segunda-feira, dezembro 21, 2015

Em Busca do Rei (Parte 3)


       Horas depois, bem alimentado com a comida do viajante e aquecido com sua roupa, Lísias afagava o pescoço do camelo que acabara de prender a uma tamareira. A desconfiança que aqueles animais lhe inspiravam em Cartago se esvaíra diante da docilidade e inteligência demonstradas por este, que o deixara baixar os alforjes e tirar os arreios, mas conseguira, de alguma forma, dar a entender que desejava assistir às exéquias prestadas a seu amo. Foram muito simples, como tinham de ser em circunstâncias como aquelas, mas Balthazar se dera ao trabalho de cavar uma sepultura rasa às margens do lago e achar uma pedra lisa para marcar o local. Pegou outra pedra, pontuda e dura o bastante para arranhar a primeira, e escreveu as palavras sugeridas por Lísias: Aqui jaz um homem que amava as estrelas. Porque, embora os papiros no alforje não revelassem o nome do viajante, ao menos deixavam claro tratar-se de um estudioso dos astros.
-- Um sacerdote, talvez – sugerira Lísias. Balthazar encolhera os ombros. Alguma coisa o incomodava, mas, conhecendo seu senhor, o rapaz achou melhor não fazer perguntas. Em vez disso, confiou suas conjecturas ao camelo, que não podia responder, mas pelo menos o olhava com atenção e não mandava que calasse a boca.
-- Sabe, Menelau, meu amo é um ótimo homem – disse ele, a quem, por alguma razão, o animal fazia lembrar o antigo rei de Esparta. – É generoso, corajoso e muito inteligente. Mas, ai, como é teimoso! Como ele espera chegar perto de Alexandre, que deve viver cercado de guerreiros, e acabar com ele sem que o matem também? Devia é voltar a Cartago e impedir aquela tragédia com o Fênix. – O camelo bufou pelas narinas, mas Lísias prosseguiu. – Na verdade eu já tentei voltar, mas fomos parar na Cartago do futuro, e não gostamos nada do que vimos por lá. Nem sei como vivemos para contar a história. Aí retornamos aos pilares, e eu pensei em outro lugar de que Balthazar gostasse, mas eu já lhe disse, não é, Menelau? Ele não se contenta com nada menos que pôr as mãos no macedônio. Por isso ficamos indo e vindo, quando poderíamos... Argh!
Calou-se, meio enojado, meio lisonjeado com a súbita lambida do camelo em sua face esquerda. Era uma espécie de beijo, raciocinou; um beijo com o qual o animal se mostrava solidário com suas queixas. Ou pelo menos era um gesto carinhoso. De qualquer forma, melhor do que uma cusparada.
Lísias limpou o rosto com a manga, desejou boa noite a Menelau e foi para junto de seu amo. Balthazar estava deitado perto da fogueira, mãos enlaçadas sob a cabeça, olhando as estrelas, que formavam um complexo mapa no céu. Parecia intrigado, e o heleno não tardou a descobrir o porquê: bem lá no alto, brilhando sobre o Oriente, havia uma estrela que eles nunca tinham visto.
-- Não faço ideia do que é – disse Balthazar. – Tenho ideia do lugar, mais ou menos, e diria que estamos no inverno, mas a estrela não combina. Acho que nunca vi uma tão brilhante.
-- Bom, o céu pode mudar, de acordo com a época, não pode? Talvez nós estejamos a muitos anos de distância do nosso tempo.
-- É provável. E pela bagagem do nosso amigo, principalmente a adaga e as moedas, eu me arriscaria a dizer que estamos à frente. – Olhou com o cenho franzido para Lísias, que se deitara a seu lado. – Você não consegue mesmo nos levar para onde deve, não é?
-- Desculpe – murmurou o rapaz. Estava envergonhado, não pelo fracasso, mas pela mentira: ao contrário do que afirmava, ele jamais tentara levar seu amo à presença de Alexandre. Nunca pensara no macedônio ao recitar a fórmula mágica. Balthazar seria capaz de matá-lo se soubesse, e o próprio Lísias quase morria de remorso, mas era o jeito de evitar o confronto que, ele tinha certeza, seria desastroso para o fenício. Antes vê-lo eternamente insatisfeito que chorar sobre o seu cadáver.
Além disso, Lísias não saberia viver sem ele.
-- Sinto muito – repetiu, a mentira amarga em sua boca. – Eu faço o possível, juro. Vou continuar tentando.
-- Sim, porque comigo não funciona, não sei o motivo – resmungou o capitão. – Deve ser a minha pronúncia.
-- Talvez – concordou Lísias.
Um longo silêncio se seguiu a essa conversa. Balthazar tornou a se voltar para as estrelas, ao passo que o heleno se sentia pouco a pouco vencer pelo sono. Estava quase dormindo quando ouviu a voz do amo, como se viesse de muito longe:
-- ... achar o rei.
-- O quê? – fez Lísias, abrindo um olho.
-- Vamos achar o rei. Se não nesta viagem, na próxima – disse Balthazar, com decisão. – Mas, seja como for, amanhã é um ótimo dia para recomeçar.
*****
-- Você é tão cabeça-dura, Balthazar! Por que não monta comigo? Menelau é forte, e estou vendo que você está cansado. Se alguém passar por nós, vai pensar que eu sou o senhor e você é o escravo. Não vai querer que isso aconteça, não é?
Lísias exercia seus dotes de orador do alto da sela. Estava ali fazia menos de uma hora, mas como sempre já se preocupava com o conforto de seu amo, embora Balthazar houvesse viajado sobre o camelo durante boa parte da manhã. Esperava achar um refúgio para passar as horas mais quentes do dia, mas a única sombra digna desse nome foi a de um rochedo junto ao qual eles fizeram uma parada. Ali comeram frutas secas e tâmaras do oásis, beberam metade de um odre d´água e descansaram antes de ir em frente, agora com Lísias na sela e Balthazar andando ao lado do camelo. Não precisava puxá-lo: ele parecia saber muito bem onde estava indo. Provavelmente seu dono fazia sempre esse trajeto, supôs o fenício. E o animal não tinha por que estranhá-lo: além de se parecer com o homem anterior, estava usando suas roupas, que guardavam o cheiro dele, mesmo depois de serem mergulhadas na água do lago.
Balthazar franziu o cenho sob o turbante que Lísias enrolara de mau jeito. Comparado a outros marinheiros, ele não era supersticioso, mas a verdade é que não conseguia tirar da cabeça a imagem do viajante. Não era idêntica à sua – o outro tinha traços mais grossos e não era tão forte --, mas poderiam facilmente passar por irmãos, e ainda por cima tinham o mesmo fascínio pelas estrelas. Podiam ter tido boas conversas se Balthazar o houvesse encontrado com vida. E, com certeza, ele saberia alguma coisa sobre o astro misterioso que brilhava tão forte no céu.
O camelo desviou o passo, dando um leve encontrão no ombro do fenício. Este acordou de suas conjecturas e olhou para o animal, que virava o pescoço para trás, tentando chamar sua atenção com olhares e pequenos bufidos.
-- O que é isso, Menelau? O que você quer? – perguntou Lísias. Em resposta, o camelo avançou mais alguns passos, com o que aos poucos se evidenciou um acentuado declive no terreno à frente deles.
-- Ah, ele quer que nós fiquemos atentos a essa descida. É um camelo esperto – elogiou o heleno.
-- Não é só a descida – murmurou Balthazar.
Seus pés estavam a dez ou doze passos do início do declive, de onde podia ver todo o vale lá embaixo. Era um lugar aprazível, com arbustos, duas ou três árvores baixas e um fiozinho prateado de rio correndo pelo chão. Um homem estava ajoelhado numa das margens, bebendo com o rosto encostado à água, e outros cinco se sentavam à sombra, perto de um grupo de camelos que pastava placidamente. Seria uma cena pacífica... se dois daqueles homens não estivessem com cordas no pescoço e as mãos amarradas.
-- Mercadores de escravos – disse o fenício, cruzando os braços. – Ou caçadores: os dois que vão amarrados estão muito bem vestidos. Devem ter sido apanhados agora mesmo.
-- Um deles parece bem idoso – comentou Lísias, penalizado. – A barba é branca como neve. O que faremos, Balthazar?
*****
Pois é, o que o Balthazar vai fazer? Ele parece ser do tipo heroico? Ou é daqueles que pensam primeiro em si? 
Alguma ideia?



Parte 4

3 comentários:

ricleite disse...

Balthazar é do tipo que compraria os escravos. Inteligente antes de temerário. Caso isto não fosse possível e ele ao conversar notasse injustiça na relação servo amo ele se oporia ao cativeiro. Lembrando que existia uma "cegueira" à injustiça da falta de liberdade no mundo antigo de uma forma geral. Existia também um conceito de maus senhores e relação abusiva de senhores que era tratada com repúdio. Existia um pensamento comum que quase todos os homens, no final das contas, não eram livres. Deviam obediência a reis e senhores e aos deuses. Jovens e adultos com menos de 40 anos eram, em várias culturas, obrigados a trabalhar e produzir para seus pais que os tinham como principal mão de obra. Mas se um senhor era abusivo isto lhe imputava má fama e repúdio. Sempre houveram limites de coisas aceitáveis e inaceitáveis. Os escravos que eram mais massacrados eram produto de capturas de inimigos em batalhas. Existiam relações menos desumanas. Lembrando que a relação servo-amo muitas vezes era entrelaçada de afeto e cuidado mútuos. Representando, muitas vezes, um ponto de honra ao servo ser fiel. Como as preocupações de Lísias com a vida de seu amo. Um bom servo era estimado mesmo durante a idade média. Servos "da casa" em geral tinham interdependência afetiva com os seus senhores. Servos usados em trabalhos mais pesados e desumanos eram adquiridos em batalhas e de formas diferentes dos servos que cresciam com os amos.
Mas disso tudo a Ana Lucia Merege sabe muito mais profundamente do que eu e coloca de forma transparente.
(Rick Leite)

Astreya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Astreya disse...

Balthazar pode até não ser um paladino heroico, mas acho que ele vai acabar libertando os homens capturados de um jeito ou de outro. Ou, quem sabe, o Menelau, esse camelo fofinho, faz isso (brincadeira). Campanha "Quero um Menelau para mim!".

Lísias está escondendo o jogo! Mas puxa, eu entendo o lado dele. Acho que faria a mesma coisa se eu estivesse em seu lugar. É isso mesmo, Lísias, proteja o Balthazar para que vocês dois possam nos deliciar com muitas e muitas aventuras juntos!