O fenício recuou,
espantado, à menção de seu nome por aquele desconhecido. Ele olhou para Lísias,
mas o rapaz encolheu os ombros, igualmente surpreso. O velho abriu os braços,
num convite mudo, e Balthazar o abraçou, porque não lhe ocorreu fazer mais
nada. Como agir diante de uma coisa assim?
-- Os deuses o guiaram
até nós, meu filho – disse o velho homem. Cheirava a alho, a suor e um pouco a
incenso, e parecia um bom sujeito, sorrindo com franqueza sob a barba branca. O
outro homem era moço, de feições finas e bem desenhadas; também abraçou
Balthazar, porém mais brevemente, agradecendo por salvar a vida de seu mestre.
-- Sabe o quanto é
preciosa – disse, e o velho sorriu com modéstia. – Aqueles bandidos iam nos
levar até o outro lado do deserto, fiquei com medo de que ele nem sobrevivesse
à jornada. Ainda bem que você apareceu, ainda que com atraso. Nós o esperamos
neste vale por três dias além da lua nova, quando deveria ter chegado, segundo
sua carta.
-- É, bem... Viagens
longas têm seus imprevistos. – O fenício não sabia o que dizer.
-- Não importa! A
estrela continua a brilhar – declarou o velho. – Ela nos reuniu apesar dos
percalços: eu, o mestre; você, meu pupilo; e Balthazar, que ensinei a ler as
estrelas quando era pouco mais que um menino. Mais jovem até que esse rapaz –
apontou para Lísias. – Pensei que você também viajaria sozinho.
-- Sim, decidi trazer
um servo na última hora... para cuidar dos camelos – improvisou Balthazar. –
Mas o dele se perdeu na tempestade de areia. Vocês também sofreram com ela?
-- Não passou pelo
vale, felizmente – disse o viajante mais novo. – Sinto pelo camelo, mas imagino
que seja nosso direito pegar os dos bandoleiros. Eles tinham dois; o rapazinho pode
ficar com um e passamos um pouco da carga de nossos animais para o que sobrar.
É até bom, assim divido o peso do ouro.
-- Está... está levando
ouro em seu camelo? – Balthazar pigarreou, disfarçando seu entusiasmo. – Muito ouro, ou...
-- Ah, não, só o
bastante para presentear o rei, quando o encontrarmos. Afinal, segundo dizem as
estrelas, será um grande rei. O rei de todos os povos! – exclamou o jovem, sem
perceber o brilho nos olhos do fenício. – Para um monarca tão poderoso, os
deuses irão sorrir, e nós, que servimos aos deuses, não podemos ser mesquinhos
com nossos presentes. Concorda, mestre Gaspar?
-- Inteiramente,
Belchior – sorriu com bonomia o homem mais velho.
A estrela cintilava
sobre o vale, e o mestre e seu pupilo a contemplavam embevecidos enquanto
Balthazar resumia para Lísias a conversa travada em aramaico. Pelo que
entendera, Gaspar e Belchior eram sacerdotes e estudiosos dos astros – magi, concluiu o heleno -- e viam aquela
estrela como um sinal da vinda do grande rei. Esse também era o palpite de
outro homem, um antigo pupilo de Gaspar, que tinha o mesmo nome do capitão. Os
três haviam trocado cartas a respeito e combinado um encontro no vale, de onde
seguiriam para uma cidade às margens do deserto, chamada Yerushaláyim.
-- Eles acreditam que o
rei local, Herodes, possa saber alguma coisa sobre o outro rei. E o outro Balthazar
também acreditava – explicou o fenício. – Claro que ele só pode ser aquele
homem que encontramos com o camelo.
-- Sim, e isso é
estranho – disse Lísias, cismado. – Até meio assustador, porque ele se parecia
com você a ponto de um antigo mestre confundir os dois. E ainda por cima o
mesmo nome... Lembra o que falei sobre os dois Balthazares? Aquele, ao que
parece, morreu na mesma tempestade de areia que encontramos ao chegar. Isso me faz pensar que é
perigoso voltarmos a um tempo em que você já existia. Talvez, para haver um
Balthazar, o outro tenha que...
-- Não diga asneira,
Lísias! – replicou o fenício. -- Aquele não era eu, ele nasceu séculos depois
de mim! No máximo poderia ser meu descendente... se algum dia eu tivesse tido
filhos.
-- Quem sabe você
deixou algum pelo caminho – sugeriu Lísias. – E o outro Balthazar poderia estar
indo encontrar um descendente de Alexandre.
-- Que seja! Não me
interessa o que ele queria, e sim o ouro que Belchior leva no camelo. – O
capitão sorriu com malícia. – Gaspar tem uma fortuna em incenso e está coberto
de joias. E como estamos a meio mundo de distância dos Pilares, e não podemos
navegar no inverno, pensei: que tal comprarmos uma bela casa à beira-mar aqui
no Oriente? E, quando o tempo esquentar, arranjamos um barco e partimos para
tentar de novo. O que acha?
-- Acho bom, desde que
não façamos mal a Belchior e a Mestre Gaspar.
-- Claro que não! O que
pensa que eu sou, um assassino? – Balthazar, cuja fama de pirata corria os
portos do Grande Mar, fechou a cara, ofendido. – Nada disso. Eu só pensei que
talvez um camelo e sua carga pudessem se extraviar ao longo da viagem, ou, quem
sabe, da nossa estadia em Yerushaláyim. Dependendo do que descobrirmos por lá,
pode ser até que eu me anime a seguir com eles em busca desse rei de todos os
povos. Com esse título, deve ter muitas riquezas, e quem sabe também é generoso
ao reparti-las... não é mesmo?
O heleno ergueu as
sobrancelhas, mas concordou.
Os sacerdotes comeram
com apetite, elogiando o trigo cozido com mel, uma receita que Lísias aprendera
em Cartago. Tiveram mesmo a gentileza de dizer isso em helênico, para que ele
entendesse e pudesse agradecer. Depois, os três amantes de estrelas se juntaram
perto do fogo e se puseram a examinar papiros e apontar com grandes gestos para
o céu. Lísias lavou no rio os utensílios do jantar e foi se sentar perto dos
camelos, sentindo falta de sua cítara, mas feliz por ter ao menos Menelau a
quem confiar seus pensamentos.
-- Balthazar está
contente de novo – segredou ele. – Ainda não foi dessa vez que chegou onde
queria, mas vai aproveitar a viagem mesmo assim. E, quem sabe? Talvez um dia se
lembrem dele como um rei, como ele disse no barco...
Menelau cutucou seu
ombro com o queixo, fazendo com que se voltasse, e o encarou com seus olhos
grandes. Pareciam céticos, como se o advertissem de que estava sonhando demais.
Lísias não se abalou. Menelau podia achá-lo um tonto, mas os sonhos faziam
parte dele. Eram o que o movia, assim como a sede de aventura -- mais que a de
vingança -- era o que fazia Balthazar seguir em frente.
E onde quer que a
estrela os levasse, ele tinha certeza, aquela jornada ficaria para sempre na
História.
*****
E aí? Que tal o Conto de Natal da Clepsidra?Espero que não tenham ficado frustrados por eu não mostrar a chegada de nossos heróis a Yerushaláyim e tudo que veio depois. A história canônica todo mundo já conhece, e é mais legal deixar a imaginação de cada um responder se Balthazar acabou afanando parte do ouro e do incenso dos companheiros ou se Menelau fez mais alguma das suas.
Da minha parte eu imagino que o fenício e seu fiel heleno acabaram achando um lugar tranquilo para passar o inverno e, depois, se puseram a caminho dos Pilares de Melkart, onde fizeram mais uma tentativa de encontrar Alexandre da Macedônia. Onde foram parar, e o que aconteceu, não faço ideia... Mas algumas das possibilidades eu pretendo explorar em novos contos da dupla, bem como mostrar um pouco da vida deles antes da clepsidra, em Cartago e em peripécias com o Fênix pelo Grande Mar.
Que venha, pois, o novo ano... e que ele traga muita inspiração para contar essas histórias, e as histórias de Athelgard, e quantas outras a imaginação ditar!
Até breve!!




