sexta-feira, janeiro 25, 2013
Sicília e o Trisquel
Bem, Pessoas,
A Erica Marts me surpreendeu assim que virei as costas. O castelo do post anterior é mesmo o Ursino, em Catânia, na Sicília. E como prêmio a Erica escolheu um outro castelo: este aqui, é claro! :)
A ideia era deixar o desafio aqui pelo período inteiro das minhas férias, mas já que ele foi solucionado apresento vocês à bandeira da Sicília, principal destino da viagem. Tal como a da Ilha de Man - um lugar que eu quero muito conhecer um dia, pelas lendas e pela mística - essa bandeira tem um trisquel, um símbolo celta em que três espirais simbolizam, entre muitos significados, a energia em movimento e a eterna evolução.
E, olhem só... A Erica, vencedora da promoção, comanda um blog que se chama, justamente, Espiral dos Sonhos. Mais uma prova de que a sincronicidade existe e trabalha a nosso favor.
Vivendo e aprendendo, é assim que deve ser.
Até breve!
quinta-feira, janeiro 24, 2013
Desafio de Férias - vale prêmio!
Pessoas Queridas,
Como é de praxe, mais uma vez estou indo viajar, tomar novos ares e trazer nova inspiração. Vou ao Velho Mundo visitar ruínas, museus e castelos como esse aí em cima.
Já que eu peguei a mania das promoções e concursos - e, claro, não quero meu blog às moscas todo esse tempo - lanço aqui um desafio, com premiação tripla e gradativa:
- O primeiro a acertar qual é o castelo ganha um exemplar de um dos meus livros-solo, à escolha. Tá, é difícil. Mas se alguém quiser muito um livro meu (ha, ha) pode procurar nestas imagens aqui.
- O primeiro a dizer qual a cidade ou a região onde ele está ganha um exemplar de uma das antologias de que participo, também à escolha com algumas restrições (porque não tenho mais exemplares de algumas delas). Isso é um pouco mais fácil.
- O primeiro a acertar o país ganha um conjunto com quatro marcadores de livros. Isso eu acho que é beeeem fácil, mas quero pedir aos amigos mais próximos que não deem a resposta antes de, pelo menos, dia 10 de fevereiro. A cidade e o nome do castelo, se souberem, podem dizer.
Todas as respostas devem ser postadas nos comentários. Podem "chutar" à vontade e mais de uma vez, mesmo que eu não diga nada.
Durante a viagem é provável que eu leia e-mails, embora não todos os dias; talvez possa responder a algum mais urgente, mas não terei como ler ou mexer em textos, nem vou ficar acessando a rede. Como em outras viagens que fiz, a ideia é deixar um pouco de lado o mundo virtual e curtir as coisas reais. Nesse meio-tempo, desejo tudo de bom pra vocês - e não esqueçam de mim! Depois do Carnaval estarei de volta com meus posts, contos e projetos malucos.
Abraços a todos,
Até breve!
domingo, janeiro 06, 2013
Crônica para um Dia de Reis
Sábado ensolarado, visito, pela primeira vez neste ano, a feira de artesanato em frente de casa. Nos últimos tempos, a filhota não mais atraída pelos balanços e patinhos, minhas vindas ao parque têm sido raras, mas a feirinha sempre me socorre no Natal, época de distribuir pequenos presentes criativos. Também hoje venho com esse propósito, pois não achei o DVD que pretendia comprar para uma amiga. Terei de encomendá-lo, e não chegará em menos de uma semana. Não quero ir à festa de aniversário de mãos vazias.
A feira tem presentes para todos os gostos, e para essa amiga sei o que vim comprar: almofadas macias, pintadas na hora, nas quais também se pode pedir para escrever frases ou poemas. Quero um poema, Pessoa ou Cecília, enfeitado com arabescos nos cantos. Acontece, porém, que a moça das almofadas está entre os vários artesãos que tiram férias após o Natal – e o resultado é que, com pouco tempo e opções reduzidas, terei de ir em busca de outro presente.
Fosse aniversário de criança e tudo seria mais fácil. Ali está a moça albina simpática de quem comprei Backyardigans artesanais para meus sobrinhos-netos, a senhora dos Viscondes e Emílias, as barraquinhas onde os nomes e seus significados são impressos em papel com fundo de princesas ou ursinhos. Uma pessoa mais velha e caseira também poderia gostar dos potes e paninhos. Porém minha amiga faz trinta anos, é das que amam literatura e fantasia, e quero muito encontrar algo que tenha a ver com esse lado.
Caminho por entre as barracas, detendo-me naquelas – poucas – onde algo me fala aos olhos. As caixas decoradas se revelam uma decepção quando vistas de perto; as bolsas com fadinhas bordadas são bonitas, mas pouco práticas, e o preço é alto, mesmo levando em conta o trabalho que aquilo deve dar à artesã. Encolho os ombros, preocupada, porque não sei se de fato vou gostar do que vi na última barraca, onde mãe e filha nordestinas vendem miniaturas feitas de sisal.
No Natal passado, comprei aqui uns anjinhos para as sobrinhas mais velhas, mas este ano os anjos foram vendidos, assim como os presépios. Sobraram apenas alguns bois e burrinhos. Há também um veado com longos chifres – creio que a intenção era ser uma rena – e bichos aleatórios, principalmente corujas e gatos. Ao lado delas está o que vi de longe, uma bruxinha cujo rosto agora me parece mal pintado, mas logo me animo de novo diante de dois gnomos risonhos. Decido-me em princípio a levar um deles, mas, antes que escolha, a artesã mais nova repara na minha camiseta e diz: você parece que gosta de fadas. Ato contínuo, tira de uma caixa uma fadinha de varinha na mão, mais delicada que a bruxa e tão simpática quanto os gnomos.
Minha amiga tem desejos que merecem ser realizados, por isso resolvo lhe dar a fada. A moça procura um saquinho de presente e me distraio vendo os animaizinhos da banca. A rena (?) não ficou tão boa, mas os burros e cabrinhas são perfeitos, e como não custa nada me arrisco a sugerir que façam um unicórnio. E não é que as duas se animam? Afinal, já tinham feito alguns e venderam bem. Se eu quiser posso até encomendar um, mas só para daqui a duas semanas, porque agora - contam com orgulho - estão cheias de trabalhos para entregar em um restaurante.
Claro que eu posso esperar por um unicórnio, e o preço nem quero saber. Mãe e filha se atrapalham pegando papel e lápis, anotando as cores do pelo e da crina, mas a essa altura o gelo foi quebrado: fico à vontade para contar que moro ali em frente e que sou uma carioca aprendendo a gostar de Niterói. Elas sorriem com empatia e um toque nostálgico: são de Sergipe, vivem há mais de vinte anos por aqui e sentem que perderam a identidade, pois no Nordeste as pessoas não as veem mais como conterrâneas, e daqui, com certeza, elas não são. Digo que entendo e conto que morei em Portugal, onde peguei algum sotaque que passou também para a escrita e estranhei tudo por um tempo depois que voltei.
A mãe está sem troco para a fadinha e a filha faz perguntas sobre Portugal e sobre a Itália, ela queria muito conhecer a Itália. Falo da viagem próxima, porém principalmente da primeira: o problema de grana, a travessia para a Grécia, aqueles perrengues de mochileiro que eu não canso de contar. Ela me ouve enlevada e eu conto mais, falo de outras viagens, do casamento que começou naquele quarto alugado em Lisboa e continua firme e forte, da alegria que é e sempre será botar o pé na estrada. Isso faz mesmo parte importante de mim.
Um sino próximo avisa que é meio-dia, tenho que correr pra casa, deixar todo mundo almoçado antes de ir para o aniversário. Pergunto pelo troco que a senhora não conseguiu, mas ela tem uma solução simples: o unicórnio fica pré-pago, ela deixa anotado no bloquinho, tá bom assim? Claro que tá bom assim. Desejo um feliz ano novo e me vou, sem saber se ganhei ou perdi, mas com a sensação de que adquiri um bem em troca de uma história.
****
Pessoas Queridas, é Dia de Reis e abrimos o ano com esta crônica sobre um presente. Feliz Ano Novo!
sábado, dezembro 29, 2012
Jorge, o Sempre Amado
Pessoas,
Ontem à tarde estive participando do programa "Conexão Futura", para o qual me convidaram por ter organizado a mostra Jorge, o Sempre Amado, na Biblioteca Nacional.
Para quem quiser dar uma olhada, fica aqui o vídeo em que falamos eu e o Prof. Eduardo de Assis Duarte, da UFMG: ele sobre a obra de Jorge Amado e eu sobre minha experiência como leitora, em especial, de "Capitães de Areia" e "Jubiabá".
E para quem estiver no Rio ou passar por aqui ate o final de fevereiro, a mostra com cerca de 30 documentos está no terceiro andar do prédio-sede da FBN, podendo ser visitada de segunda a sexta, entre as 10 e as 18 h.
Espero vocês!
sábado, dezembro 22, 2012
Promoção 2013, uma canção e um texto por Vânia Vidal
Oi, Pessoas! Tudo bem?
Já que o mundo não acabou, aqui estou para anunciar o resultado da promoção 2013. Houve dois participantes: o Sandro Quintana, que sugeriu uma continuação focada no retorno de Laura e Octavio ao Condado, e a Vânia Vidal, minha amiga que está trabalhando em seu primeiro romance enquanto avança em sua dissertação de mestrado. Mesmo com tanta coisa a ocupar seu tempo, ela produziu um texto em primeira pessoa, narrando a odisseia do casal ao longo de vários anos. Foi escrito muito rapidamente (afinal, o mundo podia acabar!), mas ficou ótimo a meu ver, assim como as sugestões do Sandro.
Assim, ambos fazem jus à premiação, e agora mesmo vou avisá-los para combinarmos os detalhes da entrega dos livros - uma cerimônia de preferência acompanhada de um café, pois ambos vivem no Rio, será uma boa ocasião para nos encontrarmos.
A ideia do Sandro para a continuação está nos comentários do post. Já o texto da Vânia, com sua permissão, eu reproduzo aqui, juntamente com o pedido da autora para que vocês deem sua opinião.
Lá vai ele:
...
"Não havia um só lugar seguro em toda a terra.”
Este foi o meu último pensamento ao deixar o Condado, mas eu estava errado. Não me olhe assim, não sou nenhum covarde, não estou aqui tentando enfeitar meu passado, nem dizendo que as coisas são diferentes do que elas são. Ou foram. Nós nunca voltamos, se é isso o que você quer saber, Juan, mas é claro que sua avó tem outra versão e você está bastante crescidinho para tirar as próprias conclusões. O Condado ficou para trás.
Quando descemos a montanha, encontramos uma terra devastada. Terrível, mas ainda assim muito melhor do que esperávamos encontrar. Não, você não tem noção, aliás, ninguém da sua geração, nem pelos filmes que sobraram, ou pelas imagens digitalizadas e recuperadas pelas nuvens de átomos – ou não é assim que chamam aquelas telas feitas de sabão? Bom, não importa. O que importa é o que tenho para lhe contar, afinal, eu também estava lá. Eu senti o cheiro putrefato dos cadáveres às centenas de milhares, empilhados de todas as maneiras possíveis, por todos os cantos onde não sobrara ninguém vivo para dignificar os mortos. Para cada lugar que se olhasse havia centenas deles, mães apertando crianças contra o peito, mãos esticadas suplicando por um socorro que nunca chegaria, homens tentando escapar, velhos encolhidos sobre os joelhos....
Juan, Juan... Depois de meses sob chuva ácida nada mais resta que se pareça com um rosto humano, exceto as expressões que a morte imprime de terror mesmo quando já não podemos distinguir pele e cabelos. Mesmo quando tudo o que resta é uma silhueta crispada, cristalizando para sempre o último movimento, ainda que destroçados, é possível em meio ao caos distinguir uma família. Não sei nem como lhe dizer, Juan, exatamente o que vimos logo na primeira curva. Até hoje não encontro palavras que o definam. Creio até que sua avó, que sempre sabe das coisas, consiga lhe dizer algo que preste. E fora isso, o fedor da morte em cada mínimo detalhe, havia o lixo trazido pelas enxurradas, pelos desmoronamentos, pelos vendavais e pelos humanos que sobraram.
A radiação havia baixado para um nível tolerável para a vida humana, se é que o nível em que chegara naqueles meses tivera sido suficiente para morticínio, e você deve saber que o tolerável está muito longe do ideal. Os marcadores do condado podiam estar mal regulados, ou talvez o desconhecimento acerca da física nuclear fosse realmente grande naqueles tempos, não sei. Nós não tínhamos os conhecimentos de agora, nem conseguíamos fazer a fusão nuclear do hidrogênio direito ainda! Dependíamos daquele troço grosseiro, grotesco, gosmento, e preto, que você, Juan, você nunca viu... e que para nós era essencial, pois dele retirávamos combustível e toda uma gama de produtos plásticos... Enfim, não foi difícil perceber que não éramos os únicos a descer aquela montanha.
Eu falei dos cadáveres, mas omiti uma coisa. Muitos estavam mutilados, e não era por acaso ou força da natureza, que desprega as juntas e incha todo o resto, não... Sua avó foi a primeira a notar os cortes. Os cortes, a simetria, os locais. Aquilo não era obra do acaso, aquilo era obra de gente, e de gente que pensava, e tinha mãos firmes e fortes. Não sabemos se foram feitos antes ou depois de... Não, eu não faço a menor ideia de qual é o gosto de carne humana. Mas, seja lá como for, havia pessoas que sobreviveram graças a isso. E nós iríamos encontrá-las mais cedo ou mais tarde. Não espere que alguém vá se confessar a você, e dizer: eu fiz, eu comi, eu sei. Não vai. Há a vergonha maior, a de sobreviver, e minha geração é refém dela. Ninguém gosta de admitir que deu graças quando percebeu que o mundo acabara para os outros, não para si, mesmo que significasse suas famílias e amigos.
Sempre é tempo para recomeçar, Juan, isso é uma certeza piegas e uma verdade universal. Embora felizes por estarem vivos, irremediavelmente tristes por sobreviverem: assim é a geração dos seus avós, a minha, a de sua avó. Nem mesmo ela, tão forte, tão decidida, escapou desse infortúnio. Você já deve ter lido a infinidade de teses a respeito, não?
Mas... como dizia... ah sim, nós iriámos nos deparar com pessoas que haviam mastigado crianças e velhos, era claro que eu agradecia o fato de termos conosco armas. Nós dois sabíamos usá-las, afinal, havíamos sido treinados e preparados para aquele tipo de situação. Era o que repetíamos na nossa cabeça, pois a realidade Juan é sempre pior, nenhum aprendizado sob condições controladas pode preparar ninguém para lutar pelo próprio pescoço. O ser humano tem algo imprevisível correndo nas veias, que são os instintos, ou hormônios, sei lá. Sei que a adrenalina faz com que todo e qualquer raciocínio lógico desmorone quando o negócio é fazer as pernas se moverem e os dedos apertarem o gatilho.
Quando vi aqueles homens sedentos de corpo de mulher, ainda mais um corpo saudável como o da sua avó, se aproximando dela, suas narinas infladas farejando sexo, suas bocas sequiosas e seus olhares desvairados, apertei o gatilho. Matei sim, era eu ou eles, era sua avó ou eles. Éramos nós ou eles. É claro que a lei do mais forte se impunha também para nós dois, apesar dos nossos brios. Foi o pior momento de toda a minha vida, olhar para os corpos dos homens que eu mesmo matei. Aquela havia sido a primeira aldeia que encontrávamos em muitos dias pelas estradas que sobraram. Passei o resto da viagem me sentindo um monstro por ter talvez destruído o último resquício da humanidade, convencido que estava que o destino não me daria a oportunidade de encontrar pessoas vivas fora do Condado que não tivessem virados monstros canibais-estupradores-de-mulheres. E, Juan, eu estava errado! Viu, sua avó finalmente concordou com alguma coisa que eu disse. Eu sempre estou errado mesmo sob o olhar de Laura.
Nós estávamos viajando há muitos dias, não sei quantos, a duração do tempo havia sido modificada, o eixo da terra havia mudado a angulação, não tínhamos mais relógios confiáveis, nem tempo para inventar algum. Precisávamos encontrar uma casa, comida. Alimentávamos com as parcas plantas que podiam ser consumidas sem temor, este sim um grande aprendizado oriundo do confinamento. A água que dispúnhamos provinha da chuva, que após diversas filtrações sucessivas podia ser consumida sem corroer as entranhas, porém o gosto era pior que o de mijo de gato e não poderíamos ficar muito mais tempo vivendo assim.
As cidades estavam convertidas em amontoados de escombros parcialmente alagados por lama e esgoto. Entretanto havia prédios que não haviam sido seriamente afetados em suas fundações e que podiam ser aproveitados como abrigo futuro, e que deviam estar servindo de abrigo para pessoas. Encontramos algumas delas assim, e como era de se esperar, elas sabiam onde havia outras na mesma situação. A desgraça. Juan, mesmo que seja o fim do mundo, não impede que a humanidade siga a sua vocação, que é comunicar-se entre si. Humanos procuram meios de falar com outros humanos, isso é fato. Portanto, logo soubemos onde havia sobreviventes, e como haviam sobrevivido. As histórias variam muito, e quase todas envolvem uma parcela de sorte, não vou ficar aqui tecendo teorias.
O que vou dizer é que aos poucos nós fomos reconstruindo o que era possível. O grupo de refugiados urbanos, onde nós agora estávamos também, tratava de tentar remediar as perdas. Grupos de tarefas para desobstruir estradas, pontes, rios, casas, bibliotecas. Grupos de tarefas para buscar alimentos, sementes, sobreviventes; Grupo de tarefas para pensar e descobrir meios para descontaminar as águas; grupos de todos os tipos. Laura logo foi parar no grupo de enfermeiros e médicos, que não eram médicos e enfermeiros antes, mas tornaram-se pelas circunstâncias. Eu fui para o grupo dos construtores e ajudei a erguer pontes, casas, hospitais. Trabalhávamos muito, todos os dias, e o tempo passava rápido. O tempo passava e as demandas cresciam mais e mais, sobreviver é muito difícil, Juan! Os anos escorriam pelos nossos dedos enquanto tentávamos prover o básico sem muito sucesso. Tivemos períodos de fome, de doenças e de revoltas, mas também de sorte, sucesso e calmaria. Como antes, como antes de tudo acontecer.
Claro que eu pensava em voltar para o Condado, mas a rotina nos engolia. Quanto mais fazíamos, mais precisávamos fazer. Quanto mais avançávamos rumo a uma normalidade, mais difícil era manter o equilíbrio entre as pessoas. Até que um dia sua avó me disse que estava grávida. Eu não acreditei, pois as taxas de natalidade eram muito baixas graças à péssima nutrição que todos tínhamos. A última criança havia nascido morta há dois ou três anos. Vivíamos de hortaliças, carne de roedores e grãos. Os campos puderam ser cultivados após anos tentando recuperar o solo, e mesmo assim a produção não era boa, mas a sua avó estava mesmo grávida, e a criança nasceu e vingou. As coisas também foram se ajeitando, em um ritmo inexplicavelmente rápido, que antigamente dávamos o nome de progresso. Hoje eu chamo de ‘ a incrível capacidade que a humanidade tem de começar do zero’. Nós tivemos outros filhos e o final você já sabe.
Eu envelheci como professor universitário, sua avó como enfermeira. Seu pai lutou na guerra de unificação das colônias de sobreviventes da antiga França, de onde jamais regressaria... Nunca mais soubemos do Condado. E depois de tantos anos, não havia mais motivos para procurar saber...
Sua avó tentou por algum tempo, mas nada fora encontrado. Ir lá, sozinha, nunca permiti, ainda mais depois que as crianças nasceram. Quando finalmente estavam crescidas, sua mãe parou de falar no assunto.
É claro que à noite eu me pergunto o que lhes teria acontecido. É claro que sinto saudade. Mas o que você queria que eu fizesse? Largasse o certo pelo incerto outra vez? Eu não, eu era apenas um homem. Um homem que tem o que todos os homens têm: vergonha. Vergonha por ter partido, vergonha por não ter voltado, vergonha por ter uma vida boa. E a coragem de ter sobrevivido.
E ter gostado.
Mas eu não me arrependo.
...
E então? Curtiram? Eu sim, e muito! Obrigada, Vânia, e você também, Sandro, por sua participação. E como é Natal quero presentear vocês com uma lembrança da minha adolescência: cliquem aqui e ouçam a belíssima canção "Depois do Fim", do Bacamarte, a trilha sonora perfeita para as histórias do "Condado" espanhol.
Enfim, boas festas pra vocês, bom descanso e/ou divertimento. Antes do fim do ano eu volto.
Abraços a todos!
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