sexta-feira, janeiro 22, 2010

A Primeira Águia da Montanha...


Oi, Pessoas! Tudo bem? Comigo tudo azul, como o céu da Montanha das Águias!

Tenho o prazer de anunciar a todos minha primeira novidade de 2010. Trata-se de um conto incluído na antologia "Paradigmas 4", que fecha a Coleção Paradigmas, publicada desde o ano passado pela Tarja Editorial.

Os bravos que acompanham este blog desde o início sabem o quanto sou fascinada pela Pré-História. Principalmente o modo de vida das pessoas da época, sobre o qual sabemos tão pouco. Por isso mesmo, é fácil sonhar histórias para essas pessoas... embora escrever, como sempre, tenha o seu quê de desafio.

Não vou me alongar sobre o conto, até para não estragar a surpresa. Apenas deixo aqui o link da editora, esperando que façam uma visita, conheçam a proposta... e, é claro, adquiram essa minha mais nova escrevinhação. Para ler ao redor da fogueira e registrar na parede da caverna.

Abraços a todos,

Ana

domingo, janeiro 17, 2010

Novos Voos



Pessoas Queridas,

É verdade, faz tempo que não venho aqui. Perdoem! É que estou trabalhando num projeto super-importante, que vai significar muito para a minha carreira como escritora. Assim que puder, vou partilhá-lo com vocês, por ora deixo apenas uma pista. Quem for observador (e me conhecer um pouquinho) vai entender logo.

Abraços a todos,

Ana

sexta-feira, dezembro 18, 2009

A Nova Edição de "O Caçador" ou Minha Versão da História de Branca de Neve e o Caçador



Pessoas Queridas,

O último post de 2009 tinha que ser especial!

Depois de muitas idas e vindas – mudanças de revisor, de ilustrador, adequação à nova ortografia – meu livro “O Caçador” acaba de sair, republicado pela Editora Franco, de Juiz de Fora (MG). Estou muito feliz com isso, porque, embora o livro tenha tido um êxito razoável em sua versão independente, a nova edição me dará a oportunidade de divulgar, de forma mais ampla, esse meu primeiro trabalho de ficção.

Para quem não sabe, “O Caçador” é um livro de fantasia baseado no universo dos contos de fadas, que acompanha a trajetória de um personagem – injustamente, a meu ver – tratado como secundário: aquele a quem uma rainha invejosa encomendou a morte da bela enteada. Sabe-se o que aconteceu depois com a moça, mas e o caçador? Foi preso pela rainha, para não deixar pistas do crime? Voltou para a floresta? Ou partiu em busca de outros caminhos?

É essa a história que eu conto no livro e que gostaria de partilhar, tanto com o pessoal mais novo – a indicação é a partir dos 12 anos – quanto com adultos que gostem de fantasia e de uma boa narrativa.

“O Caçador” tem 100 páginas e um preço de capa bem acessível: R$ 22,00. Se alguém quiser adquirir a obra, indicar uma escola para receber material informativo ou – uma coisa importante, que desde já agradeço – dar uma força na divulgação, repassando a notícia do livro a quem possa se interessar, é só visitar o site da editora. Para comprar online, clique aqui ou encomende na
Livraria Saraiva.

.......

Então, Pessoas... Por este ano, é só. Os posts não foram muitos, mas as novidades sim, como eu espero que vocês tenham percebido.

E em 2010 tem mais. Com garra, fé e sorte – além, é claro, de uma ajudinha dos amigos.

Até lá,

Tudo de bom e um grande abraço!

Ana

quarta-feira, novembro 11, 2009

Uma Versão Diferente da Cinderela



Pessoas Queridas,

Como devem saber, todos os povos possuem suas narrativas tradicionais, muitas das quais se assemelham a outras de diferentes origens, ainda que não tenha havido contato entre as culturas. Isso se dá, segundo a teoria arquetípica, porque essas narrativas ancestrais fazem parte do inconsciente coletivo; seus personagens não são indivíduos, mas figuras míticas que existem universalmente. Assim, em várias partes do mundo encontramos narrativas cujos personagens e motivo central são semelhantes entre si, embora as circunstâncias variem de acordo com a cultura que produziu cada uma das versões.

A história da Cinderela tem mais de 300 variantes, desde a chinesa (na qual, um narrador me disse uma vez, o sapatinho é de palha) até a “Maria Borralheira” de Sílvio Romero. A que vou contar agora vem do povo Algonquino, uma nação que se estende pela costa oeste da América do Norte, desde Vancouver, no Canadá, até a Califórnia, nos Estados Unidos. O texto foi adaptado por mim do livro “O Violino Cigano”, de Regina Machado (Cia. das Letras, 2004), que por sua vez a retirou de “World Tales”, de Idries Shah. Mais uma prova de como as histórias se transmitem como numa teia... e como nós, os contadores, não resistimos a acrescentar mais um fio.

Então, com vocês...

OOCHIGEASKW, UMA CINDERELA ALGONQUINA

Numa aldeia Micmac, à beira de um grande lago, vivia um viúvo com suas três filhas. A mais velha era vaidosa e impaciente; a segunda, preguiçosa e rabugenta; a terceira, humilde e de bom coração. Suas irmãs a maltratavam o tempo todo, obrigando-a a fazer o trabalho pesado e a cuidar do fogo. Às vezes, a mais velha a queimava com cinza quente, o que a deixou com tantas cicatrizes que passou a ser chamada Oochigeaskw, a menina do rosto marcado.

Na fronteira dessa aldeia viviam dois irmãos, um rapaz e uma moça. Eles não chamariam a atenção de ninguém, se não fosse por um detalhe: o rapaz era invisível aos olhos de todos, a não ser os da irmã. E todos sabiam que, se um dia alguma jovem pudesse vê-lo, casaria com ele... o que todas, levadas pela curiosidade e pela fascinação, gostariam de fazer.

Uma a uma, as jovens da aldeia se submetiam à prova estabelecida pelo rapaz, indo ao encontro da irmã dele e passeando com ela à beira do lago. Em dado momento, a irmã do rapaz invisível parava e indagava se a amiga estava vendo seu irmão, e, caso a resposta fosse afirmativa, perguntava de que era feita a corda de seu arco e com o que ele puxava seu trenó.

Sem poder vê-lo, as jovens arriscavam respostas. “A corda é feita de couro cru”, diziam, ou ainda, “Ele puxa o trenó com um galho flexível de árvore”. A irmã percebia que as moças tentavam enganá-la, mas mesmo assim as convidava à sua tenda, onde servia ao irmão alimentos que, pouco a pouco, iam desaparecendo, sem que as convidadas pudessem ver quem comia. Por fim, as jovens desistiam de ver o que quer que fosse e voltavam para casa.

Certo dia, as irmãs de Oochigeaskw resolveram tentar a sorte, mas não quiseram levar a mais nova, a quem deixaram com serviço dobrado para fazer enquanto estivessem fora. No fundo, elas não acreditavam poder ver o rapaz invisível, mas tinham esperanças de que ele se deixaria seduzir por sua beleza. O rapaz e sua irmã, contudo, se portaram exatamente como das outras vezes, e as duas voltaram para casa sem nada ter conseguido.

No dia seguinte, o pai delas chegou com uma porção de conchinhas muito bonitas, que as filhas mais velhas pegaram para si. Enquanto isso, Oochigeaskw, que sempre andara descalça, pediu e obteve do pai um velho par de mocassins, e depois foi à floresta e arrancou cascas de bétula, com as quais fez um vestido. Ao retornar, pediu conchinhas às irmãs para adorná-lo. A mais velha não a atendeu, mas a segunda ficou com pena e lhe deu algumas conchinhas. Oochigeaskw enfeitou seu vestido com elas, conforme aprendera com seus ancestrais, calçou os mocassins do pai e saiu para também tentar a sorte com o ser invisível, embora as outras moças tentassem impedi-la, dizendo que era tão feia que nem seria recebida pela irmã do rapaz.

De fato, com a estranha roupa de casca de árvore, os velhos mocassins e o rosto coberto de cicatrizes, Oochigeaskw não era atraente. Mas a irmã do ser invisível, que enxergava além das aparências, a recebeu com um sorriso e a levou para caminhar à margem do lago.

- Você pode ver meu irmão chegar? – perguntou ela, de repente.
- Sim, e ele é muito belo – disse Oochigeaskw.
- De que é feita a corda do seu trenó?
- Do arco-íris.
- E a corda do seu arco?
- São as estrelas da Via Láctea – murmurou a moça.
- Eu sabia desde o início que você o veria! – exclamou a irmã, feliz. – Venha, vamos para casa esperá-lo.

Ao entrar na tenda, a irmã preparou um banho com raízes perfumadas para Oochigeaskw. Enquanto a banhava, suas cicatrizes iam desaparecendo e seu cabelo se tornando espesso e brilhante. A irmã a penteou e depois a vestiu com um lindo vestido de casamento, bordado em conchinhas dispostas em desenhos, como faziam os antepassados. Então, disse-lhe para sentar no lugar reservado àquela que seria a esposa de seu irmão.

Quando ele, belo e forte, entrou na tenda, viu a jovem que o esperava e perguntou:

- Já não nos vimos antes?
- Sim, hoje, no final da tarde – respondeu ela, os olhos brilhando como estrelas.

E, desse dia em diante, Oochigeaskw, a menina do rosto marcado, ficou na memória de seu povo como a mulher do ser invisível... Aquela que soube ver.

(Publicado neste blog em 2004. Porque recordar é viver.;) )

Ilustração da artista norte-americana Doranna,

sábado, outubro 31, 2009

As Origens do Halloween



O Halloween tem origem na Irlanda celta, onde, por volta do século V antes de Cristo, o Verão terminava oficialmente a 31 de Outubro. O feriado era chamado sow-em, ou Samhain, e correspondia ao Ano Novo dos Celtas. Nesse dia, acreditava-se que os espíritos dos mortos voltavam em busca de corpos que pudessem ocupar durante o ano seguinte. Não querendo (compreensivelmente) abrir mão dos seus, os aldeões apagavam o fogo em suas casas – a fim de torná-las frias e pouco acolhedoras – e se vestiam, eles mesmos, como seres maléficos, que faziam ruídos terríveis, na tentativa de desencorajar o ataque dos fantasmas.

Os romanos que ocuparam o território celta adotaram as práticas, mas, no primeiro século de nossa era, o Samhain foi integrado às celebrações em honra de Pomona, a deusa latina dos pomares e colheitas. Mais tarde, quando o mundo romano se tornou cristão, os festejos se incorporaram aos ritos populares ligados ao Dia de Todos os Santos, em Inglês All Hollows Day, cuja véspera – All Hollows Eve, de onde vem o termo Halloween – era tradicionalmente o dia em que os mortos e as bruxas ficavam à solta.

A prática do “trick or treat” que vemos (já bastante edulcorada) nos filmes americanos vem de uma tradição que remonta ao século IX, chamada souling nas Ilhas Britânicas. De acordo com essa tradição, na noite de Halloween os jovens percorriam as casas de sua cidade ou aldeia pedindo contribuições – dinheiro, mas principalmente tortas e bolos – em troca das quais rezariam em intenção das almas dos mortos. O costume de se vingar dos que se negassem a contribuir deve ter surgido quase simultaneamente – e, conhecendo a cultura medieval, pode-se imaginar a que tipo de “travessura” estavam sujeitos os incautos que ousassem desafiar os jovens bruxos e duendes! ;)

Já o Jack O´Lantern – ou Jack da Lanterna – pertence originalmente ao folclore irlandês. Trata-se de um espertalhão que, tendo conseguido enganar o Diabo, não foi por este admitido no Inferno quando morreu, mas que também não tinha merecimento suficiente para entrar no Paraíso. Assim, ele é obrigado a vagar entre os dois mundos, iluminando seu caminho com uma brasa. Para que ela não se apague, Jack a carrega dentro de um nabo. Sim, isso mesmo: um nabo, não uma abóbora. A abóbora foi uma adaptação feita por aqueles irlandeses que, durante a Fome da Batata (por volta de 1840), migraram para a América do Norte, ali introduzindo o Halloween... que ganhou contornos locais, entre os quais a substituição do nabo pela abóbora nativa.

Pois agora, muitos anos depois, o Halloween começou a ganhar força aqui no Brasil, embora (que eu saiba) as crianças ainda não estejam pedindo doces de porta em porta. A festa é denunciada pelos defensores mais radicais da cultura nacional como mais um produto do colonialismo norte-americano, mas alguns grupos preferiram dar um "jeitinho brasileiro" e organizam o “raluim caipira”, com abóbora e carne-seca no cardápio e tendo como símbolo o Saci-Pererê. Pessoalmente, não vejo problema algum em adotarmos o Halloween, pois ele não é uma "tradição americana”: tem suas raízes na mesma cultura mista, pagã e cristã, que celebra juntos o nascimento de Jesus e o Solstício de Inverno. É verdade que o Natal já era comemorado pelos portugueses quando vieram para o Brasil, mas outros símbolos natalinos, bem posteriores, foram adotados aqui, tais como a árvore de Natal, que veio com os colonos alemães no século XIX (quem lembra das críticas feitas pelo povo de Santa Fé em “Um Certo Capitão Rodrigo”, que preferia o presépio por ser “mais nosso e mais bonito”?) e a figura de São Nicolau, depois transformado em Papai Noel e popularizado através dos slogans de uma conhecida marca de refrigerante.

Pois a substituição do Jack Lanterna pelo Saci Pererê me parece tão forçada quanto a idéia de Monteiro Lobato de colocar, no lugar do Papai Noel, um Vovô Índio. Isso aconteceu na década de 30 e tinha o mesmo pretexto de valorizar a cultura nacional. No entanto, o Halloween começou a ser comemorado aqui exatamente como, há menos de dois séculos, passou-se a comemorar um Natal com características da Europa do Norte: nos lugares onde se tinha mais contato com a cultura estrangeira. Naquele caso, eram as colônias, neste foram as escolas americanas e os cursos de Inglês. E, é claro... hoje, os meios de propagação são muito mais rápidos.

Que a data tenha se espalhado por outras escolas, outros jovens, outras famílias e grupos sociais não é de se estranhar. Todo mundo gosta de uma festa a fantasia. Além disso, as bruxas de chapéu pontudo, os vampiros, os monstros do Halloween americano podem ter chegado aqui no século XX, mas não chegaram com a globalização. Todos temos referências deles através do cinema e da Literatura, e, em nosso imaginário, já começaram a se confundir com as bruxas e duendes do nosso próprio folclore. Porque eles existem, ah...! Isso é que existem...

Assim, querer “erradicar” o Halloween do Brasil ou pretender que se pode festejá-lo deixando de lado qualquer influência estrangeira é querer deter um processo de assimilação que, bom ou mau, a essa altura me parece irreversível. Bem melhor, a meu ver, será abrir o círculo, contribuindo para a criação de uma nova festa, na qual estaremos integrados e não aculturados.

Um Halloween urbano e caboclo, com tudo que temos direito.

Uma festa de pagãos e cristãos, com vampiro, lobisomem e saci-pererê.

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Abraços, doces e travessuras a todos!

Até a próxima!

Ana Lúcia

Publicado originalmente a 27/10/2004. Reduza! Recicle! Reaproveite!