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quinta-feira, julho 06, 2017

O Eterno Retorno : parte 1


O segundo conto da nossa série sobre avós e netos se passa num lugar conhecido da maioria dos meus leitores -- a Floresta dos Teixos em Athelgard -- com uma personagem mais conhecida ainda, Anna de Bryke, a futura Mestra de Sagas do Castelo das Águias. Neste conto ela tem apenas nove anos e aprende a caçar com sua avó, a durona (só por fora) Kyara dos Lobos. 
Anna é feliz com a avó e sua tribo, mas já dá mostras de que é diferente deles em alguns pontos. Além disso, tem muitas dúvidas e perguntas a seu próprio respeito, o que acaba deixando a avó em um conflito: voltar ou não a um lugar do passado? Falar ou não sobre o que talvez aconteça com Anna no futuro?

A ilustração deste conto ficou a cargo de uma das mais antigas e constantes leitoras de Athelgard, a querida Isabela Lopes. 



As pegadas eram claras, impressas em lama seca na extremidade da clareira. Apontavam para o bosque de faias mais adiante, mas Kyara não disse nada, à espera de que a menina lesse os sinais e conseguisse interpretá-los. Para um bom caçador, isso era tudo. Mesmo os que viviam com a cabeça nas nuvens.
Anna estava de joelhos examinando as pegadas, a trança negra enrolada no pescoço, a luz concentrada nos olhos. Sua boca estava contraída, uma boca rosada e bem desenhada, como a da primeira Anna, aquela que nunca aprendera a se orientar na floresta. Não vou deixar acontecer de novo, Kyara pensou. Custasse o que custasse, ela ensinaria a sua neta o que era preciso saber.
-- Então, minha Anna – disse, por fim. – Já descobriu o que tem aí?
-- Descobri que é um cervo. Não é muito grande. – Certo até ali. – Não é mais filhote, porque anda sozinho, mas a pegada é rasa, então ele é bem novo. E passou há pouco tempo, o rastro é fresco. Hoje ao amanhecer?
Olhou para a avó, querendo confirmação ou ao menos uma pista. Kyara cruzou os braços. A menina suspirou e voltou a analisar as pegadas, acompanhando o rastro do cervo ao longo da clareira.
-- Bom, parece que ele foi para o bosque, pode ter ido beber naquela nascente do rio da Lontra. Se não ao amanhecer, um pouco antes. A lama estava mole quando ele pisou...
-- Mole? – observou a avó. – Ou só macia? A pegada é nítida. Será que choveu depois que o cervo passou?
-- Não. – Anna pensou um pouco, depois concordou. – Não chove desde a madrugada, então deve sido mais tarde. Isso quer dizer... Avó! – Arregalou os olhos oblíquos, semelhantes aos dos demais membros da tribo. – Ele passou agora há pouco? Está assim tão pertinho? A gente pode ir atrás dele?
-- Para quê? O que você descobriu logo no começo?
-- Que ele é muito novo. Claro, eu sei que não caçamos animais jovens, mas não seria para pegá-lo. Seria só para seguir a trilha e ver se eu consigo achá-lo.
-- Ah, você gostaria? Fico feliz. – A elfa sorriu. – Mas hoje não temos tempo. Tyshen e os outros vão passar logo depois do almoço, lembra? Vocês vão à cata de bagas e cogumelos.
-- Posso ir amanhã – propôs Anna.
-- Nada disso. Você combinou com eles, e além do mais é sua contribuição para a tribo. Todas as crianças da sua idade estão colhendo bagas para secar e comer no inverno.
-- Eu sei. Tudo bem, vamos voltar. – A menina encolheu os ombros. – Mas, num outro dia, queria ir com você além do bosque de faias e ver a trilha onde você encontrou meu avô. Porque você sempre fala, mas eu não sei direito como chegar lá.
-- Isso seria uma jornada mais longa – disse Kyara.
As palavras pesavam ao lhe sair da boca. Anna não disse nada. Em vez disso, pegou a mão da avó, como se tivesse menos que seus nove anos, e começaram a caminhada de regresso a sua cabana.
-- Esta não é a nossa trilha – afirmou a menina, pouco depois.
-- Eu sei. Peguei um atalho, só para ver se você percebia – sorriu Kyara. Na verdade, não tinha pensado muito antes de enveredar por aquele caminho secundário, que raramente percorrera nas últimas luas. Supunha que o mesmo se desse com os outros membros da tribo, por isso se surpreendeu ao dar com uma linha de armadilhas montadas por alguém no mínimo inexperiente.
-- Olhe para aquilo – Kyara apontou para uma delas, que não poderia estar mais evidente, a não ser que fosse enfeitada com flores roxas. – Não sei quem fez, mas ele ou ela precisa de orientação. Até uma toupeira saberia desviar daquela coisa.
-- Ah, avó. Você sabia que as toupeiras têm aldeias embaixo da terra? Foi Zendak que me disse. – Zendak era o xamã da tribo, que não devia ser contestado, por isso Kyara fez que sim. – Ele disse que são túneis muito longos que se encontram uns com os outros, e elas têm uns cômodos largos onde ficam várias, e se visitam, como se fossem casas. E aí Maryan perguntou como eu achava que seria uma cidade de toupeiras, mas uma cidade de verdade, como as do lugar de onde ela veio. Pensei em toupeiras grandonas que seriam os Conselheiros, uma toupeira-ferreiro de avental, fazendas de toupeiras que plantam cenouras e nabos...
-- Ah, está bem, Anna. Já chega. – Kyara franziu as sobrancelhas, irritada. – Que você goste de Maryan, muito bem, também gosto dela; que aprenda a ler e outras coisas que ela sabe, está certo, pode ser útil um dia. Mas toupeiras plantando nabos! Você não tem mais nada em que pensar?
-- São só histórias -- Anna se defendeu. – A tribo tem suas histórias, o povo de Maryan também, os homens também. Essa é só mais uma, que inventamos para nos divertir. Por que você não gosta?
-- Não é isso. É que você, às vezes, se entusiasma demais imaginando coisas e se esquece do que tem para fazer. Ontem quase deixou queimar a comida porque ficou escrevendo naquele caderno. Aposto que ele está aí na sua bolsa. Não está?
O alto das orelhas de Anna – orelhas humanas, arredondadas – ficou vermelho enquanto ela se debatia entre dizer a verdade ou escondê-la. Por fim, resmungou alguma coisa sobre ter se esquecido de tirar o caderno da bolsa – como se a bolsa de caça onde levava seus talismãs e a faca de metal herdada do avô devesse conter aquele monte de folhas de papel, costuradas numa capa de couro, em que ela rabiscava sempre que tinha um momento livre. Às vezes fazia desenhos, como as outras crianças da tribo, mas geralmente escrevia, como aprendera com Maryan, uma das elfas de cabelos brilhantes que viviam na aldeia junto à Floresta dos Teixos. Tinham chegado pouco antes de Kyara regressar de sua própria aventura no Mundo Lá Fora -- uma aventura que durara quase trinta anos e da qual, além de lembranças, restara apenas a neta ainda bebê.
Anna era um fruto da violência, mas também era a filha de sua filha, um tesouro único e precioso, pelo qual valia a pena lutar. Foi por isso que Kyara voltou para junto da tribo: não só estaria longe dos homens, de sua injustiça e guerras sem sentido, mas tornaria a viver com sua gente, tirando seu sustento da floresta e protegida pelos Espíritos Guardiões. E estava dando tudo certo, inclusive em relação a Anna – mas, ainda assim, aquele entusiasmo da neta pelo Mundo Lá Fora a vinha preocupando. Seus devaneios também, pois só seriam admissíveis num futuro xamã, e a menina não iria trilhar esse caminho. Zendak fora claro quanto a isso, embora, para variar, tudo o mais que tinha dito fosse confuso e quase enigmático.
-- Há vários mundos em que ela pode viver – dissera ele. – Mas, para ser feliz em qualquer um deles, vai ter que encontrar as trilhas secretas. Para gente como Anna, os caminhos mais comuns são os mais difíceis de seguir.
Kyara se lembrava daquela conversa enquanto as duas se aproximavam da cabana. Era a mesma onde ela vivera quando criança, formada em parte pelo tronco oco de uma árvore, esculpido e alargado pelas artes de um antigo xamã, e em parte por toras de madeira encaixadas, as frestas muito bem vedadas com resina. Alguns membros da tribo preferiam construir suas cabanas sobre os galhos, principalmente os da Casa do Corvo, mas Kyara dos Lobos sempre gostara do chão bem sólido embaixo de seus pés. Também lhe agradava estar perto de uma cascata, cujo ruído se ouvia da cabana. Era um bom lugar, o da sua infância. Bem diferente da choupana escura, com o teto de colmo e a lareira enfumaçada, onde vivera com Raymond e a primeira Anna.
Aquela que não lhe enchia os ouvidos de perguntas.
-- Avó, e você, o que vai fazer enquanto formos colher bagas? – A menina mastigava uma tira de carne seca, antecipando-se ao almoço de pato cozido com legumes. – Já temos flechas que cheguem, não há peles para tratar... Não quer ir com a gente?
-- Eu? O que eu iria fazer na floresta com um bando de crianças barulhentas? – resmungou Kyara, no fundo satisfeita com o convite. – Vão vocês, eu fico por aqui. Talvez faça umas visitas ou dê uma volta por perto.
-- Pode ir de novo à clareira, ver se os laços pegaram algum animal – Anna sugeriu. – Ou se o cervo passou por lá voltando da nascente. Foi seguindo o rastro de um cervo que você encontrou meu avô, não foi? E uma cabana, onde ele entrou para se abrigar da neve?
-- Foi. Já não contei essa história?
-- E será que a cabana ainda está lá? Os restos dela, pelo menos – insistiu a menina. – Talvez a lareira onde Raymond estava assando peixe. Você ficou assustada quando topou com ele?
-- Claro que não. Eu tinha meu arco, e ele estava indefeso, tinha tirado até a roupa para secar no fogo. Fiquei foi curiosa. Eu sabia a respeito dos homens, mas nunca tinha visto um.
-- E você achou meu avô bonito – Anna sorriu de um jeito maroto. – Ficou tão apaixonada que foi embora com ele.
-- Não fui embora nesse dia. Fiquei com ele um quarto de lua, tentando ensiná-lo a rastrear e caçar, porque ele ia trabalhar para um homem rico e o trabalho seria esse.
-- E ele aprendeu?
-- No início, não. Só depois que fomos viver lá. Quantas vezes você vai querer ouvir a mesma coisa?
-- É que eu escuto diferente a cada vez – disse a menina.
Kyara franziu o cenho, sem entender. Então, Anna tomou fôlego, assumindo um ar quase solene ao tentar explicar.

***




Parte 2.

Para quem gostou da Anna criança, sugiro o livro Anna e a Trilha Secreta, onde ela encontra os Espíritos Guardiões da Tribo.

No blog do Castelo vocês encontram informações e um belo desenho dos avós Kyara e Raymond.

terça-feira, julho 04, 2017

De Amor e Eternidade : parte 2

-- E nessas viagens todas, Avô Baltha, quem você mais gostou de conhecer? – perguntou Nikka. – Os deuses do Egito?
-- Aposto que foram as ninfas – disse Jeza, com expressão marota.
-- Não. Os deuses eram muito carrancudos, e as ninfas não sabiam conversar, só davam risadinhas.
-- Então quem? O príncipe que dançava com os touros?
-- Teseu? Aquele baixinho invocado? Não mesmo – disse Balthazar.
-- E o homem do cavalo de pau? Esse era esperto.
-- Sim, era. Podíamos ter sido amigos – suspirou o fenício --, mas Lísias e eu estávamos do lado dos troianos.
-- Já sei! – exclamou Jeza, batendo palmas. – Você gostou do rei de Tiro, aquele que mandou a madeira para o amigo dele construir o templo.
-- Foi uma honra estar na presença do Rei Hiram, que eu admirava desde criança – confirmou Balthazar. – Mas não chegamos a ser próximos, e no decorrer das viagens encontrei pessoas a quem me afeiçoei bem mais. Em geral, pessoas comuns, das quais ninguém ouviu falar. Mestre Gaspar e seu discípulo Belchior, os atores no festival de teatro, Tita, a garota que me livrou de morrer na arena. Não vou me esquecer deles, apesar de ter conhecido deuses e reis.
-- Você passou todo o tempo das viagens querendo voltar para Cartago, não foi? – perguntou Jeza, muito séria. – Lísias sempre errava de tempo e de lugar quando dizia o encanto, mas era para cá que vocês estavam tentando vir.
-- Mais ou menos. – Ele preferiu não explicar sobre Alexandre da Macedônia e o desejo de vingança que o fizera procurá-lo: isso levaria ao massacre de Tiro e da sua família de sangue, histórias dolorosas demais para os ouvidos de duas garotinhas. – Eu queria voltar ao barco e reencontrar seu pai, ajudá-lo a acabar de derrotar os piratas. Não queria ser lembrado como o capitão que deixou seus homens para trás. Nessas tentativas nós até conseguimos vir a Cartago, uma vez no passado, outra no futuro. Nenhuma dessas viagens foi muito boa.
-- Ah, Avô Baltha! Essa do futuro é que a gente menos gosta. – Nikka franziu a testa. – Você falou que Cartago tinha acabado. Como é que pode?
-- Não é que tivesse acabado. Foi conquistada. – Evitou cuidadosamente as palavras cruéis: destruição, massacre, sacrifício. – Houve uma série de guerras e, no final, Cartago passou a ser dos romanos. Tudo que era cartaginês...
-- Ah, olhe só! – exclamou Jeza, sacudindo o dedinho como se o tivesse pegado numa mentira. – Os romanos? Aníbal disse que isso é impossível. Roma nunca poderia vencer Cartago. É por isso que ele diz que as histórias são inventadas.
-- Pois eu conheci outro Aníbal que provaria o contrário. Mas tudo bem. Essa não é mesmo uma boa história. – Ele se lembrou daqueles dias sombrios, a pavorosa travessia dos Alpes, Lísias chorando junto ao cadáver de um elefante. – O que eu preciso que vocês acreditem é que eu sei, de fato, algumas coisas que vão acontecer no futuro – guerras, por exemplo – e tento usar isso para ajudar seu pai, porque ele agora é como se fosse meu filho. Eu não sei tudo – desculpou-se --, mas só quero o que for melhor para vocês.
-- A gente sabe disso, Avô Baltha. – Nikka, que estava sentada no chão, pôs a mão em seu joelho.
-- É sim. Que bom que você conseguiu voltar! – exclamou Jeza, dando-lhe um abraço.
O capitão fechou os olhos e sorriu, emocionado. Sim, valera a pena, apesar de tudo que deixara para trás. Só esperava viver o bastante para cumprir a missão que impusera a si mesmo, que o impedira de seguir Lísias até onde ele estava agora, navegando entre as estrelas: com seu conhecimento do futuro, não partiria em paz se não assegurasse que os descendentes de Sikkar iriam sobreviver à queda de Cartago. Vinha trabalhando nisso desde que voltara, abrindo uma filial da casa comercial da família e criando um lar acolhedor para os netos em Alexandria. Não que a cidade egípcia fosse atravessar ilesa os próximos séculos, também passaria por guerras e conflitos, mas ficaria de pé, ao menos até o ponto que ele e Lísias tinham sido capazes de ver. Fora o porto mais seguro que conseguira encontrar para as próximas gerações.
Lísias teria apoiado sua decisão. Era o que dava a entender quando se encontravam em sonhos, nos quais ele nunca surgia como o menino dos primeiros tempos e sim como nas viagens da clepsidra, um jovem marinheiro com uma penugem loura no queixo e um colar do qual pendia uma concha de múrex. Faltava apenas o golfinho de vidro colorido que usara nos últimos anos. Os sonhos também transcorriam sempre do mesmo jeito, com os dois deitados no convés de um barco, olhando estrelas, como tinham feito tantas vezes, em diferentes épocas e lugares. No entanto, ao contrário do que seria de se esperar, Lísias não dizia nada, apenas ouvia as histórias de Balthazar, e só abria de verdade um sorriso quando o fenício contava as proezas dos netos. Como teria gostado de conhecê-los!
E aquelas meninas, Nikka e Jeza, que tinham nascido tão frágeis e cresciam tão fortes – Lísias certamente as teria amado. O capitão olhou para as duas, engenhosas e cheias de carisma como o pai, decididas como a mãe a quebrar as barreiras impostas pelo sexo, e pensou nelas dali a alguns anos, percorrendo os corredores da Grande Biblioteca para desvendar seus segredos. Buscando viver os ideais que os contos da clepsidra haviam despertado. Esse seria o legado que Balthazar deixaria sobre a terra.
-- Meninas! Dando trabalho ao capitão? – Era Núria, a aia siciliana, que vinha descendo as escadas. – O bebê dormiu, e sua mãe está descansando também. Venham comer alguma coisa e se lavar, e assim, quando ele acordar, vocês vão poder logo subir para brincar com ele.
-- Podemos, Avô Baltha? – Jeza o olhou com expectativa.
-- É claro. Já falei um bocado por hoje. Podem ir.
-- O senhor quer beber alguma coisa? – indagou Núria, solícita. – Água, suco, vinho de tâmaras?
-- Depois. Leve as meninas, eu fico um pouco mais por aqui, tomando a fresca.
Piscou para a moça, que enrubesceu, baixando o rosto para esconder o sorriso. Muito bem, Capitão Balthazar. Pelo futuro dos seus netos, que aquele fosse o prenúncio de pelo menos mais duas décadas de vigor e saúde.
Nikka e Jeza beijaram sua barba – um gesto de respeito, muito antiquado na visão do fenício, mas ainda se usava em Cartago – e acompanharam a siciliana. Imprecações em helênico vinham da sala ao lado, onde o preceptor tentava ensinar retórica aos irmãos delas, de treze e onze anos, que só pensavam em travessias do deserto e proezas navais. Esses seriam os primeiros a aceitar a ideia de mudar de cidade. Aníbal, o teimoso primogênito de Sikkar, e o irmão seguinte, de temperamento indeciso, talvez ficassem lá até o fim da vida, mas não fazia mal. Seus filhos, netos ou bisnetos saberiam para onde ir quando a guerra se abatesse sobre Cartago. Quanto a ele, Balthazar, já não caminharia neste mundo, mas ali não cabiam arrependimentos. Outra eternidade o esperava ao fim da jornada. Ou será que todas as suas viagens, todos os encontros com deuses e heróis, todas as surpresas vindas de pessoas comuns não o tinham feito compreender que existia algo além?
-- Nós sabemos melhor, meu Lísias – murmurou o capitão, tateando sob a gola da túnica e encontrando o golfinho de vidro. – Um dia...  

Um vento leve beijou seus cabelos quando ele apertou o talismã contra o peito, junto ao coração.

***

Então? O que acharam do conto? O feedback de vocês é muito importante, porque estou escrevendo histórias sobre Nikka, Jeza e os demais irmãos, mas alguns já devem conhecer o Balthazar e o Lísias. Alguns contos deles estão em e-books e outro está disponível aqui na Estante. 

Para quem quiser vê-los, aqui vão os links:

Os Pilares de Melkart (na coletânea "Piratas")
            O Ouro de Tartessos
            A Caverna de Zakynthos
            Em Busca do Rei 

Ah, e a Parte 1 deste conto, para quem não leu. :)

Muito obrigada -- e volte sexta-feira, que tem mais uma dupla à sua espera, desta vez de avó e neta!

segunda-feira, julho 03, 2017

De Amor e Eternidade : parte 1



O primeiro conto do projeto nos leva até a Cartago do século IV a. C. Ali, Balhazar de Tiro (que meus quatorze leitores e meio devem conhecer) foi adotado como avô pelos filhos de seu antigo ajudante, Sikkar, sobrinho do rico negociante Aníbal, o Achacoso. Ele visualiza um futuro para a família longe de Cartago, especialmente para as gêmeas Nikka e Jeza, a quem conta histórias do seu passado com a clepsidra mágica... e com alguém de quem nunca foi capaz de se esquecer. 

A ilustração foi pedida a Sheila Lima Wing, que tem um traço limpo, bem legal para ilustrar histórias para crianças ou jovens. E aqui vai uma confidência: estou escrevendo histórias da Nikka e da Jeza um pouco mais velhas. Espero que vocês gostem e deixem muitos comentários!


-- Ei, vocês, podem parar! Aonde as gatinhas sorrateiras pensam que vão?
Balthazar cruzou os braços e fez cara de mau. Pegas em flagrante, as gêmeas se deram as mãos, faces vermelhas num primeiro momento, para explodir em risadinhas logo a seguir. O fenício também riu. Atravessando a sala, sentou-se num divã, próximo à janela, e chamou as garotas para junto de si.
-- Sua mãe está fazendo seu irmãozinho dormir – explicou, pela terceira ou quarta vez, apontando a escada. -- Não é para vocês irem lá em cima.
-- Ah, Avô Baltha, a gente só queria ver ele. É tão gordinho e fofinho – disse uma das gêmeas, apertando as próprias bochechas.
-- E a gente não iria fazer barulho. Tiramos até as pulseiras – disse a outra, estendendo os braços.
-- Eu sei, mas ele fica agitado quando vê vocês, mesmo que estejam quietas. Sua mãe precisa de tranquilidade, e sua aia está ocupada, então vamos ficar um pouco aqui embaixo, certo?
-- Certo, mas a gente pode brincar? – perguntou a menina. Balthazar concordou, e ela olhou com malicia para a gêmea antes de prosseguir. – Adivinha quem eu sou: a Nikka ou a Jeza?
-- Hum... Deixe-me ver. – Enrolou a barba branca entre os dedos, fazendo-as rir: o Avô Baltha era um ótimo parceiro de jogos. – De manhã me disseram que Nikka estava de verde e Jeza de lilás. Mas vocês podem ter trocado uma com a outra nesse meio-tempo, não podem?
-- Podemos. – As vozes iguais, os dentes como gotinhas de leite, um deles faltando. Até os dentes elas mudam ao mesmo tempo, pensou o capitão.
-- Bom, não sei se trocaram de roupa, então... Já sei: levantem o braço direito. Aaaargh! Podem baixar, já vi que as duas vão precisar de um bom banho daqui a pouco!
Com isso, as crianças se puseram a rir, uma apenas divertida, a outra gargalhando tanto que teve de segurar a barriga. Essa devia ser Jezabel, que chamavam de Jeza, sempre disposta a uma brincadeira. A outra, mais comedida, era Nikka, apelido de Nikkal. Se bem que ele tinha um jeito infalível de saber, bastando olhar a trancinha discreta, quase escondida entre os cachos negros da gêmea risonha. Aquilo fora feito em segredo por Núria, a aia siciliana, enquanto as duas dormiam – e não fora descoberto, nem refeito por dedinhos de sete anos no cabelo da irmã mais séria.
-- Bom, vou arriscar. Você, que não para de rir, é a Jeza – disse Balthazar, sem querer deixá-las ganhar todas as vezes. – A outra é a Nikka. E vocês não trocaram de roupa. Acertei?
-- Acertoooou! – Jeza se atirou para a frente, caindo nos seus braços e o beijando na face antes de subir no divã.
-- Como você descobriu? – Nikka o olhou desconfiada.
-- Ah, eu conheço vocês – disse ele, evitando revelar o truque da siciliana. – Mesmo vivendo em Alexandria e vindo poucas vezes a Cartago, conheço o jeito de todos os meus netos.
As palavras saíram de seus lábios com facilidade. Ele conhecera o pai e a mãe daquelas meninas quando bem jovens, e, com o tempo, passara a amá-los como se fossem do seu sangue. Agora tinham sete filhos, e Balthazar se sentia um avô de verdade, gostava de aconselhar os rapazes mais velhos e de brincar com as crianças. Estava encantado com o novo bebê. Em tudo e por tudo, por mais que anos atrás isso parecesse impossível, aqueles cartagineses tinham se tornado a sua família, e isso o ajudava a aplacar a dor de tantas perdas.
E, ainda assim, às vezes ele tinha que achar maneiras de extravasá-la.
-- Bom, venci o jogo – disse, sorrindo para as gêmeas. – Agora, quem quer ouvir uma história?
-- Eu! – gritaram as duas.
-- Uma história do Lísias – disse Jeza, como Balthazar esperava que uma delas fizesse. – Mas não uma das tristes, em que vocês viram escravos e são chicoteados ou coisa assim. Conte uma engraçada.
-- Qual? A do Epaminondas?
-- Não, a do cachorro não. A do camelo Menelau – propôs Nikka.
-- Ah, essa também não – disse Jeza. – Conte uma nova, Avô Baltha!
-- Uma nova? Acho que já contei todas.
-- Invente uma – replicou a menina.
-- Não posso. Essas histórias não são inventadas.
-- Aníbal disse que sim – teimou Jeza. – Que o Lísias existiu, claro, mas era só um escravo que viajava com você. Não houve nada dessas histórias de clessipidra.
-- Clepsidra – corrigiu Balthazar. – Seu irmão diz isso porque é um cabeça-dura, igual ao velho tio de quem herdou o nome. A clepsidra era real. Lísias e eu viajávamos com ela para o passado e para o futuro. Já contei como a conseguimos?
-- Eu sei! No templo do deus egípcio! – exclamou Nikka.
-- Não, não. Você está misturando as coisas. A clepsidra era de Thoth, o deus egípcio de cabeça de íbis, mas nós a pegamos num templo dos helenos. Do deus do mar, que eles chamam de Poseidon. Então, estávamos na ilha de Ebusos...
Foi em frente, contando como um estranho sacerdote egípcio o contratara para roubar a relíquia, como eles tinham feito para descobrir o encanto da viagem no tempo e como Lísias o usara pela primeira vez, tirando-os de cena em meio a um ataque de piratas. Enfeitou a narrativa para ressaltar a bravura de Sikkar, o pai das meninas, embora não tivesse visto como ele se saíra em combate. Tudo que sabia é que ficara vivo e negociara sua liberdade e a dos companheiros remanescentes, paga por seu tio Aníbal, que era o dono do barco. Isso naquela outra linha da história, a linha em que Balthazar não retornava de suas viagens. Por que, no fim, tinha escolhido um caminho diferente? Essa pergunta o acompanhara por um bom tempo depois de voltar a Cartago.
E só mais tarde – bem mais tarde – ele conseguira entender.

(Continua... Mas, para quem ficou curioso, dá para ler, aqui mesmo no blog, a história do Camelo Menelau.)

Sigam para a Parte 2!

domingo, julho 02, 2017

Contos Fantásticos de Avós Extraordinários : o Projeto


Pessoas Queridas,

Já faz um tempo que eu venho acalentando a ideia de uma série de contos chamada “Heróis de Prata”, alusão aos cabelos brancos, prateados e grisalhos daqueles que seriam seus protagonistas. Seria – espero que venha a ser -- um projeto mais amplo que este, o qual pretendo tocar com a ajuda do meu amigo Luiz Felipe Vasques, ótimo escritor e um dos meus parceiros de crime.

Esta pequena série segue dentro da mesma ideia, porém é menos ambiciosa. Serão apenas quatro contos, e os “prateados” e “prateadas” vão contracenar sempre com seus netos e netas, com idades entre os sete e os quinze anos. Não quer dizer que os contos sejam para crianças; são contos sobre crianças e jovens, sobre as lições de vários tipos que recebem por parte dos mais velhos e – principalmente nos dois primeiros contos – sobre o efeito que elas mesmas exercem sobre os avós.

Assim, ao longo do mês de julho (para os que gostam de efemérides, 26 de julho é dia de Santa Ana, padroeira dos avós, mas também da leitura e da educação), irei compartilhar quatro contos aqui na Estante Mágica. O primeiro começa amanhã, dia 3, e a última parte do último sairá no dia 31. Cada conto é acompanhado por uma ilustração feita por quatro diferentes amigos e por uma pequena explicação sobre os personagens, vários deles (mas nem todos) já conhecidos pelos meus quatorze leitores e meio.

Eu pensei em fazer uma grande promoção, cheia de prêmios , para quem lesse e comentasse, mas decidi não ir em frente com isso. Vou divulgar, sim, peço a ajuda de todos que puderem e quiserem para fazê-lo, e, claro, vou adorar receber comentários, seja aqui ou nas redes sociais. Mas não se sintam obrigados a nada. Uma visita, vez por outra, já me deixará muito feliz.

Espero vocês – e espero que gostem deste passeio com os avôs e avós dos meus três universos fantásticos!

Já publicados:
De Amor e Eternidade.

O Eterno Retorno.

O Espetáculo Não Pode Parar.

A Era do Leonte.





*****

Sobre o Quixote aí em cima: pensei muito antes de escolher uma imagem para este post. Não queria usar uma das ilustrações dos contos; elas são específicas. Assim, optei por um personagem literário que já era (no mínimo) grisalho, um Herói de Prata que não tinha netos, mas teria sido um avô daqueles mais maravilhosos. :)

quinta-feira, junho 01, 2017

domingo, março 12, 2017

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Ana Lúcia Merege : Uma Aventura Editorial

      As fotos podem não estar muito boas, mas esses são os cadernos que mantenho desde 2002, com o título coletivo Ana Lúcia Merege: uma aventura editorial. Neles registro tudo que aconteceu desde que decidi me mexer para fazer acontecer minha carreira literária, nem que fosse de forma discreta e modesta. caderninhos.



        
        Nesses cadernos registrei os primeiros passos da criação do blog A Estante Mágica de Ana, que existe desde 2002, os contatos com editores, a interação com escritores no antigo Orkut, as primeiras participações em coletâneas, os livros independentes, os contratos; e também as palestras, os lançamentos, os encontros, as Primaveras Literárias e Bienais. Não é uma carreira assim tão movimentada, por isso vários anos cabem num caderno. O terceiro começa agora, em 2017.



         Talvez vocês achem que não é grande coisa, mas para mim esses cadernos significam muito. É o registro de quanto trabalhei e me empenhei para fazer minha carreira acontecer. Então, quando sinto desânimo ou duvido de mim, olho pra eles e vejo o longo caminho que já percorri e quanta coisa boa pode ainda haver pela frente.

terça-feira, dezembro 20, 2016

Cena no Mercado



Um pouco mais cedo, estava eu no mercado quando entreouvi a conversa de dois desconhecidos. Um homem e uma mulher, muito distintos, nos seus sessenta e poucos ou setenta anos. A conversa parece ter começado com um comentário casual sobre a aparência das batatas, e logo o senhor estava explicando seu método de fazer batata frita de forno, crocantíssima, com azeite e sal grosso.

Ela disse que gostava de fazer isso com lascas de berinjela.

Ele disse que devia ser uma delícia e contou que sabe fazer todas as sobremesas italianas, panna cota, tiramisu.

Ela disse que não é de comer doce e gosta mesmo é de bacalhau assado, mas não compensa fazer para uma pessoa só, e hoje em dia ela é sozinha.

Ele concordou e suspirou, dizendo que a pessoa, quando gosta de cozinhar, não faz para si, ela quer mesmo é ver os outros comendo e elogiando sua comida, e ele também não tem para quem cozinhar.

Ô, seu Espírito de Natal, essa era sua deixa para fazer esses dois cearem juntos, não era não?

sábado, outubro 08, 2016

Minha História de Amor em 500 Toques



           Eu conheci um rapaz em Ilha Grande, nos despedimos sem trocar telefones porque meu barco chegou, mas o excesso de passageiros fez com que eu saísse para esperar a vinda de outro barco. O rapaz voltou, trocamos telefones; ele ligou, saímos, começamos a namorar; anos depois ele viajou, eu fiquei, nós casamos por procuração; aí eu fui, nós vivemos na Europa, depois voltamos, tivemos uma filha e vai fazer trinta anos desde aquele primeiro encontro na praia em que falamos de tudo, até de saci pererê.

quarta-feira, setembro 28, 2016

Entrevista com Ana Lúcia Merege no Jornal O Estado do Rio de Janeiro


Pessoas Queridas,

Saiu uma entrevista muito legal com a Anny Lucard sobre meu trabalho literário, planos para o futuro, organização de coletâneas... Enfim, o que faço e pretendo ainda fazer no âmbito da Literatura Fantástica.

Para quem quiser, o link está aqui.

terça-feira, setembro 20, 2016

Excalibur e Medieval no Pacotão Literário


Pessoas Queridas,

Esta quinzena estou participando do Pacotão Literário, uma iniciativa voltada para a divulgação da Literatura Fantástica Nacional.

Como o nome já diz, o projeto disponibiliza "pacotes" de e-books ou PDFS e (no meu caso) livros físicos que podem ser adquiridos por preços que vão de R$ 1,00 a R$ 60,00. Os livros e contos são selecionados por temas, que mudam a cada quinzena. Desta vez temos obras de Fantasia e Distopia. Eu participo com exemplares físicos das coletâneas Excalibur e Medieval, que organizei para a Editora Draco, sendo a segunda em parceria com Eduardo Kasse. Os pedidos são limitados a cinco exemplares de cada. Quem os adquirir receberá seu livro autografado e acompanhado de um marcador Premium, além de um conjunto de marcadores da série Athelgard.

Para ver os demais autores e adquirir o Pacotão, é só clicar aqui.

Boa leitura!

sexta-feira, setembro 16, 2016

sexta-feira, setembro 09, 2016

Documentos literários da Biblioteca Nacional : Os Pombos, de Coelho Neto



Pessoas Queridas,

Hoje dei início a uma série de postagens sobre documentos literários no blog e na página da Fundação Biblioteca Nacional. O primeiro segue aqui.

A ideia não é escrever artigos aprofundados sobre os autores ou as obras, apenas divulgar o material que temos à disposição de nossos pesquisadores, com um mínimo de contexto. Portanto, se houver algum especialista presente, por favor... Misericórdia. ;)

Brincadeiras à parte, espero que vocês gostem e compartilhem bastante.

Abraços!

domingo, maio 08, 2016

Hoje, Rosas



Hoje é Dia das Mães e o supermercado está dando rosas a todas as mulheres que entram. Há rosas vermelhas e brancas, e pelo que observei são oferecidas de forma randômica. Nada como: as mulheres mais jovens ganham rosas vermelhas, ou as que entram acompanhadas dos filhos, ou as que usam chinelos. Vermelha ou branca, tanto faz, é a que estiver ao alcance da mão, para qualquer mulher que passe pela porta. Simples assim.

A Mulher Grisalha, que usava chinelos, que não estava com a adolescente, que enfrenta o primeiro Dia das Mães sem o abraço da sua, a não ser em pensamento - a Mulher Grisalha recebeu uma rosa branca. E a entregou a uma senhora que estava na fila, à sua frente, levando um neto irrequieto num carrinho de bebê. Foi um gesto racional, porque em sua casa não há um jarro adequado para receber essa única rosa. E porque, entre a ausência e as angústias do seu país dividido, ela não tem mais certeza se as flores ainda podem vencer o canhão.

sexta-feira, maio 06, 2016

Trópicos Fantásticos : promoção do e-book na Amazon



Pessoas queridas,

O e-book "Trópicos Fantásticos", do qual participo com "A história de Jorge", está de graça na Amazon até o dia 8 de maio.

Se vocês não têm ainda, é uma boa oportunidade para conhecer (ou revisitar) dez autores brasileiros de litfan.

Aproveitem - e, se der, divulguem. A gente agradece!

Link para o livro aqui.

sábado, abril 23, 2016

E-Book: A Guerra dos Muitos Mundos



Pessoal,

Venho divulgar um e-book muito legal. É uma obra coletiva de Fantasia e Ficção Científica, no qual vários escritores contam histórias ligadas por um universo comum, criado por Rita Maria Félix: o universo em que transcorre a Guerra dos Muitos Mundos.

Participo do livro com dois contos. Num deles, o líder da Resistência E´Katorr vai parar num barco mercante fenício, perto dos Pilares de Melkart, e conhece ninguém menos que o avô do nosso conhecido Capitão Balthazar. No segundo, revisito o universo do meu conto "Além da Terra Sem Males", publicado no livro "Dimensões-BR", e conto sobre o dia em que o Povo Pequeno impediu uma invasão alienígena iniciada pelas matas de Lumiar.

O livro pode ser baixado aqui no formato e-pub, e em breve o PDF estará disponível.

Espero que vocês curtam essas nossas histórias - as histórias da Guerra dos Muitos Mundos!

terça-feira, abril 12, 2016

Filha da Neve e os Sete Ninjas e A Dama da Floresta nos Contos do Dragão


Pessoas Queridas,

Os contos com os quais participei nas coletâneas Excalibur e Samurais X Ninjas estão agora disponíveis na Coleção Contos do Dragão, da Editora Draco.

Acho que vocês já sabem, mas não custa repetir que essa é a maior coleção de e-books de literatura fantástica (e não só) que existe no Brasil. Os contos estão na faixa de R$ 2,99 e podem ser lidos via Amazon, Apple, Kobo e outros formatos.

Vamos aos links e sinopses!


Numa remota aldeia da Britânia, uma velha curandeira relembra os episódios que marcaram sua vida: a paixão pelo bravo e irreverente Bedwyr, o encontro com Myrddin e o acordo que firmou com o mago a fim de que Arthur, seu protegido, recebesse uma espada encantada e se tornasse um líder guerreiro.

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Ameaçada por sua madrasta, a doce Yukiko se refugia na floresta, onde recebe a ajuda inesperada de sete ninjas. No entanto, a notícia de que está viva chega aos ouvidos da cruel Madame Tempura – e só seus novos amigos poderão salvá-la. Uma releitura divertida de Branca de Neve, com muito ninjutsu, macarrão e molho de soja!

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Os contos já foram adicionados ao Skoob. Peço aos usuários da plataforma que tiverem interesse em lê-los que os adicionem. E, claro, quem ler, por favor, avalie nas redes sociais, Amazon, Goodreads... Isso irá me ajudar muito.

Espero que gostem dessas aventuras. Eu gostei de narrá-las. E o melhor é que tem mais vindo por aí.

Grande abraço!

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Em Busca do Rei (Final)

O fenício recuou, espantado, à menção de seu nome por aquele desconhecido. Ele olhou para Lísias, mas o rapaz encolheu os ombros, igualmente surpreso. O velho abriu os braços, num convite mudo, e Balthazar o abraçou, porque não lhe ocorreu fazer mais nada. Como agir diante de uma coisa assim?
-- Os deuses o guiaram até nós, meu filho – disse o velho homem. Cheirava a alho, a suor e um pouco a incenso, e parecia um bom sujeito, sorrindo com franqueza sob a barba branca. O outro homem era moço, de feições finas e bem desenhadas; também abraçou Balthazar, porém mais brevemente, agradecendo por salvar a vida de seu mestre.
-- Sabe o quanto é preciosa – disse, e o velho sorriu com modéstia. – Aqueles bandidos iam nos levar até o outro lado do deserto, fiquei com medo de que ele nem sobrevivesse à jornada. Ainda bem que você apareceu, ainda que com atraso. Nós o esperamos neste vale por três dias além da lua nova, quando deveria ter chegado, segundo sua carta.
-- É, bem... Viagens longas têm seus imprevistos. – O fenício não sabia o que dizer.
-- Não importa! A estrela continua a brilhar – declarou o velho. – Ela nos reuniu apesar dos percalços: eu, o mestre; você, meu pupilo; e Balthazar, que ensinei a ler as estrelas quando era pouco mais que um menino. Mais jovem até que esse rapaz – apontou para Lísias. – Pensei que você também viajaria sozinho.
-- Sim, decidi trazer um servo na última hora... para cuidar dos camelos – improvisou Balthazar. – Mas o dele se perdeu na tempestade de areia. Vocês também sofreram com ela?
-- Não passou pelo vale, felizmente – disse o viajante mais novo. – Sinto pelo camelo, mas imagino que seja nosso direito pegar os dos bandoleiros. Eles tinham dois; o rapazinho pode ficar com um e passamos um pouco da carga de nossos animais para o que sobrar. É até bom, assim divido o peso do ouro.
-- Está... está levando ouro em seu camelo? – Balthazar pigarreou, disfarçando seu entusiasmo. – Muito ouro, ou...
-- Ah, não, só o bastante para presentear o rei, quando o encontrarmos. Afinal, segundo dizem as estrelas, será um grande rei. O rei de todos os povos! – exclamou o jovem, sem perceber o brilho nos olhos do fenício. – Para um monarca tão poderoso, os deuses irão sorrir, e nós, que servimos aos deuses, não podemos ser mesquinhos com nossos presentes. Concorda, mestre Gaspar?
-- Inteiramente, Belchior – sorriu com bonomia o homem mais velho.


A estrela cintilava sobre o vale, e o mestre e seu pupilo a contemplavam embevecidos enquanto Balthazar resumia para Lísias a conversa travada em aramaico. Pelo que entendera, Gaspar e Belchior eram sacerdotes e estudiosos dos astros – magi, concluiu o heleno -- e viam aquela estrela como um sinal da vinda do grande rei. Esse também era o palpite de outro homem, um antigo pupilo de Gaspar, que tinha o mesmo nome do capitão. Os três haviam trocado cartas a respeito e combinado um encontro no vale, de onde seguiriam para uma cidade às margens do deserto, chamada Yerushaláyim.
-- Eles acreditam que o rei local, Herodes, possa saber alguma coisa sobre o outro rei. E o outro Balthazar também acreditava – explicou o fenício. – Claro que ele só pode ser aquele homem que encontramos com o camelo.
-- Sim, e isso é estranho – disse Lísias, cismado. – Até meio assustador, porque ele se parecia com você a ponto de um antigo mestre confundir os dois. E ainda por cima o mesmo nome... Lembra o que falei sobre os dois Balthazares? Aquele, ao que parece, morreu na mesma tempestade de areia que encontramos ao chegar. Isso me faz pensar que é perigoso voltarmos a um tempo em que você já existia. Talvez, para haver um Balthazar, o outro tenha que...
-- Não diga asneira, Lísias! – replicou o fenício. -- Aquele não era eu, ele nasceu séculos depois de mim! No máximo poderia ser meu descendente... se algum dia eu tivesse tido filhos.
-- Quem sabe você deixou algum pelo caminho – sugeriu Lísias. – E o outro Balthazar poderia estar indo encontrar um descendente de Alexandre.
-- Que seja! Não me interessa o que ele queria, e sim o ouro que Belchior leva no camelo. – O capitão sorriu com malícia. – Gaspar tem uma fortuna em incenso e está coberto de joias. E como estamos a meio mundo de distância dos Pilares, e não podemos navegar no inverno, pensei: que tal comprarmos uma bela casa à beira-mar aqui no Oriente? E, quando o tempo esquentar, arranjamos um barco e partimos para tentar de novo. O que acha?
-- Acho bom, desde que não façamos mal a Belchior e a Mestre Gaspar.
-- Claro que não! O que pensa que eu sou, um assassino? – Balthazar, cuja fama de pirata corria os portos do Grande Mar, fechou a cara, ofendido. – Nada disso. Eu só pensei que talvez um camelo e sua carga pudessem se extraviar ao longo da viagem, ou, quem sabe, da nossa estadia em Yerushaláyim. Dependendo do que descobrirmos por lá, pode ser até que eu me anime a seguir com eles em busca desse rei de todos os povos. Com esse título, deve ter muitas riquezas, e quem sabe também é generoso ao reparti-las... não é mesmo?
O heleno ergueu as sobrancelhas, mas concordou.
Os sacerdotes comeram com apetite, elogiando o trigo cozido com mel, uma receita que Lísias aprendera em Cartago. Tiveram mesmo a gentileza de dizer isso em helênico, para que ele entendesse e pudesse agradecer. Depois, os três amantes de estrelas se juntaram perto do fogo e se puseram a examinar papiros e apontar com grandes gestos para o céu. Lísias lavou no rio os utensílios do jantar e foi se sentar perto dos camelos, sentindo falta de sua cítara, mas feliz por ter ao menos Menelau a quem confiar seus pensamentos.
-- Balthazar está contente de novo – segredou ele. – Ainda não foi dessa vez que chegou onde queria, mas vai aproveitar a viagem mesmo assim. E, quem sabe? Talvez um dia se lembrem dele como um rei, como ele disse no barco...
Menelau cutucou seu ombro com o queixo, fazendo com que se voltasse, e o encarou com seus olhos grandes. Pareciam céticos, como se o advertissem de que estava sonhando demais. Lísias não se abalou. Menelau podia achá-lo um tonto, mas os sonhos faziam parte dele. Eram o que o movia, assim como a sede de aventura -- mais que a de vingança -- era o que fazia Balthazar seguir em frente.
E onde quer que a estrela os levasse, ele tinha certeza, aquela jornada ficaria para sempre na História.
*****
         E aí? Que tal o Conto de Natal da Clepsidra?
        Espero que não tenham ficado frustrados por eu não mostrar a chegada de nossos heróis a Yerushaláyim e tudo que veio depois. A história canônica todo mundo já conhece, e é mais legal deixar a imaginação de cada um responder se Balthazar acabou afanando parte do ouro e do incenso dos companheiros ou se Menelau fez mais alguma das suas.
       Da minha parte eu imagino que o fenício e seu fiel heleno acabaram achando um lugar tranquilo para passar o inverno e, depois, se puseram a caminho dos Pilares de Melkart, onde fizeram mais uma tentativa de encontrar Alexandre da Macedônia. Onde foram parar, e o que aconteceu, não faço ideia... Mas algumas das possibilidades eu pretendo explorar em novos contos da dupla, bem como mostrar um pouco da vida deles antes da clepsidra, em Cartago e em peripécias com o Fênix pelo Grande Mar.
      Que venha, pois, o novo ano... e que ele traga muita inspiração para contar essas histórias, e as histórias de Athelgard, e quantas outras a imaginação ditar!
           Até breve!!

terça-feira, dezembro 22, 2015

Em Busca do Rei (Parte 4)

OK. Balthazar não é o fenício mais corajoso do mundo. Mas Menelau vai dar um jeito nisso, esperem só pra ver!




       -- Vamos passar ao largo. Não temos nada com isso – disse o capitão, embora no fundo também sentisse pena do velho. Provavelmente ele iria passar uns maus bocados antes que sua família pagasse para tê-lo de volta, isso se os captores não fossem broncos ou impacientes demais para pedir um resgate. Aí seria vendido em um mercado, se alguém quisesse comprá-lo, ou posto para trabalhar até morrer. O que, em vista da idade, não iria demorar.
-- Será que não podemos mesmo fazer nada? – Lísias fez a pergunta que ele tentava calar. – Daqui dá para ver todo o vale, e os homens estão desprevenidos. Se chegássemos de surpresa...
-- Pensei que não gostasse de se meter em confusão – disse o fenício.
-- Não gosto, mas também não gosto de ver coisas como essa. Olhe só, um deles está falando com o outro prisioneiro, o de barba castanha... e deu um chute nele, pobre homem! Ah, Balthazar, vamos ajudar aqueles dois!
-- Como? Descemos até o vale e os convencemos a soltar os sujeitos? E se não me atenderem? Pego a espada e desafio um por um até matar os quatro?
-- É, bom... Talvez seja difícil – admitiu Lísias. – Também não adianta tentarmos comprar esses homens. Os captores iriam nos roubar, talvez até nos escravizar, como fizeram com eles.
-- Exato. Então, como vê, tomei a decisão certa. Vamos?
Lísias baixou a cabeça e assentiu. Estava decepcionado, mas Balthazar sabia que tinha entendido suas razões. Socorrer um viajante ferido era uma coisa, mas não havia sentido em enfrentar quatro homens, possivelmente armados, para ajudar desconhecidos. Não se tratava de covardia e sim de inteligência.
Com um gesto da mão, ele indicou que deviam seguir pela esquerda e contornar a descida. O heleno soltou um leve suspiro e incitou o camelo, mas, para sua surpresa, o animal não obedeceu como vinha fazendo até então. Em vez disso, dobrou os joelhos, como quando alguém subia ou descia da sela, e assim se deixou ficar, não obstante as tentativas de Lísias e Balthazar de fazer com que se levantasse.
-- Camelo estúpido – resmungou o fenício, entre dentes, porque não convinha erguer a voz. – Que hora você escolheu para empacar!
-- Será que ele está doente? – indagou Lísias, inquieto. – Ou muito cansado, ou com sede?
-- Sede? Ele bebeu metade do lago ontem, as corcovas estão altas. E não parece doente. Em todo caso, desmonte, vou ver se tem um arreio apertado ou coisa assim.
Lísias desmontou, e Balthazar se pôs a verificar a sela e a bagagem. Parecia tudo em ordem, e nem estava muito pesado, mas ele resolveu tirar a espada que pusera num alforje e levá-la à cintura, para o caso de serem surpreendidos. Aí, lutaria, fosse com quatro ou com cinquenta homens. Ele montou por um instante para alcançar a arma e a segurava na mão quando, sem aviso, Menelau se pôs de pé e investiu, quase se atirou num galope frenético em direção ao vale onde estavam os caçadores de escravos.
-- Oooaaaa! Pare, animal idiota! – gritou o fenício, quando já se sentia despencar colina abaixo agarrado ao camelo.
-- Pare, Menelau! – gritou Lísias, em desespero. – Balthazar, pegue as rédeas! Cuidado! Balthazaaaaaar!
A voz se distanciou, perdida no ar enquanto o camelo desembestava pelo declive. Balthazar não alcançou as rédeas -- mal conseguia se manter na sela -- e a imagem do viajante morto dardejou em sua mente antes que nela se fixasse uma só ideia: ia parar entre os homens do vale, eles iam atacá-lo, ele teria de ser mais rápido e certeiro se quisesse vencê-los. De preferência mortal.
-- Aaaaaahhhrrr! – rugiu ele, erguendo a arma acima da cabeça para impressioná-los. Tinham-no visto desde que o camelo barafustara pela descida, mas, para o azar deles, só dois tinham espadas ao alcance das mãos. Empunhando-as, eles correram ao encontro do camelo, mas este deu uma guinada violenta e derrubou o sujeito da esquerda, enquanto Balthazar atingia o outro em cheio no pescoço. Ele caiu, arquejando em meio ao sangue que borbulhava em sua garganta, e Menelau avançou para cima dos outros dois, que tinham ido pegar suas armas na bagagem dos camelos. Um se apavorou e correu, mas o outro investiu sobre Balthazar, quase conseguindo acertá-lo na perna antes que o fenício aparasse o golpe.
-- Seu cão! – grunhiu o sujeito. Balthazar devolveu o insulto e finalmente pegou as rédeas, fazendo Menelau dar meia volta e enterrando a ponta da espada entre o pescoço e o ombro do caçador de escravos. O homem berrou como um bode sendo sacrificado e caiu de joelhos, e Balthazar mal teve tempo de recuperar a espada antes que o camelo se precipitasse atrás do que tinha fugido. Mesmo com a arma na mão, o sujeito continuava a correr, e não se voltou para enfrentar o fenício. Talvez isso quisesse dizer que não oferecia perigo, mas podia alertar algum comparsa que estivesse nas redondezas, por isso Balthazar virou sua lâmina e se inclinou na sela, incitando Menelau a correr ainda mais. Sua velocidade emprestou força ao golpe seco da espada – e assim caiu o terceiro homem, sem ter chegado a ver o que separara sua cabeça do corpo.
-- Oooooaa!! – Balthazar apertou as pernas contra o flanco do camelo, torceu as rédeas. – Agora só falta um! E, por Melkart, com esse eu quero me divertir um pouco mais!
-- Pois pode vir, demônio! – bradou o último homem. Menelau o surpreendera e derrubara no ataque anterior, mas ele já estava de pé e investia, espada em punho, contra o oponente que galopava em sua direção. Parecia disposto a atacá-lo, mas algum tipo de instinto fez Menelau recuar para o lado ao mesmo tempo que o sujeito rolava no chão, golpeando o ar onde um momento antes estivera a barriga do camelo.
-- É assim? – cuspiu Balthazar, furioso. – Pois vamos lutar homem a homem!
Como se houvesse entendido, Menelau se ajoelhou nas patas traseiras, permitindo-lhe deslizar para o chão antes de se erguer e trotar para junto dos prisioneiros. Num relance, Balthazar viu que seu escravo descera a pé a ladeira pedregosa e corria na mesma direção, mas não pôde se deter para observá-lo. Sua atenção tinha de se concentrar no caçador de escravos, agora muito perto, avançando sobre ele com uma praga e a espada erguida.
-- Morra, filho de um cão! – Um golpe às cegas, que encontrou apenas o ar. – Faça suas preces, maldito!
-- Faça você as suas, verme da areia! – berrou o capitão, e atacou por sua vez, atingindo o braço do outro. O sangue escorreu do corte, mas o homem não esmoreceu e voltou à carga, a ponta de sua espada rasgando um pedaço do manto do fenício. Este desviou para acertar o oponente nas costelas, fazendo-o se dobrar sobre si mesmo, e golpeou o lado de sua perna, o que o jogou de costas no chão como se fosse um saco de trigo. Então, chutou para longe a arma que ele havia soltado e pisou no seu pulso, quase a ponto de esmagá-lo. O homem lhe dirigiu um olhar do qual fugira toda a esperança, e Balthazar cerrou os dentes antes de enterrar a espada em seu peito magro.
-- Ha! – exclamou, desafogando a tensão. O sujeito estremeceu, depois distendeu os membros e ficou imóvel, e foi quando os homens que Lísias acabara de soltar irromperam em palmas e vivas.
-- Muito bem, muito bem! – exclamou o velho, emocionado. – Quem diria que um dia meu antigo pupilo salvaria minha vida! Nunca pensei que houvesse se tornado um homem tão forte, Balthazar!
*****
Agora complicou. Como é que o velhote sabe o nome do capitão, se ele está vindo de séculos atrás? 
Não perca a conclusão desta história infame, cheia de clichês e obviedades, mas que - confesse! - você está achando pelo menos um pouquinho divertida! :)


Parte Final