terça-feira, dezembro 22, 2015

Em Busca do Rei (Parte 4)

OK. Balthazar não é o fenício mais corajoso do mundo. Mas Menelau vai dar um jeito nisso, esperem só pra ver!




       -- Vamos passar ao largo. Não temos nada com isso – disse o capitão, embora no fundo também sentisse pena do velho. Provavelmente ele iria passar uns maus bocados antes que sua família pagasse para tê-lo de volta, isso se os captores não fossem broncos ou impacientes demais para pedir um resgate. Aí seria vendido em um mercado, se alguém quisesse comprá-lo, ou posto para trabalhar até morrer. O que, em vista da idade, não iria demorar.
-- Será que não podemos mesmo fazer nada? – Lísias fez a pergunta que ele tentava calar. – Daqui dá para ver todo o vale, e os homens estão desprevenidos. Se chegássemos de surpresa...
-- Pensei que não gostasse de se meter em confusão – disse o fenício.
-- Não gosto, mas também não gosto de ver coisas como essa. Olhe só, um deles está falando com o outro prisioneiro, o de barba castanha... e deu um chute nele, pobre homem! Ah, Balthazar, vamos ajudar aqueles dois!
-- Como? Descemos até o vale e os convencemos a soltar os sujeitos? E se não me atenderem? Pego a espada e desafio um por um até matar os quatro?
-- É, bom... Talvez seja difícil – admitiu Lísias. – Também não adianta tentarmos comprar esses homens. Os captores iriam nos roubar, talvez até nos escravizar, como fizeram com eles.
-- Exato. Então, como vê, tomei a decisão certa. Vamos?
Lísias baixou a cabeça e assentiu. Estava decepcionado, mas Balthazar sabia que tinha entendido suas razões. Socorrer um viajante ferido era uma coisa, mas não havia sentido em enfrentar quatro homens, possivelmente armados, para ajudar desconhecidos. Não se tratava de covardia e sim de inteligência.
Com um gesto da mão, ele indicou que deviam seguir pela esquerda e contornar a descida. O heleno soltou um leve suspiro e incitou o camelo, mas, para sua surpresa, o animal não obedeceu como vinha fazendo até então. Em vez disso, dobrou os joelhos, como quando alguém subia ou descia da sela, e assim se deixou ficar, não obstante as tentativas de Lísias e Balthazar de fazer com que se levantasse.
-- Camelo estúpido – resmungou o fenício, entre dentes, porque não convinha erguer a voz. – Que hora você escolheu para empacar!
-- Será que ele está doente? – indagou Lísias, inquieto. – Ou muito cansado, ou com sede?
-- Sede? Ele bebeu metade do lago ontem, as corcovas estão altas. E não parece doente. Em todo caso, desmonte, vou ver se tem um arreio apertado ou coisa assim.
Lísias desmontou, e Balthazar se pôs a verificar a sela e a bagagem. Parecia tudo em ordem, e nem estava muito pesado, mas ele resolveu tirar a espada que pusera num alforje e levá-la à cintura, para o caso de serem surpreendidos. Aí, lutaria, fosse com quatro ou com cinquenta homens. Ele montou por um instante para alcançar a arma e a segurava na mão quando, sem aviso, Menelau se pôs de pé e investiu, quase se atirou num galope frenético em direção ao vale onde estavam os caçadores de escravos.
-- Oooaaaa! Pare, animal idiota! – gritou o fenício, quando já se sentia despencar colina abaixo agarrado ao camelo.
-- Pare, Menelau! – gritou Lísias, em desespero. – Balthazar, pegue as rédeas! Cuidado! Balthazaaaaaar!
A voz se distanciou, perdida no ar enquanto o camelo desembestava pelo declive. Balthazar não alcançou as rédeas -- mal conseguia se manter na sela -- e a imagem do viajante morto dardejou em sua mente antes que nela se fixasse uma só ideia: ia parar entre os homens do vale, eles iam atacá-lo, ele teria de ser mais rápido e certeiro se quisesse vencê-los. De preferência mortal.
-- Aaaaaahhhrrr! – rugiu ele, erguendo a arma acima da cabeça para impressioná-los. Tinham-no visto desde que o camelo barafustara pela descida, mas, para o azar deles, só dois tinham espadas ao alcance das mãos. Empunhando-as, eles correram ao encontro do camelo, mas este deu uma guinada violenta e derrubou o sujeito da esquerda, enquanto Balthazar atingia o outro em cheio no pescoço. Ele caiu, arquejando em meio ao sangue que borbulhava em sua garganta, e Menelau avançou para cima dos outros dois, que tinham ido pegar suas armas na bagagem dos camelos. Um se apavorou e correu, mas o outro investiu sobre Balthazar, quase conseguindo acertá-lo na perna antes que o fenício aparasse o golpe.
-- Seu cão! – grunhiu o sujeito. Balthazar devolveu o insulto e finalmente pegou as rédeas, fazendo Menelau dar meia volta e enterrando a ponta da espada entre o pescoço e o ombro do caçador de escravos. O homem berrou como um bode sendo sacrificado e caiu de joelhos, e Balthazar mal teve tempo de recuperar a espada antes que o camelo se precipitasse atrás do que tinha fugido. Mesmo com a arma na mão, o sujeito continuava a correr, e não se voltou para enfrentar o fenício. Talvez isso quisesse dizer que não oferecia perigo, mas podia alertar algum comparsa que estivesse nas redondezas, por isso Balthazar virou sua lâmina e se inclinou na sela, incitando Menelau a correr ainda mais. Sua velocidade emprestou força ao golpe seco da espada – e assim caiu o terceiro homem, sem ter chegado a ver o que separara sua cabeça do corpo.
-- Oooooaa!! – Balthazar apertou as pernas contra o flanco do camelo, torceu as rédeas. – Agora só falta um! E, por Melkart, com esse eu quero me divertir um pouco mais!
-- Pois pode vir, demônio! – bradou o último homem. Menelau o surpreendera e derrubara no ataque anterior, mas ele já estava de pé e investia, espada em punho, contra o oponente que galopava em sua direção. Parecia disposto a atacá-lo, mas algum tipo de instinto fez Menelau recuar para o lado ao mesmo tempo que o sujeito rolava no chão, golpeando o ar onde um momento antes estivera a barriga do camelo.
-- É assim? – cuspiu Balthazar, furioso. – Pois vamos lutar homem a homem!
Como se houvesse entendido, Menelau se ajoelhou nas patas traseiras, permitindo-lhe deslizar para o chão antes de se erguer e trotar para junto dos prisioneiros. Num relance, Balthazar viu que seu escravo descera a pé a ladeira pedregosa e corria na mesma direção, mas não pôde se deter para observá-lo. Sua atenção tinha de se concentrar no caçador de escravos, agora muito perto, avançando sobre ele com uma praga e a espada erguida.
-- Morra, filho de um cão! – Um golpe às cegas, que encontrou apenas o ar. – Faça suas preces, maldito!
-- Faça você as suas, verme da areia! – berrou o capitão, e atacou por sua vez, atingindo o braço do outro. O sangue escorreu do corte, mas o homem não esmoreceu e voltou à carga, a ponta de sua espada rasgando um pedaço do manto do fenício. Este desviou para acertar o oponente nas costelas, fazendo-o se dobrar sobre si mesmo, e golpeou o lado de sua perna, o que o jogou de costas no chão como se fosse um saco de trigo. Então, chutou para longe a arma que ele havia soltado e pisou no seu pulso, quase a ponto de esmagá-lo. O homem lhe dirigiu um olhar do qual fugira toda a esperança, e Balthazar cerrou os dentes antes de enterrar a espada em seu peito magro.
-- Ha! – exclamou, desafogando a tensão. O sujeito estremeceu, depois distendeu os membros e ficou imóvel, e foi quando os homens que Lísias acabara de soltar irromperam em palmas e vivas.
-- Muito bem, muito bem! – exclamou o velho, emocionado. – Quem diria que um dia meu antigo pupilo salvaria minha vida! Nunca pensei que houvesse se tornado um homem tão forte, Balthazar!
*****
Agora complicou. Como é que o velhote sabe o nome do capitão, se ele está vindo de séculos atrás? 
Não perca a conclusão desta história infame, cheia de clichês e obviedades, mas que - confesse! - você está achando pelo menos um pouquinho divertida! :)


Parte Final

4 comentários:

ricleite disse...

Está muito divertido e não é tudo tão óbvio assim. Os ovos de Páscoa que nunca são encontrados sequer participam da festa. Seja ela nascimento ou Balthazar finalmente descobriu o nome do morto. E eles tinham mais que o amor às estrelas em comum. As vezes um bom final é melhor que um final totalmente inesperado.

ricleite disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ricleite disse...

Ps: Agora quero um camelo de Natal.

Astreya disse...

E NÃO É QUE O MENELAU SALVOU O DIA MESMO? E eu achando que meu palpite/brincadeira sobre o espírito heroico desse camelo fofinho tinha sido totalmente fora da casinha XD.

Eu estou não estou me divertindo um pouco não, estou me divertindo horrores. Vamos ver como tudo se desenrola (*pega a pipoca*). Até imagino a cara de surpresa do Balthazar!

P.S. Lísias ♥