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sexta-feira, janeiro 11, 2019

A Bruxa Meregilda


       Não é segredo pra ninguém que existem casas assombradas. Algumas podem dar dor de cabeça aos moradores – quando têm fantasmas de pessoas malvadas, por exemplo, ou aqueles monstros peludos que se escondem no armário – mas outros seres podem tornar a experiência bem divertida.

            O apartamento em que eu morava quando criança era assombrado por um duende. Ele era bonzinho, não brigava com ninguém nem fazia barulho, de forma que os adultos da família até esqueciam que estava em casa. Aí, quando ninguém esperava, ele fazia das suas, bagunçando os livros do meu pai ou deslizando um dedinho curioso pelo quadro recém-pintado da minha irmã.

            Eu também era alvo das travessuras do tal duende. Uma coisa que ele fazia era encolher minhas roupas, um tantinho por vez, de forma que depois de uns meses elas não cabiam mais. Também escrevia nos meus cadernos - eu tinha que comprar um novo toda semana. E cada história era mais doida que a outra. A maioria eu joguei fora, mas algumas guardei e ainda leio de vez em quando. Só pra lembrar de como era viver com aquele duende arteiro.
Quem me conhece sabe: os duendes não saíram da minha vida.
Os cadernos também não.


            À medida que eu crescia, ele foi ficando mais discreto, mas ainda aparecia de vez em quando. Nos fins de semana, minha mãe ficava acordada até tarde, e jura que escutava o duende entrar em casa pé-ante-pé. Isso só acabou depois que me casei e fui morar em Portugal. O duende sumiu na mesma época, e, pelo que sei, meus pais e minha irmã sentiram muita falta dele.

            Não sei se os lugares onde morei depois eram assombrados. De vez em quando o banheiro ficava alagado ou o bife queimava, mas essas provas não são suficientes. Além do mais, minhas roupas passaram a servir durante anos e ninguém escreveu uma linha sequer nos meus cadernos. Minha vida era bem mais tranqüila do que antes. Mas não tão divertida.

            Então, algum tempo depois de eu ter mudado para o meu novo apartamento, comecei a perceber uma presença estranha. Não era um duende nem um monstro. Só descobri o que era algum tempo mais tarde, quando minha filha Luciana tinha uns três anos. Foi aí que a bruxa começou a nos visitar.

Luciana aos cinco anos, quando já era
grande amiga da Meregilda. ;)

            Eu disse bruxa, sim, mas fiquem calmos. A maioria das bruxas é do Bem, pelo menos quando a gente é legal com elas. O que lhes dá má fama é o fato de que não são pessoas comuns. Podem se vestir, falar e agir como todo mundo, mas, olhando bem, dá pra ver que lá no fundo elas são diferentes. Isso assusta mais do que vocês podem imaginar.

            Seja como for, a bruxa apareceu numa noite de chuva, quando a Luciana não estava querendo ir se deitar. Eu já tinha insistido, oferecido leite quente e cantado musiquinhas pra ela, e nada. Fui ficando impaciente, cheguei a contar um-dois-três, e mãe quando conta um-dois-três pode apostar que a coisa é séria. Mesmo assim, ela ainda não queria dormir, e eu ia começar a brigar quando, de repente, quem foi que surgiu do nada e se intrometeu?

            Pois foi ela mesma, a bruxa. E era uma bruxa até simpática, só que muito séria. Cruzando os braços, ela olhou para a Luciana e disse que se chamava Meregilda; que dormia durante o dia e acordava às nove da noite, e que, a essa hora, as crianças tinham que ir para a cama. Luciana fez uma cara meio de medo, meio de choro, e foi então que a Bruxa Meregilda propôs fazer um trato com ela.

            Vocês sabem que as bruxas fazem tratos, não é? Sua voz em troca de um par de pernas, seu bebê por um repolho e coisas assim. Mas a proposta da Meregilda foi mais simples. Foi o seguinte: a Luciana ia logo pra cama e a bruxa contava uma história pra ela. Uma história emocionante, mas não assustadora. E que fazia ter ótimos sonhos.

            Ouvindo isso, a Luciana se animou, mas ainda estava em dúvida e olhou pra mim. Como a essa altura eu já tinha percebido que a bruxa era legal, falei que ela devia experimentar, e lá se foram as duas de mãos dadas para o quarto.

            E o que aconteceu? Aconteceu que a Meregilda contou uma história ótima. Ou talvez nem fosse tão boa, e sim apenas uma história maluca feito aquelas do duende. Só que a bruxa contava de um jeito engraçado, e ainda dava um jeito de aproveitar as coisas que a Luciana dizia no meio. E quando, depois de muita contação e muita risada, minha filha pegou no sono, o sorriso dela me deu a certeza de que aquela era a primeira de uma longa série de histórias.

            A partir daí, a Bruxa Meregilda voltou várias vezes. Nem sempre tinha histórias novas, então repetia uma que tivesse feito sucesso ou pegava emprestado num livro. Com o tempo, a Luciana também aprendeu a ler, e as duas liam em voz alta uma para a outra. Na verdade, fizeram isso ontem mesmo, e algo me diz que vão fazer hoje de novo. Porque, se vocês pensam que a Meregilda foi embora depois que a Luciana cresceu, podem tirar o cavalinho da chuva! Ela continua por aqui. E pelo jeito não vai embora tão cedo.

E não vai mesmo. Ela está a todo vapor. Na Bienal 2017, por
exemplo, foi vista em companhia de jovens escritores, como
Danilo Sarcinelli.
            E sabem o que mais? Eu acho que nos últimos tempos ela anda se encontrando com o duende, aquele de quando eu era criança, e trazendo ele escondido aqui em casa. Quem mais teria feito uma história tão doida como esta aparecer no meu computador?

quinta-feira, novembro 08, 2018

Novo Livro com o Projeto Pegaí e a Editora Draco

Pessoas Queridas,

Acabo de voltar do Paraná, onde aconteceram muitas coisas incríveis.

Antes da Literatiba, que eu tinha anunciado aqui e que também foi bem legal, estive na cidade de Ponta Grossa, sede do Projeto Pegaí Leitura Grátis. Lá visitei duas escolas -- o Colégio Bom Pastor e a Escola Desafio -- e, ainda, o Hospital de Livros que funciona na Penitenciária Estadual da cidade. Mas devo confessar que o momento mais emocionante se deu na noite de 31 de outubro, quando foi lançado "Contos Fantásticos de Avós Extraordinários", meu segundo livro a sair pelo Projeto Pegaí, com parceria da Editora Draco.

No lançamento, feliz da vida!

Para quem não sabe, em 2015 já tinha sido lançado um título, O Tesouro dos Mares Gelados, que teve 3.000 exemplares disponibilizados de graça nas estantes do Projeto. Agora, com o Pegaí Leitura Grátis indo de vento em popa, foram nada menos de 5.000 exemplares, que trazem quatro contos sobre avós e netos. Dois se passam em Athelgard, com o jovem saltimbanco Zemel (de Pão e Arte) e seu avô Thiers e nossa conhecida Anna de Bryke e sua avó Kyara; um é de Balthazar, dos Contos da Clepsidra, com suas netas adotivas Nikka e Jeza; o último se passa no espaço sideral, no universo Medistelara, que os leitores passam agora a conhecer.

Escola Desafio

A capa é ilustrada por Vilson Gonçalves e o projeto gráfico foi do Erick Sama, da Editora Draco, que, assim como eu, não recebeu nem um centavo pelo trabalho ou pelos exemplares. Nossa recompensa foi apenas a divulgação da marca e, claro, a satisfação de levar literatura fantástica a um círculo cada vez maior de leitores.


Colégio Bom Pastor

Nós receberemos alguns exemplares para divulgação, que serão prioritariamente doados a escolas, bibliotecas públicas e projetos de leitura. Uns poucos podem ser dados de brinde a quem adquirir meus livros. Mas quem não conseguir não precisa ficar triste! Em breve, "Contos Fantásticos de Avós Extraordinários" sairá em e-book pela Draco, e até lá todos os contos podem ser lidos gratuitamente aqui na Estante, bastando acessar esta postagem.

Só não se esqueçam de deixar um feedback nos comentários!

quarta-feira, setembro 19, 2018

Mediação e Literatura Fantástica na Biblioteca Parque

Pessoas Queridas,

Depois do nosso encontro com Verne e Wells, voltarei à Biblioteca Parque no dia 21 de setembro para bater um papo sobre Literatura Fantástica com mediadores de leitura e interessados em geral.


Além de debater a respeito do gênero, sua origem, desenvolvimento e relação com mitos, contos de fadas e a literatura infantojuvenil, vamos falar um pouco sobre as sagas como Harry Potter, Percy Jackson, O Senhor dos Anéis, o porquê de elas terem despertado tantos jovens para o prazer da leitura e como podemos trabalhar no sentido de incentivá-los e de ampliar seus horizontes.

A Biblioteca Parque fica na Praça da República s/n, Centro, pertinho do Shoping Niterói. Apareçam!

domingo, abril 02, 2017

Sobre Andersen



Três nomes (que na verdade são quatro) nos vêm imediatamente à cabeça quando o assunto é conto de fadas. O de Charles Perrault, cujas Histórias da Mamãe Gansa foram um grande divisor de águas na literatura do gênero; o dos Irmãos Grimm, Jakob e Wilhelm, compiladores e divulgadores do folclore germânico; por fim, o de Hans Christian Andersen, cujas narrativas, impregnadas de emoção e lirismo, se distinguem por seu caráter autoral e muitas vezes autobiográfico.

A humildade e a tragicidade dos personagens de Andersen encontram ecos na trajetória do autor. Nascido em 1805 nos subúrbios de Odense, Dinamarca, filho de um sapateiro e de uma lavadeira, Andersen foi uma criança frágil, dotada de imaginação vívida e de uma sensibilidade que o acompanharia durante toda a sua vida. Nas autobiografias que escreveu em 1832 e 1846, ele relata sua infância pobre, falando sobre o prazer que encontrava confeccionando bonecas e fantoches e o sonho de se tornar um cantor, o qual o levaria, aos 14 anos, a embarcar rumo a Copenhagen para tentar iniciar uma carreira. Foi lá, três anos depois, que ele começou a escrever peças teatrais (todas rejeitadas por críticos e produtores) e teve a chance de receber alguma educação formal, quando Jonas Collin, um dos diretores do Teatro Real, fez dele seu protegido e o enviou a um colégio e depois à universidade. Seu padrão de vida melhorou bastante depois disso, mas Andersen jamais deixou de se queixar dos sofrimentos de sua vida pessoal, desde as constantes dores de dentes (que parecem tê-lo perseguido ao longo de toda a adolescência e idade adulta) até a incompreensão de que julgava ser vítima por parte de seus pares.

As primeiras publicações de Andersen foram um relato de viagem e alguns poemas esparsos, além da autobiografia romanceada A História de Minha Vida. Depois disso, ele se voltou para os contos, publicando, em 1935, um opúsculo que intitulou Contos Contados para Crianças e que continha, entre histórias menos conhecidas, a deliciosa A Princesa e a Ervilha. Tal como os Grimm, Andersen foi censurado pelo seu estilo, julgado demasiadamente coloquial para a época, e pela moral de alguns contos, que seriam inadequados para crianças; no entanto, o público infantil parecia adorar tanto as histórias como seu autor, e, ao ser aplaudido em locais como Londres e Weimar, Andersen se assegurou de que estava no caminho certo. Embora continuasse a escrever para adultos - uma das novelas mais conhecidas é O Improvisador, cuja ação decorre na Itália - ele publicou uma série de livros infantis, que eram lançados a cada ano perto do Natal e que incluíam tanto contos populares, ouvidos por Andersen quando criança, quanto obras autorais. A Sereiazinha, Os Sapatos Vermelhos, A Nova Roupa do Imperador, O Patinho Feio e O Rouxinol do Imperador da China são apenas alguns dos títulos que saíram de sua pena e que angariaram fama e reconhecimento para o autor.

Várias características separam os contos de Andersen da obra de Perrault ou dos Irmãos Grimm. Em primeiro lugar, ao contrário do francês e dos alemães, o dinamarquês não apenas deu uma forma ao material já existente na tradição oral e literária, mas criou suas próprias histórias; só uma minoria delas tem raízes na tradição folclórica, como parece ser o caso de O Isqueiro Mágico. Além disso, os personagens de contos de fadas costumam ser arquetípicos, dotados de uma personalidade que pouco varia de acordo com a história, ao passo que os de Andersen são complexos, refletindo as ansiedades, as contradições e as fantasias do autor, de quem, muitas vezes, funcionam como alter ego. O Patinho Feio, por exemplo, traduz a inadequação social e o desejo de reconhecimento de Andersen (um tema também presente em O Improvisador e recorrente em sua obra), enquanto o sofrimento da Karen de Os Sapatos Vermelhos, da Pequena Vendedora de Fósforos e da Sereiazinha seria, para alguns críticos, a expressão do princípio cristão de transcender a dor e renunciar às recompensas terrenas para buscar as de um outro mundo. De qualquer forma, seja naqueles contos cujo final se pode dizer infeliz, seja naqueles onde a jornada do herói ou heroína conduz à superação do obstáculo e ao sucesso, o Bem sempre acaba por triunfar contra o Mal e a adversidade, reforçando os valores éticos e morais que o próprio Andersen afirmava ser seu desejo sublinhar nas histórias.

Assim como eu, que me recuso a narrar, seja para que platéia for, A Pequena Vendedora de Fósforos (seguramente a história que, até hoje, mais me fez chorar), a consagrada escritora de fantasia e ficção científica, Úrsula K. Le Guin, declarou que "detestava as histórias de Andersen com final infeliz", mas que não conseguia deixar de retornar a elas ou pelo menos de lembrá-las. Talvez a possibilidade de redenção oferecida por esses finais seja o que atrai os leitores; ou talvez esse fascínio se deva ao estilo de Andersen, essencialmente romântico, mas ao mesmo tempo dotado de uma cor e de uma vivacidade especiais. Seja como for, ao falecer, em sua casa, em 1875, o menino pobre de Odense havia percorrido um caminho tão espetacular quanto o de seus personagens, e deixado um valioso legado: as suas histórias, sonhos tornados em palavras, que vêm povoando a mente e o coração de crianças e adultos ao longo de gerações.

domingo, março 12, 2017

quarta-feira, março 08, 2017

Por Que Conto Histórias?


Eu sempre gostei de contar histórias. Vem lá de dentro. Minha família se lembra de quando eu, pequenininha  -- uns quatro anos talvez – inventava longas histórias com personagens próprios que contracenavam com outros tão inusitados quanto Mogli, Emília e os deuses da mitologia grega.
(Sim, eu tive a sorte de também ter quem me contasse e lesse histórias).

Da palavra falada para a escrita foi uma transição natural, e eu venho escrevendo desde que aprendi a fazê-lo. Mais de quarenta anos. Continuei contando também. No início acho que era apenas uma forma de extravasar pensamentos e inquietude, depois foi um jeito de afugentar demônios, hoje é tudo isso e também uma forma de eu me expressar e deixar minha mensagem para o mundo – alguma coisa que fique e se perpetue depois que eu voltar a ser poeira de estrelas.

Você, mulher que conta e escreve histórias, saiba que é herdeira de uma longa linhagem, que vem desde as avós da Pré-História, passou pelas mães e avós, camponesas, parteiras e fiandeiras. Uma linhagem que sobreviveu às fogueiras e aos espartilhos.  Uma linhagem que se fez ouvir, ainda que em boa parte do tempo permanecesse invisível.

Eu conto histórias pelo prazer da partilha.

Eu escrevo pelo anseio de eternidade.

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Ana Lúcia Merege : Uma Aventura Editorial

      As fotos podem não estar muito boas, mas esses são os cadernos que mantenho desde 2002, com o título coletivo Ana Lúcia Merege: uma aventura editorial. Neles registro tudo que aconteceu desde que decidi me mexer para fazer acontecer minha carreira literária, nem que fosse de forma discreta e modesta. caderninhos.



        
        Nesses cadernos registrei os primeiros passos da criação do blog A Estante Mágica de Ana, que existe desde 2002, os contatos com editores, a interação com escritores no antigo Orkut, as primeiras participações em coletâneas, os livros independentes, os contratos; e também as palestras, os lançamentos, os encontros, as Primaveras Literárias e Bienais. Não é uma carreira assim tão movimentada, por isso vários anos cabem num caderno. O terceiro começa agora, em 2017.



         Talvez vocês achem que não é grande coisa, mas para mim esses cadernos significam muito. É o registro de quanto trabalhei e me empenhei para fazer minha carreira acontecer. Então, quando sinto desânimo ou duvido de mim, olho pra eles e vejo o longo caminho que já percorri e quanta coisa boa pode ainda haver pela frente.

sexta-feira, dezembro 04, 2015

Coletânea "Trópicos Fantásticos"


Pessoas Queridas,

Já está disponível esta coletânea em e-book organizada pela Lais Manfrini, que traz contos ambientados no Brasil e que será lançada oficialmente na Maratona Literária - Me Livrando, a partir da zero hora do dia 5/12. Alguns exemplares serão sorteados para quem participar.

Estou na coletânea com um conto chamado "A História de Jorge". Nele homenageio meu avô, descendente de libaneses e de índios guaranis (e não só!), o cara que me levou a gostar de mitologia, a sonhar com viagens por terras distantes e a acreditar que a imaginação podia ser uma poderosa ferramenta para chegar a realizar esses e outros sonhos.
Espero que vocês gostem desse singelo mito de origem.

Para comprar ou alugar o livro clique aqui.

quinta-feira, abril 16, 2015

O Hércules de Brett Ratner: "Gato por Lebre" ou A Construção do Herói?


Pessoas Queridas,

Mais uma vez venho partilhar um texto que escrevi para o Leitor Cabuloso, desta vez sobre o filme "Hércules", dirigido por Brett Ratner e com Dwayne "The Rock" Johnson no papel-título. Muita gente torceu o nariz para o fato de o filme não mostrar o herói dando conta dos Doze Trabalhos, mas, para mim, o diretor acertou ao tocar na questão da construção do mito, ainda que a abordagem tenha sido ao estilo "Sessão da Tarde".

Para ler e opinar, clique aqui. E aproveite para conhecer outros textos da Estante Mágica, na coluna do mesmo nome, nosso espaço gentilmente cedido pelo Lucien no Leitor Cabuloso!!

domingo, setembro 07, 2014

7 Coisas Que Aprendi Sobre o Ofício de Escrever




Depois de muitos anos, tomei coragem de olhar para o espelho e vi uma mulher grisalha. Era simpática, tinha olhos expressivos e um sorriso aberto; dava para ver que tinha viajado muito, passado por batalhas e vencido algumas.

Eis o que aprendi com as histórias que ela viveu e contou:

1. É preciso ler muito, em todos os gêneros. Todo escritor precisa adquirir uma bagagem literária diversificada. Isso influi positivamente tanto na escrita, que se torna mais rica e fluida, quanto na capacidade de criar uma boa trama.

2. É preciso sentir. Essa bagagem literária e cultural também é afetiva. Por mais que se usem técnicas, escrever é também um ato emocional, em meio ao qual vêm à tona memórias, sensações e reflexões muito íntimas. É isso que imprime nossa marca no texto e nos permite criar um vínculo com o leitor.

3. Escreva o que você gosta de ler. Se os vampiros ou as distopias estão “na moda” mas não gostamos de histórias de vampiros nem de distopias, não vale a pena nos forçar a escrever sobre isso. Por outro lado, é bom sair da zona de conforto e tentar outro tema, gênero ou estilo que nos agrada, nos intriga, nos fascina, mas com o qual não estamos acostumados a trabalhar.

4. Seja consistente e verossímil. Sua história pode se passar em outro universo, outra galáxia, ter raças e costumes diferentes, não importa: os personagens têm de ser construídos com coerência e a história precisa fazer sentido. Pesquise muito, seja sobre organizações sociais, vida cotidiana, fatos históricos ou científicos - o que for necessário para construir algo consistente.

5.Escrever é dar a cara a tapa. Nada melhor do que enxergar as qualidades de nosso trabalho, mas com toda certeza ele tem e sempre terá algo que pode ser melhorado. Alguns desses problemas serão apontados por um leitor beta, um editor ou até um crítico, e nem sempre isso será feito de forma gentil e simpática. É preciso se preparar para qualquer tipo de reação àquilo que se escreve, seja um afago ou um dedo no olho.

6. Nem editores, nem críticos, nem leitores são autoridades absolutas. Sem dúvida, há críticas pertinentes, mas muitas – muitas mesmo! - têm a ver pura e simplesmente com as expectativas, os parâmetros e o gosto pessoal de quem leu. Citando Neil Gaiman: “Às vezes mostramos histórias para as pessoas erradas, e ninguém gosta de tudo”. Não percam essa ideia de vista.

7. Honre os mestres, colabore com os companheiros, oriente os aprendizes. Isso serve para as alcateias e para as corporações de ofício, inclusive a nossa.

*****

Este texto integra o e-book 7 Coisas que aprendi, que reúne depoimentos de vários escritores por uma iniciativa de T. K. Pereira, o Leitor Encapuzado. Para baixá-lo gratuitamente, clique aqui.

quarta-feira, abril 02, 2014

Hans Christian Andersen



Pessoas Queridas,

Hoje é Dia Internacional do Livro Infantil, data escolhida para homenagear o aniversário de nascimento de Hans Christian Andersen. E com justiça, pois o escritor dinamarquês nos transmitiu um legado de centenas de páginas maravilhosas, boa parte das quais destinadas às crianças.

Ao contrário de Perrault e dos Grimm, Andersen (1805-1875) provinha de uma família humilde. Seu pai, embora pouco instruído, gostava de ler, e parece ter sido ele que inculcou no filho o gosto pela literatura, através de obras como "As Mil e Uma Noites". O jovem Hans, porém, cedo ficou órfão de pai e passou por várias dificuldades, incluindo a passagem por uma escola onde, a pretexto de formar seu caráter, o mestre não apenas o humilhou como o desencorajou a escrever. Isso o fez passar por um período de depressão, mas - como diria Nietzsche - deve também ter servido para torná-lo mais forte.

Mais tarde, Andersen não apenas relataria esses anos sombrios numa autobiografia - publicada em 1832 - mas também usaria suas lembranças para escrever os mais belos e sensíveis dentre seus contos. Neles, muitas vezes, coisas más acontecem a seres puros e bons como “O Patinho Feio”, a “Pequena Sereia” e “A Pequena Vendedora de Fósforos”. Essas histórias comoventes costumam levar seus leitores às lágrimas, mas muitos críticos as consideram fascinantes, impregnadas de uma força redentora que compensa os sofrimentos do herói/heroína.

Em 1830, Andersen já declarava sua intenção de publicar um ciclo de contos populares dinamarqueses, e em 1835, após um pequeno livro chamado “Contos Contados para Crianças”, tinha três volumes de contos de fadas no prelo. Nessa época, seus contos, embora criticados pela imprensa, já eram bastante lidos pelo público infantil, e em Weimar e Londres ele alcançou o sucesso que não tivera na Dinamarca.

Também ao contrário de Perrault e dos Grimm, Andersen reivindicava a autoria de seus contos, embora admitisse que alguns eram inspirados pelas histórias que ouvira na infância. De fato, embora os estudiosos tenham apontado o eco de contos populares em sua obra, elas não são versões escritas de narrativas tradicionais. Ainda assim, ele é considerado como um dos principais nomes do conto de fadas, não o canônico - que deveria ser anônimo e não autoral - mas o literário, no qual os motivos e narrativas universais são retomados e transformados pelo gênio e pela criatividade do artista.

sexta-feira, agosto 17, 2012

Oficina "Os Contos Maravilhosos"


Pessoas Queridas,

Venho divulgar mais uma oficina ministrada por minhas amigas Deka e Sonia: a Oficina de Contação de Histórias "Os Contos Maravilhosos",. Vai ser aqui no Rio e vale muito a pena para quem se interessa pelo tema.

Eis o programa:

- Os Contos Maravilhosos: Contos de Encantamento e Contos de Fadas
- Onde os contos surgiram / Origens / Fontes
- Como chegaram até nós / Tradição Oral / Compiladores
- Características dos contos
- Leitura de textos didáticos e literários
- Atividades lúdicas / Dinâmicas de grupo
- Estrutura e Características dos Contos Maravilhosos
- Contação de narrativas
- Bibliografia
- Entrega de certificados

E aqui as informações:

Local: Sede do Lyons, na Rua Silveira Martins, 80 - Rio de Janeiro(entrada pela rua do Catete, Praça do Poeta)

Dia: 22 de agosto de 2012 (quarta-feira)

Horário: das 14:00 às 17:00 horas

Investimento: R$80,00

Inscrições:

Sonia Sampaio (sonia.sampaio@oi.com.br)
Fone: (21) 2551-3572

Deka Teubl (dekateubl@yahoo.com.br)
Fone: (21) 3237-7237

.....

Dado o recado, aproveito para dizer que ando sumida daqui, mas não se trata de negligência nem falta de ideias. É a vida, somada aos ossos de todos os meus ofícios. Mas deixem lá, que em breve haverá novos posts e notícias pra vocês. Aguardem!

Abraços a todos e até breve!


segunda-feira, março 12, 2012

Oficina: Cantando, contando e dançando lendas brasileiras


Pessoas Queridas,

A semana começa com um convite enviado por duas experientes contadoras de histórias: minha xará Ana Lúcia Pó e minha amiga querida, Deka Teubl.

A todos que curtem e valorizam as lendas brasileiras, peço que ajudem a divulgar a oficina. Vale a pena!

Abraços a todos e até breve!

quinta-feira, dezembro 01, 2011

Nos Domínios do Saber Lobatiano : oficina com Áurea Laguna


Pessoas Queridas,

Os fãs de Lobato residentes no Rio e adjacências terão uma ótima oportunidade de conhecer e debater a obra do escritor para o público infantil. No dia 14 de dezembro, Áurea Laguna irá ministrar uma oficina com a participação das contadoras de histórias Deka Teubl e Sônia Sampaio, integrantes do duo As Alquimistas da Palavra.

Especialista em Língua Portuguesa e Estudos Literários pela UNESP, Áurea é autora dos ensaios "Os Ilustradores de Monteiro Lobato" e "O Saber nas Vozes Lobatianas de Emília e do Visconde de Sabugosa", e junto com Deka e Sonia montou uma programação bem dinâmica:

- Abertura: contação de história: Sonia Sampaio
- O nascimento da Literatura para crianças na Europa
. Perrault, Irmãos Grimm e Andersen
. As instituições: família e escola nos séculos XVIII e XIX
- A Literatura para crianças no Brasil
. A literatura escolar
. O surgimento do escritor Monteiro Lobato
- A permanência de Lobato na atualidade
. A saga do Sítio do Picapau Amarelo
. O resgate das obras literárias do escritor
- Atividades lúdicas
- Bibliografia
- Entrega de certificados

E aqui vão as informações práticas:

. Local: Espaço Cultural Correia Lima
. Endereço: Rua Bento Lisboa, 58 - 1o. andar / Catete / RJ
. Dia: 14 de dezembro de 2011 (quarta-feira)
. Horário: das 14:00 às 16:00 horas
. Carga horária: 2 horas-atividade
. Investimento: R$25,00 (com material didático)
. Inscrição: até 10/12/2011 (sábado) com:
- Sonia Sampaio: e-mail: sonia.sampaio@oi.com.br; Fone: (21) 2551-3572
- Deka Teubl: e-mail: dekateubl@yahoo.com.br; Fone: (21) 3237-7237

Legal, não? Então, se você se interessa pelo assunto, não perca a oportunidade de participar. Vale realmente a pena!

Abraços a todos,

Até breve!

segunda-feira, maio 02, 2005

Eu, dos Contos de Fadas

Fui entrando devagarinho pelo portão gradeado, com a mochila no ombro, a capa de chuva escondendo os duendes na minha camiseta. No pátio, crianças brincavam de pique, e algumas delas se detiveram para me olhar, mas não por muito tempo. Era um lugar de constante entra-e-sai.

Posso ajudar, senhora? Um segurança.

Marquei com a Maria Lúcia.

Tudo bem. Passe na Recepção, por favor
, disse ele, apontando para o salão a cerca de 30 metros. Burocracia inevitável, mas até que eficaz: a sala da pessoa que eu procurava fica bem mais longe, e é melhor localizá-la primeiro, por telefone. De pé junto ao balcão, esperei alguns minutos até que a recepcionista acabasse de atender uma senhora e me olhasse com ar interrogativo.

Marquei com a Maria Lúcia, repeti. Sou a Ana Lúcia Merege.

Ah, sim... De onde?
, indagou ela, abrindo sem olhar uma página da agenda. Hesitei um segundo entre dizer "da Biblioteca Nacional" - que é o mais correto, mas que, naquele contexto, não faria muito sentido - ou "da Semana Literária", o que estava de acordo com o momento, mas podia se aplicar a diversas pessoas, esperadas para aquele dia e os subseqüentes. Então, eu tinha que me atribuir uma identidade inconfundível... e, nesse espírito, respirei fundo e mandei:

Ana Lúcia Merege, dos Contos de Fadas.

.......

Isso foi num colégio aqui de Niterói, ao qual me chamaram para bater um "papo de autor" com crianças da terceira e da quarta séries. Eu, meio apreensiva com o que ia acontecer, afinal iam ser quatro turmas por vez - mais de cem figurinhas - e não só eles não conheciam meus livros como estes, também, não são adequados a essa faixa etária, com possíveis (e raras) exceções. E eu saí da Escola Normal com a pecha de incapaz de manter o controle de classe. Caramba... Como eu ia me arranjar?

Mas tudo correu tão bem que até agora estou em estado de graça. Embora estivéssemos num auditório, sem chance de sentar em círculo e ficar mais próximos uns dos outros, não me colocaram numa posição inacessível, mas sim com um microfone sem fio, circulando no meio do pessoal. O tema do qual me pediram para falar, além dos meus livros - contos de fadas, é claro, destacando um pouco a figura de Andersen - não só é um dos meus preferidos mas permite criar muitas pontes com o pessoal mais novo. Especialmente a que usei para quebrar o gelo:

OK, então eu soube que vocês estão estudando contos de fadas... O que é um conto de fadas, afinal?

Silêncio, risadinhas, o teste de sempre, mas também mãos levantadas. Sussurros, aqui e ali. E logo - graças! - as primeiras vozes.

Tia! Tia! Ë uma história que tem fadas e bruxas!

É uma história inventada!

É uma história que tem magia!

Ah, é isso?
A deixa que eu esperava. Ah, então Harry Potter é conto de fadas? Tem magia...

Nãããão!

OK. Yu-Yu Hakusho, então.

Não!

Tia! Você vê isso?

Conto de fadas é uma história mais antiga. É do passado
, disse a inevitável gorduchinha de óculos. Oh, doce espelho da minha juventude!

Muito bem! Mas vocês sabem como, realmente, é antiga? Os contos de fadas existem há milênios, disse eu, fazendo aquele ar misterioso. E daí para a frente foi só desenrolar o novelo.

Ouso dizer que deu para falar de tudo: as mesmas coisas que falo para as pessoas que fazem meus cursos. Com outras palavras, é claro, e produzindo um sentido diferente, mas com a mesma essência. As crianças eram surpreendentemente perceptivas, quase todas muito espontâneas, e algumas das perguntas que fizeram foram uma grata oportunidade de partilhar um pouco do que sei e do que sou. Qual é meu livro preferido? Quem são meus escritores prediletos? Quem são meus escritores brasileiros prediletos? O que vou publicar agora? Eu incentivaria minha filha a escrever? Gostaria que um livro meu virasse novela? Escreveria um livro de Culinária?

Tá louco! Eu detesto cozinhar!, exclamei, sem deixar de sorrir. A pergunta não tinha um porquê, mas foi a única que ocorreu ao menino, e ele tinha que
fazer uma pergunta. Eu, que mais do que tudo receava o silêncio, encontrara um grupo ávido e generoso de interlocutores. E saí gratificada no final.

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Essa experiência não me sai da cabeça enquanto reviso minhas apostilas sobre leitura e bibliotecas escolares. Quando comecei a dar esse curso, a ênfase era no aspecto organizacional, e hoje é cada vez mais nas atividades de dinamização da leitura. Quase vinte anos depois, o círculo vai-se completando, e eu, que "fugi" da faculdade de Letras - e sobretudo da sala de aula - me vejo de volta, ansiosa por readquirir alguma prática.

Ou talvez não seja um círculo, mas uma espiral, e a menina que jamais soube "controlar uma classe" como professora retoma sua vocação sob o novo prisma de mediadora de leitura e contadora de histórias. Quem sabe?

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Abraços pra vocês,

Até a próxima!

Ana Lúcia

quarta-feira, março 30, 2005

A História da Baratinha: Contando e Acrescentando um Ponto

Oi, Pessoas! Tudo bem?

Espero que tenham todos tido uma boa Páscoa, pagã, judaica ou cristã. Com muitos ovos de chocolate, em qualquer caso...! ;)

Para a Luciana, ao contrário do que se esperava, o Coelhinho não trouxe um ovo da “Hello Kitty”, mas sim o das “Meninas Superpoderosas”, compra resultante de uma combinação da dificuldade de achar o outro ovo nas lojas e a falta de tempo e disposição da mãe para ampliar seu raio de pesquisas. Felizmente, Lulu é uma menina muito esperta (ou talvez ainda muito novinha para fazer certas exigências) e adorou o “Superpoderosas”, nem tanto pelo chocolate – pois ela realmente não é daquelas que abusam de doces, até porque eu não deixaria – mas pelo presentinho que veio dentro, um relógio fake, em forma de coração, com um adesivo das três meninas em cima e acompanhado por minúsculas “tattoos para unhas”. Pessoalmente, eu preferiria que o ovo viesse recheado com bombons, mas... quem sou eu para dizer tais coisas, quando a pequenininha ficou tão feliz?

E felizes, também, ficamos nós, com a forma como transcorreu nossa viagem no feriado. Fomos para Angra dos Reis, a duas horas e meia do Rio, onde, além dos passeios de escuna – que conduzem a praias mais distantes na própria Angra e na Ilha Grande – tínhamos à nossa disposição uma praia de águas bem calminhas, a dez passos da entrada da pousada. Luciana, que nunca tinha concordado sequer em molhar os pés no mar, dessa vez entrou para valer, e se divertiu muito com a amiguinha que conheceu no passeio, a lisboeta Daniela Sofia. As duas se entenderam muito bem, apesar dos sotaques diferentes, e, enquanto elas brincavam, nós ficávamos conversando com os pais e as avós da Daniela, falando de crianças e de viagens e de como está Portugal hoje em dia. Vocês sabem, nós vivemos lá durante dois anos e meio (João, durante três anos), e, embora não estejamos arrependidos da nossa decisão de regressar ao Brasil, temos saudades dos lugares que visitamos, de amigos e de alguns aspectos do nosso antigo estilo de vida. É claro que pretendemos voltar, um dia, quando a Luciana estiver um pouco mais velha, mas sabemos que nada será como antes. E realmente não tinha por que ser... Mas a nostalgia, um sentimento aliás muito lusitano, é inevitável em certos momentos.

Por falar em nostalgia, o curso que eu estava dando na Casa da Leitura terminou na segunda-feira, e, como o tema “contadores de histórias” viesse à baila, fiquei muito comovida me lembrando do Gregório. Para quem não o conhece, ele (Francisco Gregório da Silva) é um dos fundadores do PROLER e grande promotor da leitura e do resgate da tradição narrativa. Atualmente, pelo que eu soube, ele está no Acre, seu estado natal, mas parece que vai voltar, e certamente retomará os cursos para contadores, como aquele que eu fiz em 1999 no Paço Imperial.

Pois bem, neste meu último curso havia outras pessoas que o conheciam e trabalharam com ele, e todo mundo se lembrava do conto popular que o Gregório dizia ser o seu favorito, a História da Baratinha. Pelo meu lado, confesso que nunca fui muito fã desse conto, mas talvez isso mude, porque agora tenho uma história pessoal para contar a respeito. É claro que ela envolve a Luciana... e, é claro, antes de reencontrar o Gregório e poder contar a ele, vou contar aqui para vocês.

(Parto do pressuposto que todos conhecem a História da Baratinha, mas quem não se lembra pode dar uma refrescada na memória clicando aqui . Feito? OK, vamos em frente!)

A primeira versão que eu contei para a Luciana foi um pouco edulcorada, pois é aquela em que o Rato, ao cair na panela de feijoada, não morre cozido, e sim sai todo pelado, sujo e cheio de queimaduras. A Baratinha, então, diz que não vai casar com um noivo tão guloso e sem juízo, e volta para cantar sua cançãozinha à janela enquanto o Rato vai se tratar no hospital. Final sóbrio, sem happy end, mas também sem detalhes sangrentos (ou bem-passados, como queiram). Bom, a Luciana ouviu tudo com atenção e depois declarou:

- O Tio Alex (professor de Artes na creche) contou essa história, mas o Rato morria no fim.

- Ah, é? E como você prefere a história: que ele morra ou não?

- Que morra.

- OK – disse eu, anotando mentalmente a preferência para a próxima vez em que contasse a história, e que – como todos os pais de crianças pequenas sabem – não tardaria mais do que um dia ou dois.

Na verdade, foram apenas algumas horas.

- Conta de novo a História da Baratinha?

- Tudo bem – respondi, e comecei a contar... até a parte em que o Rato cai na feijoada, onde Lulu me interrompeu e pediu que ele não morresse. Estava estabelecida a versão mais light do conto popular, que desde então foi repetido à exaustão, com a colaboração sempre animada da Luciana na hora de cantar as músicas.

E até esta última viagem ficamos nisso. Mas agora finalmente ela acrescentou seu ponto. Pois quando tornei a contar a história, quando cantamos o “Quem Quer Casar...” pós-matrimônio fracassado, Luciana comentou:

- Mamãe, aí a Baratinha achou um Baratinho e casou com ele.

- É, acho que sim.

- E o Ratão saiu do hospital e achou uma Ratinha...

- E casou com ela também, não foi?

- Foi – respondeu Luciana, para em seguida acrescentar, com os olhinhos brilhando:

- Mas não teve feijoada.

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Gente... Corujices à parte, vocês hão de concordar comigo... Essa garotinha promete!!!

Abraços a todos,

Até a próxima!

Ana Lúcia

quarta-feira, julho 07, 2004

Contar Histórias: um improviso

Oi, Pessoal!! Tudo bem?

Então, aqui estou eu para falar um pouco sobre o ato de contar histórias. Ou talvez seja melhor dizer: a arte de contar histórias. Pois essa é, na verdade, uma arte, talvez a primeira que surgiu, na tentativa de dar voz e forma ao que se passava no interior da alma dos homens.

Os primeiros contadores de histórias eram, possivelmente, xamãs e feiticeiros, ou talvez seus precursores: pessoas a quem se atribuía algum tipo de poder que lhes permitia o contato com o mundo invisível. Suas narrativas eram vinculadas aos mitos de criação e aos dramas do cotidiano, que recriavam por meio de palavras, a fim de que seus ensinamentos pudessem ser transmitidos e perpetuados pelas gerações futuras.

Surgiram, assim, as primeiras cosmogonias, as primeiras mitologias; sem dúvida, surgiram também o ritmo e a métrica, o poema e a canção. Isso porque todas essas artes, conforme se observa até hoje nas sociedades tradicionais, estão profundamente entrelaçadas. Dança, música e cantos estão presentes nos rituais, como os da iniciação e da caça, e os mitos e histórias não são apenas narrados, mas recitados. Mesmo nas primeiras civilizações, as histórias eram contadas por meio de rimas e de música. A Epopéia de Gilgamesh é um poema, assim como a Odisséia de Homero e o Beowulf dos saxões. Gregos, celtas, vikings e árabes, todos eles conheceram a poesia antes da prosa, e a tradição foi mantida ao longo da Idade Média pelos trovadores, prolongando-se, ainda, através da cultura popular da Europa e de suas colônias do Novo Mundo. Mais tarde, a narrativa assumiu características próprias, principalmente nas sociedades modernas; mas os contadores de histórias contemporâneos muitas vezes se utilizam de recursos comuns à música, à poesia e ao teatro para transmitir sua mensagem. E onde digo transmitir, poderia perfeitamente dizer... compartilhar.

Pois esse não é um ato intelectual, mas espiritual e afetivo. Por isso, as melhores histórias não são lidas ou ensaiadas, mas contadas espontaneamente, a partir do que carregamos em nossa bagagem de cultura e de experiência de vida. Independente de qualquer sentido, contar histórias pressupõe antes de tudo a vontade de falar do que se sabe, de doar sabedoria e conhecimento, de passar adiante aquilo que se aprendeu. Mais simplesmente ainda: contar histórias é aumentar o círculo. E, mesmo na falta de uma fogueira, ou dos fogões a lenha de nossas avós, podemos fazê-lo aqui e agora, partilhando nossas histórias, lançando fios invisíveis que nos unem numa só rede.


Escrito de improviso no catamarã e na Biblioteca Nacional (de propósito, porque bons narradores trazem as histórias no coração!) :)

Leituras que inspiraram este texto:

CAMPBELL, Joseph. O Poder do Mito. Ed. Palas Athena.

SAWYER, Ruth. The Way of the Storyteller. Ed. Penguin USA.

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Então, este foi meu improviso, meu repente, sobre a arte de contar histórias... Espero que vocês tenham gostado!

Mamãe Gansa



Hoje eu quero falar a respeito de uma velha senhora que todos nós conhecemos, pelo menos de nome. Ou talvez seja melhor dizer que conhecemos seu apelido... Pois mesmo entre os maiores narradores e ouvintes de histórias, mesmo entre os maiores pesquisadores de folclore e literatura, ninguém ainda soube dizer quem foi na realidade aquela que conhecemos como a Mamãe Gansa.

Na verdade, é bem possível que esse nome se aplique não a uma pessoa, mas a uma figura quase arquetípica: a da velha contadora de histórias, também identificada com as avós, com as feiticeiras e com as “fofoqueiras” da aldeia. Nós a encontramos pela primeira vez em 1650, na obra La Muse Historique , de Loret, da qual constava a expressão: “Comme un conte de la Mère Oye”, ou seja, “Como um Conto da Mamãe Gansa”. A frase foi usada na coletânea de oito contos de fadas publicada em 1697 por Charles Perrault - que incluía, entre outras, “A Bela Adormecida” e “Chapeuzinho Vermelho” - e associada à imagem do frontispício, na qual uma velha senhora fiava e contava histórias.

O termo “Mamãe Gansa” passou a ser mais amplamente utilizado a partir da coleção de poemas infantis de John Newbery, que apareceu por volta de 1765 e foi amplamente reeditada e ampliada (e, segundo dizem, plagiada) na Inglaterra e nos Estados Unidos. Desde então, já se fiseram muitas investigações e reivindicações com o fim de atribuir a identidade da Mamãe Gansa a narradoras que realmente existiram, tais como a Sra. Elizabeth Goose, bisavó da esposa do editor Isaiah Thomas.

A verdade, no entanto, é que os poemas da “Mamãe Gansa” foram compilados e perpetuados a partir de fontes as mais diversas, algumas de raízes populares e anônimas, outras possivelmente autorais, mas todas, indiscutivelmente, já assimiladas à cultura e ao imaginário coletivos. Alguns dos versos têm um significado um pouco obscuro para a maior parte das pessoas - boa parte deles se refere, por exemplo, a episódios da história da Inglaterra - mas muitos foram capazes de transcender as barreiras geográficas e culturais para se fixar no que poderíamos chamar de “cancioneiro universal”. Afinal, quem não sabe que “Maria tinha um lindo carneirinho”, e que houve um dia uma velha que morava num sapato? E quem não conhece Humpty Dumpty, o ovo que se sentava em cima do muro, que Lewis Carroll fez contracenar com Alice?

A título de complemento - e sem perder de vista a conotação simbólica - vale lembrar que os gansos, na tradição xamânica, estão associados à comunicação, à habilidade de expressão - especialmente através das narrativas - e à escrita criativa. Assim, examinando essa figura que emerge da tradição popular no século XVII, é razoável supor que por trás dela exista uma tradição ainda mais antiga, que remonta aos primeiros homens, aos primeiros clãs, às primeiras famílias.

Pois desde esse tempo, saibam vocês, a Mamãe Gansa já fazia suas rimas; e os seus ecos ainda se podem ouvir, na risada da velha bruxa, nas cantigas de nossas avós, na voz da tia ou da mãe carinhosa, cujas histórias povoaram de maravilhas a nossa infância.

Bases para este texto:

- Informações históricas retiradas de diversos sites dedicados à Mamãe Gansa - basta digitar “Mother Goose”...

- O ganso na tradição xamânica: apreendido em ANDREWS, Ted. Animal-speak . Llewellyn, 1998. (Ei, me avisem se vocês estão gostando de falar sobre xamanismo...)

Sugestões de leitura :

-COOK, Scott. Mamãe Gansa . Companhia das Letrinhas, 1997. Rimas selecionadas e ilustradas por Cook. A tradução é do saudoso José Paulo Paes.

-WERNER, Marina. Da fera à loira. Companhia das Letras, 1999. Fornece uma análise da face mais sombria, grotesca e falsamente moralizadora da Mamãe Gansa.