As lágrimas secaram,
cristais
a luzir caminhos.
Já não sei de teus livros,
de tuas ferramentas,
das pequeninas coisas mágicas
que te saíam das mãos.
Mesmo dos versos que reescrevias
não guardei uma linha.
Porque pude conhecer-te,
não me importou nenhuma herança,
a não ser essas memórias que carrego
como mala de mascate.
Porque tanto me ensinaste,
não te darei um minuto de silêncio,
mas uma vida de histórias.
.....
Em memória de meu avô, Jorge Merege (1906-1989),
que me apresentou aos mitos gregos e a Sherazade.
domingo, setembro 17, 2006
quarta-feira, setembro 06, 2006
Jujubas em Athelgard
Pessoas Queridas,
Eu juro, eu juro que queria ter postado antes. Mas não consegui. Nestes últimos dias, à exceção de questões familiares e profissionais às quais não posso me furtar, não tenho conseguido me concentrar em nada, a não ser na escrita da trilogia. Espero que valha a pena, quando ela vier à luz...!
Estou muito animada com isso, pois venho produzindo bastante. No dia 25 de agosto pus um ponto final no segundo livro, Um Ano e Um Dia, e comecei a escrever o terceiro, A Fonte Âmbar. Mais uma vez, notei uma grande coincidência, ou mais, sincronicidade em relação à escrita, pois, enquanto o primeiro livro, O Castelo das Águias - que é narrado por uma contadora de histórias - foi iniciado no Dia do Escritor, 25 de julho (de 2005), este, que se passa durante uma guerra, começou no Dia do Soldado. Nada disso foi intencional, e pode ser que seja uma bobagem conferir-lhe alguma importância, mas... bom... eu continuo levando fé nas teorias de Jung.
Fé, aliás, é o que eu espero que não me falte em relação à publicação destes livros. Jamais acreditei tanto numa história e em personagens criados por mim, e sinto uma grande necessidade de compartilhá-los. Depois da trilogia escrita e revisada, eu adoraria despertar o interesse de uma editora, que não apenas imprimisse (isso eu posso fazer por minha conta) mas também distribuísse e divulgasse as minhas obras. Sei que isso é difícil, já que sou uma autora completamente desconhecida e escrevo para um "nicho" restrito de público, mas mesmo assim vou tentar, pois acho que vale a pena. Claro que não descarto a possibilidade de fazer como fiz com os outros livros, uma edição pequena vendida apenas através do blog ou de uma editora virtual - é o que vou acabar fazendo se não conseguir de outro jeito - mas vou me empenhar para que dessa vez seja diferente.
E estou com um monte de idéias meio malucas em relação a isso. Noutro dia, estava lendo um texto da autora de livros juvenis, Thalita Rebouças, que, diante do fato (cruel, mas verdadeiro) de que as editoras recebem milhares de originais que nem chegam a analisar, sugeria que o material fosse enviado de maneira a causar impacto visual. Dentro de uma caixa colorida cheia de jujubas, por exemplo. Bom, eu não acho que jujubas combinem muito com Athelgard e as Águias Guerreiras, por isso estou pensando em confeccionar umas caixas ou envelopes que lembrem a entrada de um castelo e neles enviar meus originais. Tomando por base a sugestão da minha querida Lydi (nos comentários do post anterior), que muito me encheu de orgulho, penso também em fazer um projeto megalomaníaco, apresentando a trilogia não apenas como obra literária, mas como a base de um sistema de RPG que poderia gerar jogos, manuais e todo tipo de produto secundário. Por que não? Tanta gente envia cartas apresentando seus livros como "o próximo best-seller"!
Mas isso ainda está apenas no plano dos sonhos. O que existe de concreto: dois livros escritos e outro a caminho, cujos originais têm sido elogiados por pessoas que são minhas amigas, mas também leitoras contumazes de Fantasia. O apoio e a paciência desses mesmos amigos. E a minha imaginação, que percorre livremente os caminhos de Athelgard. Por tudo isso, vale a pena lutar.
Um beijo carinhoso. Volto assim que puder.
Ana Lúcia
Eu juro, eu juro que queria ter postado antes. Mas não consegui. Nestes últimos dias, à exceção de questões familiares e profissionais às quais não posso me furtar, não tenho conseguido me concentrar em nada, a não ser na escrita da trilogia. Espero que valha a pena, quando ela vier à luz...!
Estou muito animada com isso, pois venho produzindo bastante. No dia 25 de agosto pus um ponto final no segundo livro, Um Ano e Um Dia, e comecei a escrever o terceiro, A Fonte Âmbar. Mais uma vez, notei uma grande coincidência, ou mais, sincronicidade em relação à escrita, pois, enquanto o primeiro livro, O Castelo das Águias - que é narrado por uma contadora de histórias - foi iniciado no Dia do Escritor, 25 de julho (de 2005), este, que se passa durante uma guerra, começou no Dia do Soldado. Nada disso foi intencional, e pode ser que seja uma bobagem conferir-lhe alguma importância, mas... bom... eu continuo levando fé nas teorias de Jung.
Fé, aliás, é o que eu espero que não me falte em relação à publicação destes livros. Jamais acreditei tanto numa história e em personagens criados por mim, e sinto uma grande necessidade de compartilhá-los. Depois da trilogia escrita e revisada, eu adoraria despertar o interesse de uma editora, que não apenas imprimisse (isso eu posso fazer por minha conta) mas também distribuísse e divulgasse as minhas obras. Sei que isso é difícil, já que sou uma autora completamente desconhecida e escrevo para um "nicho" restrito de público, mas mesmo assim vou tentar, pois acho que vale a pena. Claro que não descarto a possibilidade de fazer como fiz com os outros livros, uma edição pequena vendida apenas através do blog ou de uma editora virtual - é o que vou acabar fazendo se não conseguir de outro jeito - mas vou me empenhar para que dessa vez seja diferente.
E estou com um monte de idéias meio malucas em relação a isso. Noutro dia, estava lendo um texto da autora de livros juvenis, Thalita Rebouças, que, diante do fato (cruel, mas verdadeiro) de que as editoras recebem milhares de originais que nem chegam a analisar, sugeria que o material fosse enviado de maneira a causar impacto visual. Dentro de uma caixa colorida cheia de jujubas, por exemplo. Bom, eu não acho que jujubas combinem muito com Athelgard e as Águias Guerreiras, por isso estou pensando em confeccionar umas caixas ou envelopes que lembrem a entrada de um castelo e neles enviar meus originais. Tomando por base a sugestão da minha querida Lydi (nos comentários do post anterior), que muito me encheu de orgulho, penso também em fazer um projeto megalomaníaco, apresentando a trilogia não apenas como obra literária, mas como a base de um sistema de RPG que poderia gerar jogos, manuais e todo tipo de produto secundário. Por que não? Tanta gente envia cartas apresentando seus livros como "o próximo best-seller"!
Mas isso ainda está apenas no plano dos sonhos. O que existe de concreto: dois livros escritos e outro a caminho, cujos originais têm sido elogiados por pessoas que são minhas amigas, mas também leitoras contumazes de Fantasia. O apoio e a paciência desses mesmos amigos. E a minha imaginação, que percorre livremente os caminhos de Athelgard. Por tudo isso, vale a pena lutar.
Um beijo carinhoso. Volto assim que puder.
Ana Lúcia
terça-feira, agosto 15, 2006
Saga : um poema da adolescência
Oi, Pessoas! Tudo bem?
Pois é, foi mais uma longa ausência. Mas eu aproveitei bem o tempo. Finalmente, na terceira tentativa, acabei de ler Grande Sertão: Veredas, além de outras obras menos conhecidas, mas excelentes, que já entraram para a lista do "Top 20 2006". Também acabei finalmente de escrever o capítulo 30 de Um Ano e um Dia, que exigiu bastante, por ser o do clímax, e agora estou finalizando o livro e fazendo pesquisas para o próximo. Isso porque, como vocês sabem, o fato de escrever Fantasia não nos libera da necessidade de conferir coerência e verossimilhança ao texto literário. Pelo contrário! É preciso ler, pesquisar, tomar conhecimento daquilo que de fato existe (ou existiu) para construir um universo ficcional que seja plausível. Li muito sobre piratas para escrever esse segundo livro da trilogia, e para o terceiro estou lendo sobre exércitos da Antigüidade e da Idade Média, já que boa parte da obra se passa numa cidade de vocação militar. Estou me baseando em instituições de Roma e de Esparta para descrever a organização social e política da minha Scyllix. Se no fim o livro não ficar bom... pelo menos terei aprendido um pouco mais sobre História. :)
Mas este post não é para falar sobre isso. Ao menos não diretamente. Eu já tinha comentado aqui que pretendia usar alguns de meus poemas, escritos na adolescência, nos livros da trilogia do Castelo das Águias. Por estes dias, estive relendo meus velhos cadernos e escolhendo aquele que poderia atribuir ao protagonista, Kieran de Scyllix. Ele os teria escrito por volta dos 15, 16 anos - a mesma idade que eu tinha ao "cometer" o poema -, quando era aprendiz de Mael, um mago a serviço do exército da cidade. Fiquei indecisa entre três textos e acabei por me decidir - mais ou menos - por um, que deixo aqui como amostra da minha produção adolescente. É meio mal-ajambrado, e, talvez, desnecessariamente dramático. Mas serve exatamente para o que eu quero no contexto do livro.
.......
Saga
Se são muitos os homens
São muitos os deuses.
E, perdido entre as sombras dos astros,
Encapuzado, tresnoitado, pálido,
Eu busco a cada noite, entre labirintos,
O caminho que me torne um mago,
O caminho que me torne sábio,
O caminho que me torne livre.
Com o vento em minhas vestes
E um archote desafiando as estrelas
Eu firo minhas mãos escalando montanhas,
Curvo meus ombros penetrando cavernas,
Caio de fadiga palmilhando estradas.
São muitos os caminhos e uma só chegada,
E mil talismãs para abrir cada porta,
E mil profecias em torno de um só nome.
E quantas lendas haverá um dia
Contadas em redor do fogo?
E quantas falarão de mim?
São muitas as sagas
E muitos os heróis,
E eu sou apenas um dos que procuram.
Um andarilho, solitário entre aldeias,
Viajante sem estrada,
Nômade sem pouso.
Pois são muitos os mestres
E muitos os discípulos,
E eu sou apenas um homem.
Um homem em busca de um mistério
Que se deixe revelar.
.......
E aí? Não é tão ruim assim, é?
Gostaria que vocês me dissessem que tipo de pessoa parece ser aquela que escreve um poema assim. Na época já não era eu: ele foi escrito pensando num outro personagem, de uma história que acabei por não desenvolver até o final. Uma das minhas muitas personas, num exercício anterior à maturidade, que agora volta "repaginada" nessa trilogia.
Aguardo sua opinião. Obrigada desde já!
Abraços a todos,
Ana Lúcia
Pois é, foi mais uma longa ausência. Mas eu aproveitei bem o tempo. Finalmente, na terceira tentativa, acabei de ler Grande Sertão: Veredas, além de outras obras menos conhecidas, mas excelentes, que já entraram para a lista do "Top 20 2006". Também acabei finalmente de escrever o capítulo 30 de Um Ano e um Dia, que exigiu bastante, por ser o do clímax, e agora estou finalizando o livro e fazendo pesquisas para o próximo. Isso porque, como vocês sabem, o fato de escrever Fantasia não nos libera da necessidade de conferir coerência e verossimilhança ao texto literário. Pelo contrário! É preciso ler, pesquisar, tomar conhecimento daquilo que de fato existe (ou existiu) para construir um universo ficcional que seja plausível. Li muito sobre piratas para escrever esse segundo livro da trilogia, e para o terceiro estou lendo sobre exércitos da Antigüidade e da Idade Média, já que boa parte da obra se passa numa cidade de vocação militar. Estou me baseando em instituições de Roma e de Esparta para descrever a organização social e política da minha Scyllix. Se no fim o livro não ficar bom... pelo menos terei aprendido um pouco mais sobre História. :)
Mas este post não é para falar sobre isso. Ao menos não diretamente. Eu já tinha comentado aqui que pretendia usar alguns de meus poemas, escritos na adolescência, nos livros da trilogia do Castelo das Águias. Por estes dias, estive relendo meus velhos cadernos e escolhendo aquele que poderia atribuir ao protagonista, Kieran de Scyllix. Ele os teria escrito por volta dos 15, 16 anos - a mesma idade que eu tinha ao "cometer" o poema -, quando era aprendiz de Mael, um mago a serviço do exército da cidade. Fiquei indecisa entre três textos e acabei por me decidir - mais ou menos - por um, que deixo aqui como amostra da minha produção adolescente. É meio mal-ajambrado, e, talvez, desnecessariamente dramático. Mas serve exatamente para o que eu quero no contexto do livro.
.......
Saga
Se são muitos os homens
São muitos os deuses.
E, perdido entre as sombras dos astros,
Encapuzado, tresnoitado, pálido,
Eu busco a cada noite, entre labirintos,
O caminho que me torne um mago,
O caminho que me torne sábio,
O caminho que me torne livre.
Com o vento em minhas vestes
E um archote desafiando as estrelas
Eu firo minhas mãos escalando montanhas,
Curvo meus ombros penetrando cavernas,
Caio de fadiga palmilhando estradas.
São muitos os caminhos e uma só chegada,
E mil talismãs para abrir cada porta,
E mil profecias em torno de um só nome.
E quantas lendas haverá um dia
Contadas em redor do fogo?
E quantas falarão de mim?
São muitas as sagas
E muitos os heróis,
E eu sou apenas um dos que procuram.
Um andarilho, solitário entre aldeias,
Viajante sem estrada,
Nômade sem pouso.
Pois são muitos os mestres
E muitos os discípulos,
E eu sou apenas um homem.
Um homem em busca de um mistério
Que se deixe revelar.
.......
E aí? Não é tão ruim assim, é?
Gostaria que vocês me dissessem que tipo de pessoa parece ser aquela que escreve um poema assim. Na época já não era eu: ele foi escrito pensando num outro personagem, de uma história que acabei por não desenvolver até o final. Uma das minhas muitas personas, num exercício anterior à maturidade, que agora volta "repaginada" nessa trilogia.
Aguardo sua opinião. Obrigada desde já!
Abraços a todos,
Ana Lúcia
quarta-feira, julho 26, 2006
Um Ano e Um Dia... Dia do Escritor!
Pessoas Queridas,
Vocês devem estar estranhando me ver de volta tão cedo. Afinal, os intervalos entre meus posts têm sido de no mínimo dez dias, até mais... e pouca gente comentou o post sobre O Gênio do Crime. Vejam lá, não deixem de lê-lo só porque tem um novo! ;)
Este, na verdade, é "requentado". É um post datado de 24 de julho de 2003, em homenagem ao Dia do Escritor, que se comemora a 25 de julho. Naquele ano ele entrou um dia adiantado, neste vai entrar com um dia de atraso, mas não importa. Eu não queria deixar em branco, e tenho outros motivos para comemorar.
No ano passado, foi exatamente no Dia do Escritor que dei início à trilogia de fantasia medieval que tem ocupado meu tempo e meus pensamentos. A primeira versão do livro 1, O Castelo das Águias, foi escrita numa das minhas "febres ficcionais": 112 páginas, digitadas em Times tamanho 10 e espaço 1,5, em apenas 10 semanas. No dia 20 de outubro comecei a escrever o segundo livro da trilogia, cujo título é tão alusivo que até parece de propósito: Um Ano e um Dia. Isso porque hoje - justamente hoje - faz um ano e um dia que comecei a contar essa história!
Então, como forma de celebrar, aqui vai a homenagem ao Dia do Escritor, que postei dois anos atrás. Hoje meu estilo é um pouco diferente, mas fiz questão de não mudar uma vírgula, só para dar uma idéia de como minha escrita se transformou. Alguns de vocês sabem disso, pois estão comigo desde aquele tempo até hoje - eu lembro, e isso foi reiterado pelos comentários, felizmente ainda guardados na versão blig da Estante Mágica. O Morpheus, do Olhos do Corvo estava lá; a Janinha, que sumiu por um bom tempo e reapareceu agora, estava lá; e foi naquele post, onde eu lembrava ter escrito histórias ambientadas na revolução farroupilha, que o Milton Ribeiro me contactou pela primeira vez. Peço perdão aos presentes e ausentes que não citei, e garanto a todos: vocês foram, são e sempre serão muito importantes. Porque foi neste blog, a partir do incentivo que recebi dos seus leitores, que deixei de ser uma simples "rabiscadora" para aceitar o desafio de construir, ainda que aos trancos e barrancos, minha carreira como escritora de fantasia.
......................................
Salve, Pessoas! Tudo bem?
Este post devia estar entrando amanhã, dia 25 de julho, quando se comemora o Dia do Escritor. Mas, como amanhã não devo ter tempo – e como, além disso, eu exerço meu ofício todos os dias – creio que não há problema em deixar agora, de véspera, algumas palavras sobre o que é para mim o ato de escrever.
“Para mim” não significa que vou teorizar sobre o ato, mas, pelo contrário, que pretendo falar sobre a minha própria experiência. Cada escritor, penso eu, tem a sua, assim como cada pessoa tem a sua própria maneira de se relacionar com seus deuses e seus demônios. Alguns escrevem para relatar fatos, outros para dar vazão aos seus sentimentos; alguns se atêm a técnicas e a um estilo, enquanto existem os que apenas rabiscam furiosamente. Há os que procuram ser inovadores na forma e geniais no conteúdo, e há os que declaram que buscam apenas contar uma boa história; e, depois de muito tempo, acho que finalmente cheguei à conclusão de que pertenço a essa confraria.
Foi um longo percurso, cheio de altos e baixos, desde os primeiros escritos – alguma coisa sobre um mundo povoado apenas por crianças, quando eu tinha cinco ou seis anos – passando por temas improváveis, como bandeirantes e heróis farroupilhas, e por histórias sobre astros de rock, nas adolescência, até chegar aos temas históricos e mitológicos que ainda hoje são o pano de fundo de minha ficção. A fantasy veio mais tarde, surgindo a partir das histórias que eu contava a minhas sobrinhas, e que aos poucos foram escorregando e se deixando fixar no papel. No início, minha escrita era meio preciosista – alguns ecos disso podem ser encontrados em “O Caçador” – mas hoje acredito que meu ritmo seja mais fluido, e as histórias, mais ágeis e leves. Não que estejam prontas e acabadas, é claro... E aqui eu tenho até medo de continuar, pois vou acabar falando sobre aquilo que, para mim, é inerente à criação literária: a terrível, a inevitável, a bendita e indispensável ansiedade.
Ela está presente em todos os momentos, mesmo os mais felizes, quando termino uma passagem difícil, quando coloco num texto o ponto final. Está presente quando escrevo e quando reviso, quando procuro a palavra certa e reescrevo mil vezes uma frase, e até mesmo, ai de mim, quando não escrevo. Talvez seja exatamente quando ela se torna mais viva: quando fico imaginando as histórias, criando cenas e diálogos em pensamento, para depois me desafogar em folhas e folhas de prosa. Não sei se todos os escritores se sentem dessa forma, mas imagino que sim, pelo menos em certo grau. E certamente foram muitos os que tentaram seguir o conselho de Rilke ao jovem poeta, e simplesmente não escrever... se fossem capazes de viver sem isso.
Mas acontece que muitos de nós não somos capazes. E temos que escrever, seja lá como for, não importando os sacrifícios que precisem ser feitos. Para alguns, as condições são mais favoráveis – Veríssimo, por exemplo, teve as tardes de domingo livres para escrever “Clarissa” – mas Lima Barreto usava o papel do Ministério da Marinha, Balzac gastava seus olhos escrevendo à luz de velas num sótão frio, e Jack London, meu irmão de totem, datilografava novelas após dezesseis horas de trabalho numa fábrica. E, à parte as questões materiais, quantos de nós não nos privamos de horas de sono e de lazer, e limitamos o tempo passado com nossos amigos e nossa família?
E, apesar de tudo, continuo achando que vale a pena. Para mim, pelo menos, que liberto meus sonhos através da escrita, que com ela exorcizo meus fantasmas e procuro construir mundos melhores. Quando escrevo, percebo como estou crescendo: na vida, na forma como ajo, nas coisas que faço. Porque, assim como não posso viver sem escrever, sei também que nenhum texto merece ser escrito sem que por trás dele exista vida. E o mais fascinante é que, apesar de todas as angústias, no fundo nosso ofício é tão simples quanto o define a frase de Wilde:
Para escrever bastam duas coisas:
Ter algo a dizer, e dizê-lo.
......................................
Que a Musa nos inspire e nos ilumine a todos!!
Abraços carinhosos,
Ana Lúcia
Vocês devem estar estranhando me ver de volta tão cedo. Afinal, os intervalos entre meus posts têm sido de no mínimo dez dias, até mais... e pouca gente comentou o post sobre O Gênio do Crime. Vejam lá, não deixem de lê-lo só porque tem um novo! ;)
Este, na verdade, é "requentado". É um post datado de 24 de julho de 2003, em homenagem ao Dia do Escritor, que se comemora a 25 de julho. Naquele ano ele entrou um dia adiantado, neste vai entrar com um dia de atraso, mas não importa. Eu não queria deixar em branco, e tenho outros motivos para comemorar.
No ano passado, foi exatamente no Dia do Escritor que dei início à trilogia de fantasia medieval que tem ocupado meu tempo e meus pensamentos. A primeira versão do livro 1, O Castelo das Águias, foi escrita numa das minhas "febres ficcionais": 112 páginas, digitadas em Times tamanho 10 e espaço 1,5, em apenas 10 semanas. No dia 20 de outubro comecei a escrever o segundo livro da trilogia, cujo título é tão alusivo que até parece de propósito: Um Ano e um Dia. Isso porque hoje - justamente hoje - faz um ano e um dia que comecei a contar essa história!
Então, como forma de celebrar, aqui vai a homenagem ao Dia do Escritor, que postei dois anos atrás. Hoje meu estilo é um pouco diferente, mas fiz questão de não mudar uma vírgula, só para dar uma idéia de como minha escrita se transformou. Alguns de vocês sabem disso, pois estão comigo desde aquele tempo até hoje - eu lembro, e isso foi reiterado pelos comentários, felizmente ainda guardados na versão blig da Estante Mágica. O Morpheus, do Olhos do Corvo estava lá; a Janinha, que sumiu por um bom tempo e reapareceu agora, estava lá; e foi naquele post, onde eu lembrava ter escrito histórias ambientadas na revolução farroupilha, que o Milton Ribeiro me contactou pela primeira vez. Peço perdão aos presentes e ausentes que não citei, e garanto a todos: vocês foram, são e sempre serão muito importantes. Porque foi neste blog, a partir do incentivo que recebi dos seus leitores, que deixei de ser uma simples "rabiscadora" para aceitar o desafio de construir, ainda que aos trancos e barrancos, minha carreira como escritora de fantasia.
......................................
Salve, Pessoas! Tudo bem?
Este post devia estar entrando amanhã, dia 25 de julho, quando se comemora o Dia do Escritor. Mas, como amanhã não devo ter tempo – e como, além disso, eu exerço meu ofício todos os dias – creio que não há problema em deixar agora, de véspera, algumas palavras sobre o que é para mim o ato de escrever.
“Para mim” não significa que vou teorizar sobre o ato, mas, pelo contrário, que pretendo falar sobre a minha própria experiência. Cada escritor, penso eu, tem a sua, assim como cada pessoa tem a sua própria maneira de se relacionar com seus deuses e seus demônios. Alguns escrevem para relatar fatos, outros para dar vazão aos seus sentimentos; alguns se atêm a técnicas e a um estilo, enquanto existem os que apenas rabiscam furiosamente. Há os que procuram ser inovadores na forma e geniais no conteúdo, e há os que declaram que buscam apenas contar uma boa história; e, depois de muito tempo, acho que finalmente cheguei à conclusão de que pertenço a essa confraria.
Foi um longo percurso, cheio de altos e baixos, desde os primeiros escritos – alguma coisa sobre um mundo povoado apenas por crianças, quando eu tinha cinco ou seis anos – passando por temas improváveis, como bandeirantes e heróis farroupilhas, e por histórias sobre astros de rock, nas adolescência, até chegar aos temas históricos e mitológicos que ainda hoje são o pano de fundo de minha ficção. A fantasy veio mais tarde, surgindo a partir das histórias que eu contava a minhas sobrinhas, e que aos poucos foram escorregando e se deixando fixar no papel. No início, minha escrita era meio preciosista – alguns ecos disso podem ser encontrados em “O Caçador” – mas hoje acredito que meu ritmo seja mais fluido, e as histórias, mais ágeis e leves. Não que estejam prontas e acabadas, é claro... E aqui eu tenho até medo de continuar, pois vou acabar falando sobre aquilo que, para mim, é inerente à criação literária: a terrível, a inevitável, a bendita e indispensável ansiedade.
Ela está presente em todos os momentos, mesmo os mais felizes, quando termino uma passagem difícil, quando coloco num texto o ponto final. Está presente quando escrevo e quando reviso, quando procuro a palavra certa e reescrevo mil vezes uma frase, e até mesmo, ai de mim, quando não escrevo. Talvez seja exatamente quando ela se torna mais viva: quando fico imaginando as histórias, criando cenas e diálogos em pensamento, para depois me desafogar em folhas e folhas de prosa. Não sei se todos os escritores se sentem dessa forma, mas imagino que sim, pelo menos em certo grau. E certamente foram muitos os que tentaram seguir o conselho de Rilke ao jovem poeta, e simplesmente não escrever... se fossem capazes de viver sem isso.
Mas acontece que muitos de nós não somos capazes. E temos que escrever, seja lá como for, não importando os sacrifícios que precisem ser feitos. Para alguns, as condições são mais favoráveis – Veríssimo, por exemplo, teve as tardes de domingo livres para escrever “Clarissa” – mas Lima Barreto usava o papel do Ministério da Marinha, Balzac gastava seus olhos escrevendo à luz de velas num sótão frio, e Jack London, meu irmão de totem, datilografava novelas após dezesseis horas de trabalho numa fábrica. E, à parte as questões materiais, quantos de nós não nos privamos de horas de sono e de lazer, e limitamos o tempo passado com nossos amigos e nossa família?
E, apesar de tudo, continuo achando que vale a pena. Para mim, pelo menos, que liberto meus sonhos através da escrita, que com ela exorcizo meus fantasmas e procuro construir mundos melhores. Quando escrevo, percebo como estou crescendo: na vida, na forma como ajo, nas coisas que faço. Porque, assim como não posso viver sem escrever, sei também que nenhum texto merece ser escrito sem que por trás dele exista vida. E o mais fascinante é que, apesar de todas as angústias, no fundo nosso ofício é tão simples quanto o define a frase de Wilde:
Para escrever bastam duas coisas:
Ter algo a dizer, e dizê-lo.
......................................
Que a Musa nos inspire e nos ilumine a todos!!
Abraços carinhosos,
Ana Lúcia
sexta-feira, julho 21, 2006
E de Edmundo, Pituca e Bolachão
Oi, Pessoas! Tudo bem?
Prosseguindo com as minhas Memórias de Leitora, chego à letra E, que duas pessoas já apostaram que seria de Emília. Bom, sinto desapontá-los, mas, embora reconheça o valor da obra de Lobato - e aprecie, principalmente, os livros nos quais o autor envereda pela Mitologia - este post é dedicado ao trio protagonista de um dos livros mais queridos, lidos e relidos da minha infância: Edmundo, Pituca e Bolachão, de O Gênio do Crime, do brasileiro João Carlos Marinho.
O Gênio do Crime conta a história de três meninos de classe média de São Paulo que ajudam a desmascarar uma quadrilha de bandidos. O crime não é dos mais hediondos - numa gráfica clandestina, a quadrilha imprimia figurinhas falsificadas de um álbum sobre futebol - mas, quando um dos garotos é apanhado em flagrante, o perfil dos bandidos se torna mais sombrio, e por isso mesmo mais realista. Realista e, ao menos naquele tempo, assustador. Afinal, na época em que o li - já lá se vão quase trinta anos - a violência que hoje faz parte do nosso cotidiano ainda não se tornara tão banal, e a idéia de uma criança (mesmo uma como o Bolachão) mantida em cativeiro, ameaçada e à beira de ser torturada e morta por criminosos bastava para deixar o coração em sobressalto.
O suspense, porém, é apenas um dos pontos altos do livro de Marinho, que - outros já disseram, mas eu assino embaixo - promoveu uma verdadeira revolução na literatura infanto-juvenil, com a temática policial, uma trama ágil, diálogos soltos e naturais, personagens inesquecíveis (quem não lembra do Detetive Invicto?) e um humor que perpassa todo o livro, com elementos que denotam um finíssimo poder de observação. Algumas cenas ficaram para sempre em minha memória: a da conversa entre os três amigos, entremeada pela descrição de Bolachão a comer torradas, num timing perfeito; a do mesmo Bolachão em seu namoro com Berenice, sua gentileza máxima consistindo em abrir mão do último croquete oferecidos pela menina; por fim, a da prisão dos bandidos, em que um constrangido "Puxa vida, que coisa, né?" é a única coisa que o herói é capaz de dizer ao filho pequeno de um dos captores, responsável por descobrir e denunciar, involuntariamente, o crime de seu pai. Tosco (diríamos hoje), mas pensem bem: dizer mais o quê? O que mais poderia ser dito que não soaria como uma lição de moral ou pieguice inútil?
É dessa moral, dessa pieguice, presentes em boa parte da literatura para crianças e jovens, que Marinho consegue se manter afastado. E faz isso com mestria, ora através da inversão do clichê - o Sr. Tomé, dono da fábrica de figurinhas, participa de boa vontade da farsa usada pelos meninos para descobrir a gráfica clandestina, o que inclui enganar seus pais e um diretor de escola - ora através das tiradas desconcertantes de personagens como Berenice: "os garotos da segunda série só sabem contar anedotas elementares e são muito prosaicos". Se a Luciana ficar assim, estou perdida. Mas, enfim... talvez tanto uma como outra estejam dentro do mesmo espírito de "Independência ou Morte" da Emília de Monteiro Lobato.
O Gênio do Crime foi publicado em 1969, o ano do meu nascimento (por favor, não façam as contas!). Meu exemplar era, para variar, da Ediouro - ou muito me engano -, mas atualmente João Carlos Marinho é publicado pela Global. Isso porque, na esteira do sucesso do primeiro livro, que já passou da qüinquagésima edição, o autor escreveu mais doze obras sobre a Turma do Gordo (alguma dúvida sobre quem é o verdadeiro protagonista, mesmo em O Gênio do Crime? eu não tenho), com temas variados como o futebol, a Amazônia e até a pedofilia pela Internet. O último, Assassinato na Literatura Infantil, saiu no ano passado. Não li - na verdade, quando tive o livro em mãos, não me dei conta de quem era o autor - mas estou com vontade de comprar, para ver como é ler, hoje, um autor que me encantou e me divertiu há tantos anos. Não sou mais criança, é verdade. Lerei com outros olhos. Mas, mesmo assim, tenho certeza de que vou reviver os bons momentos que passei em companhia da escrita de Marinho.
Abraços a todos,
Até a próxima!
Ana Lúcia
Prosseguindo com as minhas Memórias de Leitora, chego à letra E, que duas pessoas já apostaram que seria de Emília. Bom, sinto desapontá-los, mas, embora reconheça o valor da obra de Lobato - e aprecie, principalmente, os livros nos quais o autor envereda pela Mitologia - este post é dedicado ao trio protagonista de um dos livros mais queridos, lidos e relidos da minha infância: Edmundo, Pituca e Bolachão, de O Gênio do Crime, do brasileiro João Carlos Marinho.
O Gênio do Crime conta a história de três meninos de classe média de São Paulo que ajudam a desmascarar uma quadrilha de bandidos. O crime não é dos mais hediondos - numa gráfica clandestina, a quadrilha imprimia figurinhas falsificadas de um álbum sobre futebol - mas, quando um dos garotos é apanhado em flagrante, o perfil dos bandidos se torna mais sombrio, e por isso mesmo mais realista. Realista e, ao menos naquele tempo, assustador. Afinal, na época em que o li - já lá se vão quase trinta anos - a violência que hoje faz parte do nosso cotidiano ainda não se tornara tão banal, e a idéia de uma criança (mesmo uma como o Bolachão) mantida em cativeiro, ameaçada e à beira de ser torturada e morta por criminosos bastava para deixar o coração em sobressalto.
O suspense, porém, é apenas um dos pontos altos do livro de Marinho, que - outros já disseram, mas eu assino embaixo - promoveu uma verdadeira revolução na literatura infanto-juvenil, com a temática policial, uma trama ágil, diálogos soltos e naturais, personagens inesquecíveis (quem não lembra do Detetive Invicto?) e um humor que perpassa todo o livro, com elementos que denotam um finíssimo poder de observação. Algumas cenas ficaram para sempre em minha memória: a da conversa entre os três amigos, entremeada pela descrição de Bolachão a comer torradas, num timing perfeito; a do mesmo Bolachão em seu namoro com Berenice, sua gentileza máxima consistindo em abrir mão do último croquete oferecidos pela menina; por fim, a da prisão dos bandidos, em que um constrangido "Puxa vida, que coisa, né?" é a única coisa que o herói é capaz de dizer ao filho pequeno de um dos captores, responsável por descobrir e denunciar, involuntariamente, o crime de seu pai. Tosco (diríamos hoje), mas pensem bem: dizer mais o quê? O que mais poderia ser dito que não soaria como uma lição de moral ou pieguice inútil?
É dessa moral, dessa pieguice, presentes em boa parte da literatura para crianças e jovens, que Marinho consegue se manter afastado. E faz isso com mestria, ora através da inversão do clichê - o Sr. Tomé, dono da fábrica de figurinhas, participa de boa vontade da farsa usada pelos meninos para descobrir a gráfica clandestina, o que inclui enganar seus pais e um diretor de escola - ora através das tiradas desconcertantes de personagens como Berenice: "os garotos da segunda série só sabem contar anedotas elementares e são muito prosaicos". Se a Luciana ficar assim, estou perdida. Mas, enfim... talvez tanto uma como outra estejam dentro do mesmo espírito de "Independência ou Morte" da Emília de Monteiro Lobato.
O Gênio do Crime foi publicado em 1969, o ano do meu nascimento (por favor, não façam as contas!). Meu exemplar era, para variar, da Ediouro - ou muito me engano -, mas atualmente João Carlos Marinho é publicado pela Global. Isso porque, na esteira do sucesso do primeiro livro, que já passou da qüinquagésima edição, o autor escreveu mais doze obras sobre a Turma do Gordo (alguma dúvida sobre quem é o verdadeiro protagonista, mesmo em O Gênio do Crime? eu não tenho), com temas variados como o futebol, a Amazônia e até a pedofilia pela Internet. O último, Assassinato na Literatura Infantil, saiu no ano passado. Não li - na verdade, quando tive o livro em mãos, não me dei conta de quem era o autor - mas estou com vontade de comprar, para ver como é ler, hoje, um autor que me encantou e me divertiu há tantos anos. Não sou mais criança, é verdade. Lerei com outros olhos. Mas, mesmo assim, tenho certeza de que vou reviver os bons momentos que passei em companhia da escrita de Marinho.
Abraços a todos,
Até a próxima!
Ana Lúcia
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