quarta-feira, dezembro 23, 2015

Em Busca do Rei (Final)

O fenício recuou, espantado, à menção de seu nome por aquele desconhecido. Ele olhou para Lísias, mas o rapaz encolheu os ombros, igualmente surpreso. O velho abriu os braços, num convite mudo, e Balthazar o abraçou, porque não lhe ocorreu fazer mais nada. Como agir diante de uma coisa assim?
-- Os deuses o guiaram até nós, meu filho – disse o velho homem. Cheirava a alho, a suor e um pouco a incenso, e parecia um bom sujeito, sorrindo com franqueza sob a barba branca. O outro homem era moço, de feições finas e bem desenhadas; também abraçou Balthazar, porém mais brevemente, agradecendo por salvar a vida de seu mestre.
-- Sabe o quanto é preciosa – disse, e o velho sorriu com modéstia. – Aqueles bandidos iam nos levar até o outro lado do deserto, fiquei com medo de que ele nem sobrevivesse à jornada. Ainda bem que você apareceu, ainda que com atraso. Nós o esperamos neste vale por três dias além da lua nova, quando deveria ter chegado, segundo sua carta.
-- É, bem... Viagens longas têm seus imprevistos. – O fenício não sabia o que dizer.
-- Não importa! A estrela continua a brilhar – declarou o velho. – Ela nos reuniu apesar dos percalços: eu, o mestre; você, meu pupilo; e Balthazar, que ensinei a ler as estrelas quando era pouco mais que um menino. Mais jovem até que esse rapaz – apontou para Lísias. – Pensei que você também viajaria sozinho.
-- Sim, decidi trazer um servo na última hora... para cuidar dos camelos – improvisou Balthazar. – Mas o dele se perdeu na tempestade de areia. Vocês também sofreram com ela?
-- Não passou pelo vale, felizmente – disse o viajante mais novo. – Sinto pelo camelo, mas imagino que seja nosso direito pegar os dos bandoleiros. Eles tinham dois; o rapazinho pode ficar com um e passamos um pouco da carga de nossos animais para o que sobrar. É até bom, assim divido o peso do ouro.
-- Está... está levando ouro em seu camelo? – Balthazar pigarreou, disfarçando seu entusiasmo. – Muito ouro, ou...
-- Ah, não, só o bastante para presentear o rei, quando o encontrarmos. Afinal, segundo dizem as estrelas, será um grande rei. O rei de todos os povos! – exclamou o jovem, sem perceber o brilho nos olhos do fenício. – Para um monarca tão poderoso, os deuses irão sorrir, e nós, que servimos aos deuses, não podemos ser mesquinhos com nossos presentes. Concorda, mestre Gaspar?
-- Inteiramente, Belchior – sorriu com bonomia o homem mais velho.


A estrela cintilava sobre o vale, e o mestre e seu pupilo a contemplavam embevecidos enquanto Balthazar resumia para Lísias a conversa travada em aramaico. Pelo que entendera, Gaspar e Belchior eram sacerdotes e estudiosos dos astros – magi, concluiu o heleno -- e viam aquela estrela como um sinal da vinda do grande rei. Esse também era o palpite de outro homem, um antigo pupilo de Gaspar, que tinha o mesmo nome do capitão. Os três haviam trocado cartas a respeito e combinado um encontro no vale, de onde seguiriam para uma cidade às margens do deserto, chamada Yerushaláyim.
-- Eles acreditam que o rei local, Herodes, possa saber alguma coisa sobre o outro rei. E o outro Balthazar também acreditava – explicou o fenício. – Claro que ele só pode ser aquele homem que encontramos com o camelo.
-- Sim, e isso é estranho – disse Lísias, cismado. – Até meio assustador, porque ele se parecia com você a ponto de um antigo mestre confundir os dois. E ainda por cima o mesmo nome... Lembra o que falei sobre os dois Balthazares? Aquele, ao que parece, morreu na mesma tempestade de areia que encontramos ao chegar. Isso me faz pensar que é perigoso voltarmos a um tempo em que você já existia. Talvez, para haver um Balthazar, o outro tenha que...
-- Não diga asneira, Lísias! – replicou o fenício. -- Aquele não era eu, ele nasceu séculos depois de mim! No máximo poderia ser meu descendente... se algum dia eu tivesse tido filhos.
-- Quem sabe você deixou algum pelo caminho – sugeriu Lísias. – E o outro Balthazar poderia estar indo encontrar um descendente de Alexandre.
-- Que seja! Não me interessa o que ele queria, e sim o ouro que Belchior leva no camelo. – O capitão sorriu com malícia. – Gaspar tem uma fortuna em incenso e está coberto de joias. E como estamos a meio mundo de distância dos Pilares, e não podemos navegar no inverno, pensei: que tal comprarmos uma bela casa à beira-mar aqui no Oriente? E, quando o tempo esquentar, arranjamos um barco e partimos para tentar de novo. O que acha?
-- Acho bom, desde que não façamos mal a Belchior e a Mestre Gaspar.
-- Claro que não! O que pensa que eu sou, um assassino? – Balthazar, cuja fama de pirata corria os portos do Grande Mar, fechou a cara, ofendido. – Nada disso. Eu só pensei que talvez um camelo e sua carga pudessem se extraviar ao longo da viagem, ou, quem sabe, da nossa estadia em Yerushaláyim. Dependendo do que descobrirmos por lá, pode ser até que eu me anime a seguir com eles em busca desse rei de todos os povos. Com esse título, deve ter muitas riquezas, e quem sabe também é generoso ao reparti-las... não é mesmo?
O heleno ergueu as sobrancelhas, mas concordou.
Os sacerdotes comeram com apetite, elogiando o trigo cozido com mel, uma receita que Lísias aprendera em Cartago. Tiveram mesmo a gentileza de dizer isso em helênico, para que ele entendesse e pudesse agradecer. Depois, os três amantes de estrelas se juntaram perto do fogo e se puseram a examinar papiros e apontar com grandes gestos para o céu. Lísias lavou no rio os utensílios do jantar e foi se sentar perto dos camelos, sentindo falta de sua cítara, mas feliz por ter ao menos Menelau a quem confiar seus pensamentos.
-- Balthazar está contente de novo – segredou ele. – Ainda não foi dessa vez que chegou onde queria, mas vai aproveitar a viagem mesmo assim. E, quem sabe? Talvez um dia se lembrem dele como um rei, como ele disse no barco...
Menelau cutucou seu ombro com o queixo, fazendo com que se voltasse, e o encarou com seus olhos grandes. Pareciam céticos, como se o advertissem de que estava sonhando demais. Lísias não se abalou. Menelau podia achá-lo um tonto, mas os sonhos faziam parte dele. Eram o que o movia, assim como a sede de aventura -- mais que a de vingança -- era o que fazia Balthazar seguir em frente.
E onde quer que a estrela os levasse, ele tinha certeza, aquela jornada ficaria para sempre na História.
*****
         E aí? Que tal o Conto de Natal da Clepsidra?
        Espero que não tenham ficado frustrados por eu não mostrar a chegada de nossos heróis a Yerushaláyim e tudo que veio depois. A história canônica todo mundo já conhece, e é mais legal deixar a imaginação de cada um responder se Balthazar acabou afanando parte do ouro e do incenso dos companheiros ou se Menelau fez mais alguma das suas.
       Da minha parte eu imagino que o fenício e seu fiel heleno acabaram achando um lugar tranquilo para passar o inverno e, depois, se puseram a caminho dos Pilares de Melkart, onde fizeram mais uma tentativa de encontrar Alexandre da Macedônia. Onde foram parar, e o que aconteceu, não faço ideia... Mas algumas das possibilidades eu pretendo explorar em novos contos da dupla, bem como mostrar um pouco da vida deles antes da clepsidra, em Cartago e em peripécias com o Fênix pelo Grande Mar.
      Que venha, pois, o novo ano... e que ele traga muita inspiração para contar essas histórias, e as histórias de Athelgard, e quantas outras a imaginação ditar!
           Até breve!!

terça-feira, dezembro 22, 2015

Em Busca do Rei (Parte 4)

OK. Balthazar não é o fenício mais corajoso do mundo. Mas Menelau vai dar um jeito nisso, esperem só pra ver!




       -- Vamos passar ao largo. Não temos nada com isso – disse o capitão, embora no fundo também sentisse pena do velho. Provavelmente ele iria passar uns maus bocados antes que sua família pagasse para tê-lo de volta, isso se os captores não fossem broncos ou impacientes demais para pedir um resgate. Aí seria vendido em um mercado, se alguém quisesse comprá-lo, ou posto para trabalhar até morrer. O que, em vista da idade, não iria demorar.
-- Será que não podemos mesmo fazer nada? – Lísias fez a pergunta que ele tentava calar. – Daqui dá para ver todo o vale, e os homens estão desprevenidos. Se chegássemos de surpresa...
-- Pensei que não gostasse de se meter em confusão – disse o fenício.
-- Não gosto, mas também não gosto de ver coisas como essa. Olhe só, um deles está falando com o outro prisioneiro, o de barba castanha... e deu um chute nele, pobre homem! Ah, Balthazar, vamos ajudar aqueles dois!
-- Como? Descemos até o vale e os convencemos a soltar os sujeitos? E se não me atenderem? Pego a espada e desafio um por um até matar os quatro?
-- É, bom... Talvez seja difícil – admitiu Lísias. – Também não adianta tentarmos comprar esses homens. Os captores iriam nos roubar, talvez até nos escravizar, como fizeram com eles.
-- Exato. Então, como vê, tomei a decisão certa. Vamos?
Lísias baixou a cabeça e assentiu. Estava decepcionado, mas Balthazar sabia que tinha entendido suas razões. Socorrer um viajante ferido era uma coisa, mas não havia sentido em enfrentar quatro homens, possivelmente armados, para ajudar desconhecidos. Não se tratava de covardia e sim de inteligência.
Com um gesto da mão, ele indicou que deviam seguir pela esquerda e contornar a descida. O heleno soltou um leve suspiro e incitou o camelo, mas, para sua surpresa, o animal não obedeceu como vinha fazendo até então. Em vez disso, dobrou os joelhos, como quando alguém subia ou descia da sela, e assim se deixou ficar, não obstante as tentativas de Lísias e Balthazar de fazer com que se levantasse.
-- Camelo estúpido – resmungou o fenício, entre dentes, porque não convinha erguer a voz. – Que hora você escolheu para empacar!
-- Será que ele está doente? – indagou Lísias, inquieto. – Ou muito cansado, ou com sede?
-- Sede? Ele bebeu metade do lago ontem, as corcovas estão altas. E não parece doente. Em todo caso, desmonte, vou ver se tem um arreio apertado ou coisa assim.
Lísias desmontou, e Balthazar se pôs a verificar a sela e a bagagem. Parecia tudo em ordem, e nem estava muito pesado, mas ele resolveu tirar a espada que pusera num alforje e levá-la à cintura, para o caso de serem surpreendidos. Aí, lutaria, fosse com quatro ou com cinquenta homens. Ele montou por um instante para alcançar a arma e a segurava na mão quando, sem aviso, Menelau se pôs de pé e investiu, quase se atirou num galope frenético em direção ao vale onde estavam os caçadores de escravos.
-- Oooaaaa! Pare, animal idiota! – gritou o fenício, quando já se sentia despencar colina abaixo agarrado ao camelo.
-- Pare, Menelau! – gritou Lísias, em desespero. – Balthazar, pegue as rédeas! Cuidado! Balthazaaaaaar!
A voz se distanciou, perdida no ar enquanto o camelo desembestava pelo declive. Balthazar não alcançou as rédeas -- mal conseguia se manter na sela -- e a imagem do viajante morto dardejou em sua mente antes que nela se fixasse uma só ideia: ia parar entre os homens do vale, eles iam atacá-lo, ele teria de ser mais rápido e certeiro se quisesse vencê-los. De preferência mortal.
-- Aaaaaahhhrrr! – rugiu ele, erguendo a arma acima da cabeça para impressioná-los. Tinham-no visto desde que o camelo barafustara pela descida, mas, para o azar deles, só dois tinham espadas ao alcance das mãos. Empunhando-as, eles correram ao encontro do camelo, mas este deu uma guinada violenta e derrubou o sujeito da esquerda, enquanto Balthazar atingia o outro em cheio no pescoço. Ele caiu, arquejando em meio ao sangue que borbulhava em sua garganta, e Menelau avançou para cima dos outros dois, que tinham ido pegar suas armas na bagagem dos camelos. Um se apavorou e correu, mas o outro investiu sobre Balthazar, quase conseguindo acertá-lo na perna antes que o fenício aparasse o golpe.
-- Seu cão! – grunhiu o sujeito. Balthazar devolveu o insulto e finalmente pegou as rédeas, fazendo Menelau dar meia volta e enterrando a ponta da espada entre o pescoço e o ombro do caçador de escravos. O homem berrou como um bode sendo sacrificado e caiu de joelhos, e Balthazar mal teve tempo de recuperar a espada antes que o camelo se precipitasse atrás do que tinha fugido. Mesmo com a arma na mão, o sujeito continuava a correr, e não se voltou para enfrentar o fenício. Talvez isso quisesse dizer que não oferecia perigo, mas podia alertar algum comparsa que estivesse nas redondezas, por isso Balthazar virou sua lâmina e se inclinou na sela, incitando Menelau a correr ainda mais. Sua velocidade emprestou força ao golpe seco da espada – e assim caiu o terceiro homem, sem ter chegado a ver o que separara sua cabeça do corpo.
-- Oooooaa!! – Balthazar apertou as pernas contra o flanco do camelo, torceu as rédeas. – Agora só falta um! E, por Melkart, com esse eu quero me divertir um pouco mais!
-- Pois pode vir, demônio! – bradou o último homem. Menelau o surpreendera e derrubara no ataque anterior, mas ele já estava de pé e investia, espada em punho, contra o oponente que galopava em sua direção. Parecia disposto a atacá-lo, mas algum tipo de instinto fez Menelau recuar para o lado ao mesmo tempo que o sujeito rolava no chão, golpeando o ar onde um momento antes estivera a barriga do camelo.
-- É assim? – cuspiu Balthazar, furioso. – Pois vamos lutar homem a homem!
Como se houvesse entendido, Menelau se ajoelhou nas patas traseiras, permitindo-lhe deslizar para o chão antes de se erguer e trotar para junto dos prisioneiros. Num relance, Balthazar viu que seu escravo descera a pé a ladeira pedregosa e corria na mesma direção, mas não pôde se deter para observá-lo. Sua atenção tinha de se concentrar no caçador de escravos, agora muito perto, avançando sobre ele com uma praga e a espada erguida.
-- Morra, filho de um cão! – Um golpe às cegas, que encontrou apenas o ar. – Faça suas preces, maldito!
-- Faça você as suas, verme da areia! – berrou o capitão, e atacou por sua vez, atingindo o braço do outro. O sangue escorreu do corte, mas o homem não esmoreceu e voltou à carga, a ponta de sua espada rasgando um pedaço do manto do fenício. Este desviou para acertar o oponente nas costelas, fazendo-o se dobrar sobre si mesmo, e golpeou o lado de sua perna, o que o jogou de costas no chão como se fosse um saco de trigo. Então, chutou para longe a arma que ele havia soltado e pisou no seu pulso, quase a ponto de esmagá-lo. O homem lhe dirigiu um olhar do qual fugira toda a esperança, e Balthazar cerrou os dentes antes de enterrar a espada em seu peito magro.
-- Ha! – exclamou, desafogando a tensão. O sujeito estremeceu, depois distendeu os membros e ficou imóvel, e foi quando os homens que Lísias acabara de soltar irromperam em palmas e vivas.
-- Muito bem, muito bem! – exclamou o velho, emocionado. – Quem diria que um dia meu antigo pupilo salvaria minha vida! Nunca pensei que houvesse se tornado um homem tão forte, Balthazar!
*****
Agora complicou. Como é que o velhote sabe o nome do capitão, se ele está vindo de séculos atrás? 
Não perca a conclusão desta história infame, cheia de clichês e obviedades, mas que - confesse! - você está achando pelo menos um pouquinho divertida! :)


Parte Final

segunda-feira, dezembro 21, 2015

Em Busca do Rei (Parte 3)


       Horas depois, bem alimentado com a comida do viajante e aquecido com sua roupa, Lísias afagava o pescoço do camelo que acabara de prender a uma tamareira. A desconfiança que aqueles animais lhe inspiravam em Cartago se esvaíra diante da docilidade e inteligência demonstradas por este, que o deixara baixar os alforjes e tirar os arreios, mas conseguira, de alguma forma, dar a entender que desejava assistir às exéquias prestadas a seu amo. Foram muito simples, como tinham de ser em circunstâncias como aquelas, mas Balthazar se dera ao trabalho de cavar uma sepultura rasa às margens do lago e achar uma pedra lisa para marcar o local. Pegou outra pedra, pontuda e dura o bastante para arranhar a primeira, e escreveu as palavras sugeridas por Lísias: Aqui jaz um homem que amava as estrelas. Porque, embora os papiros no alforje não revelassem o nome do viajante, ao menos deixavam claro tratar-se de um estudioso dos astros.
-- Um sacerdote, talvez – sugerira Lísias. Balthazar encolhera os ombros. Alguma coisa o incomodava, mas, conhecendo seu senhor, o rapaz achou melhor não fazer perguntas. Em vez disso, confiou suas conjecturas ao camelo, que não podia responder, mas pelo menos o olhava com atenção e não mandava que calasse a boca.
-- Sabe, Menelau, meu amo é um ótimo homem – disse ele, a quem, por alguma razão, o animal fazia lembrar o antigo rei de Esparta. – É generoso, corajoso e muito inteligente. Mas, ai, como é teimoso! Como ele espera chegar perto de Alexandre, que deve viver cercado de guerreiros, e acabar com ele sem que o matem também? Devia é voltar a Cartago e impedir aquela tragédia com o Fênix. – O camelo bufou pelas narinas, mas Lísias prosseguiu. – Na verdade eu já tentei voltar, mas fomos parar na Cartago do futuro, e não gostamos nada do que vimos por lá. Nem sei como vivemos para contar a história. Aí retornamos aos pilares, e eu pensei em outro lugar de que Balthazar gostasse, mas eu já lhe disse, não é, Menelau? Ele não se contenta com nada menos que pôr as mãos no macedônio. Por isso ficamos indo e vindo, quando poderíamos... Argh!
Calou-se, meio enojado, meio lisonjeado com a súbita lambida do camelo em sua face esquerda. Era uma espécie de beijo, raciocinou; um beijo com o qual o animal se mostrava solidário com suas queixas. Ou pelo menos era um gesto carinhoso. De qualquer forma, melhor do que uma cusparada.
Lísias limpou o rosto com a manga, desejou boa noite a Menelau e foi para junto de seu amo. Balthazar estava deitado perto da fogueira, mãos enlaçadas sob a cabeça, olhando as estrelas, que formavam um complexo mapa no céu. Parecia intrigado, e o heleno não tardou a descobrir o porquê: bem lá no alto, brilhando sobre o Oriente, havia uma estrela que eles nunca tinham visto.
-- Não faço ideia do que é – disse Balthazar. – Tenho ideia do lugar, mais ou menos, e diria que estamos no inverno, mas a estrela não combina. Acho que nunca vi uma tão brilhante.
-- Bom, o céu pode mudar, de acordo com a época, não pode? Talvez nós estejamos a muitos anos de distância do nosso tempo.
-- É provável. E pela bagagem do nosso amigo, principalmente a adaga e as moedas, eu me arriscaria a dizer que estamos à frente. – Olhou com o cenho franzido para Lísias, que se deitara a seu lado. – Você não consegue mesmo nos levar para onde deve, não é?
-- Desculpe – murmurou o rapaz. Estava envergonhado, não pelo fracasso, mas pela mentira: ao contrário do que afirmava, ele jamais tentara levar seu amo à presença de Alexandre. Nunca pensara no macedônio ao recitar a fórmula mágica. Balthazar seria capaz de matá-lo se soubesse, e o próprio Lísias quase morria de remorso, mas era o jeito de evitar o confronto que, ele tinha certeza, seria desastroso para o fenício. Antes vê-lo eternamente insatisfeito que chorar sobre o seu cadáver.
Além disso, Lísias não saberia viver sem ele.
-- Sinto muito – repetiu, a mentira amarga em sua boca. – Eu faço o possível, juro. Vou continuar tentando.
-- Sim, porque comigo não funciona, não sei o motivo – resmungou o capitão. – Deve ser a minha pronúncia.
-- Talvez – concordou Lísias.
Um longo silêncio se seguiu a essa conversa. Balthazar tornou a se voltar para as estrelas, ao passo que o heleno se sentia pouco a pouco vencer pelo sono. Estava quase dormindo quando ouviu a voz do amo, como se viesse de muito longe:
-- ... achar o rei.
-- O quê? – fez Lísias, abrindo um olho.
-- Vamos achar o rei. Se não nesta viagem, na próxima – disse Balthazar, com decisão. – Mas, seja como for, amanhã é um ótimo dia para recomeçar.
*****
-- Você é tão cabeça-dura, Balthazar! Por que não monta comigo? Menelau é forte, e estou vendo que você está cansado. Se alguém passar por nós, vai pensar que eu sou o senhor e você é o escravo. Não vai querer que isso aconteça, não é?
Lísias exercia seus dotes de orador do alto da sela. Estava ali fazia menos de uma hora, mas como sempre já se preocupava com o conforto de seu amo, embora Balthazar houvesse viajado sobre o camelo durante boa parte da manhã. Esperava achar um refúgio para passar as horas mais quentes do dia, mas a única sombra digna desse nome foi a de um rochedo junto ao qual eles fizeram uma parada. Ali comeram frutas secas e tâmaras do oásis, beberam metade de um odre d´água e descansaram antes de ir em frente, agora com Lísias na sela e Balthazar andando ao lado do camelo. Não precisava puxá-lo: ele parecia saber muito bem onde estava indo. Provavelmente seu dono fazia sempre esse trajeto, supôs o fenício. E o animal não tinha por que estranhá-lo: além de se parecer com o homem anterior, estava usando suas roupas, que guardavam o cheiro dele, mesmo depois de serem mergulhadas na água do lago.
Balthazar franziu o cenho sob o turbante que Lísias enrolara de mau jeito. Comparado a outros marinheiros, ele não era supersticioso, mas a verdade é que não conseguia tirar da cabeça a imagem do viajante. Não era idêntica à sua – o outro tinha traços mais grossos e não era tão forte --, mas poderiam facilmente passar por irmãos, e ainda por cima tinham o mesmo fascínio pelas estrelas. Podiam ter tido boas conversas se Balthazar o houvesse encontrado com vida. E, com certeza, ele saberia alguma coisa sobre o astro misterioso que brilhava tão forte no céu.
O camelo desviou o passo, dando um leve encontrão no ombro do fenício. Este acordou de suas conjecturas e olhou para o animal, que virava o pescoço para trás, tentando chamar sua atenção com olhares e pequenos bufidos.
-- O que é isso, Menelau? O que você quer? – perguntou Lísias. Em resposta, o camelo avançou mais alguns passos, com o que aos poucos se evidenciou um acentuado declive no terreno à frente deles.
-- Ah, ele quer que nós fiquemos atentos a essa descida. É um camelo esperto – elogiou o heleno.
-- Não é só a descida – murmurou Balthazar.
Seus pés estavam a dez ou doze passos do início do declive, de onde podia ver todo o vale lá embaixo. Era um lugar aprazível, com arbustos, duas ou três árvores baixas e um fiozinho prateado de rio correndo pelo chão. Um homem estava ajoelhado numa das margens, bebendo com o rosto encostado à água, e outros cinco se sentavam à sombra, perto de um grupo de camelos que pastava placidamente. Seria uma cena pacífica... se dois daqueles homens não estivessem com cordas no pescoço e as mãos amarradas.
-- Mercadores de escravos – disse o fenício, cruzando os braços. – Ou caçadores: os dois que vão amarrados estão muito bem vestidos. Devem ter sido apanhados agora mesmo.
-- Um deles parece bem idoso – comentou Lísias, penalizado. – A barba é branca como neve. O que faremos, Balthazar?
*****
Pois é, o que o Balthazar vai fazer? Ele parece ser do tipo heroico? Ou é daqueles que pensam primeiro em si? 
Alguma ideia?



Parte 4

sábado, dezembro 19, 2015

Em Busca do Rei (Parte 2)


Já tivemos algumas suposições acerca do que foi encontrado. Será que alguém acertou? E o que vocês acham das opiniões do Lísias sobre os planos de mudar o passado de Balthazar? E a opinião do fenício pragmático sobre os filósofos? Alguém concorda? ;)
Sugestões, palpites e outros pitacos serão bem-vindos na área de comentários!!



           -- Por Astarte! Lísias, olhe aquilo! – exclamou, tocando o ombro do escravo. – Tem um homem no chão, com a perna presa nos arreios!
-- Estou vendo! Será uma armadilha?
-- Acho que não. Para isso teria de haver outros, e não vejo onde poderiam estar escondidos. E nessa posição o sujeito não tem como fazer nada. Venha, vamos descobrir se ele está vivo!
Apertou o passo, ajudado pelo terreno em que agora havia mais pedras do que areia. Lísias foi atrás, ressabiado, mas pronto a ir em socorro de seu amo se preciso fosse. Logo estavam no oásis, pisando a relva arenosa, que rangia sob suas sandálias, e se aproximando do camelo, com cuidado para não assustá-lo.
-- Pegue as rédeas, Lísias – comandou o fenício.
-- Ai, por que eu? Sabe que não tenho sorte com camelos. Sempre cospem em mim.
-- Aqueles eram os camelos de Cartago. Mal-humorados, como todo mundo por lá – replicou Balthazar. – Este parece dócil, apesar do tamanho. Pegou? É só não ficar ao alcance da cuspida. Ei, você, amigo – falou, em língua fenícia, dirigindo-se ao homem dependurado no arreio. – Pode me ouvir? Vou soltar sua perna... devagar... Pronto! Está me ouvindo?
Ajoelhou-se ao lado do homem – um moreno de barba cerrada, estranhamente parecido com ele próprio – e repetiu a pergunta em aramaico, em helênico e, por fim, até no latim hesitante que aprendera nas viagens. As palavras foram acompanhadas de uns tapinhas nas faces, que foram aumentando de intensidade à medida que se revelaram inúteis. Balthazar encostou o ouvido no peito do homem, tirou um bracelete polido e o aproximou do seu nariz, sem reação. Então, tentou erguê-lo, e a rigidez de seus membros foi a prova definitiva. Morto...!
-- O camelo deve ter se assustado e corrido, ele caiu, ficou preso no arreio e foi arrastado – concluiu o capitão. – Provavelmente foi durante a tempestade de areia.
-- Que morte horrível! – exclamou o heleno.
-- Bom, sim, mas já vi piores. Vamos olhar os alforjes, ver se descobrimos quem ele era, mas antes pegue água. – Apontou para o pequeno lago incrustado como uma joia no oásis. – Use um desses odres pendurados na sela. Se não estiverem cheios de vinho, é claro.
Lísias pegou um dos odres de pele de cabra, jogou fora a água que estava dentro e o encheu com outra mais fresca. Bebeu um pouco, lavou o rosto e as mãos, depois tornou a completar o odre e o levou para Balthazar, que estava ocupado em despir o manto e a túnica do morto.
-- Pelas roupas eu diria que nosso amigo era bem abastado – afirmou ele. – Veja esse colar e esse manto. Parece que mais uma vez estou destinado a usar púrpura.
-- Vai ficar com as roupas dele? – indagou Lísias, com um arrepio.
-- Bom, preciso delas, ele não, e por sorte nós dois temos o mesmo tamanho. Espero que haja mais nos alforjes, você também precisa de mais proteção.
-- Isso é. Posso ver se ele tem moedas?
Balthazar franziu a testa, depois compreendeu e assentiu. O heleno remexeu em dois alforjes, achou uma bolsa com dinheiro e escolheu uma moedinha de cobre, que introduziu – com esforço e não sem repugnância – sob a língua do morto, a fim de que pudesse pagar a travessia do Estige.
-- Espero que os estrangeiros sejam bem-vindos lá onde você o mandou – disse Balthazar. – Esse daqui podia ser um dos meus compatriotas, ou talvez de algum dos povos vizinhos. Heleno com certeza não é.
-- Mas escrevia em helênico – retrucou Lísias.
Como prova do que dizia, ele tirou do alforje um amarrado de papiros, alguns dos quais estavam de fato cobertos por escrita helênica. Outros estavam em aramaico e se misturavam a círculos, triângulos e símbolos intrincados. Balthazar pensou que deveria lê-los, mas, diante do conforto do oásis e dos alforjes ainda cheios, decidiu fazê-lo mais tarde. Do morto, por enquanto, bastava saber que era rico – e generoso, ainda que de forma compulsória, com os bens que já não tinha como reclamar.
Os tesouros foram sendo descobertos à medida que descarregavam o camelo. Havia uma grande bolsa de moedas, todas com efígies desconhecidas, uma adaga de primeira qualidade, uma túnica sobressalente que ficaria enorme em Lísias, mas isso se resolveria com uma corda ou um cinto. Bolsas de trigo, frutas secas e fatias de carne curada denunciavam um viajante solitário, sem ninguém com quem houvesse repartido a bagagem. Por fim, no alforje mais reforçado e firmemente amarrado à sela do animal, eles acharam alguns potes contendo o item mais valioso: essência de mirra, que custava muito caro em qualquer mercado.
-- Nós já tivemos isso no barco – comentou Lísias, lembrando-se dos primeiros anos com o capitão, antes da clepsidra. – Era uma jarrinha só, mas Sikkar nem deixou que a guardassem no porão. Ficava a sete chaves na cabine dele.
-- É. Ele ficaria doido vendo isso aqui. – Balthazar tampou o pote, soltou um leve suspiro. – Sei que você lamenta a sorte dele e da tripulação. Eu também, de verdade. Mas já lhe expliquei. Se dermos um jeito em Alexandre, Tiro será poupada, e eu não irei para Cartago, não trabalharei para Aníbal o Achacoso e o Fênix não vai sofrer aquele ataque. Assim vai ficar tudo bem, para todos nós.
-- Não sei não. – Lísias coçou o queixo, onde se eternizara a penugem loura da adolescência. – Estive pensando, e já não sei se estamos indo atrás de um sonho impossível. Você nasceu antes de Alexandre; portanto, em qualquer momento da vida dele que apareça, já vai existir um Balthazar de Tiro, mesmo que seja um garotinho. Como pode haver ao mesmo tempo dois Balthazares? E como eu vou estar com você e existir em Delos ou, dependendo da época, nascer algum tempo depois?
-- Bom, talvez...
-- E como você vai reencontrar sua família e sua prometida? – prosseguiu Lísias, com calor. – Se existirem dois Balthazares, qual deles é o filho de Mattan, que vai se casar com Elyssa? E o que é que o outro vai fazer?
-- O outro vai lhe dar uns tabefes agora mesmo se você não calar essa boca – rosnou o fenício. – Que coisa! Está parecendo o Sócrates, que reunia aquele bando de gente em volta dele e falava uma tarde inteira para depois dizer que não sabia nada. Ora, se não sabe, por que não fica quieto e espera para ver no que dá?
-- Então – disse Lísias, pondo-se prudentemente fora de alcance --, você também não tem certeza do que diz.
-- Não, não tenho. Nem todas as perguntas têm respostas, mas eu vou em frente. Não sou como os filósofos, que pensam demais. Aliás, sabe por que isso acontece?
-- Er... não.
-- É porque eles não trabalham, não fazem nada útil e têm tempo de sobra. Mas você não – acrescentou, franzindo o cenho. – Arranje lenha para uma fogueira, pegue umas tâmaras, depois dê um jeito nessa túnica para poder vesti-la, pois quando escurecer vai fazer frio. Vamos passar a noite aqui e partir assim que amanhecer. Ande, mexa-se!
-- Já vou! – exclamou Lísias, atordoado. – É tanta coisa que até me perdi. Ainda bem que não existem de verdade dois Balthazares.
-- Bem que você ia gostar – replicou o fenício.


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Parte 3

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Em Busca do Rei (Parte 1)

Pessoas Queridas,

          De hoje até a véspera de Natal, estou postando este conto estrelado por Balthazar de Tiro e Lísias de Delos, a dupla que apareceu pela primeira vez no conto "Os Pilares de Melkart", publicada na coletânea "Piratas" da Ed. Cata-Vento.
       Neste "Em Busca do Rei" eles continuam de posse da clepsidra mágica e visitam outro lugar e época da Antiguidade. A Angela Takagui fez uma ilustração  para o conto, e eu vou postar alguns fragmentos dela nos primeiros dias - no último publicarei a ilustra completa. 
         Espero que vocês curtam a história e os personagens, pois pretendo escrever bastante sobre eles no futuro. Também espero que deixem suas impressões nos comentários. O comentador mais criativo vai ganhar o e-book de "Piratas" e mais um brinde surpresa.
           Vamos à história!!


             Ao despertar, Lísias se viu enterrado vivo.
Estava deitado de bruços, o nariz enfiado na dobra do braço, sob o qual havia uma pequena bolsa de ar. Tudo o mais, acima e à sua volta, era pesado e sufocante, como se o houvessem soterrado sob um monte de escombros. Ele tentou gritar, o pânico já retorcendo seu estômago, e não emitiu mais que um gemido; tentou se mover, mas seus melhores esforços não lhe renderam nem uma polegada.
Apavorado, o jovem se pôs a murmurar baixinho uma prece aos deuses, os de seu próprio povo e o egípcio que o metera em mais uma enrascada, mas nenhum lhe deu ouvidos. Pediu às musas, e lhe trouxeram uma bela inspiração para uma ode fúnebre. Por fim, lembrando-se de como chegara até ali, ele se dirigiu a Melkart, o Héracles dos fenícios, senhor dos pilares misteriosos – e quase no mesmo instante o peso sobre suas costas estremeceu, como se alguém estivesse tentando removê-lo.
Balthazar.
O heleno ganhou alma nova com aquele movimento. Não podia ter certeza, pois nem sequer sabia onde estava, mas fazia sentido: até agora, as jornadas mágicas nunca o haviam separado do fenício, e este era forte o suficiente para mover até uma montanha, se embaixo houvesse algo de valor. Aquela era ainda mais fácil, pois era de areia, como Lísias não tardou a perceber. Camadas e camadas de areia sopradas por um torvelinho. Das ondas do mar, ele fora subitamente atirado nas de um deserto.
Felizmente, ali continuava a contar com seu capitão.
-- Lísias! – O peso sobre ele diminuiu, descomprimindo as costelas e a espinha. – Você está aí? Melkarth, Astarte, Baal... e Thoth, seu pássaro maldito, é melhor que o menino esteja vivo, ou, eu juro, vou encontrar seu ninho e torcer seu pescoço! É você aí embaixo? Pode me escutar? Lísias!
A camada de areia cedeu ainda mais, os torrões se desfazendo em uma chuva seca quando o rapaz, finalmente, conseguiu se mover. Tentava erguer a cabeça, mas um braço foi o que saiu primeiro, e Balthazar o puxou, descobrindo uma boa parte.
-- Grande é Melkart! Aí está você! – exclamou, emocionado, ao passo que Lísias lançou os braços em torno dele e lhe deu um beijo cheio de gratidão e areia.
-- Mais uma vez você salvou minha vida – disse, e duas lágrimas escorreram por suas faces. – Pensei que ia morrer embaixo de todo aquele peso.
-- É, agora vamos tratar de não morrer aqui fora, embaixo desse sol. – Balthazar limpou a barba, correu os olhos pela paisagem à sua volta. – Isto é um deserto, e não faço ideia de qual. No que você pensou desta vez?
-- No que você disse quando estávamos chegando aos pilares – respondeu Lísias, esfregando o cabelo na tentativa de livrá-lo da areia. – Você falou: “Leve-me até o rei, vamos ver quem vai passar a ser chamado assim depois que eu puser as mãos nele”. Era o que eu estava pensando quando disse as palavras.
-- Hum. Não parece que tenha funcionado – resmungou Balthazar. – Se bem que o maldito viaja bastante, até poderíamos encontrá-lo num deserto, em algum momento da vida. Mas não podemos ficar parados à espera dele. Vamos sair daqui.
-- Para onde? – indagou timidamente o heleno.
-- Bom, no momento, acho que tanto faz. Precisamos com urgência de água e abrigo, por isso seria bom achar um povoado, ou um oásis, ou uma caravana. Mas, para não andar em círculos, vamos nos guiar pelo sol. – Estreitou os olhos, apontando para o brilho ofuscante acima deles. – Vamos seguir para o Oriente. Quem sabe os deuses nos sorriem desta vez?
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A sorte, ou melhor, o destino de Balthazar e Lísias havia mudado por completo alguns anos antes, quando o fenício e seu fiel escravo haviam posto as mãos num objeto mágico: a clepsidra consagrada a Thoth, o deus egípcio com cabeça de íbis. Um de seus próprios sacerdotes encomendara o roubo do artefato, deixado num templo remoto por um general de Alexandre, o qual, além de ter invadido o Egito, era o responsável pela destruição de Tiro e pela morte da família de Balthazar. Ir atrás dele, através das espirais do tempo, e impedi-lo de arrasar sua cidade foi a tarefa que o capitão se impôs, tão logo soube das propriedades da clepsidra. No entanto, o inesperado ataque de um pirata acabou com seus planos de vingança, e teria acabado também com sua vida se não fosse Lísias, que se agarrou a ele enquanto recitava a fórmula mágica.
Tal como prometera o sacerdote, os dois voltaram no tempo, mas não a dezena de anos que esperavam e sim vários séculos, a ponto de serem resgatados pelo Argo em sua viagem para a Cólquida. À aventura se seguiram várias outras, em tempos e lugares diferentes, mas que sempre acabavam no mesmo ponto: as colunas de Héracles, ou, segundo a tradição fenícia, os pilares de Melkart, como eram chamados os rochedos que guardavam os mares do Ocidente. A passagem de uma a outra realidade era sempre turbulenta, mas dessa vez fora ainda pior, pois o encantamento fora recitado em meio a uma tempestade – e à confusão daqueles momentos somava-se agora a estranheza de terem desembocado ali, tão longe do mar, sob um sol que ameaçava cozinhar seus miolos. Não tinham nada com que cobrir as cabeças, a menos que tirassem as túnicas que estavam usando no barco; a espada de Balthazar e a clepsidra que Lísias levava na mão eram toda a sua bagagem.
-- Que os deuses nos ajudem – murmurou o heleno, arquejando, após duas centenas de passos. – Se não acharmos água, perderemos as forças neste calor.
-- Vamos dar um jeito – Balthazar tentou animá-lo. – Não tardaremos a cruzar o caminho de alguém.
-- De quem? Líbios?
-- Este não é o deserto dos líbios – respondeu o capitão. – Quando anoitecer, vou ter uma ideia melhor pelas estrelas, mas é possível que esta não seja uma região muito distante de Tiro. E por falar em coisas boas, olhe! – Apontou, satisfeito, para um ponto mínimo que se enxergava a distância. – Há umas árvores ali, parecem tamareiras! Pode ser que achemos água... e mais alguma coisa que estou vendo se mexer.
-- Eu também. Uma pessoa? – perguntou Lísias, mas o vulto lhe pareceu grande demais para isso. – Um... Um animal?
-- Acho que sim. Meio esquisito, mas é. – Balthazar ficou em silêncio por mais trinta passos, depois sorriu. – Ah, já deu para ver! É um camelo, olhe!
-- Camelo? Parece ter mais corcovas que o normal – disse Lísias, mas pouco depois conseguiu entender. – Oh, sim, é que ele está carregado. Tem um monte de alforjes nas costas. E sempre volta ao mesmo lugar e baixa a cabeça. Espero que esteja bebendo de um belo lago d´água fresca.
-- Também espero, mas ele parece inquieto, e é estranho o dono não estar por ali. Precisamos ter cuidado.
Devagar, os dois percorreram o terreno que os separava das tamareiras, felicitando um ao outro em silêncio ao constatar que era de fato um oásis, mas cheios de cautela quanto ao que, ou quem, poderiam encontrar ali. Um viajante solitário? Mercadores? Caçadores de escravos?
-- Só estou vendo o camelo – comentou o heleno.
-- Eu também. Preste atenção a qualquer movimento nos arredores – disse Balthazar, aproximando-se do animal. Era dos grandes, muito bem tratado, com pelo avermelhado que, em vários pontos, estava recoberto por uma camada de areia. O mesmo acontecia com boa parte da vegetação do oásis, excluindo apenas as tamareiras mais altas; isso era um sinal de que a tempestade chegara até ali, e Balthazar ia dizer que o camelo devia ter se extraviado quando viu o que estava preso ao flanco do animal.

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Parte 2

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Leituras de 2015: Categoria Mista


Pessoas Queridas,

Com esta postagem, encerram-se as dicas de leitura baseadas em 2105. Estas são indicações variadas, uma "categoria mista" que incluiu livros para jovens, álbuns solo de quadrinhos e coletâneas (nesses três casos, uma indicação nacional e uma estrangeira) e um livro de não-ficção que foi uma espécie de hors concours. Espero que vocês gostem!



 Inverso, de Karen Alvares. Neste YA com um toque sobrenatural, a jovem Megan entra em contato com uma outra versão de si mesma, cuja vida se desenrolou de maneira diferente -- e que não tem os mesmos escrúpulos. A tentativa da "outra" de dominar a personalidade original e os conflitos que vão-se somando são trabalhados de maneira tão magistral que você simplesmente não consegue deixar o livro de lado. Esperando ansiosamente a segunda e última parte, que sai no ano que vem!



O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares, de Ransom Riggs. Em busca de desvendar um segredo de família, um jovem encontra uma ilha habitada por crianças com estranhos poderes, para as quais o tempo jamais parece passar. As fotografias que ilustram o livro tornam a história ainda mais fascinante... e um pouco mais sombria.


Apagão: cidade sem lei/luz, de Raphael Fernandes e Camaleão. A história se passa numa São Paulo tornada caótica pela súbita falta de energia. Gangues lutam pelos recursos e pelo território, ao mesmo tempo que uma seita de fanáticos ameaça tornar a situação ainda pior. Com roteiro ágil, trama envolvente e ótima arte, o álbum também faz bonito no que diz respeito à qualidade gráfica. Vale a pena.


O Árabe do Futuro, de Riad Sattouf. Filho de um sírio e de uma francesa, o autor relembra sua infância passada na Líbia de Khadafi e na Síria de Hafez-Al-Assad. O estranhamento em relação àquilo que via e experimentava, os conflitos com outras crianças e, em especial, as convicções do seu pai - um sujeito sem noção, embora bem intencionado - são o foco principal do álbum, fornecendo uma espécie de prisma pelo qual se percebem as questões sociais e políticas. Em breve deve sair o volume 2 no Brasil, e estou de olho, pois realmente gostei bastante.


Boy´s Love: sem preconceitos, sem limites, organizada por Tanko Chan. Nove histórias com temática yaoi (romance entre rapazes) e com cenários tão diferentes quanto a Índia medieval e uma cidade brasileira contemporânea. À exceção de dois contos, há muito pouco que se possa chamar de explícito -- mas, por outro lado, a qualidade e a diversidade dos textos permite que a imaginação do leitor crie facilmente o que ficou nas entrelinhas. Muito legal, mesmo!


O Príncipe de Westeros, organizado por George R. R. Martin e Gardner Dozois. Aqui a temática é diferente: protagonistas canalhas. Vários tipos de canalha, desde matadores malvados até espertalhões de bom coração. Gostei da maioria dos contos (na verdade, de todos menos um) e acho que vale a pena, especialmente para poder refletir sobre algumas formas de construção de universo que aparecem nas entrelinhas dos textos de Scott Lynch, Patrick Rothfuss e Phyllis Eisenstein.


 Longe da Árvore, de Andrew Solomon. Minha recomendação de não-ficção é essa abrangente pesquisa sobre o universo da diversidade, centrada principalmente em portadores de necessidades especiais (surdos, autistas, portadores de síndrome de Down) mas não só. O autor mergulha tão profundamente no psiquismo dessas pessoas e de suas famílias que a leitura vai muito além do informativo: propicia reflexões, questionamentos e, no meu caso, um ou dois insights. É um livro que recomendo a todos,

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Bom, pessoal, aqui terminam minhas indicações. Espero que vocês tenham gostado. Ou talvez já conhecessem? Contem aqui.

E, amanhã, eu vou começar a postar um conto para o Natal. Um conto inédito, com personagens meus que alguns de vocês já conhecem e que eu espero desenvolver melhor no ano que vem. Alguém adivinha?

Até lá!

terça-feira, dezembro 15, 2015

Leituras de 2015: Top 5 Nacionais

Pessoas Queridas,

Eis que regresso com a seleção de livros nacionais. Como eu já disse, foram a maioria este ano, mesmo sem contar os inúmeros contos lidos isoladamente, e me reservaram boas surpresas. Resolvi seguir o mesmo critério que me levou a não ter uma categoria de juvenis e, por isso, não vou indicar volumes subsequentes de séries, como a Tempos de Sangue, do Eduardo Massami Kasse -- a essa altura, todos já sabem que eu sou fã de carteirinha! :)

Então, em ordem aleatória, aqui vão meus indicados:


Os Perigos de Madame Zenóbia, de Marcos Siani. Um dos livros mais divertidos que li nos últimos tempos, acompanha as peripécias de uma vidente septuagenária e suburbana que, com a ajuda do fiel Zé -- o espírito que habita sua bola de cristal -- resolve casos de vampirismo, obsessão, possessão demoníaca e todo tipo de coisa-ruinzice. Detalhe, os casos acontecem em lugares como quadras de escola de samba, supermercados e a farmácia da esquina, com um humor inteligente e levemente escrachado, mas que jamais desce o nível. Recomendadíssimo até para quem não é carioca.



E de Extermínio, de Cirilo S. Lemos. Imaginem que a República não foi proclamada e temos um D. Pedro III. Num Rio de Janeiro alternativo, já visitado pelo autor nos seus contos das coletâneas Dieselpunk e Excalibur,  emergem as figuras de um matador de aluguel e de seus filhos, um aventureiro e honesto até a medula, o outro tomado pelos delírios do messianismo. Quando as coisas começam a acontecer, eles não conseguem se afastar. E eu, como leitora, também não consegui.


Lobo de Rua, de Jana P. Bianchi. Mais uma novela que um romance, mas só em termos de tamanho: a dimensão humana dos personagens é daquela que a gente costuma ver nos livrões. O livro mostra o curto, terno e trágico período de convivência entre dois homens amaldiçoados pela licantropia, e descortina, ainda que apenas por uma fresta, o universo da mágica e estranha Galeria Creta. Leiam e esperem, que a autora promete muita coisa legal a partir do ano que vem!


O Homem de Azul e Púrpura, de Vilson Gonçalves. O autor paranaense criou um fascinante universo de inspiração pré-colombiana, em que convivem inúmeras tribos, com mitos, costumes e aparências diferentes. Este primeiro volume da série narra o início da viagem do comerciante aventureiro Wayra e seu ajudante mal-humorado Pukakiru. É uma ótima introdução ao mundo de Quatrocantos e a promessa de muitas e boas histórias.


Império de Diamante, de João Beraldo. Outra fantasia que foge do eurocentrismo, desta vez para se situar num universo de características africanas. Em meio a uma terrível seca, quatro homens - um governante, um mercenário, um sacerdote e um guerreiro, membro de uma seita - veem seus destinos interligados numa trama que irá revelar a verdade acerca do misterioso Imperador de Myambe. Vale a pena conhecer.

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Bom, gente, esses são (entre muitos outros) os nacionais que recomendo. Vocês já conheciam? Ouviram falar? Ficaram com vontade de conhecer? Vamos trocar ideias.

Abraços, e até a próxima!

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Leituras de 2015: Top 5 estrangeiros

Pessoas Queridas,

Conforme combinamos, aqui vão minhas cinco indicações de livros estrangeiros.

Vocês perceberão que se trata de ficção mainstream, embora dois deles possam cair na categoria do realismo mágico, especialmente o de Murakami. De fato, apesar de eu ter lido bastante literatura fantástica este ano, a maior parte foi nacional, ou foram contos lidos isoladamente em e-book, ou volumes subsequentes de séries para jovens adultos que preferi não indicar pela segunda vez. Seja como for, dos romances estrangeiros lidos em 2015, estes foram realmente os que me agradaram mais, e aqui como sempre somos subjetivos, portanto... lá vai!




Contando estrelas, de Helen Dunmore. Este é um romance passado na antiga Roma, onde o poeta Catulo se apaixona pela esquiva (e muitas vezes irritante) Clódia. O relacionamento mantido às ocultas e as tentativas de Catulo de se manter perto de sua amada decorrem num cenário que me surpreendeu pela forma como é apresentado: com naturalidade, sem a tentativa de demonstrar para o leitor o quanto o autor pesquisou e sabe a respeito daquele período histórico. Não que Dunmore não tenha pesquisado: ela apenas dá ao casal e a outros personagens, como Lucius e Aemilia, o destaque devido, permitindo que sejam humanos antes de serem... romanos. Acho que é bem por aí.


Caçando carneiros, de Haruki Murakami. Após ter publicado a foto de um carneiro em uma revista, um publicitário é obrigado a partir numa jornada em busca da origem daquela imagem. O clima em que decorre a viagem é bem onírico, e é fácil nos deixarmos envolver por essa atmosfera e pela busca do personagem. Um livro menos denso que outros do autor, mas muito legal.



O Último homem na torre, de Aravind Adiga. Os proprietários dos apartamentos de um prédio em Mumbai formam uma comunidade harmoniosa, até o momento em que recebem uma oferta irresistível para vender seus imóveis. A resistência de alguns, em especial um velho professor, vai dar origem a uma guerra em que a verdadeira natureza de cada um irá se revelar. Vale a pena ler.


O Conto do covarde, de Vanessa Gebbie. No País de Gales, um menino vai viver com a avó e começa a ouvir histórias sobre os moradores do povoado, que giram em torno de segredos familiares e da explosão de uma antiga mina. Cada um dos homens, e o próprio menino, guardam uma relação com um dos doze apóstolos, e várias outras metáforas ficam patentes em todo o livro, que é sensível e bem escrito.


Garota exemplar, de Gillian Flynn. Um best-seller para terminar - mas tinha que ser, foi realmente um dos melhores que li este ano. Nesse thriller psicológico, a autora soube criar não apenas uma história muito bem bolada, sem pontas soltas (quem lê o que escrevo sabe que as detesto!) mas também dois personagens perfeitamente críveis que conseguimos compreender e absolver ao mesmo tempo que os achamos detestáveis. Li dois outros dela em seguida e também gostei, mas este foi o favorito. Recomendo, realmente.

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Bom, pessoal, é isso por ora. Alguém já leu um desses? Tem outras recomendações? Gostaria de saber de vocês!

E, seja como for, continuem por aqui. Semana que vem teremos o Top 5 Nacional, a Categoria Mista... e o início de um conto inédito para celebrar esta época do ano.

Até lá!