palavras, mas que, ao menos para Cunala, é o que se mostra mais urgente. Por sua vez, Ilano tem perguntas, porém as guarda para fazer ao longo dos dias seguintes: os sete dias que passarão juntos, boa parte deles na cama, mas às vezes diante das janelas translúcidas que lhes permitem ver o mar sem deixar o palácio.

A paisagem de rochas e algas é sempre a mesma, mas Ilano se encanta com os cardumes prateados, com os polvos lentos e solenes, com o ruído surdo das correntes e os súbitos clarões do mar noturno. Em Gadir, ele sempre esteve cercado pela água, mas nunca foi além da superfície. Jamais teria sonhado ver essas maravilhas, como jamais teria sonhado estar com alguém como Cunala, e tanto o mar quanto a mulher o têm cada vez mais preso a seus encantos. Ela percebe o que se passa com ele, e às vezes pensa em adverti-lo, mas sempre acaba por deixar a ideia de lado. Não há por que antecipar o sofrimento que virá no fim, provavelmente intenso para ele – um homem doce, e ainda tão jovem --, porém mais duradouro para ela, porque as lembranças dele se misturarão com as de outros amantes, a todas as ausências que acrescentam peso à sua solidão.

Sem querer falar do assunto, Cunala se desvia das perguntas que, como a maioria dos homens, Ilano faz a respeito de seus antecessores. Em vez disso, conta sua própria história: a história de uma jovem comum, de uma beleza sem par, diziam, porém mais uma moça vivendo numa aldeia à sombra da Pedra do Abutre, naquele tempo em que os deuses fenícios ainda não haviam destronado os locais. Lá vivia um antigo senhor do rio, que cobiçou Cunala e tentou arrastá-la para sua morada sob as águas. Para livrar-se dele, ela se atirou ao mar, onde a Grande Mãe lhe deu refúgio e onde, com o tempo, cresceram seus poderes de feiticeira. Há muito ela suplantou o deus do rio, que desapareceu pelo esquecimento, como tantos senhores das águas, dos bosques e das cavernas. Suplantou e sobreviveu a ele, embora carregasse uma maldição que a impediu de voltar ao mundo dos homens e causou a morte de muitos dos seus amantes. O último foi o pastor de ovelhas, que ela pensou poder manter para sempre a seu lado... e cujo rosto lhe vem à memória sempre que ela vê o perfil bem desenhado de Ilano.

As lembranças são dolorosas, mesmo para alguém tão provado pelo tempo como a feiticeira. Ela não fala do pastor nem conta os detalhes da maldição, embora isso lhe passe pela cabeça sempre que as mãos do amante encontram suas cicatrizes. São miríades de linhas brancas que se entrecruzam em seu ventre, em seus seios, em suas coxas, e sobre elas algumas rosadas mostrando os ferimentos mais recentes. Outras virão, muito em breve: ela nem precisa olhar para as conchas enfileiradas ao lado da cama, às quais jamais se esquece de fazer o acréscimo diário. Cunala sabe, porque seu ânimo é cada vez mais sombrio; ela se enfureceu com os servos, por entrarem sem avisar em seus aposentos, e com os homens na superfície pela escassez de oferendas. Zangou-se até com Ilano e suas perguntas. E quando, nessa mesma noite, volta a sonhar com a câmara do tesouro, ela compreende que já não pode adiar o assunto doloroso.

-- A lua cheia se aproxima – diz Cunala ao jovem hispânico. – Você precisa deixar o palácio. Leve moedas, joias, o que puder ajudá-lo em seu regresso a Gadir. Aqui... em breve... deixará de ser um lugar seguro.

Cada palavra é um espinho ferindo sua boca. Ela não quer que Ilano se vá, não porque o ame – sua alma é velha demais, experiente demais, ela conhece demasiado o mundo e a si mesma para receber a dádiva do amor --, mas porque gosta de sua companhia e de ter companhia. Mais uma vez, precisa resistir ao desejo de prolongar sua estada ali, como fez com o pastor, pois sabe que no fim virão a amargura e o arrependimento. De qualquer modo não é justo. Salvar a vida de alguém para depois decidir onde e como ele irá vivê-la – é o mesmo que salvá-la pela metade.

Ilano não recebe bem as palavras da feiticeira. Ele a ama, diz, sem saber quantos homens fizeram o mesmo ao longo dos séculos que dura a maldição. Ele fala sem saber que em sua voz ecoa a dos amantes mortos. Cunala insiste que ele vá, ameaça-o com seus encantos e até com sua ira, mas tudo que consegue é que se ajoelhe e implore que o deixe ficar, ainda que como um simples escravo. Então ela decide contar sobre o pastor de ovelhas, e o faz num tom sussurrado que a cada momento se torna mais áspero.

O mar escurece através das janelas enquanto ela murmura: o homem antes de Ilano foi o que mais falou a seu coração. A feiticeira deixou que ficasse, porque pensava ter achado um jeito de mantê-lo ali para sempre. A cada quarto de lua, mandava-o ficar na superfície, oculto nas proximidades da Cova de Cunala, alimentando-se das oferendas que levava consigo. Depois, voltava para ela, que o fazia beber um elixir a fim de preservá-lo da velhice. E assim viveram juntos muitos e muitos anos.

-- Então, ele começou a ter saudades de casa – sussurra a feiticeira. -- Lembrava-se dos pais, chorava por tê-los abandonado, e seu coração se afastou de mim. No entanto, muito tempo havia se passado; ele se converteria num ancião assim que se afastasse de minha magia. Eu lhe disse isso, mas mesmo assim ele partiu, e eu não pude impedi-lo. Não sei o que aconteceu, mas... se ele voltou à sua aldeia... deve ter sido apenas para morrer nos braços de homens e mulheres que poderiam ter sido seus netos.  

Ilano engole em seco, mas mesmo assim insiste em ficar. Não precisam ser anos; que seja uma lua, um quarto de lua, o tempo que Cunala decidir. Ela pensa na solidão que a aguarda quando ele se for, dias e noites sem outro som que não os ruídos do mar, sua cama vazia, mas disso mesmo consegue fazer sua fortaleza: ela é capaz de passar por tudo outra vez. O que não quer é reviver sua história com o pastor, nem que aconteça a Ilano o mesmo que a ele, ou ainda que se arrisque a acabar como alguns dos outros – e antes que se traia, revelando aquilo que, por monstruoso demais, decidiu guardar só para si, Cunala endurece suas palavras e seu coração.

-- Nem mais um dia. Eu me cansei de você – diz ela. Usa seu poder para fazê-lo acreditar que é verdade. Escorraçado, o jovem mal consegue erguer os olhos cheios de dor, e assim permanece enquanto a feiticeira põe em seus ombros a pele de uma ovelha deixada na gruta pelos devotos. Não torna a oferecer dinheiro e joias, porque estão na sala dos tesouros e ela a evita o mais que pode na proximidade da lua cheia, mas lhe dá um odre de vinho e alguma comida para levar na viagem. Dentre os súditos fiéis, convoca os que podem sair à superfície, seres com pinças e duras carapaças, e ordena que escoltem Ilano pelo túnel de terra que dá acesso à cova em Pedra do Abutre.

-- Perto dali passa um rio que se encontra com o mar, e deve haver barcos. Entre num deles e siga sua vida – diz Cunala. – Não olhe para trás.


(Continua... Voltem dia 24/3 para ler o final!)

***

E aí, o que acharam? Deixem nos comentários! E não se esqueçam de visitar o perfil Um Mês, um Conto no Instagram!

Até a próxima!