quinta-feira, março 07, 2013

I de Ismael


Pessoas Queridas,

Retomo a série das Memórias de Leitora com mais um livro que li pela primeira vez em versão adaptada – aquelas da Ediouro – e, seguramente, antes dos dez anos: Moby Dick, a obra mais consagrada do americano Herman Melville.

O livro é tão conhecido e teve tantas adaptações – literárias, para quadrinhos, para cinema e TV – que mesmo quem nunca leu sabe do que se trata: a história de um capitão de perna de pau empenhado em caçar uma imensa baleia branca nos mares do norte. Vista em conjunto, sua tripulação representa todo o espectro dos seres humanos, a começar pelos imediatos, brancos, mas com diferentes temperamentos – um bondoso, um fleumático, um colérico – e prosseguindo com os arpoadores, todos provenientes de terras “exóticas” e portanto representados como tipos bizarros, idólatras e cobertos de tatuagens. Um deles, Queequeg, se torna o melhor amigo do narrador, cujas primeiras palavras também são conhecidas por muita gente que não chegou a ler o livro: Call me Ishmael, que a adaptação da Ediouro, se bem me lembro, traduziu como Meu nome é Ismael.

Essa linha é considerada por alguns estudiosos como uma das melhores aberturas de romance de todos os tempos: simples, direta e cheia de significado. Quem é de fato Ismael? Mesmo ao longo do livro, sabemos muito pouco sobre o narrador, que carrega o nome do filho exilado de Abraão e que faz camaradagem com Queequeg: um cara legal, mas que, vamos concordar, o autor descreve como uma espécie de “bom selvagem”. Ismael participa dos acontecimentos do livro, mas não está no centro deles, pois esse é um papel que cabe a Ahab – o capitão obcecado – e, frequentemente, à tripulação como um todo, nas cenas que descrevem o duro dia-a-dia no navio baleeiro. Na versão integral da obra elas ocupam longos capítulos, mas na adaptação que li eram bastante condensadas, deixando sobressair aqueles que são os pontos fortes de Moby Dick: as questões psicológicas e metafísicas, inerentes à condição humana, e, é claro, a aventura.

Provavelmente foi o segundo ponto que mais me interessou e motivou a leitura quando eu tinha dez anos. Desde aquele tempo, gosto de histórias que descrevam as coisas do cotidiano, mesmo em literatura fantástica; gosto de ver os personagens entrando em albergues, comendo ensopado (prato preferido dos escritores de aventura e fantasia, ao que parece), encontrando tipos estranhos e aprendendo a conviver com eles. Mais tarde seriam os anões e elfos, nesse livro era o nativo dos mares do sul, com quem Ismael partilha inclusive a cama. A descrição do cotidiano a bordo do Pequod também era viva, cheia de interações e nuances escritas de um jeito que para mim lembrava o de Jack London, autor de outro livro favorito, Chamado Selvagem. Enfim, um romance de aventura que muito me empolgou, fazendo com que eu discorde dos estudiosos que afirmam ser ele pura metafísica.

Citando de cabeça um texto lido há alguns anos, Jorge Luis Borges afirmou que Moby Dick é um texto infinito: que a busca de Ahab não se completa, pois a busca do homem pela compreensão de si mesmo e de seu papel no universo jamais terminará. Nesse ponto, sim, concordo, como concordo que a baleia branca pode ser vista como um símbolo. Tendo arrancado a perna de Ahab, ela simboliza a parte do capitão que escapa a ele mesmo, sua conexão com os mistérios, aquilo que ele persegue sem cessar e nunca poderá possuir, porque jamais teremos resposta para as perguntas que mais nos inquietam. Todos nós somos assim, por isso a tripulação é arrastada pela obsessão de Ahab, salvando-se apenas Ismael, que fica à deriva no caixão mandado fazer por Queequeg – fatalista, o arpoador estava convencido da própria morte iminente – e é recolhido por um outro navio, cujo capitão buscava seu filho perdido no mar e que, afirma Ismael, “das águas recolheu um órfão”.

Isso também é altamente simbólico, assim como a baleia, e talvez confira um outro nível de profundidade à leitura; pode ter sido mesmo a intenção do autor, mas, sinceramente, a metafísica deve ter passado longe da maioria dos leitores. A ponta do iceberg é visível – a baleia branca representa algo inatingível – mas ela é também a baleia de carne e osso que levou embora a perna de Ahab, e a jornada do capitão em busca de seu inimigo propicia momentos deliciosos para os leitores de aventura. Em outras palavras, o que me empolgou, quando criança, ao ler o livro foi a história que ele conta e a maneira como o faz. Já lá se vão mais de trinta anos e ainda me lembro das cenas com os arpoadores, da amizade entre Ismael e Queequeg, do enfrentamento entre Ahab e o primeiro-imediato e do realismo das cenas de perseguição às baleias. Como nos livros de London, pude perceber que o autor esteve lá, que viu e viveu aquilo tudo; e, simbolismo e metafísica à parte, o que tornou essa obra inesquecível foi ele ter conseguido partilhar isso comigo através de uma deliciosa narrativa.

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Post ilustrado com a capa de uma outra edição da Ediouro, posterior àquela que eu tinha, que era pequena e de capa branca. Não está mais lá em casa, mas creio que era a mesma adaptação, feita por Carlos Heitor Cony.

2 comentários:

Vânia Vidal disse...

Oi, Ana,

Li esse livro mais ou menos com a mesma idade que você.

Muito bom lembrar isso.

beijos,
Vania

Colombina disse...

Lembrei de ti ao escrever minha última abobrinha. Fala de um dos primeiros contos de fada que ouvi.
Estranho que a maioria dos contos de fada que cheguei a conhecer quando criança não tinham fadas ou princesas.
Gostei da dica de Moby Dick, por sinal uma aventura clássica e deliciosa.