Dias antes da sua viagem, você é convidada para participar de uma antologia. O tema não é bem seu forte, mas é interessante; a organizadora é sua amiga e há bons escritores com nomes já confirmados. Você aceita, mas, como tem trabalhos mais urgentes, apenas faz uma anotação no seu caderno, na página tantas vezes recopiada onde anotou seu cronograma. Vai tratar disso no final de agosto, quando faltar um mês para o prazo de entrega. Ao fim e ao cabo não deve ser um texto longo.
Você se esforça para entregar três contos antes de partir. Um deles é seguramente um dos melhores que já escreveu, os outros saíram a contento. Você viaja levando um caderno onde espera tomar notas para futuros trabalhos, mas, como de outras vezes, acaba por usá-lo apenas como diário de viagem. E além das paisagens que vê, das sensações e reflexões que surgem no caminho, escreve sobre o evento que irá se desdobrar, tingindo os próximos meses, e talvez toda a sua vida, de matizes inesperados.
Mas você volta e vê os primeiros prazos acenando logo à frente. Há um conto para escrever, que exige bastante pesquisa, e três artigos onde fala do que conhece, mas numa linguagem que deve ser entendida por diferentes públicos. Você lê, rascunha, adapta e reescreve, tentando se ver no lugar do outro, ler através dos olhos aos quais se destinam suas palavras. Em meio ao processo, passa um tempo entre seus pares, editores, ilustradores, escritores, principalmente escritores. Eles falam de seus fracassos e vitórias, contam seus planos e exibem publicações, e você volta convencida de que as coisas são assim mesmo.
O conto é concluído na dilatação do prazo, sem tempo para revisões. Uma amiga a elogia, outra diz francamente que é a pior coisa que você já lhe deu a ler. Isso te abate, mas você tem os artigos para terminar, um curso para preparar e divulgar enquanto faz malabarismos com sua vida familiar e o emprego de que gosta, mas que lhe rouba tantas e tão preciosas horas. E, como resta quase um mês para entregar o próximo conto da lista, é quase com alívio que você tira umas férias do fazer literário.
Os dias correm entre muitas leituras, muitos filmes e a revisão dos artigos. Chega a Bienal; você não se anima a fazer o longo percurso, evita ler as mensagens sempre eufóricas dos amigos nas redes sociais, vim, vi, venci. Você se sente meio pária porque não está produzindo, é um momento de suspensão daqueles que tanto odeia, embora saiba que são normais e talvez mesmo necessários. Uma preocupação é eliminada, outra persiste; novos convites surgem, há gente com quem precisa falar e assuntos que deve resolver, de forma que, no fim, restam sempre interrogações.
Você consulta o cronograma e morde o lábio ao ver tão perto a data da entrega do próximo conto. A ideia inicial surgiu há tempos, mas ainda é preciso trabalhá-la, pensar no enredo e nos personagens que cercarão o seu profeta relutante. Ignorando o apelo dos livros e filmes, o ruído das obras em casa e a sua própria insegurança, você começa a pesquisar, a rabiscar um roteiro, tentando encontrar aquela chama que dará vida à história que quer contar. Não é sem preocupação que o faz, pois o tempo não para, e a sua veia ficcional pulsou bem pouco nos últimos tempos. E mais de uma vez – você se lembra – ela secou durante anos.
Você contempla as anotações que fez para tornar o conto plausível. Por mais que tente, não consegue deixar de pensar que faltam apenas dez dias e você não sabe o que escrever; que ao fim desse tempo talvez você precise admitir que dali não sairá nada, que chegou ao seu ponto alto e não adianta prosseguir, pois o que escrever a partir de agora nunca será tão bom. É o que você diz a si mesma quando fecha seu caderno. E ao se deitar refugia-se em pensamentos que passam longe desse quadrante da sua vida.
Então, de manhã, seus personagens estão à espera. São deles os rostos que você vê tão logo abre os olhos. Sob o chuveiro, ainda acabando de acordar, escuta nitidamente suas vozes, frases inteiras que dirão no conto e que, à medida em que as puser no papel, irão revelando suas motivações. Você toma seu café da manhã com o caderno aberto, anotando, registrando, aceitando com gratidão esse presente, o pão e o sal da sua história. Que ainda não escreveu, que ainda demandará muito esforço para ser completada, mas que, agora, já brilha dentro de você como uma chama viva.
E é nesse instante – justamente nesse instante – que tudo volta a valer a pena.
quinta-feira, setembro 15, 2011
segunda-feira, agosto 29, 2011
Atualização: Oficina de Fantasia e FC na Estação das Letras
Amigos, sinto muito informar que o curso foi cancelado. Houve falta de quorum, que atingiu não apenas a minha, mas também outras oficinas programadas para a Estação das Letras. Uma pena! Mas vamos repensar e reformular a proposta para apresentá-la com mais sucesso de uma próxima vez.
E, como já não terei interlocutores de carne e osso... preparem-se, vocês que me leem aqui! :)
Pessoas Queridas,
Mais uma vez, a Estação das Letras, idealizada e capitaneada pela escritora Suzana Vargas, me convidou para uma participação especial. E esta vai ser em grande estilo: uma oficina de introdução à escrita criativa, voltada para a Literatura Fantástica. Sem fórmulas prontas, vamos trocar ideias sobre o gênero, partilhar leituras e, juntos, nos aventurar pelo território da escrita.
Seria ótimo ter vocês comigo, mas sei que a maioria não poderá participar. De qualquer forma, agradeço seu apoio na forma de ajuda à divulgação, sugestões de textos.. e muita torcida para que tudo dê certo.
Abraços a todos!
E, como já não terei interlocutores de carne e osso... preparem-se, vocês que me leem aqui! :)
Pessoas Queridas,
Mais uma vez, a Estação das Letras, idealizada e capitaneada pela escritora Suzana Vargas, me convidou para uma participação especial. E esta vai ser em grande estilo: uma oficina de introdução à escrita criativa, voltada para a Literatura Fantástica. Sem fórmulas prontas, vamos trocar ideias sobre o gênero, partilhar leituras e, juntos, nos aventurar pelo território da escrita.
Seria ótimo ter vocês comigo, mas sei que a maioria não poderá participar. De qualquer forma, agradeço seu apoio na forma de ajuda à divulgação, sugestões de textos.. e muita torcida para que tudo dê certo.
Abraços a todos!
terça-feira, agosto 23, 2011
Na Travessia (3)
Quando ela chega à estação, eles já estão lá.
O estranhamento é imediato, não por jamais ter conhecido outros de sua espécie, mas porque não esperava que viessem nesta época do ano. Desde a infância, ela se acostumou a vê-los no verão, suando em grossas gotas multicores que mancham os assentos na travessia. Agora é inverno, e as cores parecem muito vivas em seus corpos e pêlos empastados.
O que vai à frente é todo cinza, a pele com uma textura como se houvesse rolado sobre cimento fresco. Pouco atrás, uma fêmea alaranjada acompanha um macho cujo torso é rajado de preto e branco, à maneira das zebras. Eles se acomodam num canto, as cabeças unidas, trocando sussurros rápidos que ela não pode, nem procura ouvir. As pessoas passam sem se deter, às vezes lhes lançando um olhar rápido, mas sempre evitando cuidadosamente o contato visual. Cuidado desnecessário: pelo menos por agora, eles se esqueceram do que têm à sua volta, se descuidaram da missão, imersos uns nos outros e em seu próprio universo.
Então, quando a embarcação está prestes a partir, um deles entra apressado pela porta traseira. É um macho de pêlo preto e longo, a pele azul sobre a qual foram pintados símbolos em branco. Ao contrário dos demais, está sozinho e caça por sua conta, o que o torna um predador mais atento e potencialmente perigoso. De pé, diante das pessoas encolhidas em seus assentos, ele procura aquela que lhe parece mais vulnerável – e como acontecera tantas vezes, é a ela que escolhe para ser sua primeira presa.
- Oi, tia. Dá uma força? Qualquer moedinha – pede. Ela sorri, sem se importar com o tratamento: já vinte anos se passaram desde que esteve onde ele está agora. E, claro, vai ajudar. Pescada no bolso do jeans, a moeda é a primeira no copo de plástico, ao que o rapaz agradece com um “valeu” e um sorriso no rosto lambuzado de azul.
- Tá parecendo o Avatar – ela adivinha a referência.
- É, tem a ver – ri ele, afagando o peito onde se leem as letras U – F – F.
E, simpatizando com a "tia" anônima, confidencia com orgulho:
- Passei pra Cinema.
quinta-feira, agosto 11, 2011
Aí vem o Martelo das Bruxas!
Pessoas Queridas,
Depois de uma longa ausência, venho anunciar um lançamento há muito esperado: o do terceiro volume da série Sagas, da Argonautas Editora.
Depois dos épicos e do faroeste, é a vez das bruxas pintarem e bordarem nesse livro. O tema é o mesmo para os cinco contos, mas as abordagens são variadas, como dizem os editores na sinopse:
Um Visitador do Santo Ofício confronta bruxa no Brasil colonial. O drama de um mundo mágico abalado pelo preconceito. As aventuras de uma menina em um conto de fadas nada convencional. Uma prisão onde o demônio não é o único inimigo. O terror de um homem envolvido por uma maldição em seu próprio lar.
Inspirada pelo infame texto de dois monges dominicanos, Martelo das Bruxas apresenta histórias cunhadas por cinco proeminentes autores da Literatura Fantástica brasileira.
- Christopher Kastensmidt foi finalista do Prêmio Nebula, em 2011, e ganhou o prêmio "Realms of Fantasy Readers Choice Award". Seus textos já foram publicados em oito países. Nasceu em Houston, mas mora em Porto Alegre.
- Ana Cristina Rodrigues é historiadora, escritora, editora e tradutora. Foi a única mulher a presidir o Clube de Leitores de Ficção Científica no Brasil e já publicou em diversas antologias brasileiras e do exterior.
- Douglas MCT é autor dos romances Necrópolis – A fronteira das almas e O coletor de almas. Teve contos publicados nas coletâneas Anno Domini (2008), Território V (2009) e Imaginários 3 (2010).
- Ana Lúcia Merege é bibliotecária, Mestre em Ciência da Informação, pesquisadora de Literatura, Mitologia e Folclore. Publicou os romances O Castelo das Águias (2011), O Caçador (2009) e O Jogo do Equilíbrio (2005), além do ensaio Os Contos de Fadas (2010).
- Duda Falcão é escritor e um dos editores da Argonautas.
Legal, né? E fica mais ainda quando se sabe que o livro, com prefácio da Simone Marques, vai ser lançado dia 13 de agosto, sábado, a partir das 16:30, no Fantasticon. Todos os autores estarão presentes, e eu terei o maior prazer em autografar esse e os outros livros que escrevi ou de que participo, além de presentear a todos com um marcador do Castelo das Águias.
Portanto, pessoal... se estiverem em Sampa ou puderem dar um pulinho lá, já sabem. Não deixem de nos prestigiar e à Literatura Fantástica Nacional. Todos ao Fantasticon!
Até lá,
Ana
quinta-feira, julho 07, 2011
Aqui Vamos Nós de Novo
Pessoas Queridas,
Está chegando a hora do meu "sumiço oficial".
Quem acompanha este blog há algum tempo sabe que pelo menos uma vez por ano eu faço uma viagem do tipo "sem rádio e sem notícias", ou seja, fico fora da rede e muitas vezes alheia ao que está acontecendo por aí. É o que devo fazer agora, salvo uma ou outra checada eventual nos e-mails. O blog do Castelo das Águias talvez tenha atualização nesse meio-tempo, dependendo do que eu conseguir digitar, mas a Estante Mágica estará fechada para balanço até, pelo menos, a última semana de julho. Assim, despeço-me de vocês, deixando alguns avisos e convites.
Em primeiro lugar, sobre mim. Vocês devem ter percebido que este foi um semestre atarefado. Lancei O Castelo das Águias, o que foi uma grande conquista, e escrevi contos e artigos. Alguns foram publicados em papel ou em sites (confiram na página Publicações deste blog); outros farão parte de antologias a ser lançadas no segundo semestre, como Sagas 2 - O Martelo das Bruxas, da Editora Argonauta, e Eu Acredito - Fadas e Duendes, da Literata.
Nesse processo, treinei muito, aprendi muito sobre a escrita e o ato de escrever; tive críticas a meu trabalho, nem todas inteiramente positivas, mas todas, felizmente, relevantes e bem-intencionadas; conheci pessoas maravilhosas, como Allana Dilene e Marcelo Paschoalin; fui convidada para mais projetos e para alguns eventos que, tenho certeza, servirão para divulgar meu trabalho e a Literatura Fantástica de modo geral. Com novas editoras apostando e investindo, este é um excelente momento para nós, escritores do gênero. Temos de aproveitá-lo para expandir nosso alcance e conquistar o público além do fandom.
E, por falar em editoras, duas delas (na verdade três) estão oferecendo ótimas oportunidades para quem curte escrever. Aqui vão elas:
A novíssima Editora Ornitorrinco, em parceria com a Literata, está abrindo inscrições para a antologia 2013: ano 1. Nela, os escritores devem imaginar um cenário posterior à destruição do mundo em 2012, segundo a profecia maia. Alícia Azevedo e Daniel Borba são os organizadores. Os selecionados dividirão o espaço com convidados muito ilustres. Querem saber quais, ver a capa e mais informações? É só clicar aqui.
Já a Editora Draco anunciou para o ano que vem o terceiro livro da série Amores Proibidos, que já teve como tema os vampiros e os anjos. Nos dois primeiros, o time de escritoras era composto por autoras convidadas, mas desta vez os organizadores Eric Novello e Janaína Chervezan resolveram inovar: só uma convidada, esta que vos fala, e oito vagas para autoras selecionadas. Sim, autorAs: só mulheres podem participar dessa seleção, e todas devem escrever com vistas ao público jovem e adulto. Os contos devem envolver um romance entre uma mortal e um ser ligado de alguma forma à Mitologia, embora não a todas as Mitologias. Quais serão aceitas? Vejam aqui - e aproveitem para ler os incríveis artigos, ver os lançamentos e saber outras novidades da Editora do Dragão!! :)
Então, Pessoas, vou nessa. Ainda estarei dois ou três dias por aqui, mas naquela correria que sempre antecede as viagens. Quando voltar, espero estar com o fôlego renovado - e, é claro, trazer na bagagem muita inspiração para novas histórias.
Abraços pra vocês,
Até breve!
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