quinta-feira, março 05, 2015

As Três Estrelas de Ouro

           

          Quando vamos à aldeia, os camponeses nos lançam olhares enviesados. Não atiram pedras, pois sabem que revidaríamos e podem intuir o quanto somos fortes; mas as mulheres cospem de lado ao nos ver passar, e os homens empunham seus ancinhos como se fossem armas.
É o velho medo – o medo que sentiam de nosso pai, quando saía da floresta para negociar suas peças de caça, e até de nossa mãe, que usava um manto de pele em vez do antigo capuz vermelho. Dos dois, naquele tempo, dizia-se que viviam entre os lobos, que se transformavam em lobos e uivavam nas noites de lua, e que a maldição havia sido legada a cada um de nós. Nada mais falso, mas nunca nos deram o direito de explicar.
Acho que foi por isso que tardamos vários anos a visitar a aldeia. Foi para nossa proteção: para ficarmos seguros, como só podíamos estar na floresta, com as árvores e o rio e a cabana de nossos pais. Ali ficávamos com nossa mãe a contar histórias enquanto o pai saía para caçar; ali aprendemos, desde muito cedo, a sobreviver com o que tirávamos da terra; e ali teríamos ficado a vida toda, uma vida perfeita, não fôssemos nós sujeitos ao fado de crescer e ver nossos pais envelhecendo. Eles passaram cada vez mais a contar conosco, para a caça e para tudo aquilo que não se podia conseguir na floresta. Assim nos coube enfrentar o medo e o desprezo dos camponeses.
Foi difícil no começo, mas aprendemos como agir e nos comportar – como andar entre eles sem sujar as mãos nem o espírito. Sempre que é lua crescente, pomo-nos em marcha, carregando os fardos de peles, os rostos ensombrados pelos gorros que usamos toda vez que deixamos a floresta. É assim que adentramos a aldeia, fingindo não ouvir o que murmuram às nossas costas. Negociamos as peles, usando o mínimo de palavras, e prendemos à cintura o sal e as facas do pagamento. Quando acaba, damos meia-volta, ansiosos por rever a cabana e os rostos de nossos pais.
A trilha é longa, mas a percorremos rápido, acostumados a encontrar nosso rumo entre as árvores. Às vezes, no verão, ainda está claro, mas quase sempre é noite cerrada, e então tiramos nossos gorros, para que o pai e a mãe saibam que estamos a caminho. É bem verdade que seus olhos já não são o que foram outrora. Mas ainda assim, para sua tranqüilidade, conseguem ver de longe a luz em nossas testas, o brilho das três estrelas de ouro, as marcas nunca apagadas do beijo de nossa madrinha. 

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Ilustração: Babes in the Wood. Randolph Caldecott, 1879.

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