segunda-feira, janeiro 04, 2016

"O Castelo das Águias" de Graça Para Usuários do IOS!


Pessoas Queridas,

O ano começa com um presente da Editora Draco para usuários do IOS (iPad, iPhone e Mac). Durante uma semana, o primeiro livro da série, "O Castelo das Águias", vai estar inteiramente de graça no iTunes Store! Corram lá!

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E "A Fonte Âmbar", terceiro livro da série, está vindo por aí... Espero que vocês gostem!

Até breve!

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Em Busca do Rei (Final)

O fenício recuou, espantado, à menção de seu nome por aquele desconhecido. Ele olhou para Lísias, mas o rapaz encolheu os ombros, igualmente surpreso. O velho abriu os braços, num convite mudo, e Balthazar o abraçou, porque não lhe ocorreu fazer mais nada. Como agir diante de uma coisa assim?
-- Os deuses o guiaram até nós, meu filho – disse o velho homem. Cheirava a alho, a suor e um pouco a incenso, e parecia um bom sujeito, sorrindo com franqueza sob a barba branca. O outro homem era moço, de feições finas e bem desenhadas; também abraçou Balthazar, porém mais brevemente, agradecendo por salvar a vida de seu mestre.
-- Sabe o quanto é preciosa – disse, e o velho sorriu com modéstia. – Aqueles bandidos iam nos levar até o outro lado do deserto, fiquei com medo de que ele nem sobrevivesse à jornada. Ainda bem que você apareceu, ainda que com atraso. Nós o esperamos neste vale por três dias além da lua nova, quando deveria ter chegado, segundo sua carta.
-- É, bem... Viagens longas têm seus imprevistos. – O fenício não sabia o que dizer.
-- Não importa! A estrela continua a brilhar – declarou o velho. – Ela nos reuniu apesar dos percalços: eu, o mestre; você, meu pupilo; e Balthazar, que ensinei a ler as estrelas quando era pouco mais que um menino. Mais jovem até que esse rapaz – apontou para Lísias. – Pensei que você também viajaria sozinho.
-- Sim, decidi trazer um servo na última hora... para cuidar dos camelos – improvisou Balthazar. – Mas o dele se perdeu na tempestade de areia. Vocês também sofreram com ela?
-- Não passou pelo vale, felizmente – disse o viajante mais novo. – Sinto pelo camelo, mas imagino que seja nosso direito pegar os dos bandoleiros. Eles tinham dois; o rapazinho pode ficar com um e passamos um pouco da carga de nossos animais para o que sobrar. É até bom, assim divido o peso do ouro.
-- Está... está levando ouro em seu camelo? – Balthazar pigarreou, disfarçando seu entusiasmo. – Muito ouro, ou...
-- Ah, não, só o bastante para presentear o rei, quando o encontrarmos. Afinal, segundo dizem as estrelas, será um grande rei. O rei de todos os povos! – exclamou o jovem, sem perceber o brilho nos olhos do fenício. – Para um monarca tão poderoso, os deuses irão sorrir, e nós, que servimos aos deuses, não podemos ser mesquinhos com nossos presentes. Concorda, mestre Gaspar?
-- Inteiramente, Belchior – sorriu com bonomia o homem mais velho.


A estrela cintilava sobre o vale, e o mestre e seu pupilo a contemplavam embevecidos enquanto Balthazar resumia para Lísias a conversa travada em aramaico. Pelo que entendera, Gaspar e Belchior eram sacerdotes e estudiosos dos astros – magi, concluiu o heleno -- e viam aquela estrela como um sinal da vinda do grande rei. Esse também era o palpite de outro homem, um antigo pupilo de Gaspar, que tinha o mesmo nome do capitão. Os três haviam trocado cartas a respeito e combinado um encontro no vale, de onde seguiriam para uma cidade às margens do deserto, chamada Yerushaláyim.
-- Eles acreditam que o rei local, Herodes, possa saber alguma coisa sobre o outro rei. E o outro Balthazar também acreditava – explicou o fenício. – Claro que ele só pode ser aquele homem que encontramos com o camelo.
-- Sim, e isso é estranho – disse Lísias, cismado. – Até meio assustador, porque ele se parecia com você a ponto de um antigo mestre confundir os dois. E ainda por cima o mesmo nome... Lembra o que falei sobre os dois Balthazares? Aquele, ao que parece, morreu na mesma tempestade de areia que encontramos ao chegar. Isso me faz pensar que é perigoso voltarmos a um tempo em que você já existia. Talvez, para haver um Balthazar, o outro tenha que...
-- Não diga asneira, Lísias! – replicou o fenício. -- Aquele não era eu, ele nasceu séculos depois de mim! No máximo poderia ser meu descendente... se algum dia eu tivesse tido filhos.
-- Quem sabe você deixou algum pelo caminho – sugeriu Lísias. – E o outro Balthazar poderia estar indo encontrar um descendente de Alexandre.
-- Que seja! Não me interessa o que ele queria, e sim o ouro que Belchior leva no camelo. – O capitão sorriu com malícia. – Gaspar tem uma fortuna em incenso e está coberto de joias. E como estamos a meio mundo de distância dos Pilares, e não podemos navegar no inverno, pensei: que tal comprarmos uma bela casa à beira-mar aqui no Oriente? E, quando o tempo esquentar, arranjamos um barco e partimos para tentar de novo. O que acha?
-- Acho bom, desde que não façamos mal a Belchior e a Mestre Gaspar.
-- Claro que não! O que pensa que eu sou, um assassino? – Balthazar, cuja fama de pirata corria os portos do Grande Mar, fechou a cara, ofendido. – Nada disso. Eu só pensei que talvez um camelo e sua carga pudessem se extraviar ao longo da viagem, ou, quem sabe, da nossa estadia em Yerushaláyim. Dependendo do que descobrirmos por lá, pode ser até que eu me anime a seguir com eles em busca desse rei de todos os povos. Com esse título, deve ter muitas riquezas, e quem sabe também é generoso ao reparti-las... não é mesmo?
O heleno ergueu as sobrancelhas, mas concordou.
Os sacerdotes comeram com apetite, elogiando o trigo cozido com mel, uma receita que Lísias aprendera em Cartago. Tiveram mesmo a gentileza de dizer isso em helênico, para que ele entendesse e pudesse agradecer. Depois, os três amantes de estrelas se juntaram perto do fogo e se puseram a examinar papiros e apontar com grandes gestos para o céu. Lísias lavou no rio os utensílios do jantar e foi se sentar perto dos camelos, sentindo falta de sua cítara, mas feliz por ter ao menos Menelau a quem confiar seus pensamentos.
-- Balthazar está contente de novo – segredou ele. – Ainda não foi dessa vez que chegou onde queria, mas vai aproveitar a viagem mesmo assim. E, quem sabe? Talvez um dia se lembrem dele como um rei, como ele disse no barco...
Menelau cutucou seu ombro com o queixo, fazendo com que se voltasse, e o encarou com seus olhos grandes. Pareciam céticos, como se o advertissem de que estava sonhando demais. Lísias não se abalou. Menelau podia achá-lo um tonto, mas os sonhos faziam parte dele. Eram o que o movia, assim como a sede de aventura -- mais que a de vingança -- era o que fazia Balthazar seguir em frente.
E onde quer que a estrela os levasse, ele tinha certeza, aquela jornada ficaria para sempre na História.
*****
         E aí? Que tal o Conto de Natal da Clepsidra?
        Espero que não tenham ficado frustrados por eu não mostrar a chegada de nossos heróis a Yerushaláyim e tudo que veio depois. A história canônica todo mundo já conhece, e é mais legal deixar a imaginação de cada um responder se Balthazar acabou afanando parte do ouro e do incenso dos companheiros ou se Menelau fez mais alguma das suas.
       Da minha parte eu imagino que o fenício e seu fiel heleno acabaram achando um lugar tranquilo para passar o inverno e, depois, se puseram a caminho dos Pilares de Melkart, onde fizeram mais uma tentativa de encontrar Alexandre da Macedônia. Onde foram parar, e o que aconteceu, não faço ideia... Mas algumas das possibilidades eu pretendo explorar em novos contos da dupla, bem como mostrar um pouco da vida deles antes da clepsidra, em Cartago e em peripécias com o Fênix pelo Grande Mar.
      Que venha, pois, o novo ano... e que ele traga muita inspiração para contar essas histórias, e as histórias de Athelgard, e quantas outras a imaginação ditar!
           Até breve!!

terça-feira, dezembro 22, 2015

Em Busca do Rei (Parte 4)

OK. Balthazar não é o fenício mais corajoso do mundo. Mas Menelau vai dar um jeito nisso, esperem só pra ver!




       -- Vamos passar ao largo. Não temos nada com isso – disse o capitão, embora no fundo também sentisse pena do velho. Provavelmente ele iria passar uns maus bocados antes que sua família pagasse para tê-lo de volta, isso se os captores não fossem broncos ou impacientes demais para pedir um resgate. Aí seria vendido em um mercado, se alguém quisesse comprá-lo, ou posto para trabalhar até morrer. O que, em vista da idade, não iria demorar.
-- Será que não podemos mesmo fazer nada? – Lísias fez a pergunta que ele tentava calar. – Daqui dá para ver todo o vale, e os homens estão desprevenidos. Se chegássemos de surpresa...
-- Pensei que não gostasse de se meter em confusão – disse o fenício.
-- Não gosto, mas também não gosto de ver coisas como essa. Olhe só, um deles está falando com o outro prisioneiro, o de barba castanha... e deu um chute nele, pobre homem! Ah, Balthazar, vamos ajudar aqueles dois!
-- Como? Descemos até o vale e os convencemos a soltar os sujeitos? E se não me atenderem? Pego a espada e desafio um por um até matar os quatro?
-- É, bom... Talvez seja difícil – admitiu Lísias. – Também não adianta tentarmos comprar esses homens. Os captores iriam nos roubar, talvez até nos escravizar, como fizeram com eles.
-- Exato. Então, como vê, tomei a decisão certa. Vamos?
Lísias baixou a cabeça e assentiu. Estava decepcionado, mas Balthazar sabia que tinha entendido suas razões. Socorrer um viajante ferido era uma coisa, mas não havia sentido em enfrentar quatro homens, possivelmente armados, para ajudar desconhecidos. Não se tratava de covardia e sim de inteligência.
Com um gesto da mão, ele indicou que deviam seguir pela esquerda e contornar a descida. O heleno soltou um leve suspiro e incitou o camelo, mas, para sua surpresa, o animal não obedeceu como vinha fazendo até então. Em vez disso, dobrou os joelhos, como quando alguém subia ou descia da sela, e assim se deixou ficar, não obstante as tentativas de Lísias e Balthazar de fazer com que se levantasse.
-- Camelo estúpido – resmungou o fenício, entre dentes, porque não convinha erguer a voz. – Que hora você escolheu para empacar!
-- Será que ele está doente? – indagou Lísias, inquieto. – Ou muito cansado, ou com sede?
-- Sede? Ele bebeu metade do lago ontem, as corcovas estão altas. E não parece doente. Em todo caso, desmonte, vou ver se tem um arreio apertado ou coisa assim.
Lísias desmontou, e Balthazar se pôs a verificar a sela e a bagagem. Parecia tudo em ordem, e nem estava muito pesado, mas ele resolveu tirar a espada que pusera num alforje e levá-la à cintura, para o caso de serem surpreendidos. Aí, lutaria, fosse com quatro ou com cinquenta homens. Ele montou por um instante para alcançar a arma e a segurava na mão quando, sem aviso, Menelau se pôs de pé e investiu, quase se atirou num galope frenético em direção ao vale onde estavam os caçadores de escravos.
-- Oooaaaa! Pare, animal idiota! – gritou o fenício, quando já se sentia despencar colina abaixo agarrado ao camelo.
-- Pare, Menelau! – gritou Lísias, em desespero. – Balthazar, pegue as rédeas! Cuidado! Balthazaaaaaar!
A voz se distanciou, perdida no ar enquanto o camelo desembestava pelo declive. Balthazar não alcançou as rédeas -- mal conseguia se manter na sela -- e a imagem do viajante morto dardejou em sua mente antes que nela se fixasse uma só ideia: ia parar entre os homens do vale, eles iam atacá-lo, ele teria de ser mais rápido e certeiro se quisesse vencê-los. De preferência mortal.
-- Aaaaaahhhrrr! – rugiu ele, erguendo a arma acima da cabeça para impressioná-los. Tinham-no visto desde que o camelo barafustara pela descida, mas, para o azar deles, só dois tinham espadas ao alcance das mãos. Empunhando-as, eles correram ao encontro do camelo, mas este deu uma guinada violenta e derrubou o sujeito da esquerda, enquanto Balthazar atingia o outro em cheio no pescoço. Ele caiu, arquejando em meio ao sangue que borbulhava em sua garganta, e Menelau avançou para cima dos outros dois, que tinham ido pegar suas armas na bagagem dos camelos. Um se apavorou e correu, mas o outro investiu sobre Balthazar, quase conseguindo acertá-lo na perna antes que o fenício aparasse o golpe.
-- Seu cão! – grunhiu o sujeito. Balthazar devolveu o insulto e finalmente pegou as rédeas, fazendo Menelau dar meia volta e enterrando a ponta da espada entre o pescoço e o ombro do caçador de escravos. O homem berrou como um bode sendo sacrificado e caiu de joelhos, e Balthazar mal teve tempo de recuperar a espada antes que o camelo se precipitasse atrás do que tinha fugido. Mesmo com a arma na mão, o sujeito continuava a correr, e não se voltou para enfrentar o fenício. Talvez isso quisesse dizer que não oferecia perigo, mas podia alertar algum comparsa que estivesse nas redondezas, por isso Balthazar virou sua lâmina e se inclinou na sela, incitando Menelau a correr ainda mais. Sua velocidade emprestou força ao golpe seco da espada – e assim caiu o terceiro homem, sem ter chegado a ver o que separara sua cabeça do corpo.
-- Oooooaa!! – Balthazar apertou as pernas contra o flanco do camelo, torceu as rédeas. – Agora só falta um! E, por Melkart, com esse eu quero me divertir um pouco mais!
-- Pois pode vir, demônio! – bradou o último homem. Menelau o surpreendera e derrubara no ataque anterior, mas ele já estava de pé e investia, espada em punho, contra o oponente que galopava em sua direção. Parecia disposto a atacá-lo, mas algum tipo de instinto fez Menelau recuar para o lado ao mesmo tempo que o sujeito rolava no chão, golpeando o ar onde um momento antes estivera a barriga do camelo.
-- É assim? – cuspiu Balthazar, furioso. – Pois vamos lutar homem a homem!
Como se houvesse entendido, Menelau se ajoelhou nas patas traseiras, permitindo-lhe deslizar para o chão antes de se erguer e trotar para junto dos prisioneiros. Num relance, Balthazar viu que seu escravo descera a pé a ladeira pedregosa e corria na mesma direção, mas não pôde se deter para observá-lo. Sua atenção tinha de se concentrar no caçador de escravos, agora muito perto, avançando sobre ele com uma praga e a espada erguida.
-- Morra, filho de um cão! – Um golpe às cegas, que encontrou apenas o ar. – Faça suas preces, maldito!
-- Faça você as suas, verme da areia! – berrou o capitão, e atacou por sua vez, atingindo o braço do outro. O sangue escorreu do corte, mas o homem não esmoreceu e voltou à carga, a ponta de sua espada rasgando um pedaço do manto do fenício. Este desviou para acertar o oponente nas costelas, fazendo-o se dobrar sobre si mesmo, e golpeou o lado de sua perna, o que o jogou de costas no chão como se fosse um saco de trigo. Então, chutou para longe a arma que ele havia soltado e pisou no seu pulso, quase a ponto de esmagá-lo. O homem lhe dirigiu um olhar do qual fugira toda a esperança, e Balthazar cerrou os dentes antes de enterrar a espada em seu peito magro.
-- Ha! – exclamou, desafogando a tensão. O sujeito estremeceu, depois distendeu os membros e ficou imóvel, e foi quando os homens que Lísias acabara de soltar irromperam em palmas e vivas.
-- Muito bem, muito bem! – exclamou o velho, emocionado. – Quem diria que um dia meu antigo pupilo salvaria minha vida! Nunca pensei que houvesse se tornado um homem tão forte, Balthazar!
*****
Agora complicou. Como é que o velhote sabe o nome do capitão, se ele está vindo de séculos atrás? 
Não perca a conclusão desta história infame, cheia de clichês e obviedades, mas que - confesse! - você está achando pelo menos um pouquinho divertida! :)


Parte Final

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Em Busca do Rei (Parte 3)


       Horas depois, bem alimentado com a comida do viajante e aquecido com sua roupa, Lísias afagava o pescoço do camelo que acabara de prender a uma tamareira. A desconfiança que aqueles animais lhe inspiravam em Cartago se esvaíra diante da docilidade e inteligência demonstradas por este, que o deixara baixar os alforjes e tirar os arreios, mas conseguira, de alguma forma, dar a entender que desejava assistir às exéquias prestadas a seu amo. Foram muito simples, como tinham de ser em circunstâncias como aquelas, mas Balthazar se dera ao trabalho de cavar uma sepultura rasa às margens do lago e achar uma pedra lisa para marcar o local. Pegou outra pedra, pontuda e dura o bastante para arranhar a primeira, e escreveu as palavras sugeridas por Lísias: Aqui jaz um homem que amava as estrelas. Porque, embora os papiros no alforje não revelassem o nome do viajante, ao menos deixavam claro tratar-se de um estudioso dos astros.
-- Um sacerdote, talvez – sugerira Lísias. Balthazar encolhera os ombros. Alguma coisa o incomodava, mas, conhecendo seu senhor, o rapaz achou melhor não fazer perguntas. Em vez disso, confiou suas conjecturas ao camelo, que não podia responder, mas pelo menos o olhava com atenção e não mandava que calasse a boca.
-- Sabe, Menelau, meu amo é um ótimo homem – disse ele, a quem, por alguma razão, o animal fazia lembrar o antigo rei de Esparta. – É generoso, corajoso e muito inteligente. Mas, ai, como é teimoso! Como ele espera chegar perto de Alexandre, que deve viver cercado de guerreiros, e acabar com ele sem que o matem também? Devia é voltar a Cartago e impedir aquela tragédia com o Fênix. – O camelo bufou pelas narinas, mas Lísias prosseguiu. – Na verdade eu já tentei voltar, mas fomos parar na Cartago do futuro, e não gostamos nada do que vimos por lá. Nem sei como vivemos para contar a história. Aí retornamos aos pilares, e eu pensei em outro lugar de que Balthazar gostasse, mas eu já lhe disse, não é, Menelau? Ele não se contenta com nada menos que pôr as mãos no macedônio. Por isso ficamos indo e vindo, quando poderíamos... Argh!
Calou-se, meio enojado, meio lisonjeado com a súbita lambida do camelo em sua face esquerda. Era uma espécie de beijo, raciocinou; um beijo com o qual o animal se mostrava solidário com suas queixas. Ou pelo menos era um gesto carinhoso. De qualquer forma, melhor do que uma cusparada.
Lísias limpou o rosto com a manga, desejou boa noite a Menelau e foi para junto de seu amo. Balthazar estava deitado perto da fogueira, mãos enlaçadas sob a cabeça, olhando as estrelas, que formavam um complexo mapa no céu. Parecia intrigado, e o heleno não tardou a descobrir o porquê: bem lá no alto, brilhando sobre o Oriente, havia uma estrela que eles nunca tinham visto.
-- Não faço ideia do que é – disse Balthazar. – Tenho ideia do lugar, mais ou menos, e diria que estamos no inverno, mas a estrela não combina. Acho que nunca vi uma tão brilhante.
-- Bom, o céu pode mudar, de acordo com a época, não pode? Talvez nós estejamos a muitos anos de distância do nosso tempo.
-- É provável. E pela bagagem do nosso amigo, principalmente a adaga e as moedas, eu me arriscaria a dizer que estamos à frente. – Olhou com o cenho franzido para Lísias, que se deitara a seu lado. – Você não consegue mesmo nos levar para onde deve, não é?
-- Desculpe – murmurou o rapaz. Estava envergonhado, não pelo fracasso, mas pela mentira: ao contrário do que afirmava, ele jamais tentara levar seu amo à presença de Alexandre. Nunca pensara no macedônio ao recitar a fórmula mágica. Balthazar seria capaz de matá-lo se soubesse, e o próprio Lísias quase morria de remorso, mas era o jeito de evitar o confronto que, ele tinha certeza, seria desastroso para o fenício. Antes vê-lo eternamente insatisfeito que chorar sobre o seu cadáver.
Além disso, Lísias não saberia viver sem ele.
-- Sinto muito – repetiu, a mentira amarga em sua boca. – Eu faço o possível, juro. Vou continuar tentando.
-- Sim, porque comigo não funciona, não sei o motivo – resmungou o capitão. – Deve ser a minha pronúncia.
-- Talvez – concordou Lísias.
Um longo silêncio se seguiu a essa conversa. Balthazar tornou a se voltar para as estrelas, ao passo que o heleno se sentia pouco a pouco vencer pelo sono. Estava quase dormindo quando ouviu a voz do amo, como se viesse de muito longe:
-- ... achar o rei.
-- O quê? – fez Lísias, abrindo um olho.
-- Vamos achar o rei. Se não nesta viagem, na próxima – disse Balthazar, com decisão. – Mas, seja como for, amanhã é um ótimo dia para recomeçar.
*****
-- Você é tão cabeça-dura, Balthazar! Por que não monta comigo? Menelau é forte, e estou vendo que você está cansado. Se alguém passar por nós, vai pensar que eu sou o senhor e você é o escravo. Não vai querer que isso aconteça, não é?
Lísias exercia seus dotes de orador do alto da sela. Estava ali fazia menos de uma hora, mas como sempre já se preocupava com o conforto de seu amo, embora Balthazar houvesse viajado sobre o camelo durante boa parte da manhã. Esperava achar um refúgio para passar as horas mais quentes do dia, mas a única sombra digna desse nome foi a de um rochedo junto ao qual eles fizeram uma parada. Ali comeram frutas secas e tâmaras do oásis, beberam metade de um odre d´água e descansaram antes de ir em frente, agora com Lísias na sela e Balthazar andando ao lado do camelo. Não precisava puxá-lo: ele parecia saber muito bem onde estava indo. Provavelmente seu dono fazia sempre esse trajeto, supôs o fenício. E o animal não tinha por que estranhá-lo: além de se parecer com o homem anterior, estava usando suas roupas, que guardavam o cheiro dele, mesmo depois de serem mergulhadas na água do lago.
Balthazar franziu o cenho sob o turbante que Lísias enrolara de mau jeito. Comparado a outros marinheiros, ele não era supersticioso, mas a verdade é que não conseguia tirar da cabeça a imagem do viajante. Não era idêntica à sua – o outro tinha traços mais grossos e não era tão forte --, mas poderiam facilmente passar por irmãos, e ainda por cima tinham o mesmo fascínio pelas estrelas. Podiam ter tido boas conversas se Balthazar o houvesse encontrado com vida. E, com certeza, ele saberia alguma coisa sobre o astro misterioso que brilhava tão forte no céu.
O camelo desviou o passo, dando um leve encontrão no ombro do fenício. Este acordou de suas conjecturas e olhou para o animal, que virava o pescoço para trás, tentando chamar sua atenção com olhares e pequenos bufidos.
-- O que é isso, Menelau? O que você quer? – perguntou Lísias. Em resposta, o camelo avançou mais alguns passos, com o que aos poucos se evidenciou um acentuado declive no terreno à frente deles.
-- Ah, ele quer que nós fiquemos atentos a essa descida. É um camelo esperto – elogiou o heleno.
-- Não é só a descida – murmurou Balthazar.
Seus pés estavam a dez ou doze passos do início do declive, de onde podia ver todo o vale lá embaixo. Era um lugar aprazível, com arbustos, duas ou três árvores baixas e um fiozinho prateado de rio correndo pelo chão. Um homem estava ajoelhado numa das margens, bebendo com o rosto encostado à água, e outros cinco se sentavam à sombra, perto de um grupo de camelos que pastava placidamente. Seria uma cena pacífica... se dois daqueles homens não estivessem com cordas no pescoço e as mãos amarradas.
-- Mercadores de escravos – disse o fenício, cruzando os braços. – Ou caçadores: os dois que vão amarrados estão muito bem vestidos. Devem ter sido apanhados agora mesmo.
-- Um deles parece bem idoso – comentou Lísias, penalizado. – A barba é branca como neve. O que faremos, Balthazar?
*****
Pois é, o que o Balthazar vai fazer? Ele parece ser do tipo heroico? Ou é daqueles que pensam primeiro em si? 
Alguma ideia?



Parte 4