segunda-feira, julho 03, 2017

De Amor e Eternidade : parte 1



O primeiro conto do projeto nos leva até a Cartago do século IV a. C. Ali, Balhazar de Tiro (que meus quatorze leitores e meio devem conhecer) foi adotado como avô pelos filhos de seu antigo ajudante, Sikkar, sobrinho do rico negociante Aníbal, o Achacoso. Ele visualiza um futuro para a família longe de Cartago, especialmente para as gêmeas Nikka e Jeza, a quem conta histórias do seu passado com a clepsidra mágica... e com alguém de quem nunca foi capaz de se esquecer. 

A ilustração foi pedida a Sheila Lima Wing, que tem um traço limpo, bem legal para ilustrar histórias para crianças ou jovens. E aqui vai uma confidência: estou escrevendo histórias da Nikka e da Jeza um pouco mais velhas. Espero que vocês gostem e deixem muitos comentários!


-- Ei, vocês, podem parar! Aonde as gatinhas sorrateiras pensam que vão?
Balthazar cruzou os braços e fez cara de mau. Pegas em flagrante, as gêmeas se deram as mãos, faces vermelhas num primeiro momento, para explodir em risadinhas logo a seguir. O fenício também riu. Atravessando a sala, sentou-se num divã, próximo à janela, e chamou as garotas para junto de si.
-- Sua mãe está fazendo seu irmãozinho dormir – explicou, pela terceira ou quarta vez, apontando a escada. -- Não é para vocês irem lá em cima.
-- Ah, Avô Baltha, a gente só queria ver ele. É tão gordinho e fofinho – disse uma das gêmeas, apertando as próprias bochechas.
-- E a gente não iria fazer barulho. Tiramos até as pulseiras – disse a outra, estendendo os braços.
-- Eu sei, mas ele fica agitado quando vê vocês, mesmo que estejam quietas. Sua mãe precisa de tranquilidade, e sua aia está ocupada, então vamos ficar um pouco aqui embaixo, certo?
-- Certo, mas a gente pode brincar? – perguntou a menina. Balthazar concordou, e ela olhou com malicia para a gêmea antes de prosseguir. – Adivinha quem eu sou: a Nikka ou a Jeza?
-- Hum... Deixe-me ver. – Enrolou a barba branca entre os dedos, fazendo-as rir: o Avô Baltha era um ótimo parceiro de jogos. – De manhã me disseram que Nikka estava de verde e Jeza de lilás. Mas vocês podem ter trocado uma com a outra nesse meio-tempo, não podem?
-- Podemos. – As vozes iguais, os dentes como gotinhas de leite, um deles faltando. Até os dentes elas mudam ao mesmo tempo, pensou o capitão.
-- Bom, não sei se trocaram de roupa, então... Já sei: levantem o braço direito. Aaaargh! Podem baixar, já vi que as duas vão precisar de um bom banho daqui a pouco!
Com isso, as crianças se puseram a rir, uma apenas divertida, a outra gargalhando tanto que teve de segurar a barriga. Essa devia ser Jezabel, que chamavam de Jeza, sempre disposta a uma brincadeira. A outra, mais comedida, era Nikka, apelido de Nikkal. Se bem que ele tinha um jeito infalível de saber, bastando olhar a trancinha discreta, quase escondida entre os cachos negros da gêmea risonha. Aquilo fora feito em segredo por Núria, a aia siciliana, enquanto as duas dormiam – e não fora descoberto, nem refeito por dedinhos de sete anos no cabelo da irmã mais séria.
-- Bom, vou arriscar. Você, que não para de rir, é a Jeza – disse Balthazar, sem querer deixá-las ganhar todas as vezes. – A outra é a Nikka. E vocês não trocaram de roupa. Acertei?
-- Acertoooou! – Jeza se atirou para a frente, caindo nos seus braços e o beijando na face antes de subir no divã.
-- Como você descobriu? – Nikka o olhou desconfiada.
-- Ah, eu conheço vocês – disse ele, evitando revelar o truque da siciliana. – Mesmo vivendo em Alexandria e vindo poucas vezes a Cartago, conheço o jeito de todos os meus netos.
As palavras saíram de seus lábios com facilidade. Ele conhecera o pai e a mãe daquelas meninas quando bem jovens, e, com o tempo, passara a amá-los como se fossem do seu sangue. Agora tinham sete filhos, e Balthazar se sentia um avô de verdade, gostava de aconselhar os rapazes mais velhos e de brincar com as crianças. Estava encantado com o novo bebê. Em tudo e por tudo, por mais que anos atrás isso parecesse impossível, aqueles cartagineses tinham se tornado a sua família, e isso o ajudava a aplacar a dor de tantas perdas.
E, ainda assim, às vezes ele tinha que achar maneiras de extravasá-la.
-- Bom, venci o jogo – disse, sorrindo para as gêmeas. – Agora, quem quer ouvir uma história?
-- Eu! – gritaram as duas.
-- Uma história do Lísias – disse Jeza, como Balthazar esperava que uma delas fizesse. – Mas não uma das tristes, em que vocês viram escravos e são chicoteados ou coisa assim. Conte uma engraçada.
-- Qual? A do Epaminondas?
-- Não, a do cachorro não. A do camelo Menelau – propôs Nikka.
-- Ah, essa também não – disse Jeza. – Conte uma nova, Avô Baltha!
-- Uma nova? Acho que já contei todas.
-- Invente uma – replicou a menina.
-- Não posso. Essas histórias não são inventadas.
-- Aníbal disse que sim – teimou Jeza. – Que o Lísias existiu, claro, mas era só um escravo que viajava com você. Não houve nada dessas histórias de clessipidra.
-- Clepsidra – corrigiu Balthazar. – Seu irmão diz isso porque é um cabeça-dura, igual ao velho tio de quem herdou o nome. A clepsidra era real. Lísias e eu viajávamos com ela para o passado e para o futuro. Já contei como a conseguimos?
-- Eu sei! No templo do deus egípcio! – exclamou Nikka.
-- Não, não. Você está misturando as coisas. A clepsidra era de Thoth, o deus egípcio de cabeça de íbis, mas nós a pegamos num templo dos helenos. Do deus do mar, que eles chamam de Poseidon. Então, estávamos na ilha de Ebusos...
Foi em frente, contando como um estranho sacerdote egípcio o contratara para roubar a relíquia, como eles tinham feito para descobrir o encanto da viagem no tempo e como Lísias o usara pela primeira vez, tirando-os de cena em meio a um ataque de piratas. Enfeitou a narrativa para ressaltar a bravura de Sikkar, o pai das meninas, embora não tivesse visto como ele se saíra em combate. Tudo que sabia é que ficara vivo e negociara sua liberdade e a dos companheiros remanescentes, paga por seu tio Aníbal, que era o dono do barco. Isso naquela outra linha da história, a linha em que Balthazar não retornava de suas viagens. Por que, no fim, tinha escolhido um caminho diferente? Essa pergunta o acompanhara por um bom tempo depois de voltar a Cartago.
E só mais tarde – bem mais tarde – ele conseguira entender.

(Continua... Mas, para quem ficou curioso, dá para ler, aqui mesmo no blog, a história do Camelo Menelau.)

Sigam para a Parte 2!

9 comentários:

ALE DOSSENA disse...

Oi Ana!! Que delícia acompanhar um projeto assim! Adorei te descobrir no canal da Lu evans, seu livro está me ajudando no meu TCC sobre contos de fadas e agora quero conhecer todo o seu trabalho!! Bjs e sucesso!

Ana disse...

Puxa, muito obrigada! Com esta série você conhecerá vários dos meus personagens. Se curtir, comente e divulgue, isso ajuda muito. Beijos!

Claudia Du disse...

Que texto leve e limpo!!! Adorei as meninas e a história dos piratas é aquela mesma da coletânea, não?

Guilherme Vertamatti disse...

Gostei muito do texto! Como a Claudia disse, está muito leve.
Me deu aquele gostinho de mil e uma noites.

E o tamanho dele está ótimo, para um blog e para crianças lerem, hehe.

Sheila Lima Wing disse...

Linha de história? Isso pode ser interessante (e um pouco "tricky" dependendo de como a história vai ser conduzida)! Só posso especular aqui que aconteceu alguma viagem no tempo que mudou o futuro, masvou tentar segurar minha tendência Whovian de sair especulando sobre as coisas... hehe.
A Jeza e a Nikka estão mais novas na história? Muito fofo o momento avô-netinhas! Logo, logo vou conhecer o camelo Menelau também, o texto já está no meu Kindle.

Beijinhos Alados ♥

Ana disse...

Oi, Sheila, sim, nessa história elas têm sete anos e na série de livros começam com 13. O bebê que aparece aí pequenininho já tem seis anos na série e se chama Hanon, como o navegador de Cartago. :)

Muita coisa pode ter acontecido, há um grande mistério envolvendo Lísias! Mas isso só vai saber quem acompanhar as três fases da série.

Ana disse...

Claudia, é o mesmo Balthazar, que se refere às viagens que ele fez com a clepsidra (e Lísias). O conto de Piratas conta como a adquiriram. Esse conto menciona também Sikkar, o pai das gêmeas, que acabou por se tornar um dos personagens-chave da série.

Astreya disse...

Ana, amei este início, como o pessoal disse, ficou tão leve e limpo, e as meninas e o Balthazar de vovô ficaram adoráveis!!! Mas o meu coração está apertadíssimo por causa do Lísias, o que aconteceu com ele? Como você disse aí em cima, é um grande mistério, e juro para você que fiquei de olhos marejados só de ler a parte do início em que você menciona "alguém de quem ele nunca foi capaz de se esquecer". Sim, o texto é leve, mas consegui sentir toda a saudade e a nostalgia que há nessa figura mais grisalha do Balthazar, algo bem agridoce. Enfim, desculpe a falação, mas é que adoro o Lísias (sério! Mesmo, mesmo) e a parceria desses dois... e olha que nem li tudo o que há para se ler deles ainda, mas o carisma é tanto...

(E será que sai uma história com Anna e Kyara depois?)

Ana disse...

Astreya querida, o que aconteceu com o Lísias é um grande mistério que só alguns anos à frente será resolvido! Mas não esquente, ambos estão felizes com o que escolheram... e sabem esperar! :)

Quanto à sua última pergunta: que dúvida? :) Sexta-feira elas estarão por aqui. Espero que continue conosco! :)