sábado, dezembro 19, 2015

Em Busca do Rei (Parte 2)


Já tivemos algumas suposições acerca do que foi encontrado. Será que alguém acertou? E o que vocês acham das opiniões do Lísias sobre os planos de mudar o passado de Balthazar? E a opinião do fenício pragmático sobre os filósofos? Alguém concorda? ;)
Sugestões, palpites e outros pitacos serão bem-vindos na área de comentários!!



           -- Por Astarte! Lísias, olhe aquilo! – exclamou, tocando o ombro do escravo. – Tem um homem no chão, com a perna presa nos arreios!
-- Estou vendo! Será uma armadilha?
-- Acho que não. Para isso teria de haver outros, e não vejo onde poderiam estar escondidos. E nessa posição o sujeito não tem como fazer nada. Venha, vamos descobrir se ele está vivo!
Apertou o passo, ajudado pelo terreno em que agora havia mais pedras do que areia. Lísias foi atrás, ressabiado, mas pronto a ir em socorro de seu amo se preciso fosse. Logo estavam no oásis, pisando a relva arenosa, que rangia sob suas sandálias, e se aproximando do camelo, com cuidado para não assustá-lo.
-- Pegue as rédeas, Lísias – comandou o fenício.
-- Ai, por que eu? Sabe que não tenho sorte com camelos. Sempre cospem em mim.
-- Aqueles eram os camelos de Cartago. Mal-humorados, como todo mundo por lá – replicou Balthazar. – Este parece dócil, apesar do tamanho. Pegou? É só não ficar ao alcance da cuspida. Ei, você, amigo – falou, em língua fenícia, dirigindo-se ao homem dependurado no arreio. – Pode me ouvir? Vou soltar sua perna... devagar... Pronto! Está me ouvindo?
Ajoelhou-se ao lado do homem – um moreno de barba cerrada, estranhamente parecido com ele próprio – e repetiu a pergunta em aramaico, em helênico e, por fim, até no latim hesitante que aprendera nas viagens. As palavras foram acompanhadas de uns tapinhas nas faces, que foram aumentando de intensidade à medida que se revelaram inúteis. Balthazar encostou o ouvido no peito do homem, tirou um bracelete polido e o aproximou do seu nariz, sem reação. Então, tentou erguê-lo, e a rigidez de seus membros foi a prova definitiva. Morto...!
-- O camelo deve ter se assustado e corrido, ele caiu, ficou preso no arreio e foi arrastado – concluiu o capitão. – Provavelmente foi durante a tempestade de areia.
-- Que morte horrível! – exclamou o heleno.
-- Bom, sim, mas já vi piores. Vamos olhar os alforjes, ver se descobrimos quem ele era, mas antes pegue água. – Apontou para o pequeno lago incrustado como uma joia no oásis. – Use um desses odres pendurados na sela. Se não estiverem cheios de vinho, é claro.
Lísias pegou um dos odres de pele de cabra, jogou fora a água que estava dentro e o encheu com outra mais fresca. Bebeu um pouco, lavou o rosto e as mãos, depois tornou a completar o odre e o levou para Balthazar, que estava ocupado em despir o manto e a túnica do morto.
-- Pelas roupas eu diria que nosso amigo era bem abastado – afirmou ele. – Veja esse colar e esse manto. Parece que mais uma vez estou destinado a usar púrpura.
-- Vai ficar com as roupas dele? – indagou Lísias, com um arrepio.
-- Bom, preciso delas, ele não, e por sorte nós dois temos o mesmo tamanho. Espero que haja mais nos alforjes, você também precisa de mais proteção.
-- Isso é. Posso ver se ele tem moedas?
Balthazar franziu a testa, depois compreendeu e assentiu. O heleno remexeu em dois alforjes, achou uma bolsa com dinheiro e escolheu uma moedinha de cobre, que introduziu – com esforço e não sem repugnância – sob a língua do morto, a fim de que pudesse pagar a travessia do Estige.
-- Espero que os estrangeiros sejam bem-vindos lá onde você o mandou – disse Balthazar. – Esse daqui podia ser um dos meus compatriotas, ou talvez de algum dos povos vizinhos. Heleno com certeza não é.
-- Mas escrevia em helênico – retrucou Lísias.
Como prova do que dizia, ele tirou do alforje um amarrado de papiros, alguns dos quais estavam de fato cobertos por escrita helênica. Outros estavam em aramaico e se misturavam a círculos, triângulos e símbolos intrincados. Balthazar pensou que deveria lê-los, mas, diante do conforto do oásis e dos alforjes ainda cheios, decidiu fazê-lo mais tarde. Do morto, por enquanto, bastava saber que era rico – e generoso, ainda que de forma compulsória, com os bens que já não tinha como reclamar.
Os tesouros foram sendo descobertos à medida que descarregavam o camelo. Havia uma grande bolsa de moedas, todas com efígies desconhecidas, uma adaga de primeira qualidade, uma túnica sobressalente que ficaria enorme em Lísias, mas isso se resolveria com uma corda ou um cinto. Bolsas de trigo, frutas secas e fatias de carne curada denunciavam um viajante solitário, sem ninguém com quem houvesse repartido a bagagem. Por fim, no alforje mais reforçado e firmemente amarrado à sela do animal, eles acharam alguns potes contendo o item mais valioso: essência de mirra, que custava muito caro em qualquer mercado.
-- Nós já tivemos isso no barco – comentou Lísias, lembrando-se dos primeiros anos com o capitão, antes da clepsidra. – Era uma jarrinha só, mas Sikkar nem deixou que a guardassem no porão. Ficava a sete chaves na cabine dele.
-- É. Ele ficaria doido vendo isso aqui. – Balthazar tampou o pote, soltou um leve suspiro. – Sei que você lamenta a sorte dele e da tripulação. Eu também, de verdade. Mas já lhe expliquei. Se dermos um jeito em Alexandre, Tiro será poupada, e eu não irei para Cartago, não trabalharei para Aníbal o Achacoso e o Fênix não vai sofrer aquele ataque. Assim vai ficar tudo bem, para todos nós.
-- Não sei não. – Lísias coçou o queixo, onde se eternizara a penugem loura da adolescência. – Estive pensando, e já não sei se estamos indo atrás de um sonho impossível. Você nasceu antes de Alexandre; portanto, em qualquer momento da vida dele que apareça, já vai existir um Balthazar de Tiro, mesmo que seja um garotinho. Como pode haver ao mesmo tempo dois Balthazares? E como eu vou estar com você e existir em Delos ou, dependendo da época, nascer algum tempo depois?
-- Bom, talvez...
-- E como você vai reencontrar sua família e sua prometida? – prosseguiu Lísias, com calor. – Se existirem dois Balthazares, qual deles é o filho de Mattan, que vai se casar com Elyssa? E o que é que o outro vai fazer?
-- O outro vai lhe dar uns tabefes agora mesmo se você não calar essa boca – rosnou o fenício. – Que coisa! Está parecendo o Sócrates, que reunia aquele bando de gente em volta dele e falava uma tarde inteira para depois dizer que não sabia nada. Ora, se não sabe, por que não fica quieto e espera para ver no que dá?
-- Então – disse Lísias, pondo-se prudentemente fora de alcance --, você também não tem certeza do que diz.
-- Não, não tenho. Nem todas as perguntas têm respostas, mas eu vou em frente. Não sou como os filósofos, que pensam demais. Aliás, sabe por que isso acontece?
-- Er... não.
-- É porque eles não trabalham, não fazem nada útil e têm tempo de sobra. Mas você não – acrescentou, franzindo o cenho. – Arranje lenha para uma fogueira, pegue umas tâmaras, depois dê um jeito nessa túnica para poder vesti-la, pois quando escurecer vai fazer frio. Vamos passar a noite aqui e partir assim que amanhecer. Ande, mexa-se!
-- Já vou! – exclamou Lísias, atordoado. – É tanta coisa que até me perdi. Ainda bem que não existem de verdade dois Balthazares.
-- Bem que você ia gostar – replicou o fenício.


*****


Parte 3

3 comentários:

ricleite disse...

Eu fiquei com a impressão que a mirra é um item muito importante, digno de um grande Rei. Ainda bem que existem pergaminhos instruindo provavelmente como identificar e encontrar o seu dono.

(Rick Galasio)

Astreya disse...

♪We three kings of orient are ♪ Bearing gifts we traverse afar♪ Já temos um camelo, um Balthazar e mirra! Estou adorando o desenrolar dessa história, pressinto que logo eles vão topar com uma famosa manjedoura...

(Balthazar não é muito partidário do ócio criativo XD, hahaha! E o Lísias é muito inteligente. Espero que essas viagens acabem bem para os dois, vou rezar para todos os deuses aqui!).

Astreya disse...

(Esqueci de comentar sobre o Lísias aderindo ao meme "Que morte horrível" antes mesmo do advento das redes sociais XD. Já falei que adoro a dinâmica entre ele e Balthazar? Bom, estou falando de novo).