segunda-feira, maio 04, 2015

Notas a Respeito de um Hobbit


            Um hobbit trabalha no mercadinho perto da minha casa. Ele não sabe que eu sei; eu não pretendo lhe dizer, porque suspeito que ele prefira manter sua estadia aqui em segredo. De manhã, passando pela rua em direção ao ponto de ônibus, eu o vejo descarregando caminhões, deleitando-se com a visão das caixas de pão de mel e dos cogumelos, e então eu sei. Simplesmente sei. Não me peçam maiores explicações.
            Claro que fui capaz de ver outros sinais. Ele é pequeno, para começar: sua cabeça não ultrapassa a altura do meu ombro. Seu cabelo é castanho e lanoso, os olhos doces; quando se senta no degrau do mercadinho, nos intervalos do trabalho, está sempre com um copo de café e um sanduíche, e ele faz isso duas vezes a cada manhã. Tem pelo menos uns cinquenta anos, mas se comporta como alguém muito mais jovem, e os caixas adolescentes o tratam como a um igual. É bem verdade que o nome no seu crachá é um nome humano – um nome até comum –, mas isso pode fazer parte do disfarce. Afinal, ele não quer que ninguém saiba que é um hobbit, numa missão ou simples aventura longe do Condado, e não duvido que o sobrenome na ficha do empregador seja do tipo Baggins ou Brandybuck. É diferente, mas não é nada que chame atenção neste país de imigrantes. Quem de vocês estranha, por exemplo, o meu sobrenome?
            Assim, o Sr. Baggins, ou Brandybuck, ou qualquer que seja o seu nome permanece incógnito. Não irei importuná-lo, porque me basta a secreta satisfação dos que conhecem a verdade. No entanto preciso confessar que tenho passado com cada vez mais frequência pela calçada do mercadinho, onde há também um bar que vende refeições, esperando pela cena que porá fim ao meu último resquício de dúvida.
            Um dia desses o hobbit vai entrar discretamente no bar e escolher uma mesa do canto. De longe, talvez com um simples gesto, vai pedir uma cerveja nacional enquanto escolhe um prato-feito no menu. Alguém virá servi-lo, e talvez haja fregueses que tentem puxar conversa, mas ele apenas sorrirá, com os olhos cândidos e a boca cheia com uma boa garfada.
             E quando os humanos se afastarem para jogar conversa fora, e enquanto a TV à sua frente estiver se esforçando  para hipnotizá-lo, o hobbit irá descalçar suas grandes botas de plástico sob a mesa, mexendo com alívio os dedos dos pés e sonhando com o dia em que estará de volta à sua toca.

4 comentários:

Astreya disse...

Adorei, Ana! Acho que há muitos hobbits escondidos por aí... :)

Tibor Moricz disse...

Encontro uns desses por aí, também. E também faço de conta que nada sei. :)

Ana disse...

É o melhor que temos a fazer, Tibor! :)

E, Astreya, também desconfio de que haja outros hobbits por aí. Orcs também, infelizmente. :/

Brubs disse...

certamente é um hobbit... muito bom viu... muito bom..