Houve um tempo em que as pessoas não tinham fogo. No inverno, elas não podiam se aquecer, e tinham que comer os alimentos crus. O fogo era guardado numa grande rocha branca pertencente a Trovão, um ser terrível, de quem até mesmo o Urso e o Leão da Montanha tinham medo.
Coiote não tinha medo de Trovão. Um dia, este rugiu tão alto que todas as criaturas se esconderam. Coiote achou que esse era o momento de roubar o fogo. Então, Coiote subiu até a montanha mais alta, onde Trovão vivia, e lhe disse: "Tio, vamos jogar dados. Se vencer, você me mata. Se eu vencer, você me dá o fogo".
Trovão havendo concordado, os dois jogaram com dados feitos dos dentes de castores e marmotas, com desenhos em cada lado representando uma pontuação. Havia gravetos, ao lado, para contar os pontos. Mas Coiote, o mestre da trapaça, continuamente distraía Trovão, com isso conseguindo finalmente ficar com todos os gravetos. "Tio, eu venci", disse ele. "Dê-me o fogo". Trovão sabia que Coiote havia trapaceado, mas não tinha como provar.
Coiote chamou todos os animais ao topo da montanha para que o ajudassem a carregar a rocha que continha o fogo. Ela era grande, mas frágil como uma concha. Os animais se prepararam para levá-la, mas Trovão rugiu: "Não tão rápido. Coiote ganhou o jogo e por isso eu lhe dei o fogo, mas ele trapaceou e, portanto, vou matá-lo. Onde ele está?"
Bem, Coiote havia lido os pensamentos de Trovão e antecipado o que ele faria. Coiote podia despir a parte externa de seu corpo, como se fosse uma manta, por isso tirou a pele, o pêlo, o rabo, as orelhas - tudo - e partiu apenas com seus órgãos internos. Então, mudando o tom de voz, como se estivesse muito perto, chamou: "Tio, estou aqui. Mate-me se puder".
Trovão pegou a rocha que continha o fogo e atirou sobre o que acreditava ser o Coiote. Mas acertou apenas a pele e o pêlo. A rocha se quebrou em várias partes. Cada animal pegou um pedacinho e colocou sob o braço ou a asa, e todos se apressaram a levar o fogo às tribos da Terra. Coiote, calmamente, voltou a vestir seu manto de pêlo. "Adeus, tio", disse ele a Trovão. "Não volte a apostar. Não é o que você faz melhor". Então, ele se foi.
......
Texto adaptado por mim a partir da história contada por um narrador Klamath (tribo do Oregon), contida em American Trickster Tales, de Richard Erdoes e Alonso Ortiz (Penguin Books).
quarta-feira, julho 07, 2004
O Coiote: um trickster norte-americano
Coiote, Coiote, por favor, me diga
O que é a magia?
Magia é o primeiro gosto
das framboesas maduras, e
magia é uma criança dançando
sob a chuva de verão.
(Peter Blue Cloud. Elderberry Flute Song).
......
Pessoas,
Através destes versos do poeta de origem iroquesa, Peter Blue Cloud, tenho o prazer de apresentar um dos meus tricksters prediletos: Old Man Coyote.
Ao contrário de seus "colegas" do Velho Mundo, que têm (quase o tempo todo) uma aparência humana, os trapaceiros das histórias nativas americanas vêm sendo freqüentemente descritos como animais, embora pensem como homens e possam assumir essa forma. Segundo o etnólogo William Bright, isso se deve ao fato de esses mitos terem sido erroneamente interpretados pelos europeus, uma vez que os animais que aparecem nas histórias não são, na realidade, animais comuns. Eles são Primeiras Pessoas, membros de uma raça anterior à nossa, com poderes que os elevaram ao status de semideuses, heróis culturais e/ou antepassados da raça humana. As características desses seres teriam passado aos animais que carregam seus nomes, cujas figuras são algumas vezes utilizadas em representações do mito. Assim, os totens com figuras de corvos e as histórias sobre corvos, por exemplo, se referem na verdade a um Primeiro Corvo, ou ao Espírito que anima todas essas aves; e este pode estar identificado com uma pessoa, clã ou tribo que o tem como uma espécie de guia ou protetor.
No Brasil, animais como o jaguar e o gavião-real aparecem freqüentemente nessa posição, enquanto o papel de trapaceiro cabe a personagens como o Jabuti, do qual existe todo um ciclo de histórias, a Anta, a Saracura e o famoso Boto dos igarapés amazônicos. Já nas Américas do Norte e Central, vários animais são associados à figura do trickster, como a Aranha, o Corvo e a Lebre; mas o mais popular de todos é sem dúvida o Coiote, que deve seu nome (coyótl) aos Astecas e cujas histórias ocorrem numa área fenomenalmente extensa, que abrange desde a Colúmbia Britânica até a Guatemala.
Ainda segundo Bright, a adaptabilidade do Coiote (o que se estende ao animal propriamente dito, Canis Latrans) e o fato de se tratar de um dos mitos mais antigos o levam a ser chamado, em várias regiões, de "Old Man Coyote", ou simplesmente "Old Man". No entanto, a função do personagem no mito varia segundo a cultura. De um modo geral, o Coiote sempre está ligado ao desejo por comida e por sexo; mas, na Califórnia e na região do Plateau (Oregon, Idaho), ele é mais próximo do arquétipo do trickster e, portanto, mais comparável a seus congêneres de outras mitologias, com narrativas ligadas à criação do Mundo e ao roubo do Sol. Na Baixa Califórnia, o Coiote estaria mais envolvido com os tempos modernos, havendo registros de histórias que mostram as disputas entre ele e os soldados dos fortes militares, enquanto na América Central e no México não se assemelha de forma alguma a um herói cultural, fazendo quase sempre o papel de tolo (esse aspecto deve ter inspirado os criadores de Wile E. Coyote, o "Coiote" da Warner Bros. ... com o que ele gasta encomendando "armas mortíferas" da ACME, já teria sido possível pagar várias refeições mais substanciais do que o magricela do Beep-Beep!). ;)
Em suas obras de auto-conhecimento baseadas na tradição nativa americana, Jamie Sams aponta ainda a identificação entre o Coiote e aquilo que é conhecido como a "Criança Interior": aquele aspecto, dentro de nós, que é verdadeiro e inocente, livre das máscaras do "personagem social" que aprendemos a encarnar. A interpretação ganha força se pensarmos nele (e nos demais tricksters) como aqueles que, tal como as crianças, conservam todas as suas potencialidades intactas: a capacidade de ação, a do reinício, a da sobrevivência e, last but not least, a da quebra das regras estabelecidas. Enfim, o Coiote é capaz de qualquer atitude inesperada, mas sua existência e participação nas narrativas é fundamental para que as coisas continuem acontecendo. E, contra as expectativas dos que previam o fim dos mitos e histórias populares no mundo moderno... elas continuam.
Entre os nativos americanos, as histórias do Coiote ainda são usadas como forma de ensinar os valores tradicionais e fortalecer o senso de identidade e dignidade. Por outro lado, a partir da década de 1950, os pesquisadores começaram a registrar as histórias, estabelecendo conexões com outros mitos e sistemas de crenças - o beatnik Gary Snyder, por exemplo, traçou um incrível paralelo entre o Coiote e os ensinamentos do zen-budismo - e contribuindo para a sua difusão, ao passo que autores como Blue Cloud e Bruce Bennet se inspiraram no trapaceiro em seus poemas e textos literários. Assim, aos poucos, nosso Old Man deixou de ser uma figura restrita às narrativas orais dos nativos americanos para assumir, finalmente, as dimensões universais que compartilha com seres tão ilustres quanto Hermes, Sísifo, Ulisses e o hour-concour nórdico, o trickster por excelência e patrono destas páginas: Loki Laufeyjarson.
Arte de Kyoht Luterman.
Fantasy Fiction: uma síntese
Dentre todos os gêneros literários, este talvez seja o mais difícil de definir. Associado, na maior parte das vezes, a histórias que se passam em mundos imaginários, com a participação de Elfos, magos e dragões, ele pode, no entanto, admitir as mais diversas temáticas, desenvolvidas em quaisquer cenários, inclusive o atual e urbano. Basta apenas que se esteja de acordo com a definição mais ampla, segundo a qual a literatura do tipo fantasy é toda aquela que evoca o mágico, o sobrenatural, o invisível... Enfim, toda a narrativa de ficção que não se desenvolve dentro de parâmetros perfeitamente ajustados ao mundo que conhecemos como "real".
Dentro dessa definição, podem-se considerar como pertencentes ao gênero boa parte dos clássicos da Antigüidade, desde a Gesta de Gilgamesh (cerca de 2000 a. C.) às obras de Homero e de Virgílio. De fato, se pensarmos bem, os elementos mágicos - aqueles que hoje caracterizam a literatura do tipo fantasy - estão todos presentes nesses textos: a aventura, os encantamentos, a jornada do herói. Ao longo dos séculos, esses elementos continuam a aparecer, tanto na literatura européia - as sagas nórdicas e os romances de cavalaria são bons exemplos - quanto na tradição escrita e oral de outras civilizações. No entanto, a maior parte dos autores contemporâneos, embora concorde com a influência exercida pela literatura ancestral sobre a fantasy moderna, atribui a esta um perfil próprio, no qual o elemento mágico (que pode ou não se estender até a criação de um mundo imaginário, ou de raças diferentes da humana) é deliberadamente introduzido pelo autor com o intuito de provocar no leitor o espanto e o deslumbramento.
Além de se inspirar nos antigos mitos e narrativas - e, é claro, em sua própria criatividade - os autores de fantasy também se valem de ciências como a filologia, a história, a antropologia e a arqueologia, criando histórias ambientadas em civilizações antigas ou lendárias. Robert E. Howard (autor das histórias de Conan) foi ainda mais longe, criando uma completa "Era Hiboriana", com atlantes, pictos, estígios, lemurianos e - é claro - cimérios. Outros escritores preferem deslocar a ação para mundos inventados (com ou sem conexão com o nosso), ou para o futuro, havendo também os que introduzem elementos mágicos no mundo "real". Nesses casos, a fantasy se confunde facilmente com a ficção científica e com o que se costuma chamar de "literatura fantástica". Na verdade, as fronteiras entre esses gêneros de ficção são muito tênues, e algumas obras mesclam características de dois ou mais dentre eles, podendo facilmente se enquadrar em mais de uma definição.
Outro tipo de história facilmente confundido com a fantasy são as obras destinadas ao público infantil e infanto-juvenil. Na verdade, muitas delas pertencem, realmente, ao gênero: a única diferença é terem sido escritas para crianças. Os leitores adultos de fantasy provavelmente apreciariam a leitura, ou a releitura, de autores como Barrie, Andersen, Astrid Lindgren e Michael Ende. Essa interface tem sua contrapartida, havendo uma boa possibilidade de que as crianças, tendo contato com essas obras, venham a se tornar mais tarde leitores de fantasy destinadas ao público adulto.
Um ponto importante a destacar quando se fala sobre fantasy é a grande variedade de subgêneros, isto é, de tipos de narrativa que podem se enquadrar nessa definição. Os mais conhecidos são a chamada high fantasy (literalmente, "alta fantasia"), na qual os heróis se engajam em uma causa, geralmente na luta contra o mal; a aventura, da qual faz parte o tipo de história conhecido como "sword and sorcery"(espada e magia); a fantasy humorística; a fantasy do tipo conto de fadas, sejam eles modernos ou a recriação de antigas narrativas; a dark fantasy, que agrega elementos de terror e suspense; por fim, a fantasy contemporânea, na qual a ação se passa, ou tem um ponto de partida, no mundo atual. Em relação a esse último tipo, Tom Shippey, na introdução ao "Oxford Book of Fantasy Stories", afirma que o herói é muitas vezes motivado pelo escapismo, pelo desejo de transcender a sua existência "comum"... o que, entretanto, não é uma prerrogativa da história do tipo contemporâneo. O próprio Shippey, aliás, o admite, ao dizer que o grande apelo da fantasy ao leitor é o de " lhe dar a sensação de que existe um grande universo além das fronteiras visíveis", o qual, se a sua imaginação for criativa o bastante, ele poderá ser levado a visitar. E essa afirmação é ainda melhor compreendida se a ela juntarmos as palavras de J. R. R. Tolkien , em sua conferência acerca dos contos de fadas:
Fantasy não é a negação do real, mas um meio de atingir uma compreensão mais completa (...). A fuga se segue como uma liberação da prisão dos hábitos e das convenções do mundo real e contemporâneo, e do cultivo da habilidade de imaginar possbilidades que vão além dos nossos limites.
Vemos, assim, que a fantasy não implica em alienação, e sim na aquisição de uma perspectiva mais ampla segundo a qual o mundo pode ser visto e compreendido. Através dela, o leitor entra em contato com os arquétipos mais poderosos de sua psique, transporta-se para o reino do simbólico, exercitando sua criatividade e afirmando suas qualidades intrínsecas. Ainda que o seu dia-a-dia aparentemente não sofra quaisquer modificações, elas certamente se darão, no que concerne à sua abordagem e à interação com as pessoas e as coisas à sua volta. Pois fantasy, antes de tudo, tem a ver com mágica. E é essa mágica, contida em suas páginas, que o leitor acabará por descobrir nas entrelinhas do mundo real.
......
Obras utilizadas como referência para este artigo
MARTIN, Philip (ed.). The writers guide to fantasy literature. Waukesha : The Writer Books, 2002.
MATHEWS, Richard. Fantasy: the liberation of imagination. New York : Routledge, 2002.
SHIPPEY, Tom (org.). The Oxford book of fantasy stories. Oxford: University Press, 2003.
Dentro dessa definição, podem-se considerar como pertencentes ao gênero boa parte dos clássicos da Antigüidade, desde a Gesta de Gilgamesh (cerca de 2000 a. C.) às obras de Homero e de Virgílio. De fato, se pensarmos bem, os elementos mágicos - aqueles que hoje caracterizam a literatura do tipo fantasy - estão todos presentes nesses textos: a aventura, os encantamentos, a jornada do herói. Ao longo dos séculos, esses elementos continuam a aparecer, tanto na literatura européia - as sagas nórdicas e os romances de cavalaria são bons exemplos - quanto na tradição escrita e oral de outras civilizações. No entanto, a maior parte dos autores contemporâneos, embora concorde com a influência exercida pela literatura ancestral sobre a fantasy moderna, atribui a esta um perfil próprio, no qual o elemento mágico (que pode ou não se estender até a criação de um mundo imaginário, ou de raças diferentes da humana) é deliberadamente introduzido pelo autor com o intuito de provocar no leitor o espanto e o deslumbramento.
Além de se inspirar nos antigos mitos e narrativas - e, é claro, em sua própria criatividade - os autores de fantasy também se valem de ciências como a filologia, a história, a antropologia e a arqueologia, criando histórias ambientadas em civilizações antigas ou lendárias. Robert E. Howard (autor das histórias de Conan) foi ainda mais longe, criando uma completa "Era Hiboriana", com atlantes, pictos, estígios, lemurianos e - é claro - cimérios. Outros escritores preferem deslocar a ação para mundos inventados (com ou sem conexão com o nosso), ou para o futuro, havendo também os que introduzem elementos mágicos no mundo "real". Nesses casos, a fantasy se confunde facilmente com a ficção científica e com o que se costuma chamar de "literatura fantástica". Na verdade, as fronteiras entre esses gêneros de ficção são muito tênues, e algumas obras mesclam características de dois ou mais dentre eles, podendo facilmente se enquadrar em mais de uma definição.
Outro tipo de história facilmente confundido com a fantasy são as obras destinadas ao público infantil e infanto-juvenil. Na verdade, muitas delas pertencem, realmente, ao gênero: a única diferença é terem sido escritas para crianças. Os leitores adultos de fantasy provavelmente apreciariam a leitura, ou a releitura, de autores como Barrie, Andersen, Astrid Lindgren e Michael Ende. Essa interface tem sua contrapartida, havendo uma boa possibilidade de que as crianças, tendo contato com essas obras, venham a se tornar mais tarde leitores de fantasy destinadas ao público adulto.
Um ponto importante a destacar quando se fala sobre fantasy é a grande variedade de subgêneros, isto é, de tipos de narrativa que podem se enquadrar nessa definição. Os mais conhecidos são a chamada high fantasy (literalmente, "alta fantasia"), na qual os heróis se engajam em uma causa, geralmente na luta contra o mal; a aventura, da qual faz parte o tipo de história conhecido como "sword and sorcery"(espada e magia); a fantasy humorística; a fantasy do tipo conto de fadas, sejam eles modernos ou a recriação de antigas narrativas; a dark fantasy, que agrega elementos de terror e suspense; por fim, a fantasy contemporânea, na qual a ação se passa, ou tem um ponto de partida, no mundo atual. Em relação a esse último tipo, Tom Shippey, na introdução ao "Oxford Book of Fantasy Stories", afirma que o herói é muitas vezes motivado pelo escapismo, pelo desejo de transcender a sua existência "comum"... o que, entretanto, não é uma prerrogativa da história do tipo contemporâneo. O próprio Shippey, aliás, o admite, ao dizer que o grande apelo da fantasy ao leitor é o de " lhe dar a sensação de que existe um grande universo além das fronteiras visíveis", o qual, se a sua imaginação for criativa o bastante, ele poderá ser levado a visitar. E essa afirmação é ainda melhor compreendida se a ela juntarmos as palavras de J. R. R. Tolkien , em sua conferência acerca dos contos de fadas:
Fantasy não é a negação do real, mas um meio de atingir uma compreensão mais completa (...). A fuga se segue como uma liberação da prisão dos hábitos e das convenções do mundo real e contemporâneo, e do cultivo da habilidade de imaginar possbilidades que vão além dos nossos limites.
Vemos, assim, que a fantasy não implica em alienação, e sim na aquisição de uma perspectiva mais ampla segundo a qual o mundo pode ser visto e compreendido. Através dela, o leitor entra em contato com os arquétipos mais poderosos de sua psique, transporta-se para o reino do simbólico, exercitando sua criatividade e afirmando suas qualidades intrínsecas. Ainda que o seu dia-a-dia aparentemente não sofra quaisquer modificações, elas certamente se darão, no que concerne à sua abordagem e à interação com as pessoas e as coisas à sua volta. Pois fantasy, antes de tudo, tem a ver com mágica. E é essa mágica, contida em suas páginas, que o leitor acabará por descobrir nas entrelinhas do mundo real.
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Obras utilizadas como referência para este artigo
MARTIN, Philip (ed.). The writers guide to fantasy literature. Waukesha : The Writer Books, 2002.
MATHEWS, Richard. Fantasy: the liberation of imagination. New York : Routledge, 2002.
SHIPPEY, Tom (org.). The Oxford book of fantasy stories. Oxford: University Press, 2003.
Cenas de um Casamento
Para quem não sabe, os casamentos por procuração não são coisa do passado.
Pelo menos não inteiramente...! Embora hoje sejam bem mais raros, eles ainda acontecem, principalmente quando um dos noivos é diplomata ou membro de uma organização internacional,não podendo comparecer à presença do juiz... ou quando esse comparecimento, por qualquer razão, se torna difícil.
O nosso caso foi bastante simples. Nós estávamos namorando há alguns anos e
planejávamos morar juntos quando eu me formasse e conseguisse trabalho.
Acontece que, faltando alguns meses para eu concluir a graduação, João
partiu para Lisboa a fim de cursar o Mestrado; e, como o casamento civil
facilitaria a concessão da minha residência (e a da passagem aérea, que meu
pai só me daria para encontrar o marido e não o namorado), decidimos fazer
correr os papéis no meio daquele ano.
O processo foi tranqüilo, com uma única ressalva: devido à grande quantidade de casamentos em Julho, o mês previsto pelo pessoal do cartório, o nosso acabou ficando para 5 de Agosto... o que fez as Sibilas de plantão torcerem o nariz, prevendo uma concentração de nuvens negras, simultaneamente, sobre Niterói e Lisboa.
Pois não é que havia mesmo algumas nuvens no dia 5? Uma chuvinha fina nos
acompanhou da barca (é, eu fui de barca, com meus pais e minha irmã) até o
cartório, no centro de Nicty. Lá, à espera do juiz, havia outros casais, uma
dupla de procuradores (isso realmente foi estranho: não só um mas ambos os
noivos estavam ausentes!) e um rapaz preocupado com a demora da futura
esposa. Todos nós tínhamos o casamento agendado para o meio-dia, mas o juiz
atrasou um pouco. Assim, passava um pouco das 13 horas quando chamaram o
primeiro casal: uma adolescente vestida de noiva, de grinalda e tudo, com
uma barriga de pelo menos 7 meses, e um rapaz baixinho e lourinho que
parecia prestes a receber a primeira comunhão. Era só vê-los para a gente se
perguntar onde estaria o pai da garota com a espingarda!
De qualquer forma, eles se casaram e saíram (se para a igreja ou para a
maternidade, isso não sei) e chegou a vez do rapaz solitário, que já tinha
ligado sem sucesso para a casa e o trabalho da noiva. Piedosamente, o juiz
os deixou para o fim e nos chamou, a mim e ao procurador, o irmão mais velho
do João. E o que ele tinha para nos dizer?
- Olhem, a procuração está malfeita, pois não menciona o nome da Ana
Lúcia... O senhor poderia casar seu irmão com qualquer mulher...
Deu uma paradinha para saborear nosso susto e continuou:
- Bom, mas como os papéis correram sem ninguém dizer nada, e como imagino
que a família não ia casar o João à revelia, vou prosseguir com o ato...
A sala ecoou com um “ahhhhh” de alívio, soltado em conjunto por toda a família, que realmente não precisava dessa... e muito menos da que veio a seguir, quando meu cunhado resolveu fazer uma piadinha.
- Meritíssimo, o que acontece se o senhor perguntar se eu aceito a Ana em
nome do meu irmão, e eu disser que não aceito?
- Bom, nesse caso você vai ter que se retratar - disse o juiz, muito sério.
- Para isso há um prazo de 24 horas. Depois, tem que assinar vários papéis, conseguir testemunhas, marcar uma outra data e...
- Não! Pelamordideus! Eu estava brincando!
- Pois fique o senhor sabendo que este não é o lugar nem a hora para brincar - sentenciou o juiz, e aproveitou para emendar um sermão de uns 15 minutos sobre a
seriedade e a responsabilidade do casamento. Por fim, o ato teve início, foi
concluído sem grandes traumas e nós fomos comemorar no Bella Blú - e nunca
ficamos sabendo se a noiva relutante apareceu ou não.
Naquele mesmo momento, o João, em Lisboa, estava abrindo uma conta bancária,
e consultou o relógio para responder sobre o seu estado civil (ele jura que
isso aconteceu de verdade). Ele, que não fora à festa de formatura e que
sempre brincava dizendo que não iria ao seu próprio casamento, nunca poderia
imaginar que a promessa iria se concretizar. E, além disso, ele ainda teve que
esperar cinco meses antes de beijar a noiva. Teriam sido apenas quatro e
meio, mas tive que adiar a viagem marcada para 26 de Dezembro porque
amanheci com rubéola no dia 23. Dia da minha formatura, por sinal... e eu
não pude ir à festa que tinha ficado dois anos ajudando a organizar. Seria
um desejo inconsciente de fazer o mesmo que o João? Ou um efeito tardio de
Agosto?
Seja como for, já atravessamos onze Agostos desde então, e tudo está
dando certo. Por isso, ou não há nada de errado com o mês ou é o amor que
nos protege. Ou ambas as coisas, é claro!
Pelo menos não inteiramente...! Embora hoje sejam bem mais raros, eles ainda acontecem, principalmente quando um dos noivos é diplomata ou membro de uma organização internacional,não podendo comparecer à presença do juiz... ou quando esse comparecimento, por qualquer razão, se torna difícil.
O nosso caso foi bastante simples. Nós estávamos namorando há alguns anos e
planejávamos morar juntos quando eu me formasse e conseguisse trabalho.
Acontece que, faltando alguns meses para eu concluir a graduação, João
partiu para Lisboa a fim de cursar o Mestrado; e, como o casamento civil
facilitaria a concessão da minha residência (e a da passagem aérea, que meu
pai só me daria para encontrar o marido e não o namorado), decidimos fazer
correr os papéis no meio daquele ano.
O processo foi tranqüilo, com uma única ressalva: devido à grande quantidade de casamentos em Julho, o mês previsto pelo pessoal do cartório, o nosso acabou ficando para 5 de Agosto... o que fez as Sibilas de plantão torcerem o nariz, prevendo uma concentração de nuvens negras, simultaneamente, sobre Niterói e Lisboa.
Pois não é que havia mesmo algumas nuvens no dia 5? Uma chuvinha fina nos
acompanhou da barca (é, eu fui de barca, com meus pais e minha irmã) até o
cartório, no centro de Nicty. Lá, à espera do juiz, havia outros casais, uma
dupla de procuradores (isso realmente foi estranho: não só um mas ambos os
noivos estavam ausentes!) e um rapaz preocupado com a demora da futura
esposa. Todos nós tínhamos o casamento agendado para o meio-dia, mas o juiz
atrasou um pouco. Assim, passava um pouco das 13 horas quando chamaram o
primeiro casal: uma adolescente vestida de noiva, de grinalda e tudo, com
uma barriga de pelo menos 7 meses, e um rapaz baixinho e lourinho que
parecia prestes a receber a primeira comunhão. Era só vê-los para a gente se
perguntar onde estaria o pai da garota com a espingarda!
De qualquer forma, eles se casaram e saíram (se para a igreja ou para a
maternidade, isso não sei) e chegou a vez do rapaz solitário, que já tinha
ligado sem sucesso para a casa e o trabalho da noiva. Piedosamente, o juiz
os deixou para o fim e nos chamou, a mim e ao procurador, o irmão mais velho
do João. E o que ele tinha para nos dizer?
- Olhem, a procuração está malfeita, pois não menciona o nome da Ana
Lúcia... O senhor poderia casar seu irmão com qualquer mulher...
Deu uma paradinha para saborear nosso susto e continuou:
- Bom, mas como os papéis correram sem ninguém dizer nada, e como imagino
que a família não ia casar o João à revelia, vou prosseguir com o ato...
A sala ecoou com um “ahhhhh” de alívio, soltado em conjunto por toda a família, que realmente não precisava dessa... e muito menos da que veio a seguir, quando meu cunhado resolveu fazer uma piadinha.
- Meritíssimo, o que acontece se o senhor perguntar se eu aceito a Ana em
nome do meu irmão, e eu disser que não aceito?
- Bom, nesse caso você vai ter que se retratar - disse o juiz, muito sério.
- Para isso há um prazo de 24 horas. Depois, tem que assinar vários papéis, conseguir testemunhas, marcar uma outra data e...
- Não! Pelamordideus! Eu estava brincando!
- Pois fique o senhor sabendo que este não é o lugar nem a hora para brincar - sentenciou o juiz, e aproveitou para emendar um sermão de uns 15 minutos sobre a
seriedade e a responsabilidade do casamento. Por fim, o ato teve início, foi
concluído sem grandes traumas e nós fomos comemorar no Bella Blú - e nunca
ficamos sabendo se a noiva relutante apareceu ou não.
Naquele mesmo momento, o João, em Lisboa, estava abrindo uma conta bancária,
e consultou o relógio para responder sobre o seu estado civil (ele jura que
isso aconteceu de verdade). Ele, que não fora à festa de formatura e que
sempre brincava dizendo que não iria ao seu próprio casamento, nunca poderia
imaginar que a promessa iria se concretizar. E, além disso, ele ainda teve que
esperar cinco meses antes de beijar a noiva. Teriam sido apenas quatro e
meio, mas tive que adiar a viagem marcada para 26 de Dezembro porque
amanheci com rubéola no dia 23. Dia da minha formatura, por sinal... e eu
não pude ir à festa que tinha ficado dois anos ajudando a organizar. Seria
um desejo inconsciente de fazer o mesmo que o João? Ou um efeito tardio de
Agosto?
Seja como for, já atravessamos onze Agostos desde então, e tudo está
dando certo. Por isso, ou não há nada de errado com o mês ou é o amor que
nos protege. Ou ambas as coisas, é claro!
Luciana e os Conceitos Abstratos
Aconteceu anteontem, depois que o último desenho que vemos à noite havia acabado e, TV desligada, eu tentava convencer a pequenininha a se preparar para dormir. O problema é que isso se dá às 21 horas e ela ainda está bem acordada, então...
ANA: Filha, acabou o desenho! Vamos escovar os dentes?
LULU: Ah, mãe... Deixa eu ver só um livrinho...
ANA (sabendo que ela não “apaga” antes das 10). Ah, tudo bem... Mamãe vai te dar mais um tempo...
LULU: Então me dá! Cadê?
ANA: Cadê o quê?
LULU (sem qualquer ironia): O tempo que você vai me dar?
ANA (se esforçando por explicar o conceito de “tempo”): Ah, isso não é uma coisa que a gente dê assim não, filhinha... Dar tempo quer dizer esperar... A mamãe quis dizer que ela pode esperar um pouco, você pode ver seu livrinho e depois escovar os dentes, entendeu?
LULU: Entendi.
(Ela começa a ver o livrinho, eu vou até a cozinha. Volto e sento ao lado dela. Lulu põe o livro de lado e me olha, muito séria).
LULU: Mamãe.
ANA: Sim, meu amor?
LULU (estendendo a mãozinha). O tempo. Cadê?
......................................
Ah, se o Tempo pudesse ser contido nas nossas mãos, pesado e medido e empregado conforme a nossa vontade...!
ANA: Filha, acabou o desenho! Vamos escovar os dentes?
LULU: Ah, mãe... Deixa eu ver só um livrinho...
ANA (sabendo que ela não “apaga” antes das 10). Ah, tudo bem... Mamãe vai te dar mais um tempo...
LULU: Então me dá! Cadê?
ANA: Cadê o quê?
LULU (sem qualquer ironia): O tempo que você vai me dar?
ANA (se esforçando por explicar o conceito de “tempo”): Ah, isso não é uma coisa que a gente dê assim não, filhinha... Dar tempo quer dizer esperar... A mamãe quis dizer que ela pode esperar um pouco, você pode ver seu livrinho e depois escovar os dentes, entendeu?
LULU: Entendi.
(Ela começa a ver o livrinho, eu vou até a cozinha. Volto e sento ao lado dela. Lulu põe o livro de lado e me olha, muito séria).
LULU: Mamãe.
ANA: Sim, meu amor?
LULU (estendendo a mãozinha). O tempo. Cadê?
......................................
Ah, se o Tempo pudesse ser contido nas nossas mãos, pesado e medido e empregado conforme a nossa vontade...!
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