quinta-feira, novembro 18, 2004

Top 20 2004 (parte 1)

Oi, Pessoas! Tudo bem?

Conforme prometido, hoje começarei a publicar a série Top 20 2004: a indicação dos 20 livros de que mais gostei, de janeiro até outubro deste ano. Na verdade, serão 25, pois decidi conceder algumas menções honrosas relativas a cinco diferentes categorias. Espero que vocês gostem!

Aqui vão as dicas:

1. A Vida Antes do Homem, de Margaret Atwood. Uma das minhas autoras preferidas (que voltará a aparecer nesta série), Margaret conta aqui a história do triângulo amoroso entre Nate – um homem bom, mas inseguro e confuso quanto a seus próprios sentimentos, - sua esposa Elizabeth e a jovem paleontóloga Lesje, que se dedica ao estudo dos dinossauros. A psicologia masculina e feminina e as relações humanas são abordadas com a maestria de sempre, e a narrativa, embora detalhada, nunca se torna tediosa. Vale a pena ler.

2. Anastácia e Bonifácia, de Flávio de Souza. Esta é uma das várias recriações de contos de fadas que li nos últimos tempos. A história, aqui, é a da Cinderela, que começa a ser contada sob o ponto de vista de suas irmãs adotivas (a Anastácia e a Bonifácia do título) mas que adquire contornos surpreendentes, grotescos e até sombrios quando passa a admitir a intervenção de outros personagens. Criativo da primeira à última página.

3. A Wizard of Earthsea, de Ursula K. Le Guin. Primeiro volume do Earthsea Quartet, relata o aprendizado de Ged, um jovem mago cujo maior inimigo reside dentro de si mesmo. Toda a tetralogia é ótima, mas a trama e a narrativa deste livro são as melhores. Ah! E se alguém quiser saber mais sobre a autora e sua obra, basta procurar por Ursula K. Le Guin na lista de posts mais antigos da Estante. Aposto que não se arrependerão de conhecê-la!

4. Abril Despedaçado, de Ismail Kadaré. No interior da Albânia, o hábito milenar da rixa de sangue entre famílias determina o destino de um rapaz e afeta as vidas de um escritor e de sua jovem esposa, em visita à região. Tanto os costumes locais quanto as questões psicológicas são abordados com rara sensibilidade. Imperdível.

E agora, a indicação especial... na Categoria Não-Ficção!

As Sete Filhas de Eva, de Bryan Sykes. Fascinante relato de um dos maiores especialistas mundiais em genética, conta como a identificação de um elemento do DNA herdado pela linha materna permitiu aos cientistas traçar a herança dos povos europeus desde a Pré-História. Mesmo quem não entende nada sobre genética e ciência em geral (como é o meu caso) irá compreender as explicações, dadas de forma muito simples e clara, e se interessar pelas conclusões. Ah, sim... ele fez uma ficçãozinha no final, tentando imaginar uma história de vida para cada uma das sete ancestrais... Mas a pesquisa é seríssima, e o livro foi considerado uma das mais importantes publicações na área desde A Hélice Dupla, de James Watson, um dos descobridores do DNA juntamente com Francis Crick.

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Bom, Pessoas... Por enquanto é só. Espero que possam aproveitar estas dicas. Semana que vem tem mais... OK?

E, agora, umas brevíssimas linhas sobre mim. Agradeço muito a solidariedade de vocês quanto ao meu estresse. Valeram a força e os toques...! Agora, com a Biblioteca Nacional em greve (hehehe) e alguns contatos sendo feitos, acho que estou conseguindo relaxar um pouquinho, embora ainda tenha que lutar contra a ansiedade. Também ajudou muito a acolhida que tive no Colégio Gaia (gente, nunca dei tantos autógrafos!), a qual me levou, mais uma vez, a ter a certeza de que pelo menos algumas das sementes que venho lançando estão caindo em bom solo. Se são árvores amigas ou flores... então, a seu tempo, hão de germinar!

Abraços pra vocês,

Até a próxima!

Ana Lúcia

P. S. Com a greve da BN, estou descansando mais... mas, por outro lado, o computador de casa tem uma verdadeira barreira de antivírus, que impede o meu acesso a várias páginas e sistemas de comentários. Por isso, não conseguirei visitar todos vocês como gostaria. Espero que compreendam... e acreditem, volto assim que puder!

Abraços,

Ana

segunda-feira, novembro 08, 2004

Um Cocar, um Xaxado e a Invencível Paixão de Ler

Oi, Pessoas! Tudo bem?

Pois é... Eu ando meio sumida da rede há algum tempo. Mas acreditem que não é por querer. Além de problemas no computador, tenho tido pouco tempo livre, e o que sobra está sendo dedicado à divulgação do meu trabalho, além de outras atividades que me são propostas quando travo contato com diretores de escolas, chefes de bibliotecas e outras pessoas ligadas à área da cultura e da educação.

Hoje, por exemplo, fiz um trabalho com crianças de pré-escola de um CIEP, no âmbito do Projeto Paixão de Ler, com o qual a Prefeitura do Rio procura fomentar o amor ao livro e à leitura. A cada ano um escritor é homenageado; desta vez é Rachel de Queiroz, e a atividade de que participei foi um encontro para falar da história do Ceará. Vendo-me aqui, com meus óculos e ar compenetrado, cercada pelos livros do meu escritório e ouvindo música medieval, vocês não acreditariam, mas hoje já sentei no chão, já brinquei de roda, já usei um cocar de índio e até fingi dançar o xaxado. Foi cansativo... mas bem divertido.

Já na sexta-feira, irei ao Colégio Gaia, onde meu livro O Caçador foi adotado como leitura paradidática para a quinta série. Vamos ver o que meus jovens leitores (ai, que metida!) têm a me dizer sobre as peripécias do protagonista em busca da floresta livre. Segundo eu soube, alguns reclamaram que outros personagens de contos de fadas e populares ficaram de fora (como o Aladim, por exemplo) e que o Caçador devia ter ficado com a Branca de Neve... Vocês, que leram o livro, o que acham?

Em relação ao meu trabalho mais “específico”, estou na batalha para conseguir lugares onde ministrar meu curso sobre os contos de fadas. Algumas edições já estão agendadas para o ano que vem, na Biblioteca Machado de Assis, em Botafogo, mas estou buscando espaço em outras instituições. Por isso, se alguém tiver contatos interessantes que possa me fornecer, inclusive fora do Rio, ficarei muitíssimo grata.

Estou querendo principalmente ir a São Paulo, onde eu iria fazer uma palestra e lançar meus dois livros, o que, como sabem, acabou não acontecendo. Tenho muitos amigos queridos em Sampa, a maioria dos quais não conheço pessoalmente, e seria ótimo se pudesse rolar alguma coisa por lá. Vamos ver se algo acontece em 2005!

De qualquer forma, não espero agendar mais nada até o final do ano, que está muito próximo, ao passo que eu estou precisando descansar. Até a Luciana disse ontem que estou muito estressada, e, se uma criança de três anos e meio percebe isso, é porque a coisa deve ser séria. Então, vou diminuir o ritmo e me concentrar em produzir um plano de ação e material de divulgação para o ano que vem, além de adiantar o trabalho na Biblioteca Nacional. E aqui na Estante pretendo começar, na semana que vem, a publicar uma série com os Top 20 de 2004: os vinte melhores livros que li este ano (até agora), com destaque para as categorias conto, romance, infanto-juvenil e não-ficção. Para quem gosta de minhas dicas de leitura, será uma boa oportunidade de aumentar a cartinha para o Papai Noel!

Então, Pessoas Queridas, fico por aqui. Espero poder visitar a todos ao longo das próximas semanas, mas se eu não puder não fiquem zangados. Vocês sabem o quanto são importantes para mim.

Abraços a todos,

Até a próxima!

Ana Lúcia

P. S. Aproveito para avisar que mandei informações sobre a forma de adquirir meus livros a todos que as solicitaram. Se alguém ainda está esperando resposta, por favor, não deixe de me avisar... OK?

Abraços,

Ana

terça-feira, outubro 19, 2004

Linda Hogan e a Saudade do Que Ainda Não Li

I want the world to be kinder.
I am a woman.
I am afraid.
I saw a star once, falling toward me.
It was red
with brilliant arms
and then it was gone.

(Linda Hogan. Harvesters of Night and Water.)


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Pessoas Amigas,

Este poema (que eu adoraria ter escrito) é de Linda Hogan, uma autora que descobri por acaso, quando procurava poetisas nativas americanas na Internet. De site em site reuni muitas informações sobre ela, e hoje, relendo as anotações, senti vontade de escrever a seu respeito. Espero que vocês também achem interessante!!

De origem Chickasaw (tribo da região do Colorado), engajada em causas sociais e ambientais, Linda Hogan nasceu em Denver, em 1947. Sua obra, iniciada em 1979 com o livro de poemas Calling Myself Home, evoca imagens pertinentes à literatura oral de sua tribo para estabelecer o que se pode chamar um espaço sagrado, ainda que a contínua exploração (e dessacralização) da terra não permita que esse lugar seja mais do que uma metáfora. Em outras palavras, os textos se referem a um reino natural, onde as águas são impregnadas de profunda magia e as cavernas são lugares de iniciação, principalmente para as mulheres, aqui e sempre conectadas às energias terrestres e subterrâneas.

A atenção dada ao gênero, ao mesmo tempo em que se preocupa com os problemas do meio-ambiente, faz com que Linda Hogan seja às vezes chamada de ecofeminista. De fato, em suas entrevistas ela enfatiza o fato de que os problemas raciais e sociais, de um modo geral, atingem mais duramente as mulheres, enquanto, em suas obras, fica patente a identificação entre o colonizador/explorador e a mentalidade patriarcal (ou mesmo masculina). A luta contra a opressão e a violência dirigida às mulheres é, assim, um aspecto complementar da luta por melhores condições ambientais: sem que isso seja alcançado, será impossível restaurar o equilíbrio entre a Natureza e os seres humanos.

Linda Hogan é autora de uma peça premiada (A Piece of Moon), contos, romances, seis livros de poesia e um de ensaios, Dwellings, em que trata dos habitats de diversos animais (muitos deles de injustificada “má fama”, como as cobras e os morcegos), ao mesmo tempo em que reflete sobre as lições de espiritualidade e harmonia contidas no meio-ambiente. Infelizmente, até onde sei, nenhuma de suas obras foi traduzida no Brasil, e os poemas ou trechos de prosa disponíveis na Internet são muito poucos. Sendo assim, ainda vou demorar algum tempo para ter um livro de Hogan em minhas mãos: os dois, três ou quatro meses que a Livraria Leonardo da Vinci leva para trazer uma encomenda dos Estados Unidos. E eu ainda nem escolhi o que vou pedir.

Pois é... E agora vocês devem estar se perguntando: mas, Ana, você está escrevendo sobre algo que ainda não leu? Como pode...?

E a resposta é: sim, estou. Estou, porque os fragmentos a que tive acesso e as críticas e resenhas que li a respeito de Hogan me fizeram antecipar não apenas poemas bonitos e sensíveis e histórias interessantes, mas também o mergulho em uma forma de pensar e de perceber as coisas que é muito parecida com a minha. Estou, porque me identifiquei com as poucas palavras que li e sinto que vou gostar das próximas. E, sobretudo, estou, porque sou um pouco como aquele poeta que falava sobre a saudade do que não se viu e não se fez. Ou, no meu caso... o que ainda não se leu...! ;)

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Este é um dos poucos sites que encontrei com poemas de Linda Hogan.

Links para outros poemas, ensaios sobre a obra da autora e uma foto muy antiga podem ser encontrados aqui.

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Aproveito este último pedacinho de página para agradecer a todos que estão pedindo informações (alguns, até comprando...!) e se prontificando a ceder espaço em seus sites para os meus livros. Acho que não preciso dizer, mas lá vai... Vocês são o máximo...!!

Abraços a todos!

Até a próxima!

Ana Lúcia

quarta-feira, outubro 06, 2004

Os Contos de Fadas : publicado meu novo livro!!

Oi, Pessoas! Tudo bem?

Ontem aconteceu uma coisa muito legal... Meu livro ficou pronto...!

Em Abril deste ano, anunciei aqui na Estante o lançamento de uma obra de ficção, “O Caçador: um conto de fadas em mosaico”. Na mesma época, eu estava enrolada preparando as apostilas para um curso sobre as origens e a história dos contos de fadas... vocês se lembram?

Pois bem, alguns meses e três edições do curso depois, aqui estou eu, anunciando o lançamento de um pequeno livro que contém a matéria dada durante as aulas. Os tópicos abordados podem ser consultados em um post anterior, a respeito do curso – é só clicar num dos últimos da lista aí ao lado, e os mais antigos aparecem -, mas vale lembrar que meu enfoque não situa os contos de fadas (apenas) como Literatura Infantil, e sim como um fenômeno histórico e literário, com elementos comuns ao imaginário de todas as culturas, cuja transmissão é constantemente perpetuada e renovada através de narradores e escritores contemporâneos.

Bom... Então, eis o meu novo livro, que espero poder compartilhar com vocês. Assim como O Caçador, ele é independente e não tem distribuição; por isso, peço aos interessados em comprá-lo que, por favor, avisem aqui nos comentários, deixando seu endereço de e-mail para que eu entre em contato.

Aproveito para informar que ainda tenho alguns exemplares de O Caçador (corram! corram!) e que procuro novos lugares onde possa dar o curso sobre contos de fadas. Assim, se vocês puderem e quiserem divulgar meu trabalho, eu ficarei muito grata e muito feliz!

Abraços a todos. Tenho que voar!

Até a próxima,

Ana Lúcia

segunda-feira, setembro 27, 2004

Kokopelli: um Mito Anasazi

Pessoas Queridas,

Vocês conhecem de sobra a minha admiração pela cultura e pelos mitos dos nativos americanos. Ana e a Margem do Rio traz uma bela história amazônica, e por aqui já andou uma Cinderela algonquina, sem falar nos muitos pulos e uivos do Coiote. Então, hoje é a vez de um personagem conhecido principalmente nas culturas Hopi e Navajo, e que parece ter tido um papel de destaque entre os Anasazi, antepassados dos Pueblo: Kokopelli.

Associado à figura dos tricksters, mas principalmente aos mitos de fertilidade, Kokopelli, com sua flauta e sua aparente corcunda, está representado nos mais antigos petroglifos do Sudoeste da América do Norte. Comparativamente, ele pode talvez nos fazer lembrar de outros flautistas (e sedutores), como Krishna, Hermes e Pan; as lendas a seu respeito são inúmeras, mas a que vou contar foi adaptada do livro que acompanha as Cartas do Caminho Sagrado, de Jamie Sams (que, vocês devem saber, é um dos meus livros de cabeceira). Quanto à cultura Anasazi e à Mesa Verde, vocês podem encontrar um resumo aqui, bem como uma imagem e mais informações acerca de Kokopelli.

Então... senta que lá vem história!! ;)

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Kokopelli e Flor do Gelo

Tinha sido um ano muito seco na região de Mesa Verde quando Kokopelli, o grande xamã, apareceu para falar ao povo. À distância, ele parecia ser corcunda, mas quando se aproximava era possível perceber que, na verdade, tinha às costas uma grande sacola de talismãs, remédios e sementes que trazia para comerciar. Em sua cabeça, um arranjo de plumas vermelhas dava a impressão de que usava uma coroa de fogo, e sua flauta reluzia ao Sol, o brilho uma fonte de encantamento tão grande quanto a música.

Ao terminar de tocar, ele embrulhou a flauta em um pano tecido, como se fosse uma criança, e a consagrou ao Povo que Habita as Estrelas, proclamando que a melodia vinha das estrelas e chamava o Pai Trovão para se unir à Mãe Terra. Dessa união nasceria uma Criança Mágica, que, um dia, viria a liderar seu povo e conduzi-lo de volta ao Céu. Isso porque – disse o xamã – tinha havido um tempo, antes da Criação, em que todos os seres eram como centelhas pertencentes ao Fogo Primordial, e que tinham vindo à Terra para semeá-la com pensamentos, idéias e ações.

Tão logo Kokopelli falou, o fogo explodiu em inúmeras fagulhas, e ao longe o povo de Mesa Verde ouviu o som dos trovões, que traziam enfim a chuva tão esperada. Kokopelli aconselhou a todos que pegassem seus potes de barro e corressem para coletar a preciosa água da chuva, assim que começasse a cair no alto da meseta. Todos se apressaram a fazê-lo, à exceção de uma jovem muito bonita, cujo olhar voltado para as nuvens transmitia inocência e serenidade.

Curioso, Kokopelli se aproximou e perguntou à moça por que não correra para buscar os potes. A resposta o maravilhou e encheu de assombro: ela já colocara os potes no alto da meseta, pois, tão logo ouvira a flauta do xamã, soubera que ele iria trazer a chuva. O rosto às vezes bondoso, às vezes brincalhão de Kokopelli se abriu então num sorriso, e ele exclamou: Quer dizer que é você!

O povo de Mesa Verde encheu todos os recipientes que puderam ser transportados à meseta e, depois, se reuniu numa prece de agradecimento ao Grande Espírito e ao xamã que trouxera a chuva, Kokopelli. Este colocou a flauta nos braços da jovem - que pertencia ao Clã do Milho e se chamava Flor do Gelo – para que todos soubessem que, dali em diante, ela partilharia sua música e sua semente.

Conta a lenda que Flor do Gelo deu à luz um filho que se tornou o líder da tribo, e que tinha em si a bondade de sua mãe e o Fogo Criador de seu pai. Ele também se tornou um grande xamã e usou sua magia para cumprir a missão que lhe fora destinada. Sim, porque a região de Mesa Verde, no Colorado, foi abandonada – às pressas, ao que tudo indica - por volta do ano 1250 de nossa era... o que nos leva a imaginar se a lenda, afinal, tinha um fundo de verdade, e se a Criança Mágica foi capaz de reconduzir seu povo às estrelas.

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Lindo, não? Eu também achei... ;)

Esperando que o Fogo Criador nos ajude a revelar o que temos de melhor,

Aqui vai meu grande abraço!

Até a próxima!

Ana Lúcia