sábado, julho 29, 2017

A Era do Leonte : parte 2

— Ajude a senhora, Hanno – ordenou a matriarca. – Quanto ao senhor, deveria moderar o tom. Os carsísios não são seus escravos, e, ainda que fossem, isso foi inteiramente fora de propósito.
— Não são escravos – concordou Agapipókias –, mas trabalham para a Companhia e só entendem as coisas no grito. Se não for assim, vão fazendo do jeito deles, com desleixo, apesar da mansidão. Mas estão melhorando, é verdade. – Pegou o primeiro copo de vinho servido por Hanno. – Quando chegamos era bem pior. Era uma lerdeza, um desânimo que dava até raiva. Todos andavam feito uns velhos, com a cabeça caída para a frente, e ainda tinham aquela mania de ficar enfiados em casa boa parte do dia. Agora trabalham com mais vontade.
— Claro – acudiu Solônio –, porque, se não, como ganhariam ferramentas e coisas bonitas? Não é mesmo, Halva?
Forçou um sorriso cheio de dentes para a mulher com a bandeja. Ela retribuiu com outro, dócil e cansado. Em seu pescoço brilhava um pingente composto por três pequenos discos, sendo o maior uma lasca de pedra polida, o segundo de cristal transparente e o terceiro de ouro. Hanno, de pé a seu lado, teve uma estranha sensação ao perceber como os três círculos se sobrepunham, lembrando a inscrição que tinham visto no marco de pedra, à beira da floresta.
Enquanto ele refletia, o Comandante Agapipókias deu início ao que chamava de “ir direto ao ponto”. Do seu pad dourado ele projetou uma tela holográfica, pela qual fez passar algumas imagens em rápida sucessão: o registro da chegada dos heládicos e da montagem do acampamento, as primeiras perfurações da montanha, pilhas de deltrílio extraído sendo levadas para os cargueiros. Os carsísios apareciam em várias imagens, no início parecendo lentos e apáticos, depois mais decididos, mas tudo dentro daquele jeito manso. Agapipókias mostrou também os números do empreendimento, a quanto montavam as despesas e quão baixos, segundo ele, ainda eram os lucros com a venda do excedente. Feito isso, foi a vez de Solônio entrar em ação, lembrando a vocação dos ken´ami para as viagens e o comércio, e como fariam melhor em levar seus excelentes pilotos e veículos a desbravar rotas desconhecidas. Teriam até um incentivo dos heládicos, se Elyssa, em nome da Liga, abrisse mão de explorar as minas de Carsis pelos próximos dez anos.
— Depois disso, com a expansão do negócio, talvez possamos discutir uma parceria comercial – disse o mestre das leis, todo sorrisos. – Até lá, oferecemos um crédito equivalente a mil talentos de prata.
— Mil talentos por ano, durante dez anos? – indagou Elyssa.
— Nnnn… não, minha senhora. – Solônio sorriu amarelo. – Por todo o período em que valer o acordo.
— Então é um valor ridículo!  – exclamou Hanno, indignado. – Vocês tiram isso desta mina a cada dois meses!
— Sim, mas e as despesas? E o investimento? – lembrou o homem das leis. – O que os ken´ami teriam de gastar para estabelecer uma concorrência? Isso, é claro, sem falar no desgaste político, nas relações entre Qartag e as cidades heládicas. Elas sofreriam um abalo se…
Nesse momento, um som melancólico, produzido por várias vozes, se fez ouvir ao longe. Parecia um cântico, mas sem palavras, apenas a repetição sincopada de aaaaas e eeeeees. Hanno ia perguntar o que era aquilo quando Halva, a nativa que trouxera o vinho, se pôs subitamente a vocalizar junto com os outros em alto e bom som.
— E isso, agora! Saia já daqui, mulher! – berrou Agapipókias, levando as mãos aos ouvidos. Halva obedeceu, mas, uma vez lá fora, prosseguiu com o cântico, que soava quase exatamente como um balido de árion. Ou melhor, de centenas de árions. Todos os nativos de Carsis num raio de vários estádios.
— Viram só? Eles fazem isso todos os dias, três vezes por dia. Começaram tão logo acabou aquele costume de ficar trancados em casa. Vocês não vão querer passar por isso – afirmou Solônio.
— Então eles imitam árions, não é? Deve ser… a religião deles. – Elyssa lançou ao neto um olhar penetrante.
— Sei lá! Nós perguntamos, mas eles não quiseram falar. Também não vimos templos, nem sacerdotes, nem qualquer tipo de culto a não ser esse coro de balidos. Os Anais da Liga Mercantil não dizem nada sobre isso? – indagou Akapipókias. – Quando os primeiros ken´ami vieram a Carsis, sabe…
— Não. Os relatos contam de um povo muito espiritualizado, com pouco interesse em bens materiais, que vivia à beira-mar e dali tirava o sustento.
— À beira-mar? Então eles se mudaram em massa para o interior? Já estavam aqui, nas suas malditas casinholas, quando chegamos…
— Pois é. Não sei o que pode ter acontecido – respondeu Elyssa.
Seu tom de voz fez Hanno ter certeza de que ela sabia. Os heládicos deixaram de lado a questão dos nativos e prosseguiram com as explicações, tentando convencê-la das vantagens de assinar o acordo e até insinuando a possibilidade de uma quantia passada diretamente às mãos de Elyssa, à parte dos mil talentos oficiais. Ela deixou claro que não aceitaria suborno. A proposta se elevou a mil e duzentos talentos. Para o espanto de Hanno, a avó deu mostras de estar disposta a considerar, ao mesmo tempo que pedia uma pausa, alegando cansaço.
— A idade requer cuidados, vocês entendem. – Elyssa tinha mais fôlego e resistência que Hanno e uma saúde de ferro. – Se houvesse um lugar para esticar os ossos…
— Claro, claro – concordou Solônio. – Venha comigo, vou levá-la a uma tenda onde poderá repousar.
— Meu neto também deve estar cansado de ficar em pé – disse Elyssa.
— Ah, sim, sim, é claro. Que descortesia. O rapaz pode acompanhá-la, e haverá um banco para ele quando voltar.
— Não demorem – rosnou o comandante.
Hanno e Elyssa seguiram o mestre de leis até uma tenda no extremo do acampamento. Talvez fosse a do próprio Solônio, que chegara uns dias antes, no último cargueiro a pousar em Carsis. A cama parecia nova, e ao lado havia uma mala de viagem com fechos reluzentes. Elyssa se estirou na cama, enquanto Hanno se sentava num banco dobrável a seu lado, curioso para saber onde ia dar aquela manobra de sua avó.
— Precisa de mais alguma coisa? – indagou Solônio.
— Massagem nos pés – respondeu Elyssa, sem hesitar; o heládico estremeceu, e ela prosseguiu em tom natural. – Mas não vou pedir isso a você, que deve ter muitos afazeres. E Hanno é um desajeitado. Pode chamar aquela mulher que serviu o vinho? Ela parece tão gentil…
— Ah, isso é mesmo. Os nativos são boas pessoas, apesar de simplórios. É uma de nossas metas integrá-los à cultura heládica, à verdadeira civilização.
— Perfeito. Podem começar por ensiná-los a ler – disse Elyssa, e Hanno reprimiu um sorriso: o alfabeto heládico derivava da escrita ken´ami. Solônio, porém, não percebeu a ironia e saiu todo feliz para chamar a carsísia. Foi então que os dedos de Elyssa se fecharam sobre o braço do neto.
— Escute, Hanno, este é o momento em que você vai ter que honrar sua medalha de primeiro da turma. Está com o Atlas Estelar Avançado aí nos seus arquivos, não está? E os Anais da Liga Mercantil?
— Sempre. – Ele bateu no peito, onde um bolso interno guardava o pad carregado de livros e textos sobre navegação.
— Ótimo. Você precisa consultá-los e fazer uns cálculos, mas não aqui, não quero que o vejam mexer nesse material. Vá até o marco de pedra pelo qual passamos, você já sabe o que ele é, não sabe?
— Um… mapa celeste?
Mapa? Começo a achar que deveria ter trazido seu primo Himilco, e não você. Mapa, tem certeza? Com todas aquelas marcas que havia ao redor do círculo? Para que acha que elas servem?
— Poderia ser para… Já sei! – ele exclamou, encantado com a súbita compreensão. – As linhas marcam a passagem do tempo. Aquilo é um calendário!
— Muito bem. – Tornou a apertar seu braço, a ênfase na voz. – Saia daqui discretamente e vá até o marco de pedra. Não deixe que ninguém o acompanhe. Compare as marcas no calendário com o movimento de Carsis e de suas luas, que vai encontrar no Atlas, e tente descobrir quando eles mudam de fase, de era, ou como quer que chamem este período. Tente saber o que vem depois e quanto tempo irá durar. Eu tenho uma suspeita e vou tentar confirmá-la com a nativa, mas, se não conseguir, seus cálculos podem…
— Pronto, aqui está ela! – anunciou Solônio, entrando na tenda. Halva estava atrás, com a expressão parada de antes, mas o andar parecia mais decidido. Seus olhos tiveram um lampejo de reconhecimento ao ver Elyssa. Tomara que isso ajude, pensou Hanno.
— Vou dar uma volta por aí, tudo bem? – perguntou ele a Solônio. – Não preciso assistir à sessão de massagem da minha avó.
— Claro, pode ficar à vontade. – O heládico saiu com ele, deixando as mulheres na tenda. – A aldeia dos nativos fica depois da mina, mas, seguindo a trilha a partir daquelas árvores, você chega a um rio onde as garotas costumam lavar roupa. Se estiver com sorte, vai encontrar alguma por lá. Quem sabe também consegue uma massagem, hem, garotão?
Deu uma cotovelada cúmplice no braço de Hanno. Desconcertado, mesmo assim o rapaz assentiu: de certa forma, aquilo lhe fornecia um álibi. Ele se apressou a seguir a trilha que levava ao rio e, tão logo se encontrou longe das vistas dos heládicos, deu a volta pelas árvores, seu instinto de navegador o ajudando a localizar o marco de pedra, onde estava o calendário. Usou um dispositivo em seu pad para conseguir imagens de vários ângulos e se afastou, seguindo outra vez em direção ao rio, onde sua presença despertaria menos suspeita.
Quando pôde ouvir o barulho da água, ele se sentou numa pedra chata e acionou a biblioteca do pad, ao mesmo tempo que projetava as imagens do marco diante de seus olhos. Elyssa tinha razão, aquilo só podia ser um calendário, embora Hanno ainda não soubesse como os carsísios mediam o tempo. Tinha a ver com constelações, aquilo estava claro, mas em relação a quê? Ao Sol? A uma das luas? Ele consultou os dados contidos no Atlas Estelar, puxou uma nova tela e desenhou projeções, testando possibilidades, até encontrar um padrão que parecesse plausível. Então, lembrou-se de consultar os Anais da Liga Mercantil, onde os primeiros ken´ami a comerciar em Carsis tinham dito que

De acordo com suas crenças, os carsísios adotam o comportamento que julgam adequado à era astronômica corrente. Neste momento, a constelação mais brilhante no céu é a do Delfino – e eles adotaram um andar ondulante, ergueram casas perto do mar e abandonaram qualquer luxo ou tecnologia desnecessária à subsistência. Os delfinos são seres muito espirituais, conforme nos explicou o sacerdote.
É curioso ver como os carsísios se adaptaram tão bem à nova vida, mas para nós, no que toca aos negócios, é a certeza de uma perda ou ao menos adiamento. A presente era vai durar mais vinte anos, e depois virá a do Quelonídeo, quando todos ficarão o máximo possível dentro de seus cascos, ou seja, de suas casas...

Hanno interrompeu a leitura, estarrecido. Ali estava a explicação, bem debaixo do seu nariz. Também estivera diante dos heládicos, que não dispunham dos Anais da Liga, mas poderiam ter feito os cálculos, ter feito mais perguntas aos nativos, ter chegado às suas próprias conclusões. Em vez disso, haviam se estabelecido em Carsis no final da Era do Quelonídeo e se julgavam responsáveis pelo novo comportamento dos carsísios, agora mais propensos ao trabalho duro, só desobedecendo às suas ordens quando se uniam em um novo cântico ritual.
O balido do árion. Essa era a fase atual – e Hanno devia descobrir quando terminava. Ele se concentrou nos círculos, jogando constelações na tela e traçando órbitas planetárias, e trabalhou as imagens do calendário, fazendo simulações que levassem em conta a posição das luas. Conhecendo sua avó, não foi uma surpresa concluir que a Era do Árion se encerraria, muito oportunamente, no decorrer de sua visita a Carsis – mas o que ele não entendia era o lapso de tempo, cerca de quatro ou cinco dias, antes que o calendário entrasse na Era seguinte.
O aprendiz repassou os cálculos em busca de erros. Era isso mesmo, a marcha do planeta ia deixando Árion para trás, e em seguida surgia Táurion, que reinaria durante cerca de quinze anos, mas o calendário de fato apresentava uma falha. O que seriam esses dias vazios? Hanno ampliou as imagens que trouxera do marco de pedra e analisou cada detalhe; e então seus olhos de repente se estreitaram, o coração batendo forte ao perceber a pequena constelação, formada por apenas cinco estrelas, como o único ponto brilhante naquele período de tempo.
— Leonte – murmurou, fechando as telas abertas e se levantando de um salto. – Preciso avisar…
-- Aaaaaahrghh! Ali! – exclamou, ou melhor, rugiu alguém às suas costas.
O rapaz se virou, alarmado, e o que viu o fez recuar sobre os próprios passos: dois carsísios adultos, segurando ferramentas de mineiro, olhando-o com as caras fechadas e os olhos injetados. Ainda se continham, mas suas expressões tinham perdido toda a docilidade e se tornado quase selvagens.
Bem como se esperaria do que estava por vir.

(Continua...)

Parte 1
Parte 3

quinta-feira, julho 27, 2017

A Era do Leonte : parte 1

Pessoas queridas, chegamos ao último conto da série! Nele é apresentado um universo que vocês ainda não conhecem, partilhado com meu amigo Luiz Felipe Vasques: Medistelara, no qual as civilizações do antigo Mediterrâneo são transportadas para o espaço. Temos aquilaces imperialistas, khemitas cheios de dignidade, heládicos heroicos e, claro... ken´amis comerciando pelas galáxias afora em nome da Liga Mercantil de Medistelara, que é controlada por eles.
O primeiro conto que escrevemos (a quatro mãos) deve sair em breve numa coletânea de Space Opera. Este, escrito apenas por mim, é uma prequel em que  o futuro navegador ken´ami Hanno é um adolescente viajando com sua avó, a poderosa Elyssa de Qartag, a fim de selar um acordo de negócios num planeta distante... e num momento especial. Espero que gostem.
A ilustração é do talentoso Valdir Muniz.



***

— Então, chegamos ao famoso planeta Carsis. Não entendo por que temos de abrir mão dele – comentou Hanno, olhando em volta. – Além do minério, tem essa floresta densa, como já quase não existe em Medistelara. E o ar é puro. Eu estou gostando do lugar.
Alto e forte para os seus quinze anos, barba despontando no queixo e usando com orgulho seu distintivo de piloto aprendiz, o rapaz acompanhava os passos ligeiros da avó, que se dirigia ao acampamento dos heládicos. Ia negociar uma compensação a ser paga pela Companhia de Mineração Caríbdes, que se estabelecera sorrateiramente em Carsis e começara a explorar as minas de deltrílio. Sua alegação era de que os ken´ami, que tinham iniciado as trocas comerciais com os nativos cerca de trinta anos antes, não haviam se interessado em ir além, e o deltrílio permanecera todo esse tempo no interior das montanhas, à espera de quem o extraísse e lhe desse bom uso. Jamais pertencera de fato aos ken´ami, ou, mais propriamente, ao governo de Qartag, a mais forte das cidades fundadas por aquele povo de navegadores e comerciantes. Ainda assim, reconhecendo que o fato de ter chegado primeiro a Carsis lhes concedia a preferência, a Caríbdes se dissera disposta a compensar os qartagineses, fosse em dinheiro sonante ou com uma fração do que obtivessem nas minas.
E, para tratar disso, ali estava Elyssa de Qartag.
O olhar de Hanno envolveu sua avó num misto de amor, admiração e um pouco de exasperação pelos modos dela. Matriarca da família, membro do alto escalão da Liga Mercantil de Medistelara – dominada pelos ken´ami, que a tinham fundado, mas que congregava comerciantes de todos os povos e pontos do Aglomerado –, Elyssa era uma mulher baixinha e enérgica, de cabelos brancos, língua afiada e olhos penetrantes aos quais não escapava o menor detalhe. No curto percurso entre o campo de pouso onde ficara sua nave, a Balthazar-5, e o acampamento dos mineradores, ela se detivera várias vezes para analisar o entorno – mata virgem, praticamente intocada, exceto por aquela trilha aberta pelos heládicos – e para observar, sem disfarce, cada nativo que cruzava o seu caminho.
Os carsísios eram humanoides de pele levemente acinzentada. Tinham estatura média pelos padrões de Qartag e costumavam ser robustos, com braços fortes que terminavam em mãos de quatro dedos. Eram também extremamente dóceis e tímidos, andavam de cabeça baixa e pediam desculpas por tudo. Os relatos dos primeiros ken´ami a travar contato com eles falavam de uma cultura elaborada, com rituais cheios de simbolismo, mas poucos avanços no campo da tecnologia. Sabiam, fazia tempo, que seu deltrílio era valioso para a indústria espacial, mas não tinham procurado desenvolver ferramentas adequadas para a extração. Em vez disso, vendiam sua força de trabalho na mina – já que nem todas as atividades eram automatizadas – e cuidavam da logística, limpando, servindo, fornecendo comida e o que mais fosse necessário. Estavam felizes com isso, segundo os heládicos, mas o que Hanno via em seus rostos, mesmo de relance, não era bem alegria. Era apenas a resignação de quem escolhe o menor dos males.
— Ainda acho que você devia recusar a oferta, seja qual for. – Hanno alcançou a avó, que tinha parado mais uma vez e examinava a inscrição num marco de pedra à margem da trilha. – Este não é território dos heládicos. Deveria ser nosso, e as minas deveriam ser exploradas pelo processo ken´ami. É mais eficaz, menos danoso ao meio ambiente e…
— Aprendeu isso na escola? – Elyssa perguntou, com a ironia habitual. – Exploração é exploração, menino. Causa danos, sempre. Esse ideal que nos incutem quando jovens pilotos, descobrir rotas intocadas, ir aonde ninguém foi, tudo isso é muito bonito, mas esbarra na lógica do comerciante. Para quem você trabalha?
— Para a Liga Mercantil de Medistelara – ele suspirou.
— Exatamente. Uma liga de comércio – tornou a avó. – Para ela, o que interessa não é o que causa menos danos, e sim o que traz mais lucros. Se a compensação oferecida pela Caríbdes for boa o bastante, vou aceitar, e ponto final. Entendido?
Hanno fez que sim, num silêncio amuado. Compreendia o raciocínio de Elyssa, típico de comerciante e de ken´ami, mas o que tinha isso a ver com seu desejo de descobrir novos caminhos? E se os pilotos da Liga tinham incluído aquele planeta na rota de comércio, deviam deixar que os nativos fossem explorados? Ele olhou para os trabalhadores que vinham no sentido oposto, saindo da mina após um turno de várias horas, e se culpou por aqueles rostos cansados e costas curvadas. Eles estariam bem melhor se o deltrílio fosse explorado com tecnologia ken´ami. Mas ali estava sua avó, falando em nome de outros velhos, para defender o lucro acima de tudo.
— Então, vamos? – perguntou ele, querendo acabar logo com aquilo. – O acampamento da Caríbdes fica ali adiante.
— Só mais um momento. Olhe essas inscrições. – Ela apontou para o marco de pedra, onde estavam esculpidos três círculos concêntricos em baixo relevo. – Veja as figuras espalhadas dentro dos círculos. Um delfino, um quelonídeo, um árion…
— Sim, e daí?
— Pense um pouco – replicou Elyssa. – Isso não lembra alguma coisa?
— Hum. – Ele olhou para as imagens, consultou a memória, e no instante seguinte a luz se fez. – Ah, mas é claro! São as constelações que eles veem a olho nu! Mas então… isso seria um mapa celeste? Aqui, no meio de uma trilha na floresta?
— Eu também achei curioso, mas deve fazer sentido. – Elyssa tocou algumas marcas em torno dos círculos, simples arranhões que pareciam ter sido feitos mais tarde. – Bom, depois voltamos a isso. Agora, vamos, o pessoal da Caríbdes já deve estar impaciente.
Hanno assentiu, e os dois se apressaram pelo que restava do caminho. O acampamento heládico surgiu logo depois: um conjunto de tendas de tecido sintético, do tipo mais utilizado em expedições e campanhas militares, montadas ao redor da Bucéfalo, a grande nave de formato abaulado que trouxera a Carsis os engenheiros e prospectores. O maquinário vinha em cargueiros que também levavam embora o deltrílio extraído, mas no momento não havia nenhum à vista. Quanto à mina, ficava a alguns estádios de distância, perto o bastante para que os heládicos pudessem supervisionar os trabalhos, mas longe o suficiente para que o barulho e a poeira não os incomodassem quando estavam no acampamento.
— Salve, Senhora Elyssa, porta-voz da Liga Mercantil! – Solônio de Cenos, o jovial mestre de leis contratado pela Caríbdes, se adiantou para recebê-los. – Estávamos ansiosos à sua espera. Fez boa viagem? Precisa de alguma coisa, algum suprimento, algum reparo em sua nave? Posso mandar providenciar enquanto conversamos, assim não ficará retida em Carsis mais tempo que o necessário.
— Ora, ora – fez Elyssa, sorrindo com ironia. – Não sabia que tinham toda essa pressa em me ver pelas costas.
— O quê? Oh, não, não, não! – O homenzinho quase engasgou. – De jeito nenhum, senhora! É bem-vinda para ficar em Carsis enquanto assim desejar! Eu apenas supus que uma pessoa na sua posição fosse muito ocupada… Que não quisesse permanecer aqui mais tempo que o necessário para fechar o acordo. Porque, olhe, não tenho a menor dúvida de que chegaremos bem rápido a um entendimento. A Companhia deseja que suas relações com a Liga Mercantil se mantenham harmoniosas, transparentes, e que haja proveito para ambas as partes. Venham, o Comandante Agapipókias vai recebê-los.
— Comandante? – Hanno sussurrou para a avó. – Não deveríamos falar com um representante da Caríbdes?
— Deve ser isso mesmo. O deltrílio tem uso militar, portanto o exército deles está metido na história – soprou Elyssa de volta.
Hanno fez que entendia e ficou em silêncio. Os dois seguiram o saltitante mestre de leis até uma tenda aberta, onde um homenzarrão de cabelo comprido, vestindo um uniforme escuro, equilibrava seu amplo traseiro num banquinho.
— É ela? – perguntou ele a Solônio, ignorando os recém-chegados.
— Sim, meu comandante, esta é a famosa Elyssa de Qartag. O rapazinho é…  bem, ela não disse. Um secretário, talvez?
— É meu neto mais velho, Hanno – rosnou Elyssa. – Piloto aprendiz da Liga Mercantil.
— Aqui não é lugar para aprendizes – Agapipókias rosnou mais alto.
Elyssa parou diante dele, braços cruzados, os dois medindo um ao outro com o olhar. Então, de má vontade, o heládico apontou o banquinho à sua frente.
— Sente-se aí – disse ele. – Eu iria direto ao ponto, mas meus superiores ordenaram que lhe mostrasse imagens da mina e repassasse alguns dados antes de falarmos do que interessa. Pura formalidade.
— Às vezes é inevitável – retrucou Elyssa.
Nesse momento, dois carsísios surgiram carregando uma mesa dobrável, que montaram no espaço entre o comandante e os dois ken´ami. Feito isso, recuaram, murmurando desculpas pelo incômodo, e uma nativa mais velha entrou com uma bandeja onde estavam copos e uma jarra de cerâmica. Ia pousá-la sobre a mesa quando um rugido de Agapipókias a fez recuar.
— Tenha cuidado, mulher! Você vai pagar caro se derramar uma gota que seja desse vinho sobre o meu equipamento!
Com isso ele se referia ao pequeno pad dourado que abrira sobre a mesa e no qual digitava alguns comandos. Talvez fosse um aparelho caro, difícil de repor ali em Carsis, mas a violência com que o homem falara endureceu as feições de Elyssa. Ela não ia deixar por isso mesmo.

(continua...)


Parte 2

segunda-feira, julho 17, 2017

O Espetáculo Não Pode Parar : parte 2


Sem entender, obedeci mesmo assim, vestindo uma túnica velha – não o traje de retalhos – e seguindo meu avô para fora da tenda. Não sabia por que ele precisava de mim, mas nunca poderia imaginar que veria o que vi: a carroça menor, que meu pai usava quando tinha que transportar a bigorna, fora carregada com nossas tralhas de malabarista, e o cavalo treinado para os espetáculos estava ali perto. Aquilo não fazia o menor sentido.
-- Por que carregou a carroça? – perguntei. – Eu já disse que não iria à aldeia.
-- Mas eu vou – replicou ele, passando-me as rédeas. – Pode atrelar o cavalo?
-- Sim, mas... o que vai fazer lá? Alguma compra? Por que levar os apetrechos do espetáculo?
-- Que pergunta! Porque vai haver um, é claro – disse Thiers, sem ligar ao meu espanto. – Você não quer, mas eu não posso deixar de fazer minha parte.
-- Você? Mas como vai fazer com essa perna quebrada?
-- Bom, os braços estão inteiros – respondeu o velho. – Posso ficar sentado na carroça e atirar as bolas, como você faz quando chegamos a uma cidade maior.
-- Mas isso é só para chamar o público – argumentei, dizendo o que ele mesmo me ensinara. – Podem até vir, mas vão querer alguma coisa além disso.
-- Farei o que posso fazer – retrucou ele, com firmeza. – Agora, acabe de atrelar e me ajude, preciso subir aí... e que seja rápido, não quero que ninguém me veja sair do acampamento.
-- Mas... – comecei, mas me calei diante do olhar por baixo das sobrancelhas brancas. Atrelei o cavalo e ajudei meu avô a se acomodar, o que não pareceu causar mais dor, mas ele estava muito desajeitado no banco e com as rédeas. Também seria difícil, com aquela perna, pegar o que ele iria precisar na parte de trás da carroça. Ou seja, nem aquele arremedo de espetáculo Thiers poderia fazer se eu não o acompanhasse, e isso foi mais uma das coisas que ele disse sem usar palavras. Bastava ter olhos para ver.
-- Vou com você – murmurei, a contragosto. – Só para ajudar com as tralhas e a carroça.
Meu avô fez que sim e ficou em silêncio. Deixamos o acampamento, com o mínimo de barulho possível, e rumamos para a aldeia, a meia hora de distância ou pouco mais. Havia uma estradinha de terra cruzando campos onde alguns homens já trabalhavam, curvados sobre as espigas de trigo, foices subindo e descendo ao som de uma cantiga. De certa forma, aquilo era bonito, mas eu nunca pensaria em ser fazendeiro, a vida inteira no mesmo lugar, vendo as plantas crescerem para cortá-las e esperar que crescessem de novo. Também não pensava em ser artesão como meu pai, ter qualquer dos ofícios que vira na cidade ou entrar para o serviço de um templo. Não, eu queria ser um saltimbanco, ou pelo menos era o que tinha pensado até agora. Até ver meu avô cair do cavalo e as pessoas rirem enquanto ele estava no chão. Dor e zombaria. Era justo que o espetáculo terminasse assim?
O sol já tinha subido um pouco quando avistamos a aldeia. Meu avô tirou de uma bolsa um naco de pão e outro de queijo e dividiu comigo enquanto a carroça gemia pelo trecho final. Avançamos ao longo da rua tortuosa que devia ser a única do lugar, margeada por casas de madeira com telhados de palha trançada. Duas ou três eram de pedra, e numa dessas funcionava uma taverna, vimos pelos barris do lado de fora da porta. A rua se alargava numa praça onde havia um poço e um pequeno mercado, nada mais que meia dúzia de bancas onde os fazendeiros dos arredores trocavam produtos. Havia mais gente no mercado, crianças brincando na rua, uma velha sentada na frente de casa, e todas essas pessoas olhavam para nós, querendo saber quem éramos e por que estávamos ali.
Nas apresentações que tínhamos feito até então, era nessa hora que eu, usando a roupa de retalhos, fazia um pouco de malabarismo enquanto meu avô chamava o público. Só que dessa vez eu estava usando uma túnica velha, já sem cor nenhuma de tão desbotada, e Thiers não chamou ninguém, só pediu que eu pegasse algumas bolas para ele na tralha atrás da carroça. Peguei as que estavam mais perto, eram bolas de treino, pesadas, feitas de couro costurado e sem pintura. Acho que eu meio que esperava que ele pedisse as bolas de madeira colorida dos espetáculos. Meu avô, porém, não falou nada, só pôs as rédeas no colo e começou o jogo com as bolas, bem devagar, como se não quisesse chamar público nenhum e só estivesse treinando para não perder a prática. Ao mesmo tempo, começou a assoviar, acompanhando a subida e descida das bolas como os camponeses acompanhavam o ritmo das foices, e acho que foi isso, mais do que o malabarismo tão simples e discreto, que chamou a atenção de quem estava mais perto.
Devagarinho, eles foram se chegando. Primeiro as crianças, que se acotovelavam e cochichavam, excitadas, porque nunca deviam ter visto nem mesmo aquilo. Com elas, claro, vieram mães e avós, depois outras mulheres e finalmente alguns homens, esses sim com jeito de estar esperando um espetáculo de verdade. Meu avô estava tranquilo. Com um gesto de cabeça, que eu já conhecia, ele pediu que eu lhe lançasse uma bola, e depois mais outra, e eu não tinha como fazer isso a não ser calculando a trajetória e atirando aquela bola na hora certa, no lugar exato em que ela passaria a fazer parte da ciranda que girava entre as mãos de Thiers.
Foi desse jeito que, sem perceber, acabei entrando no espetáculo. Ou melhor, fui arrastado, porque algumas pessoas murmuraram com admiração, porque eu não queria ver meu avô fracassar e porque Thiers, aquele velho trapaceiro de quem eu gostava tanto, me fez morder a isca e me enrolou direitinho. Ele não tinha chamado o público nem prometido nada grandioso, mas as pessoas estavam ali, e ele me conhecia o bastante para saber que eu não ia cruzar os braços enquanto ele passava vergonha. Não ia deixar de lançar as bolas, nem pegar as que ele desviava para mim, nem ficar sentado deixando que uma delas, atirada muito alto de propósito, se perdesse e acabasse caindo no chão. Quando dei por mim, estava de pé, atrás de meu avô que se sentava na ponta do banco, as cinco bolas girando em minhas mãos para depois voltar às dele, o círculo ampliado, a harmonia. O público aplaudiu, e, pensando que poderia entusiasmá-los ainda mais, mantive os olhos no que estava fazendo e pisei cheio de confiança no ombro de meu avô.
E, no instante seguinte – plaft!
O som diz tudo, não, senhoras e senhores? Serve para o estalo da perna de Thiers, para o som da minha queda dos ombros dele, para o barulho das bolas de couro batendo no banco da carroça. Até hoje, anos passados, não sei o que aconteceu, mas imagino que meu avô tenha se apoiado na perna por uma espécie de instinto, para manter o equilíbrio enquanto eu subia; o osso quebrado cedeu, e a dor repentina o fez se encolher. E com isso eu caí, e foi como acordar com um choque, o mundo de repente virado do avesso; e no instante mesmo em que isso acontecia eu escutei o ooooooh da plateia, de susto e pena e também decepção, como se a gente houvesse deixado de cumprir uma promessa.
E risos. Ah, sim, houve risos, talvez alguns inocentes, gente que achava que o tombo era parte da apresentação, mas outros de deboche, como tinham sido as risadas diante da queda de meu avô. A diferença é que daquela vez ele estava no chão, e o cavalo fugira desembestado, e a multidão em volta me impedia de ver o que tinha acontecido -- ao passo que com o plaft eu despertara e via tudo claro, como nunca antes. Sabia que Thiers estava bem, a não ser pelo medo de ter falhado comigo e de me ver recuar para sempre; sabia que o cavalo estava ali e o que ele podia fazer quando não lhe atiravam pedras; sabia que as pessoas estavam rindo, que algumas eram más e estúpidas e nada do que eu fizesse mudaria isso, mas, acima de tudo, sabia, agora com certeza, que o espetáculo precisava ir em frente. Mesmo aos trancos e barrancos, a vida precisava ir em frente. E, nos dois casos, eu tinha de agir antes que fosse tarde demais.
-- Muita calma, senhoras e senhores! Foi só um pequeno acidente! – exclamei, passando ao dorso do cavalo, sem descer da carroça; isso já causou alguma impressão, e eu aproveitei para continuar. – Meu avô, Thiers de Pwilrie, está machucado e não pode atuar, mas ele me ensinou duas ou três coisas que vou mostrar a vocês. O senhor, aqui na frente -- acenei para um homem novo e forte, que parecia ser boa gente, porque não tinha rido e segurava uma garotinha pela mão --, pode soltar os varais da carroça? E vocês, não vão embora! Fiquem um pouco mais!
-- Isso mesmo, fiquem! – Era meu avô, sua voz forte suplantando a dor que devia estar sentindo. – Fiquem e vejam o que um cavalo bem treinado pode fazer... O espetáculo mal começou!
E, a não ser por duas ou três pessoas, todos ficaram. E, sim, tivemos espetáculo. Não tão bom quanto aqueles que fazíamos antes -- não era muito o que eu tinha para mostrar --, mas fiz o melhor que pude, e meu avô me incentivou, e todos aplaudiram vendo-me girar na sela, soltar as rédeas e me equilibrar de pé enquanto o cavalo galopava em círculos. A carroça ficou no meio, e Thiers voltou a fazer malabarismo, e, quando eu tinha feito tudo que sabia, nós tornamos a atirar as bolas em dupla. O público riu bastante, dessa vez um riso bom, quando foi o cavalo que segurou o chapéu entre os dentes para pedir contribuições. Riram ainda mais quando um sujeito se negou, e o animal bufou pelas narinas, pois não sabiam que eu havia tocado suas costelas com o calcanhar. O chapéu acabou ficando com um peso considerável, e ainda ganhamos um queijo do homem que desatrelou a carroça, um presente por deixar sua filhinha montar e dar algumas voltas, a passo, segurando minha cintura. O presente maior, no entanto, não caberia em nossas mãos. Estava em meu coração e nos olhos de meu avô, e se multiplicou de várias formas quando voltamos ao acampamento com a comida que tínhamos comprado para a família.
Eu poderia falar mais, me estender em episódios alegres e tristes, contar que Thiers nunca pôde voltar a fazer acrobacia e como encontrei um mestre que me ensinou várias outras artes. Mas essa seria uma longa história. Assim, digo apenas que meu avô sempre estará presente, que posso vê-lo em cada fracasso e em cada vitória, em cada riso e cada aplauso do meu respeitável público.
Pois ele vive em mim, assim como eu viverei em meus aprendizes.

E o espetáculo nunca terá fim.

*****

Parte 1.

Que tal conhecer um descendente do Zemel, que inclusive leva o nome do seu avô, Thiers? É só clicar aqui.

No blog do Castelo vocês conhecem o futuro mestre do Zemel.

E... É isso, pessoal. Espero que tenham gostado dos saltimbancos de Athelgard!

Estou saindo de férias, mas dia 26 vai ter outro conto no ar. Literalmente, pois ele se passa no espaço, num planeta chamado Carsis, onde uma avó durona e seu neto sonhador desembarcam para um surpreendente encontro de negócios.

A gente se vê lá!

quinta-feira, julho 13, 2017

O Espetáculo Não Pode Parar : parte 1

E aqui vai nosso terceiro conto! Ele também se passa em Athelgard, só que no País do Norte, ao passo que os personagens são gente do Leste. Mais precisamente do Povo Alto, originário de Pwilrie, que esteve muito tempo sob o domínio de outra cidade, fazendo com que boa parte dos habitantes originais partisse e se tornasse nômade. Muitos ganham a vida como artesãos, e também há vários saltimbancos, como a família deste conto.
Zemel, nosso pequeno herói, aparece em várias histórias, criança, jovem e adulto. Aqui ele conta um episódio de sua infância e uma valiosa lição que aprendeu com seu avô -- seu primeiro mestre. Espero que gostem!
O ilustrador deste conto é o talentosíssimo e polivalente Vilson Gonçalves.



Sempre que vejo um cavalo se assustar, eu me lembro do meu avô. Foi por causa de um susto desses que ele quebrou a perna, e isso acabou com seus dias de saltimbanco. Meio que acabou. Talvez, pensando bem, se possa dizer que não; que ele continuou, de certa forma, fazendo o que fazia desde criança e que começou a me ensinar quando eu não tinha mais que dois ou três anos.
Ah, não, os cavalos não; isso viria um pouco mais tarde. Acrobacia, para começar. Os saltos, o equilíbrio, a parada e o caminhar sobre as mãos, coisa que sempre fez sucesso e garantia algumas moedas nos nossos chapéus. Minha mãe costurava para mim uma roupa toda feita de retalhos, o mais colorida possível, me dava um beijo e alguma coisa para comer quando tínhamos, e lá íamos nós, eu e meu avô, para tentar a sorte nas aldeias e nas praças das cidades maiores. Lardale, Valence, Leighdale, até mesmo Siberlint, à sombra dos Penhascos Gelados: minha família passou por todas, e em todas fizemos espetáculos. De vez em quando visitávamos a aldeia onde nasci – num estábulo, vejam só, um estábulo vazio que conseguimos emprestado, porque fazia frio demais para podermos dormir nas tendas –, e então eu escutava mais uma vez a minha própria história, como minha mãe não tinha leite nem meu pai trabalho, como aqueles camponeses também muito pobres ajudaram nossa família e como, em agradecimento, me deram o nome da aldeia. É isso mesmo, senhoras e senhores: no País do Norte existe uma aldeiazinha chamada Zemel. Pequena e sem graça, assim como eu, e já passou por muitas guerras, invernos rigorosos e pragas do feno. Mas resiste. É o mesmo que eu espero que um dia se diga sobre mim.
E era assim também que eu pensava no meu avô. Por volta dos sessenta anos, ele era alto, cabelo e barba como neve, o corpo cheio de músculos, tendões e cicatrizes. Sempre tinha sido artista, primeiro em Pwilrie, sua cidade, e noutras terras do Leste, depois com o grupo que formou para percorrer o País do Norte, levando espetáculos de acrobacia, malabarismo, dança, música e pequenas peças de teatro. Suas filhas cresceram nas tendas desse grupo nômade, que aumentava e diminuía conforme as pessoas o deixavam ou se juntavam ao longo do caminho. Por fim, numa cidade arrasada pela guerra, minha mãe conheceu meu pai, que liderava seu próprio grupo de viajantes; um dos que estavam com ele agradou a minha tia, e meu avô, que era viúvo já fazia uns bons anos, acabou se despedindo dos velhos amigos para seguir em companhia das filhas e dos genros.
Uma renovação bem-vinda, todos dirão. Novas pessoas, novas ideias, novos números. Assim seria, se os genros também fossem saltimbancos.  Acontece que eram artesãos. E entre meu pai, o ferreiro que percorria as fazendas oferecendo seus serviços, e o marido de minha tia, que consertava panelas e as vendia no mercado, Thiers de Pwilrie demorou a ter um novo companheiro de espetáculos.
Em minhas memórias mais antigas, não estou brincando com as outras crianças do grupo, não estou observando o trabalho do meu pai na forja – como era exigido do meu irmão mais velho – nem com minha mãe, costurando e mexendo panelas, como minha irmã fazia desde pequena. Em vez disso, visto a tal roupa de retalhos e executo vários saltos, um dos quais me leva aos braços erguidos de meu avô. Eu apoio o topo da minha cabeça na sua, asa de corvo sobre campo de neve, e fico com as pernas no ar, eretas, abertas em tesoura, o que for preciso para manter o equilíbrio. Monto nos ombros dele para fazer malabarismo. E, em memórias mais recentes, fico de pé sobre o dorso de um cavalo, ainda sem saber muito mais do que me equilibrar durante o galope, mas o que faço já parece uma pequena proeza aos olhos dos camponeses. Ela os prepara para a exibição de Thiers, esse sim, um verdadeiro acrobata equestre, que gira sobre a sela, se apoia num pé só e sobre as mãos e arranca da plateia gritos e aplausos.
Eu me lembro de chapéus abarrotados de moedas, de camponeses pagando a diversão com ovos e repolhos, de rapazes aceitando o desafio de se manter em pé sobre a sela, o cavalo a passo lento, andando em círculos ao redor de meu avô, que segura a ponta do cabresto nas mãos. Lembro-me de meninos maiores que eu me olhando cheios de inveja. E, com mais clareza – porque eu já tinha idade suficiente, quase oito anos --, lembro-me de quando a inveja passou de todos os limites, e um grupo de garotos assustou o cavalo, enquanto alguém oculto pela multidão lhe atirava uma pedra.
Ainda guardo em minha memória cada som, cada cor, cada detalhe daquela cena. O animal empinou, um relincho de dor e de susto, o sangue escorrendo do focinho enquanto meu avô foi ao chão. Caiu de muito mau jeito, sobre a perna torcida, e não conseguiu se levantar nem para acalmar o cavalo, que saiu desembestado praça afora, nem para me resgatar do monte de gente que se precipitava sobre ele, passando por mim, tão pequeno e quase invisível diante daquela comoção. Por sorte, alguém deteve o cavalo e foi honesto o bastante para devolvê-lo, e um mercador robusto me viu chorando apavorado e me pegou no colo antes que a multidão me pisoteasse.
Entre gritos e exclamações de piedade, apareceu um cirurgião, que fez o possível para arrumar o osso quebrado na perna de Thiers. Não pediu nada pelo trabalho, assim como o fazendeiro que nos levou para o acampamento em sua carroça, mas, apesar de toda a ajuda que tivemos, eu não conseguia me esquecer dos risos e da zombaria que acompanharam a queda. Não foram só as pessoas que tramaram para derrubar meu avô. Muitas outras tinham achado graça, como se fosse engraçado um velho cair do cavalo e ficar gemendo no chão com a perna quebrada. Isso me machucou demais -- de certa forma, também me quebrou. E, por algum tempo, não fui capaz sequer de falar no assunto.
Nossos planos eram ficar na cidade por apenas mais um dia ou dois, mas, com meu avô sentindo tantas dores, prolongamos a estadia por quase dois quartos de lua. Com isso perdemos a data da feira de lã que haveria na cidade seguinte, e meu pai estava numa maré de azar: além de não encontrar os mercadores vindos para a feira, cujos cavalos poderiam precisar de ferraduras novas, não conseguiu trabalho nas fazendas e aldeias pelas quais passamos. Nosso dinheiro estava perigosamente no fim. Para complicar, minha mãe amamentava meu irmãozinho e minha tia estava grávida, demandando cuidados, isso sem falar em Thiers, que ainda estava usando talas e mal conseguia andar com a ajuda de uma muleta. Mesmo assim, quando acampamos perto de uma aldeia pequena, ele foi falar comigo, disse que eu devia tentar a sorte, fazer um pouco de malabarismo e acrobacia em troca de algo para comer. Foi o mesmo que falar com uma árvore.
-- Eu não vou mais, vovô – respondi, a cabeça baixa. Ele me olhou espantado, quis saber o motivo, ficou alguns instantes em silêncio quando respondi. Então, com voz e jeito mais duros do que eu esperava, disse que a vida era assim mesmo, às vezes você cai e se machuca; que alguns vão rir, mas outros podem ajudar, e que ter medo de fazer os espetáculos era o mesmo que ter medo da vida. Na hora não respondi, e acho que ele mesmo percebeu que tinha sido duro, porque logo depois me abraçou pelos ombros, daquele jeito companheiro, e disse que eu pensasse bem e que iríamos conversar de novo no dia seguinte.
E eu pensei, ou melhor, fiquei o resto do dia com aquilo na cabeça, me incomodando, me inquietando, me fazendo sentir pena e raiva de mim mesmo. Incomodou ainda mais quando vi meu pai carrancudo e preocupado, quando ouvi meu irmãozinho chorar, quando a refeição da noite foi uma sopa rala com raros pedacinhos de legumes. Por cima de tudo isso, eu via que meu avô me observava, seus olhos de falcão por baixo das sobrancelhas brancas, dizendo o que as palavras não precisavam dizer. E mesmo assim eu continuei calado no meu canto.
De manhãzinha, após uma noite sem sonhos, acordei ouvindo os roncos da minha própria barriga. Meu irmão dormia ao meu lado, a sono solto, mas meu avô não estava na tenda, e eu ia começar a estranhar quando ele entrou, a cara torcida de dor, apoiado num bastão de carvalho.
-- Então, Zemel? – sussurrou, para não acordar o neto mais velho. – Pensou melhor? Vai fazer o espetáculo?
-- Vovô, e-eu acho que... que ainda não sei...
-- Muito bem. – Respirou fundo: tomara uma decisão. – Vista-se, de qualquer jeito, e venha comigo. Vou precisar de sua ajuda.

***

Zemel é o herói do meu livro Pão e Arte, publicado pela Editora Escrita Fina, que depois foi comprada pela Zit. Pode ser encomendado em livrarias ou na Estante Virtual.

            No blog do Castelo vocês conhecem o cara que viria a ser o futuro mestre do Zemel.




Parte 2.

quarta-feira, julho 12, 2017

O Eterno Retorno : parte 3


O fio de lã torcida estava disfarçado por folhas tão vermelhas como ele, mas mesmo assim visível a olhos atentos. Estava amarrado a um galho baixo, como um lembrete – um jeito de marcar uma trilha, de não se perder, como todas as crianças da tribo eram ensinadas desde cedo. Só que nenhuma criança da tribo, ao que ela se lembrava, usava aquele fio vermelho para amarrar as tranças ou costurar as roupas, a não ser aquela que Kyara conhecia tão bem.
Anna...! O que ela podia estar fazendo ali?
Como um mapa que brotasse da terra, os caminhos da floresta se desenharam na mente de Kyara. A trilha onde as crianças faziam coleta ficava longe, não se ligando, de forma alguma, ao Passo das Lebres. Anna teria visto alguma coisa que a assustou, fazendo-a fugir? E, se tivesse sido isso, por que não correra para junto da tribo e sim na direção oposta? E os outros – Tyshen, Lila, o pequeno Torak, que andava atrás de Tyshen e ecoava tudo que ele dizia – estariam com ela?
Aflita até os ossos, mas tentando manter a calma da qual tudo dependia, Kyara procurou os rastros dos pequenos pés calçados em mocassins. Nada: a chuva os tinha lavado, como lavara as pegadas deixadas pelo homem a partir dali. Ela se ergueu de novo, torcendo as tranças encharcadas, e tentou pensar. Anna talvez houvesse corrido sem ver para onde, mas depois se detivera para amarrar o fio, e isso era bom sinal: o que quer que a tivesse assustado acabara se distanciando, ao menos por algum tempo. Os outros também deviam estar bem, mas o provável é que estivessem todos perdidos, ou no mínimo confusos quanto às direções. Não costumavam vir para aqueles lados da floresta. Kyara caminhou ao redor da vereda, tentando achar mais sinais, e, não os encontrando, decidiu-se pelo caminho mais visível, o que ela teria seguido se fosse uma criança andando na chuva. O que mais poderia fazer?
Ajude-me, Lobo. A elfa se dirigiu ao Espírito que protegia sua Casa. Que Anna e os outros estejam em segurança, e que eu possa encontrá-los, ou que eles encontrem o caminho de volta. Sua voz era apenas um murmúrio, quase sumindo nas palavras finais ao se lembrar de como, anos atrás, ela fizera uma prece muito semelhante. Pedira ao Guardião que a ajudasse a achar o cervo que vinha rastreando, apesar da nevasca que a alcançara no caminho, apesar do cansaço de dois dias sem dormir e de estar fora do território da tribo. Em vez do cervo, porém, tinha encontrado aquela cabana, e nela estava Raymond de Pwilrie com seus olhos negros e belas mãos fortes. E dessa noite em diante sua vida nunca mais fora a mesma.
Kyara sacudiu a cabeça, espadanando água para os lados. Tinha de se concentrar no que importava, em achar Anna e as outras crianças e deixá-las a salvo antes de voltar a rastrear o caçador humano. A trilha que seguia, porém, era uma entre várias possíveis, e nada, a não ser sua intuição, garantia que fosse a certa. Ela se deteve, pensando em Lontra, que teria simpatia por uma avó em busca da neta, em Corvo, que mostrava novos caminhos, mas, acima de tudo, pensando sempre e ainda com mais força em Lobo. Precisava dele, e as crianças também, para que lhes desse coragem. Como elas deviam estar, pequenas, ainda inexperientes, perdidas em meio àquela chuva e com um homem andando pela floresta?
E de repente, como se o Guardião lhe desse um sinal, o som de uivos ecoou no ar. Ecoou por toda a floresta, rolando sobre as copas das árvores, mostrando-lhe a direção da qual provinha: o sudoeste, onde ficava a antiga trilha dos cervos, que a tribo usava muito pouco, mesmo quando ela era jovem. O caminho que a levara àquele encontro e a tudo que se seguiu. Kyara franziu a testa, sem acreditar que Lobo estivesse pedindo aquilo, e esperou um pouco, só para ouvir o som se repetindo ainda mais claro. Então, balançando a cabeça, rosnou uma imprecação para si mesma e marchou rumo ao lugar que preferiria não ter que ver de novo.
A chuva apertou por uns momentos, depois diminuiu, passando a cair mansamente sobre as árvores e a trilha. Kyara andava rápido, sem procurar por rastros, apenas seguindo os uivos que se repetiam de tempos em tempos. Aos poucos, embora tanto tempo houvesse decorrido, foi reconhecendo os marcos do caminho, pedras cobertas de limo antigo, árvores anciãs, uma nascente oculta entre arbustos onde os cervos se detinham para beber. Alguns, às vezes, ficavam presos ali pelas galhadas; ela ficara um pouco frustrada, da outra vez que passara ali, por não encontrar nenhum, embora soubesse que seria improvável um caçador da tribo chegar antes dos lobos e raposas. Agora, também, não havia sinal de cervos perto da nascente, nem pegadas de bota ou de mocassim, mas... o que eram aqueles rastros pesados, aquelas folhas amassadas ao redor dos arbustos? O que passara por ali havia apenas uns momentos, pelo que dizia sua experiência?
Um javali. Ela respirou fundo: nem precisava examinar o rastro, o cheiro dizia tudo. Um javali passara pela trilha, e devia ser um dos grandes. Kyara pegou a faca na bolsa de caça e foi naquela direção, as orelhas empinadas, atentas a qualquer ruído que pudesse indicar a presença do animal. Então, os lobos tornaram a uivar, e o estalo de gravetos partidos a fez olhar por cima do ombro, e todos os seus sentidos se aguçaram ao distinguir a mancha azul se movendo em meio às árvores.
-- Ei, você! Tenha cuidado! – gritou, sabendo, de alguma forma, que encontrara o dono das armadilhas e que ele estava em perigo. O homem se voltou, parecendo desorientado, e deu uns passos incertos em direção à elfa, deixando-a vislumbrar cabelos e barba brancos e um rosto vincado por inúmeras rugas. Ela arregalou os olhos, espantada -- e, no momento seguinte, um javali saiu do bosque de carvalhos à direita e partiu com toda a fúria para cima do caçador.
Kyara apertou a faca na mão e se precipitou sobre o animal. Não refletiu, não ponderou, apenas agiu. O velho correu, mas, ao contrário da elfa, era lento demais: o javali estava prestes a alcançá-lo quando Kyara saltou sobre ele empunhando a faca de caça. Pego de surpresa, o animal caiu, mas na mesma hora girou para o lado, quase conseguindo prendê-la sob o seu peso. Ao mesmo tempo, soltou um ronco forte e tentou mordê-la, uma das presas chegando a arranhar sua orelha antes que ela o golpeasse com força. Mirava o coração, e se o atingisse teria liquidado de uma vez o animal, mas a lâmina de obsidiana resvalou, indo se cravar num ponto mais abaixo. Então, antes mesmo que Kyara pensasse no próximo movimento, o som de alguém correndo pela relva molhada cresceu em seus ouvidos, e o javali berrou e estremeceu com o baque de um corpo, ainda que pequeno, se abatendo contra suas costas.
-- Minha faca, avó! Pegue! – gritou Anna, estendendo-a para ela pela lâmina. Era uma temeridade, mas Kyara não tinha tempo para pensar: agarrando o punho da faca, ela golpeou o peito exposto do animal, o metal forjado pelos homens entrando com facilidade, uma, duas, três vezes, enquanto em seu espírito ela pedia ao javali que a perdoasse. Não queria ter feito aquilo, mas não pudera deixá-lo atacar, talvez ferir de morte aquele homem velho, que jamais teria conseguido apanhá-lo num laço e que ele não iria usar como alimento. Kyara, por sua vez, honraria a morte do animal, aproveitando cada parte dele que pudesse para o sustento da tribo e cantando para que seu espírito seguisse em uma nova jornada. Era o dever de todo caçador da Floresta dos Teixos.
Mas isso – diante das circunstâncias – teria que esperar.
-- Você está bem? – Sua voz ecoou a de Anna, dois pares de olhos oblíquos arregalados, um preso dentro do outro enquanto elas se levantavam, ilesas, com as tranças encharcadas e as roupas sujas de lama.
-- Estou bem – respondeu Kyara, enquanto a menina apenas fazia que sim. – E os outros? Tyshen, Lila, Torak... Onde eles estão?
-- Voltaram para casa, levando as bagas e cogumelos. – Baixou a cabeça, as faces vermelhas. – Você disse que, se eu achasse a cabana sozinha...
-- Então foi isso que aconteceu? – Kyara a encarou, sem fôlego. – Você não se assustou com alguma coisa, com o javali, com... com ele?
Indicou com o queixo o velho caçador, que se encostara ao tronco de um carvalho e tremia da cabeça aos pés. Anna negou com um gesto. Ao contrário do homem, não parecia ter medo, apenas curiosidade e... sim, e uma certa empatia. É o povo dela, afinal, pensou Kyara, dolorosamente. Não se podia esconder uma verdade que saltava aos olhos.
-- Tudo bem. – Respirou fundo, passando sobre o corpo do javali e se acercando daquele homem trêmulo. – Depois você me explica tudo direitinho. Agora, vamos saber o que...
-- Não, por favor. Moça... – ele balbuciou, engolindo em seco. Kyara levou um dedo aos lábios, fazendo-o calar. Depois, olhou-o nos olhos.
-- Não sou nenhuma moça – resmungou. – Provavelmente sou mais velha do que você, se quer saber. Pegue essa faca que estou vendo no seu cinto e nos ajude com esse javali. Vamos pegar o que der para carregar e sair da chuva. Se as coisas forem como penso, estamos muito perto de onde poderemos secar as roupas e esquentar os ossos.
*****
Pouco mais tarde, com a carne assando na grelha da lareira e a chuva gotejando pelo teto da cabana arruinada, avó e neta ouviram a história do velho homem. Não era um caçador, trabalhara a vida toda como carpinteiro; não armava laço algum desde os tempos de garoto, o que o tornava semelhante àqueles que Kyara e Raymond poupavam à justiça dos nobres. Ele tentara de novo agora, pensando em pegar algum animal pequeno e se fortalecer para seguir viagem. Pois nunca pretendera ficar, explicou, e não havia por que supor que estivesse mentindo. Jamais quisera entrar no território da tribo, apenas cortava caminho pela floresta, querendo chegar logo em Lardale, onde tinha parentes. Uma viagem mais curta, que saíra de mais perto e terminaria antes – mas, nessa etapa, em tudo semelhante à que trouxera Raymond até a cabana.
A história provocou recordações tão doces quanto dolorosas, mas Kyara conseguiu deixá-las de lado por algum tempo. O velho enchera a barriga de carne e se deitara, coberto pela manta de pele que encontraram num canto, e a menina se aconchegara nos braços da avó, o fogo acabando de secar as roupas no corpo enquanto conversavam em voz baixa. Anna contou que não resistira à vontade de ver a cabana, que fazia uma boa ideia de onde era a trilha e se lembrara de marcar seu caminho para a volta. Num dado ponto do percurso, ouvira lobos, que a alertaram sobre a presença do caçador humano; ela subira numa árvore para não ser avistada e acompanhara lá de cima seus últimos movimentos, até que, para sua surpresa e aflição, visse surgirem quase ao mesmo tempo sua avó e o javali enfurecido.
-- Aí eu acho que esqueci o que você ensinou. Esqueci toda a prudência – admitiu, encolhendo os ombros. – Só queria que você não ficasse machucada. Mas você também nem pensou nisso, quando partiu para cima do javali, não é?
-- É. Não foi prudente, mesmo. E eu teria me machucado, acho, se não fosse sua ajuda. – Sorriu, apertando a menina contra si. – Você não devia ter feito o que fez. Nada do que fez, aliás, desde que se separou dos outros, e ainda vamos conversar melhor sobre isso. Mas se saiu muito melhor do que eu esperava.
-- Obrigada. Mas, avó – Anna parecia um pouco inquieta --, é assim que os homens ficam quando são velhos? O livro de Maryan mostra alguns de cabelo branco, e ela disse que era quando envelheciam, mas não me falou que ficavam desse jeito, fracos, com as pernas tremendo...
-- Ah, mas nem todos ficam. Seu avô, por exemplo. – Kyara se lembrou de uma onda de cabelo prateado, de um sorriso realçado pelos vincos de um rosto másculo e moreno, e se encheu de convicção. – Ele já era velho quando morreu, não tanto quanto esse aí, mas ainda era forte e ágil. Tanto que o levaram para ajudar a defender o castelo, ele morreu no alto da muralha, de arma na mão. E, além de forte, era bonito – segredou, movendo as sobrancelhas para que a neta risse. – Foi bonito até o fim, e eu o amei do mesmo jeito até o fim.
-- Eu sei, mas, avó... Eu também tenho sangue humano. Sou quase humana. – Levou as mãos às próprias faces, os olhos cheios de uma súbita angústia. – Será que eu vou ficar desse jeito? Eu posso ser como meu avô, mas também pode ser que...
-- Não! Escute bem, minha Anna. – Kyara pegou as mãos dela e as abaixou, olhando-a com um amor tão intenso que quase machucava. – É verdade, você é quase humana, mas isso não muda o que eu sempre lhe disse. Você é filha da nossa tribo, leal, inteligente, corajosa. Logo vai crescer e se tornar uma mulher forte e sábia. Não se preocupe com o futuro muito distante, se um dia vai ficar velha, se sua pele vai enrugar ou o cabelo ficar branco. Isso é apenas o lado de fora! Honre os Guardiões, cumpra seus deveres e, sempre que puder, alegre seu espírito e o faça dançar. E, lembre-se, haja o que houver, você é e sempre será uma de nós. Promete não esquecer?
Anna a encarou, o rosto muito sério, e fez que sim com a cabeça. Kyara tornou a abraçá-la, depois a soltou, pretextando ter que virar as tiras de carne sobre a grelha. Havia muito mais que poderia dizer, mas ela preferiu não se antecipar às perguntas, porque sabia que o tempo e a vida trariam as respostas necessárias. Por ora, bastava ficar ali, acalentando as memórias de Raymond, enquanto Anna, depois de alguns momentos a olhar fixamente para o fogo, respirava fundo, abria a bolsa de caça e confiava pensamentos, dúvidas e sonhos ao seu caderno.
Ali, naquela cabana onde se uniam as trilhas do passado e do futuro.
Ali, onde as sombras sussurravam que uma nova jornada em breve iria começar.

*****
E o conto chega ao fim! Espero que tenham gostado e deixem seu feedback,  ele é muito importante!!


Parte 1.
Parte 2.

Para quem gostou da Anna criança, sugiro o livro Anna e a Trilha Secreta, onde ela encontra os Espíritos Guardiões da Tribo.

Visitem o blog do Castelo para ler um conto em que a Anna é ainda mais novinha, centrado em Maryan e Zendak, clicando aqui.

Para um conto da Anna aos 14 anos aprendendo a caçar, cliquem  aqui.

E continuem com a gente. Em breve teremos outro conto, desta vez de uma dupla de avô e neto muito talentosos!