Ao atravessar o parque, como faço todas as manhãs, frequentemente me deparo com uma dupla formada por um senhor bem idoso e uma mulher de meia-idade. Não sei se ela é sua filha, parente, ou uma pessoa contratada para acompanhá-lo. Sei que os vejo sempre no mesmo lugar, um banco próximo ao portão que uso para sair, e sempre do mesmo jeito: o senhor, quieto, até cabisbaixo, e a mulher falando alto e sem descanso num telefone celular.
Quero crer que é tudo uma coincidência: que sempre passo por ali no exato momento em que ela telefona para saber de alguém, quem sabe um filho adolescente que ficou em casa, e que antes e depois dessa ligação ela dá atenção àquele senhor. E que essa atenção vai além de segurar-lhe o braço quando ele caminha. Mas meus horários variam, e às vezes me demoro olhando as árvores ou o arco-íris do chafariz, e nunca presenciei qualquer coisa diferente disso.
Tenho vontade de me aproximar, sentar-me ao lado desse senhor no banco e puxar conversa, só para ver o que acontece. Mas ainda não me atrevi a fazê-lo. Em vez disso, sigo meu caminho, sentindo que espinhos se enterram, cada vez mais fundo, nos pés e no coração da mulher grisalha.
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Imagem retirada deste site legal.




